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Full text of "Da Asia de João de Barros e de Diogo de Couto"

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http://archive.org/details/daasiadejoodebar02p1barr 




tZí '. fJiàa scufo. O/ufyz. m 7y/i, Rc<? An 1//J 






DA ÁSIA 

D E 

JOÃO DE BARROS 

DOS FEITOS, QUE OS PoRTUGUEZES FIZERA»* 

NO DESCUBRIMENTO , E CONQUISTA DOS 

MARES , E TERRAS DO ORIENTE. 

DÉCADA SEGUNDA. 

PARTE PRIMEIRA. 







LISBOA 

Na Regia Offigina Typografica. 

ANNO MDCCLXXVH. 
Com Licença da Real Meia Cenforta , e Frivile°io Reah 



tf 




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U I i 

1 1 7 ■ 

pt-í 



ÍNDICE 

DOS capítulos, que se contém 

NESTA PARTE I. 

DA DÉCADA II. 

«^— — ■ ' ■ I ■ - I I I 1, 1 ■ I I I ■> • - 

LIVROI. 

CAP. I. Como Triflão da Cunha par~ 
tio defte Reyno com huma groffa 
Armada para a índia , e em fua 
companhia Affonfo d* Âlboquerqúe , que hia 
por Capitão mor d? outra , que havia de 
andar na cofia da Arábia : e o que fize~ 
ram no defcubrimento da Ilha S. Louren- 
ço. Pag. i. 

CAP. II. Como Tr i/lã o da Cunha efpedio de 
Ji Affonfo d? Alhoquerque pêra Moçambi- 
que : e depois com hum temporal que lhe 
deo fe tornou ajuntar com elle , e ambos 
tomaram o lugar Oja , e as Cidades La- 
mo , e Brava. iv. 

CAP. III. Como Trijlao da Cunha partia 
para a Ilha Çocotord , e a defcripçao del- 
ia : e como tomou aos Mouros huma for- 
taleza , que nella tinham. 35% 

CAP. IV. Do que fizeram as Armadas que 
o Vifo Rey mandou correr a cofia da ín- 
dia no verão do anno paffado de féis : e 
como fufpendeo certos Capitães por acon- 
fe Ih ar em feu filho D. Lourenço que não 
* ii pe- 



Índice 

pelejajfe com a Armada de Calecut 5 que 
ejlava em DabuL yi. 

CAP. V. Como Lourenço de Brito Capitão 
da fortaleza de Cananor foi cercado , no 
qual tempo paffou muito trabalho , té que 

foi foc corrido per Trifião da Cunha , com 
a chegada do qualElRey de Cananor afi 

fentou com elles paz. 62. 

CAP. VI. Como o Vifo-Rey , e Triflao da 
Cunha deflruíram hum lugar d'EíRey de 
Calecut chamado Panane \ e partido elle 
Triflao da Cunha pêra efie Reyno , achou 
em Moçambique parte da Armada , que 

, de cá partio o anno de fete : e de algu- 
mas coufas , que aconteceram aos Capi- 
tães delia ? em que fe perdeo Vafco Go- 
mes d? Abreu. 76. 

LIVRO 11. 

CAP. I. Como Affonfo d\4lboquerque com 
a Armada que lhe ficou , partido 
de Socotorá , tomou na cofia da Arábia 
finco Filias do Reyno de Ormuz. Pag. 91. 
CAP. II. Do fitio da Cidade Ormuz fitua- 
da na Ilha Gerum : e da fua fundação , 
e Reys que teve depois de fer fundada , 
té o anno de quinhentos e fete , que Af- 
fonfo d^Alboquerque chegou a ella. 107. 
CAP. III. Como Affonfo d*Alboquerque che- 
go* 



DOS C API TULOS 

gou d Cidade Ormuz : e da peleja que 
houve com as nãos , que ejiavam no por- 
to. 122. 

CAP. IV. Como EIRey Ceifadim de Ormuz 
affentou pazes com Affonfo d? Alboquer- 
que , fazendo fe vajfallo d? EIRey D.Ma- 
nuel , com tributo de quinze mil xara- 
fijs 5 as quaes foram logo quebradas : e 
a caufa porque. 138. 

CAP. V. Da guerra que Affonfo d? Albu- 
querque fez d Cidade Ormuz 3 té que o 
leixdram três Capitães dos que com elle 
andavam , e fe foram d índia : e do que 
elle mais fez té ir invernar d Ilha Co- 
co tora. 1 5 4. 

CAP. VI. Como o Soldao do Cairo fez hu- 
ma Armada pêra a índia , depois que o 
Padre Fr. Mauro tornou ao Cairo : e do 
que Mir Hócem Capitão mór delia paf- 
fou té chegar a Dio. 173. 

CAP. VIL Como D. Lourenço foi dar guar- 
da ás náos de Cochij ? e Cananor y que 
hiam carregar a Chaul\ e efl ando furto 
dentro no rio , Mir Hócem Capitão do 
Soldao veio a pelejar com elle. 181. 

CAP. VIII. Como D. Lourenço pelejou com 
Mir Hócem : e por caufa da vinda das 
fuflas de Melique Az Senhor de Dio , 
que veio em ajuda delle Mir Hócem , fa- 
hindoje D. Lourenço com a Armada pê- 
ra 



Índice 

' ra fora do rio , per defajlre a fua fido 
deo em huma eflacada , onde elle morreo 
com a mais da gente pelejando. 191. 

CÃP. IX. Como os Capitães , que andavam 
com D. Lourenço , levaram nova de fua 
morte ao Vifo-Rey feu pai : e como Me- 
lique Az lhe efcreveo huma carta de con- 
fala çao fobre ella : e as caufas porque > 
e o 'fundamento da fua medrança , e da 
Cidade Dio y de que elle era Senhor. 207- 

LIVRO III. 

CAP. I. Como o Vifo-Rey D. Francifco 
fe fez prcjies pêra ir dejlruir a Ar- 
mada de Mir Ho cem ; e ante que parti f 
fe , deo defpacho a duas Armadas que 
defle Reyno foram : huma do anno de fe- 
te , que invernou em Moçambique \ e ou- 
tra de oito 5 Capitão mor Jorge d'* Aguiar : 
e o que paffou com Affonfo d? Alboquer- 
que emCananorindo de Ormuz. Pag. 219. 

CAP. II. Do que Ajfonjo d" Alboquerque fez 
depois que chegou a Cocotorà pêra inver- 
nar : e do que mais paffou da tomada 
que fez a Ormuz. 232. 

CAP. III. Corno o Vifo-Rey D. Francifco 
d\Almeida partio de Cananor com ioda 
fua ylrmada caminho de Dio contra os 
Rumes : e o que fez té chegar a DabuL 2^4. 

CAP. 



dos Capítulos 

CAP. IV. Em que fe defcreve o fttio da 
Cidade Dabul : e como o Vifo-Rey deo 
nella , e totalmente a dejlruio : e do que 
mais pajjòu por nao ter mantimentos pe~ 
ra fua jornada. 266. 

CAP. V. Do que pajjbu o Vifo-Rey té che- 
gar" a Dio : e como ordenou fua Armada 
pêra pelejar com Mir Rocem Capitão do 
Sóldao , que alli ejiava recolhido. 282. 

CAP. VI. Como o Vifo Rey commetteo a 
Armada de Mir Ho cem , e a venceo , e 
totalmente dejlruio. ^99* 

CAP. VIL Como Melique Az mandou vi- 
Jitar o Vifo-Rey da viEioria que houve 
de Mir Hocem , e depois lhe enviou os 
cativos que tinha , que foram tomados 
com D. Lourenço , e expedido o Vifo-Rey 
de lie , partiofe pêra Cochij. 311. 

CAP. VIII. De algumas dijferenças , que 
pajfdram entre Ajfonfo d Alboquerque , e 
o Vifo-Rey fobre a entrega da governan- 
ça da índia , donde procedeo fer Ajfonfo 
d? Alboquerque levado de Cochij a £ana~ 
nor , e foi entregue a Lourenço de Brito , 
que o teve té a chegada do Marichal. 321. 

CAP. IX. Da Armada , que EIRey Dom 
Manoel mandou d índia o anno de qui- 
nhentos e nove , de que foi por Capitão 
mor o Marichal D. Fernando Coutinho, 
o qual chegado a Cananor levou comfiga 



Índice 

ã Affonfo cPAlboquerque a Cochij , onde 
foi mettido de pojfe da governança da 
índia : e partido o Vifo-Rey pêra ejle 
Reyno , per hum trifle cafo veio morrer 
na Aguada de Saldanha com a flor da 
gente que trazia. 328. 

LIVRO IV. 

CAP. I. Como Affonfo d? Alboquerque , 
e o Marichal D. Fernando Coutinho 
foram fobre a Cidade Calecut , no qual 
feito depois de tomada , o Marichal foi 
morto com alguns Fidalgos , e peffoas no- 
bres. Pag. 3^0. 

CAP. II. Das coufas , que Duarte de Le- 
mos fez em quanto andou de Armada na> 
cofia da Arábia , té fe ir pêra a índia : 
e como D. Affonfo de Noronha fe perdeo 
indo de Çocotorá pêra fervir de Capitão 
de Cananor. 376. 

CAP. II L Da viagem , que Diogo Lopes 
de Sequeira fez , depois que o anno de 

^ quinhentos e oito fe par tio defieReyno.^i. 

CAP. IV. Como , per induzimento do Ren- 
dara Governador de Malaca , EIRey or- 
denou de matar todolos noffbs , e commet- 

.. têram Diogo Lopes , ejiando em a fua 
mio jogando o en xadrez : e da invenção 
delle naquellas partes , e como Diogo Lo- 
pes fe falvou. 402. 

CAP. 



dòs Capítulos 

'AP. V. Como Affonfo tf Alboquerque , de- 
pois que defpachou as nãos , que aquelle 
anno vieram pêra ejie Reyno , partio de 
Cochij com huma Armada pêra ir a Or- 
muz , e no caminho lhe fobreveio cafo , 
com que converteo efta ida em dar na 
Cidade Goa. 425*. 

livro v. 



AP. I. Do fitio da Cidade Goa , e da 

í^j opinião que fe tem de fua fundação , 
e povoação da terra , e tributo que pa- 
gam os feus moradores. Pag. 431. 

'AP. II. Como os Mouros fe fizeram fe- 
nhores per conquifta do Reyno Decan , e 
efta do de Goa. 442* 

!)AP. III. Como Affonfo $ Alboquer que to- 
mou a Cidade Goa , por razão de huma 
viSloria , que D, António de Noronha 
houve em o Caftello Pangij y que eftava 
na entrada do rio. 458. 

Z AP. IV. De algumas coufas , que Affon- 
fo d- Alboquerque fez em Goa em quanto 
o Htdalcão a não veio cercar : e depois 
que entrou na Ilha , Affonfo d^lboquer- 
que leixou a fortaleza , e fe recolheo as 
nãos. . 469. 

1A.P. V. Como o Hidalcão com grão poder 
de gente veio cercar a Cidade Goa : e do 

que 



Índice 

que Affonfo d' Alboquerque niffo fez té 
leixar a Cidade , recolhendo fe ás fuás 
nãos , e nellas paffou o inverno no rio 
de Goa. 480. 

CAP. VI. Das coufas , que Affonfo d" AU 
boquerque paffou o inverno que teve no 
rio de Goa. 494. 

CAP. VII. Como D. António de Noronha 
foi morto pelos Mouros , por acudir a 
Diogo Fernandes de Beja , que Affonfo 
d?Alboquerque tinha mandado queimar 
certos navios de remo : e do mais que fe 
paffou no rio de Goa té fe f aloirem -dei- 
te- 5°5- 

CAP. VIII. Das Armadas , que EIRey Dom 
Manoel o anno de quinhentos e dez man- 
dou d índia : e defpachada huma , Capi- 
tão mor Gonçalo de Sequeira , e outra 1 
de Duarte de hemos com carga de pi- 
menta pêra efe Reyno , Affonfo d^Albo- 
quer que fe par tio pêra Goa com humal 
grojja frota : e de algumas coufas que\ 
pajjòu 3 e fez nefle meio tempo , e cami- 
nho. 513. 

CAP. IX. Como Affonfo <? Albuquerque fa\ 
hio em Goa fegunda vez , e a tomou per 
forca de armas. 5*2,6! 

CAP." X. Das coufas , que Affonfo d"Albc 
querque ordenou na Cidade Goa, e d" ai 
gumas vitorias que houve de Meliqu\ 

Agrii 



dos Capítulos 

Agri Capitão do Hidalcão : e como prendea 
Diogo Mendes de Vajconcellos , e outros 
Capitães que hiam pêra Malaca , e o 
cajligo que por ijfo deo aos Mejlres , e 
Pilotos das fuás nãos. 545'. 

CAP. XI. Das obras , e provimentos que 
Affbnfo d 9 Alboquerque fez , e ordenou em 
Goa : e do caminho que commetteo pêra 
ir ao mar Roxo ? e depois pêra Mala- 
ca. 557. 



DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 



E 



PROLOGO. 

M a primeira Década , como foi 
l J o fundamento deite noflb edifício 
de efcritura , em alguma maneira qui- 
zemos imitar o modo , que os arqui- 
teftores tem nos materiaes edifícios, 
os quaes fempre fundam fobre o fir- 
me da terra , enchendo aquelle lugar 
de alicerces , não de pedras lavradas, 
e limpas , que deleitem a vifta , mas 
duras , graves , grandes , acompanha- 
das d'outras , ainda que pequenas , e 
miúdas , pêra que tudo fique maciço 9 
e a obra , que fobre ellas vier em al- 
gum tempo, por defeito de fua firme- 
za , e ligamento não poíla arruinar. 
Aífi nós fundamos efte noíTo fobre as 
pedras míticas das couías de Guiné, 
aífentadas fobre aquelle firme , e conf- 
iante alicerce da tenção do Infante D. 
Henrique, e de íi foi a obra enchendo 
Tom.ILP.L ** cf- 



Prologo. 

efte feu propoíito per o difcurfo das 
coufas do tempo d'ElRey D. AfFonfo, 
e EIRey D.João ? té o tempo d'EIRey 
D. Manoel , que com o defcubrimcnto 
da índia moftrou logo a obra fobre a 
terra : de maneira , que a noíTa Europa 
começou pôr os olhos nella , louvando 
aífi os Principes , que abriram , e en- 
cheram eftes alicerces, como o difcurfo 
da obra , que té o anno de quinhentos 
e finco EIRey D. Manoel mandou fa- 
zer. Agora que o edifício começa a fer 
pofto em vifta de todo o Mundo , cref- 
cendo com Reynos , Senhorios , Cida- 
des, Villas, e Lugares, que per con- 
quifta vai accrefcentando aos primeiros 
fundamentos , convém efcolhermos pe- 
dras lavradas , e polidas dos mais il- 
luftres feitos , que pêra efieito defla 
obra concorreram ; e dos miúdos , porá 
grão multidão delles , e não fazer mui- 
to entulho , não faremos mais conta , 
que quanto íbrem neceífarios pêra atar, 
e liar a parede da hiftoria; pois vemos 
que pêra perfeição de qualquer coufa , 

ora 



Prol o g õ. 

ora feja natural , ora mecânica , ora 
racional, os grandes membros fe atam 
com mui pequenas partes , e fem ellas 
nenhuma eftá em ília verdadeira pro- 
porção , e formofura. Afli , que íeguindo 
nós efta racional regra , daqui por di- 
ante de induílria muitas coufas leixa- 
remos, principalmente da viagem das 
Armadas de cada anno, aííi a ida, co- 
mo á vinda , e viílas dos Reys , e Prín- 
cipes daquellas partes com os Capitães 
mores , e outras miudezas , que canfam 
a quem as efcreve , e a quem as ouve > 
não leixando porém deícançar a penna 
onde nos parecer neceííario. Com tudo 
bem fabemos , que a todos não pode- 
mos aprazer ; porque fe em os mate- 
riaes edifícios vemos > que o filho naf- 
cido, e creado nas cafas dopai, tanto 
que as herda , lhe muda a janella , a 
porta , a camará , e troca tudo ao feu 
juizo , por lhe defaprazer o daquelle, 
que o gerou : Que fe pode efperar do 
edifício das letras , o qual o Author 
delle faz commum a todalas gentes, 

prin- 



Prologo. 

principalmente o da Hiftoria , em que 
afíi os doutos ^ como ignorantes são li- 
cenciados pêra arguir? A qual licença 
não tem na eferitura de alguma parti- 
cular Sciencia, ca na Grammatica , na 
Lógica , e Rhetorica , &c. fomente jul- 
gam os FrofeiTores delia , e não o vul- 
go. E eíta falva , não he por íalvar 
noíTos erros ; mas porque fe laiba , que 
ante de tirarmos efte noíTo trabalho á 
luz , já nos dávamos por condemnado 
no juizo de muitos ; porque ao tempo 
que inquinamos , e bufeavamos as ache- 
gas pêra elle , fe fallavamos com ma- 
reantes , tudo queriam que foífe da lua 
profifsao: contar da viagem, c naufrá- 
gios ; o Cavalleiro, que eícreveife fo- 
mente os autos de leu olfício ; o Geó- 
grafo a íituação da terra ; o Mercador 
o preço, e pezo das còufas; o Curioíb 
á variedade, e coftiífties das gentes. Fi- 
nalmente cada hum namorado da fua 
inclinação , promettendo-lhe nós que 
faríamos deita ntfji Afia huma botica, 
cm :ue elle achaíD mcfmha da fua cn- 

fer- 



Prologo. 

fermidade , não ficava fatisfeito, por- 
que quizera que fora a maior parte 
chea daquella , que lhe cura feu efFeito. 
E por nós trabalhamos em feguir mais 
as regras da Hiftoria , com aquelle dito 
de Apollo : De nenhuma coufa muito , 
que fatisfazer ao requerimento de tan- 
tos : fe em tudo não aprouvermos y ao 
menos fera em dar matéria a alguns 
de poderem emendar, e murmurar, 
que he a mais doce fruta da terra , e 
aílí feremos aprazível a todos , a huns 
pêra louvarem o bem dito , e outros 
pêra terem que dizer do mal feito. 



DE- 










DÉCADA SEGUNDA. 

LIVROI. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 

no defcubrimento, e conquifta dos 

mares , e terras do Oriente. 



CAPITULO I. 

Como Triftao da Cunha partio defie Rey* 
no com hum a grofja Armada para a índia , 
e emfua companhia Affonfo d ) Alboquerque , 
que hiapor Capitão mor d* outra j que havia 
de andar na cofia da Arábia : e o que fize- 
ram no defcubrimento da Ilha S. Lourenço. 



Anno paíTado de quinhentos e 
finco 3 (como efcrevemos , ) es- 
tando Triftao da Cunha des- 
pachado para a índia , por 
_caufa de hum accidente que 
lhe fobreveio com que cegou , foi o Vi- 
íb-Rey D, Francifco d 5 Almeida em a frota 
Tom.IL P.L A que 




a ÁSIA de JoÃo de Barros 

que eftava para elle. Depois poíto em cura 
daquelle accidente , e cobrada a vifta , ficou 
com aquella auçao da mercê, qfle lhe EI- 
Rey tinha feita , a qual lhe elle tornava a 
confirmar para ir na vagante do Viíb-Rey. 
Porém dizem que por conlclho de Lopo 
Soares , que de lá viera o anno de finco , 
elle pedio a EIRey , que aquella mercê de 
reíídir na índia tantos annos , lhe conver- 
tefle em ir ida por vinda por Capitão moí- 
das náos da carga , com algum bom parti- 
do , o que lhe EIRey concedeo. E tendo 
elle affentado de o mandar por Capitão mór 
das náos de carreira em Março de quinhen- 
tos e féis , e Affonfo d'Alboqucrque com 
Jiuma Armada para andar na corta da Ará- 
bia , veio Diogo Fernandes Pereira , o qua] , 
(como vimos atrás,) defcubrio a Ilha So- 
cotorá , que eílá na entrada do mar , que 
faz oeftreito de Adem. EIRey fabendo per 
elle , e per António de Saldanha , que an- 
dou ás prezas naquella paragem , dascoufas 
defta Ilha , e dos Chriftaos que nella havia , 
e como eram fubjeclos a huns Mouros da 
terra firme de Fartaque , por caufa de hu- 
ma fortaleza , que alli vieram fazer ; aífen- 
tou que eítas duas Armadas de Trilião da 
Cunha , e de Affonfo d' Alboquerque foífem 
ambas em hum corpo té efta Ilha Socoto- 
rá 7 e que tomaiTem efta fortaleza aos Mou- 
ros : 



Década II. Liv. I. Cap. I. 5 

ros ; e quando não foíFe tal , que uella fe 
pudeíTe defender a gente que alli leixaífe > 
rimdafle outra de novo* Fazendo fundamen- 
to , que. AíFonfo dWlboquerque , e os outros 
Capitães , que pelo tempo em diante andaf- 
fem naquella parte , teriam hum certo abri- 
go , e íeguro pêra invernar , por a Ilha ter 
lugar para iíTo , e com efta fortaleza ficava 
mais fenhor da navegação daquelle eftreito , 
que- era feu principal intento. Da qual for- 
taleza havia de ficar por Capitão D. AíFon- 
fo de Noronha filho de D. Fernando de 
Noronha , com Officiaes i e gente ordenada 
ao modo das outras , que eram feitas na- 
quellas partes. Porém como EIRey não ef- 
tava certo que tal feria a fortaleza dos Mou- 
ros , ou per ventura de caminho naquella 
cofta podiam tomar terra , para que lhe fer- 
viiTe eíle repairo , mandou que levafle hu- 
ma fortaleza de madeira , que eftava feita 
no armazém do tempo que elle houvera de 
paliar em Africa. E porque para efíèito de£ 
tas coufas convinha muitas náos , e gente 
d'armas , fizêram-íe preíies nove velas pêra 
a carga , e finco , que haviam de ficar com 
Affonfo d 5 Alboquerque , que foram mui tra- 
balhoías de aperceber. Cá neíte tempo era 
em Lisboa tão grande a peite , que houve- 
ram muitos dias de cento e vinte peííoas, 
c andavam os homens d' Armada tao iíca- 

A ii dos 



4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

dos delia , que na própria náo de Triftão 
da Cunha primeiro que partiflem morreram 
féis , ou fete , e por efta caufa achava-fc táo 
pouca gente pêra o número que elle havia 
de levar, que conveio EIRey mandar fol- 
iar alguns prezos, que efta vam julgados pa- 
ra ir cumprir degredos a outras partes , por- 
que a gente do Reyno não fe queria vir 
metter nefte perigo. Finalmente o melhor 
que em tempo de tanto trabalho fc pode 
íazer , Triftão da Cunha partio do porto de 
Lisboa hum Domingo de Ramos féis dias 
de Março do anno de quinhentos e féis 
com quatorze velas , de que eftes eram os 
Capitães : Francifco de Távora filho de Pê- 
ro Lourenço de Távora Senhor do Mo- 
gadeiro , Manuel Telles Barreto filho de 
Affonfo Telles Barreto , AfFonfo Lopes da 
Cofta filho de Pêro da Cofta de Thomar, 
António do Campo hum Cavalleiro , e Af- 
fonfo d'Alboquerque filho de Gonçalo d\Al- 
boquerque , que era Capitão mor das ve- 
las , que eftes levavam , e com que haviam 
de andar de Armada na cofta de Arábia. 
E os Capitães das outras náos da carreira, 
eram : Lionel Coutinho filho de Vafco Fer- 
nandes Coutinho , Álvaro Telles Barreto fi- 
lho de João Telles , Ruy Pereira .filho de 
Affonfo Pereira Alcaide mor de Santarém , 
Kuy Dias Pereira filho de Reimão Pereira 

Al- 



Década II. Liv. L Cap. I. ? 

Alcaide mor de Portel , João Gomes d'A- 
breu filho de Antão Gomes d 5 Abreu 3 Job 
Queimado filho de Vafco Queimado de Se- 
túbal , Álvaro Fernandes hum Cavalleiro 
d' Alvito , João da Veiga colaço de Tris- 
tão da Cunha 5 Triftão Rodrigues moço da 
Gamara d'ElRey , e Triftao Alvares. Em a 
qual Armada iriam mil e trezentos homens 
(Farinas ; e foi toda tão ifcada de peite , 
que ainda no Cabo Verde, eílando fazendo 
aguada em huma Ilha chamada da Palma , 
que eftá no rofto do cabo , por caufa de 
muitos que alli morreram , mandou fazer hu- 
ma Ermida de pedra 5 e barro , cuberta de 
palha cm louvor de N. Senhora da voca- 
ção da Efperança , onde fe difTe Miífa , e 
foram enterrados os defuntos , e não houve 
em que fe achou homem morto dentro em 
huma camará comidos os pés dos ratos fem 
fe faber íer falecido , tanto trabalho havia 
em todos. Com o qual , partindo ainda Trif- 
tao da Cunha do Cabo Verde , aprouve a 
Deos ; que chegando á linha Equinocial , on- 
de eíles ares ceifam , ficou toda a gente li- 
vre de todo , e deita volta houve viíta do 
Cabo Saneio Agoftinho na Província de 
Sanita Cruz. E quando veio ao atraveffar 
aqueile grande golfão , que jaz entre. efta 
terra , e a do Cabo de Boa Efperança , met- 
teo-fe em tanta altura da parte do Sul , por 

lhe 



6 ÁSIA de João de Barros 

lhe ficar dobrado , que começaram alguns 
homens pobres de roupa de lhe morrer 5 e 
a gente do mar andava tão regalada , que 
não podiam marear as velas ; na qual tra- 
veíTa defeubrio humas Ilhas , que ora fe 
chamam do nome de Triítão da Cunha. E 
como nellas fempre fe acham temporaes , 
deo-lhe hum que apartou as nãos , corren- 
do cadahuma feu trabalho, té que em Mo- 
çambique fe tornaram ajuntar ; fomente Ál- 
varo Telles , que fem faber per onde hia , 
vafou per fora da Ilha de S. Lourenço , e 
foi dar nadeSamatra, cuidando fer o Cabo 
Guardafu ^ e dahi fe tornou a elle , onde 
andou ás prezas efperando por Triftão da 
Cunha. No qual tempo tomou féis náos , e 
era tanta a fazenda delias , que de não po- 
derem com o batel trazer das náos , que to- 
mavam quanto queriam , lançaram tantos 
fardos ao mar delias , que lhe ficou cm lu- 
gar de ponte de bom comprimento pêra per 
íima delles alguns marinheiros irern , e vi- 
rem com fato ás coitas. Lionel Coutinho 
com o meílno tempo foi invernar emQuU 
loa, eRuy Pereira foi dar na ponta da Ilha 
de S. Lourenço em hum porto a que cha- 
mam. Matatána , que foi depois caufí de 
fua morte , e de João Gomes d'Abreu , co- 
mo veremos. Porque chegando a èfte por- 
to 3 onde vem fahir hum rio ^ veio ter a 

el- 



Década II. Liv. I. Cap. I. 7 

elle , aífi á vela como hia, huma almadia 
com té dezoito homens da terra , os quaes 
entraram em a náo feguramente ; e por al- 
guns delles trazerem manilhas de prata , 
poflo que não havia quem os entendefle , 
per acenos difleram haver daquelle metal , 
que traziam nos braços muito , e cravo , e 
gengivre , por lhe fazerem moítra delias , e 
d'outras coufas , que Ruy Pereira quiz fa- 
ber le havia na terra. E por eílas ferem mui 
principaes , ainda que não foi muito per lua 
vontade , trouxe Ruy Pereira dous mance- 
bos d'elles pêra darem teftemunho a Trif- 
tão da Cunha do que havia naquelle porto j 
e chegado Ruy Pereira a Moçambique , on- 
de o achou , per meio de hum Mouro per 
nome Bogimá , que alli vivia 3 por faber a 
lingua delles , foube Trilião da Cunha mui- 
tas coufas da groífura da terra. E ainda o 
mefmo Bogimá , por já eílar naquelle por- 
to , fe afirmava que quanto ao gengivre 
poderiam carregar náos d'elle. Trilião da 
Cunha como vio o tempo gaitado pêra aqucl- 
le anno paliar á índia , e fegundo lhe di- 
ziam da grandeza da Ilha , e delias coufas , 
eram dignas de ir em peífoa defcubrilias , 
determinou de o fazer, pois havia de eftar 
furto efperando tempo , parecendo-lhe tam- 
bém que como havia cravo , e gengivre, 
haveria outras efpeciarias , as quaes defeu- 

ber- 



8 ÁSIA de JoÃo de Barros 

bertas , era defcubrir outra índia de menos 
cufto , por a terra fer povoada de Gentio 
pacifico , pêra que não havia mifter tanta 
gente d'armas ; e quando mais não dcícu- 
brifle que as moftras de Ruy Pereira , def- 
ta mandaria pêra o Reyno hum par de náos 
carregadas. As quaes coufas poítas em con- 
felho dos outros Capitães , e Fidalgos , que 
com elle eram , foi aflentado fer muito íer- 
viço d'ElRey ir defeubrir aquclla Ilha , de 
que tantas coufas fe diziam , é taes moftras 
dava. E por a náo Sant-lago , cm que Trif- 
tão da Cunha hia , fer mui grande , e fe- 
gundo lhe diziam , a Ilha não era mui lim- 
pa , e pêra defeubrir-fe requeria vaíilhas de 
menos porte, leixou efta náo a António de 
Saldanha , que ficaíTe alli em Moçambique , 
tomando pêra embarcação de fua peflba o 
navio Santo António Capitão João da Vei- 
ga feu colaço , mandando primeiro que par- 
tiífe Affonfo Lopes da Cofta , que na tafo- 
rea de que era Capitão , levaíTe mantimen- 
tos , e munições a Çofala , que eftava mui 
desbaratada de tudo com a morte de Pêro 
deNhaya, fegundo elle mefmo AfFonfo Lo- 
pes dizia i por vir per hi ; e ainda lá não 
ipr Nuno Vaz Pereira, de que atrás falía- 
mos. Partido Triftão da Cunha a efte def- 
cubrimento , o primeiro porto da Ilha que 
tomou , foi huma Angra , a que Nuno da 

Cu- 



Década II. Liv. I. Cap. L 9 

Cunha feu filho maior , que com elle hia \ 
poz nome de D. Maria da Cunha , por amor 
de D. Maria da Cunha filha de Martim da 
Silveira Alcaide mor de Terena , que en- 
tão andava em caía da Rainha D. Maria-, 
com a qual elle Nuno da Cunha andava de 
amores , e depois caiou.- Outros chamam a 
eíla Angra da Concepção , por chegarem a 
ella a oito dias de Dezembro , em que a 
Igreja celebra eíla fefta de N. Senhora. A 
qual Angra he da parte do Norte da Ilha 
fronteira á terra de' Moçambique ; e por 
lhe o tempo não fervir a irem ao porto 
Matatana , Triílão da Cunha a tomou , e 
furto neíla Angra , mandou a Job Queima- 
do , e a António do Campo , que nos íèus 
bateis levafíem a terra o Mouro Bogimá a 
Imma povoação que alli eftava , em que el- 
le já fora , e feria dalli três léguas pola An- 
gra fer mui penetrante , cuja viíla tanto que 
chegaram , fez vir logo a elles muita gente 
da terra, Mouros na crença , e Negros de 
cabello revolto em parecer , e alguns del- 
les baços por ferem miítiços , os quaes ven- 
do o Mouro Bogimá , começaram fallar com 
elle como com homem mui conhecido. Bo- 
gimá', depois que paííáram as palavras do 
modo de fuás faudações , informado pelos 
Capitães, começou de lhe dizer, que a cair- 
ia da vinda do Capitão mor áquelle porto, 

era 



io ASL\ de João de Barros 

era defejar ter noticia da terra , e deicubrir 
o que havia nella , e outras palavras con- 
formes a eftas ; ao que refpondêram , que 
elles não eram peííbas para refponder áquel- 
las coufas que dizia , que cllc bem íabia a 
terra , e íe mais razão das que nella havia 
quizeíTe fabcr , que elles o levariam ao Xe- 
que , queeílava na povoação , aquém podia 
dar conta do que dizia a elles. Bogimá con- 
fiado no conhecimento que tinha daquclla 
gente , e gazalhado que lhe moílravam , pe- 
dio licença aos Capitães* para ir fallar ao Xe- 
que , a qual lhe concederam , parecendo-lhe 
que havia de tornar tão contente 5 como pro- 
mettiam as palavras daquelles que o leva- 
ram : peró tanto que os Mouros o tiveram em 
terra á viíta dos nolíos , como quem lhe que- 
ria moftrar o gazalhado que fariam a quem 
lahifle em terra , deram-lhe tanta pancada 
que o houveram de matar, fe lhe os nof- 
fos não foccorrêram , tirando com algumas 
efpingardas aos Mouros , que os fizeram 
apartar da praia. Recolhido Bogimá , a ra- 
zão que deo daquelle gazalhado que lhe fi- 
zeram 5 foi por fer author de levar Chriílãos 
áquella parte. Triftao da Cunha vendo eíle 
damno que Bogimá recebeo , e fabendo 
deíle que toda a povoação era de Mou- 
ros , aílentou com os Capitães de fahir ao 
outro dia ante manhã , e dar nelles ; mas feu 

tra- 



Década II. Liv- I. Cap. I. n 

trabalho foi perdido, porque todos fe re- 
colheram ao mato , e acharam fomente hu- 
ma velha, que não teve forças para fugir. 
Mas aofeguinte dia, levando as náos mais 
adiante obra de três léguas , deram em ou- 
tra boa povoação ? que eítava per hum rio 
dentro , onde entre muita gente que não quiz 
cativar \ tomou o Xeque , que era Senhor da 
terra , e eíte o levou a noite feguinte a hu- 
ma ilha povoada mettida em huma bania 
mui cerrada, per que corria hum rio cabe- 
dal , a que os da terra chamam Lulangane. A 
qual povoação era de Mouros, que viviam 
já mais politicamente , que nos outros lugares 
daquclla coita , porque a fua mefquita , e par- 
te das cafas , eram de pedra , e cal , com ter- 
rados á maneira das de Quiloa , e Mombaça ; 
e porque o dia d'antes houveram vifta das 
noffas náos , e que fe mettiam dentro na ba- 
hia , e não corriam de longo da coita , come- 
çaram aqueila noite de fe recolher a terra fir- 
me. Peró como a gente da povoação era mui- 
ta , e os barcos em que paííavam poucos , 
não o poderiam fazer tão preítes , que aauel- 
Ja Ilha ante manhã não fòfTe primeiro tornea- 
da dos noffos bateis repartidos em duas capi- 
tanias , Triftão da Cunha em huma , e íèu fi- 
lho Nuno da Cunha em outra , com o qual 
cerco entrado o lugar , foram tomadas mais 
de quinhentas almas, a maior parte delias 

mu- 



12 ÁSIA de João de Barros 

mulheres , e meninos , c obra de vinte ho- 
mens , e o Xeque delles , homem que em 
idade , e parecer moftrava fer Senhor de to- 
dos , porque os mais eram paííados a terra 
firme. Na qual paíTagem morreram mais de 
duzentas pefíbas , porque com temor met- 
tiam-fe tanto nos barcos , que foçobráram 
com elles ; e além deites 5 a ferro também pe- 
receram outros , que quizeram refiftir aos 
noíTos , quando entraram o lugar , que foi a 
pouco cufto delles. Agazalhado Triftão da 
Cunha , e Capitães nas principaes cafas que 
alli havia , foi toda aquella noite tão feíleja- 
da dos noíTos , como chorada dos cativos ; 
peró quando veio ao outro dia- , viram vir 
hum grande número de bateis , em que have- 
ria perto de feiscentos homens , como gente 
oíferecida a morrer por falvar as mulheres , 
e filhos que alli ficaram. Triftão da Cunha 
como entendeo feu propofito , e nelles não 
havia culpa de caftigo , mandou-lhes dizer 
peio Xeque que tinha comíigo , que fegura- 
mente podiam alguns fahir em terra 5 fe vi- 
nham bufear fuás mulheres , e filhos : cá el- 
le lhos mandaria refgatar , e aífi o lugar , 
em o qual elle não entrara com tenção de 
lhe fazer damno , fomente por haver manti- 
mentos , e informação d'algumas coufas ; e 
que fe alguns pereceram , foram aquelles 
que fe puzeram em anuas. Chegado o Xe- 
que 



Década II. Liv. I. Cap. I. 13 

que aos feus , do que lhe ellc diííe , tornou 
em íua companhia hum Mouro homem bem 
difpoíío com huma pá dos remos , que el- 
les ufam , na mão, fem outra 'coufa alguma, 
e chegarído a Triftao da Cunha , lançou-le 
a feus pés , pedindo-lhe que houveííe pie- 
dade daquelles innocentes que eftavam em 
leu poder , e fóra da liberdade em que 11 af- 
cêram j e que não houveffe por mal todos 
temerem gente que nunca viram \ por fer 
co ufa natural a toda creatura temor , e pro- 
curar íalvar íua vida , e a de feus filhos \ 
que fe eiíes fouberam que lhes vinha hofpe- 
de tão piedofo , nunca leixáram fuás cafas , 
ante o receberam com muito prazer, offe- 
recendo-lhe todo ferviço 5 fe entre gente tão 
pobre, e barbara havia que defejar. Triftao 
da Cunha ouvindo eítas palavras , e a con- 
tinência j e efficacia com que as efte Mouro 
dizia j a qual íignificava mais a lua dor , e 
trifteza , do que o fabia reprefentar o inter- 
prete , houve piedade delle , e diífe que fe 
confolaífe , porque fuás mulheres , e filhos 
lhe feriam entregues ; e que em pago defte 
beneficio que delle recebiam , não queria 
mais que algum gado , e qualquer outro re- 
frefco que tiveflem para aquella gente que 
trazia , ç aíli informação de algumas cou- 
fas , que defejava íabcr daquella terra, O 
Mouro com efta refpofta de Triftao da Cu- 
nha 



14 ÁSIA de João dê Barros 

nha tornou-fe lançar aos feus pés , beijando 
a terra onde os tinha , e pedida licença , le- 
vou cita nova aos feus , que citavam efpe- 
rando por elle , os quaes tornados a terra 
firme , trouxeram obra de íincoehta vacas 
pequenas , e vinte cabras , milho , arroz , e 
algumas frutas da terra. Per as quaes mof- 
trás , e per o mais que lhe Triítáo da Cu- 
nha perguntou , foube que toda a gente da 
Ilha de S. Lourenço , quanto ao que clles 
tinham fabido per a Comarca daquella lua 
habitação , eram Cafres negros de cabello 
retorcido como os de Moçambique , fomen- 
te ao longo da coita havia algumas povoa- 
ções de Mouros , c não de tão boas cafas 
como as daquelle feu lugar. Que quanto ao 
gengivre , algum havia na terra , mas não 
quantidade para carregação de náo ; cravo , 
e prata elles a não fabiam , fomente ouvi- 
ram dizer, que na outra parte da Ilha con- 
tra o Meiodia os moradores dalli traziam 
manilhas de prata. Triftão da Cunha torna- 
do ás náos , porque não ficou fatisfeito dei- 
tes Mouros , parecia-lhe que como são íio- 
lbs de nós , encubriam a verdade : quando 
veio ao outro dia , mandou dar á vela com 
tenção de ir ter a huma povoação, que ef- 
tava adiante deita per nome Cada , á qual 
quando chegou , pofto que partio ante ma- 
nha pêra dar nella , era já tão alto dia , que 



Década II. Liv. I. Cap. I. e II. i? 

indignada a gente do trabalho , que poz no 
caminho fem algum fruto , lhe poz o fogo > 
o qual fe ateou de maneira , por ferem ca- 
ías palhaças , que quando os nofíòs chega- 
ram á praia 5 parecia arder todo o monte. 

CAPITULO II. 

ComoTriJiao da Cunha efpedio deJiAf- 
fonfo d? Alboquerque pêra Moçambique : e 
depois com hum temporal que lhe deo fe 
tornou ajuntar com elle . e ambos tomaram 
o lugar Oja , e as Cidades Lamo , e Brava. 

PArtido Triítão da Cunha daquelle lugar 
Lulangáne 7 foi correndo a cofta 3 nave- 
gando de dia ? e ás vezes furgindo de noi- 
te 5 ao modo de quem defcobre , com ten- 
ção de dobrar a Ilha pela ponta a que ora 
chamam o Cabo do Natal , nome que lhe 
elle então poz por chegar a eiia neíte tem- 
po. Oqueeile não pode fazer , porque eram 
já os ventos tão ponteiros , que chegando 
junto de humas Ilhas chamadas Caria , que 
eftam quaíl no rofto , com os Capitães , aí- 
fentou que AiFonfo cPAlboquerque fe foíTe 
com quatro velas a Moçambique a dar or- 
dem ás coufas neceflarias que havia pêra fa- 
zer ? porque fua tenção era dar em algum 
lugar de Mouros daquella coita Melinde ; 
e elle com as outras velas ^ que eram as de 

Fran- 



16 ÁSIA de João de Barros 

Francifco de Távora , Ruy Pereira, João 
Gomes d 5 Abreu , tornar atrás , pois os ven- 
tos lhe ferviam a popa pêra dar huma vol- 
ta á Ilha peia parte de Alocílc, onde eíla- 
va o lugar Matatana , em que lhe diziam 
haver cravo , gcngivre , e prata. Efpedido 
AíFonfo d\Alboquerque , e elle Trilião da 
Cunha poíto em caminho , huma noite com 
vento tezo Ruy Pereira , que hia diante del- 
le , deo em huma Ilha pegada com terra , 
onde fe perdeo , e fomente elcapou o Mef- 
tre , e o Piloto com treze homens , que mi- 
lagrofamente em o batel foram depois dar 
com Triílão da Cunha , fendo já da tornada 
deíla viagem na coíla de Moçambique , don- 
de elle os tornou a enviar em o feu navio 
Capitão João da Veiga, por faberdelles que 
a mio ficava de maneira que fe podia falvar 
o cofre do dinheiro , que íè levava pêra com- 
pra das efpeciarias , e outras coufas , como 
fizeram , e tornaram tomar a Triílão da 
Cunha em Melinde. Elle ao tempo que fe 
cila náo perdeo , como era de noite , e cor- 
riam com fúria do tempo , não foube mais 
do cafo , que ao tempo que fe perdeo ou- 
virem bradar dizendo , que arribaíTem , por- 
que como hia com a barba fobre ellcs , fe- 
não fora avifado , também fe perdera. Fi- 
nalmente quando ao outro dia fe achou fcm 
Ruy Pereira y pelo que ouviram de noite, 

liou- 



Década II. Liv. I. Cap. "II; 17 

houveram que era perdido, eaíli por o des- 
contentamento que teve diiTo , como porque 
João Gomes d' Abreu não apparecia , que 
também foi ter a outro defaftre de íua mor- 
te , ( como adiante veremos , ) não quiz ir 
mais avante, vendo que a navegação dacof- 
ta daquella grande Ilha era mui perigofa , 
e fez-íe na volta de Moçambique. Porém 
os tempos o lançaram na paragem, das Ilhas 
de Angoxa , e de noite foi dar com o fo- 
rol- da náo Sant-Iago , que elle entregara em 
Moçambique a António de Saldanha , o qual 
per mandado de AíFonfo d ? Alboquerque , 
que vinha com amais frota, lhe hia fazen- 
do caminho ; e quando veio pela manha > 
que fe conheceram, tornaram em hum cor- 
po arribar a Moçambique , porque lhe não 
confentia o tempo ir avante a Melinde, 
onde AíFonfo d'Alboquerque levava toda a 
frota pelo que leixava aífentado com Trif- 
tão da Cunha. E neíle dia , que entraram cm 
Moçambique , entrou também João da No- 
va com a náo Flor de la mar, que inver- 
nou nas Ilhas de Angoxa vindo da índia 
com a carga da pimenta, como atrás fica; 
e por vir mui desbaratada dos pairos que 
teve , e não pêra navegar com a carga que 
trazia , mandou-a Triftão da Cunha baldear 
em a náo Saneia Maria Capitão Álvaro Fer- 
nandes , que era falecido , e deo a capitania 
Tom.IlP.L B a An- 



18 ÁSIA de João de Barros 

a António de Saldanha pcra a trazer a cite 
Reyno , e com elle mandou os Mouros , 
que Ruy Pereira trouxe do porto Mata ta- 
ra , eferevendo a EIRey o que fobre eíle 
cafo tinha feito , e as mais informações que 
achara. Partido António de Saldanha pêra 
eíle Reyno , onde chegou a falvamento i 
( como adiante veremos , ) ficou Triftão da 
Cunha provendo algum corregimento , que 
a náo Flor de la mar havia mifter pêra po- 
der navegar boiante , porque a mais da agua 
que fazia , era per partes que com a carga 
fora lha tomara , c ficou nella por Capitão 
o mefhro João da Nova ordenado pêra an- 
dar de Armada com AfFonfo d'Alboquerquc. 
Também pelo recado que AfFonfo Lopes 
da Coita trouxe do eftado de Çofala , como 
3or palíar per alli Nuno Vaz Pereira , que 
!iia íervir de Capitão da fortaleza, o qual 
".eixou hum criado feu comprando manti- 
mentos pêra provisão delia , pêra navega- 
rem em navios da terra , mandou Triftão 
da Cunha eftes mantimentos comprados , e 
os outros , que houve na Ilha de S. Louren- 
ço, per oCommendador Ruy Soares em o 
navio de Pêro Quarefma , que alli eftava , o 
qual EIRey D. Manuel lhe mandava dar, 
porque havia de ficar de Armada em com-.| 
panhia deAíFonfo d'Alboquerque. Levando I 
Ruy Soares por regimento, que tanto que 

chi 






Década II. Liv. I. Cap. II. 19 

chegaífe a Çofala, fe ainda lá folie Triftão 
Rodrigues com o feu navio , o qual Affon- 
ío d 5 Aiboquerque mandou ir com mais man- 
timentos em companhia de Nuno Vaz , que 
o trouxeíTe comíigo , e fe foíie a Melinde. 
Providas eftas coufas , tanto que o tempo 
lhe fervio , fe fez á vela ; e fendo tanto avan- 
te como o Cabo Delgado , efpedio Affonfo 
d ? Alboquerque , que íè foíle com a mais fro- 
ta efperallo a Melinde , e elh em o feu na- 
vio entrou em Quiloa pêra viíitar a forta- 
leza , e levar comíigo a Lionel Coutinho , 
que alli invernou com a fua náo , e aíli An- 
tónio do Campo b que AfFonfo d'Alboquer- 
que tinha já de antes mandado aperceber ef- 
ta náo pêra o tempo da paíTagem a levar 
em fua companhia. Recolhidas cilas náos y 
veio ter a Melinde , onde foi recebido d'El- 
Rey com muita fefta ; e depois que ambos 
fe viram, peró que elle Triftão da Cunha 
levaífe em vontade de dar em algum daquel- 
les lugares de Mouros , que eftavam abaixo 
de Melinde, por lho EIRey muito rogar, 
dando-lhe algumas caufas diíTo , que eram 
os damnos que tinha recebido dos morado- 
res da Cidade Oja, aífentou com elle de o 
fazer. E pofto queElRey de Melinde, por 
obrigar a Triftão da Cunha dar em Oja, 
lhe dizia, que acaufa principal de fer ave- 
xado daquelle vizinho , e aíli d 5 ElRey »de 
B ii Mom" 



20 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

Mombaça, era a amizade quecomnofco ti- 
nha ; ante que nós foíTemos áquellas partes , 
já entre elles havia antigas contendas. E 
porque té ora não temos dado muita noti- 
cia das couías deíle Rey de Mclindc noíío 
tão fiel amigo , por memoria da antiguida- 
de do feu Reyno , e também por darmos 
alguma das couías de feus vizinhos , faremos 
huma pequena digrefsão. Os Arábios ante 
que acceptaflem a fecta de Mahamed , poí- 
to que navegavam das portas de feu eftreito 
pêra o mar Oceano , íempre naquellas par- 
tes eftranhas que navegavam , era per modo 
o tratamento de feu commercio , como gen- 
te eftrangeira encolheita , c que não fazia 
mais conta que de comprar , e vender , e 
tornar a fua natureza. Peró depois que be- 
beram aquella infernal dodtrina defendida 
per armas, deíle ufo delias em que poz Ma- 
hamed , e os feus Califas que o fuecedêram , 
aíli ficaram animofos que fe entenderam per 
muitas partes. E naquellas onde não eram 
tantos que fe pudeífem per armas fazer-fe 
fenhores da terra, per via de commercio, 
e d'outras induftrias , principalmente naquel- 
la coita marítima de Africa chamada Zan- 
guebar, de que atrás efere vemos , e aíli per 
todo o marítimo da índia , como era de 
gente idólatra , e mui barbara , manfa , e pa- 
cificamente fe mettêram com ella, povoan- 
do 



Década II. Liv. I. Cap. II. 21 

do em Ilhas , e lugares de que ficaffem fe- 
nhores do mar. Finalmente como criavam 
pofle 5 logo fe intitulavam por Xeques , ou 
Reys da tal povoação ,. e Cidade , poílo que 
muitas delias em cafas , e nobreza de povo 
lerão huma pobre aldeã das noffas , porque 
taes Reys , taes Cidades. Peró onde a terra 
lhe deo difpofíção em todo o marítimo da- 
quellas partes 5 fe alguma Cidade, ou po- 
voação ha , que tenha alguma policia 5 he 
obra das fuás mãos , quanto ao moderno, 
porque o muito antigo quaefquer povos 
que elles foram 5 são os feus edifícios tão 
grandes , e maravilhofos , que alguns prece- 
dem ás obras da arquitectura dos Gregos y 
e Romanos. E ainda oufariamos dizer , que 
fe elles algum princípio tiveram na grande- 
za , e modo de edificar , que deftas partes 
Orientaes o houveram , da qual matéria co-* 
piofamente tratamos em os Livros da noífa 
Esfera da inftrudtura das coufas , na parte 
mecânica , que he toda de arquitectura. Aífi 
que eftes Arábios encheram eíla coíla , de 
que falíamos; ecomo hum não he fubdito 
a outro 5 logo fe chama Xeque , ou Rey , 
donde vem haver per toda cila hum grande 
numero. Porém entre elles todolos outros 
são havidos por Xeques , ainda que fe cha- 
mem Reys 3 fomente o de Quiloa , c da 
Ilha Zenzibar, que eftá defronre de Mom- 

ba- 



nz ÁSIA de JoÂo de Barros 

baça j, e o daqui , poíto que ao prefente leja 
mais rico , e poderofo , tem elles fer tudo 
tyrannicamcnte por fe levantar o primeiro 
que tomou cite titulo contra EIRey de Zen- 
zibar , que era leu Senhor, e o ter poíto 
por Governador em Mombaça. O nofíb ami- 
go de Melinde também quer contender com 
os mais antigos da terra, e diz, que vem 
dos Reys , que antigamente foram em a Ci- 
dade Quitau , que lerá de Melinde dezoito 
léguas , a qual foi lenhora de toda aquella 
terra, pofto que ao prefente leja huma po- 
bre povoação; mas em algumas torres , que 
ainda eftam cm pé, e nas ruinas que appa- 
recem, fe moftra que foi já grande coufa. 
Outros querem que Luziva , que he mui 
perto deita , foi a fenhora de todas , e que 
Paremunda , Lamo , Jaca, Oja, e outras 
Cidades , que eftam nefta Comarca , todas Jhe 
obedeceram. Seja como for , pois não ha 
Aldeã no Mundo , de que os feus morado- 
res não contem grandes fundamentos de fua 
primeira habitação ; o que faz ao noífo ca- 
io he faber, que todos contendem fobre o 
fenhorio da terra a elle comarca , e daqui 
vem dizer EIRey de Melinde que Chiona , 
e Quilife, que eítam entre elle, e Momba- 
ça , que são luas , e fobre ido he a antiga 
contenda que tem com os Reys delia. Pela 
rarte de cima também contende com Oja 

íb- 



Década II. Liv. I. Cap. II. 23 

íbbre a mefma razão d'outros lugares ; fi- 
nalmente todos entre li tem differença , e 
nenhum delles dentro pelo fertão tem hum 
palmo de terra , porque lho não confentem os 
Cafres , ante fe temem delles , e por efta cau- 
fa fuás Cidades são cercadas de muros , huns 
de taipa , e outros de pedra ? e cal. E fe he 
verdade que o noííoRey deMelindé proce- 
da dos que foram fenhores de Quitau , ou 
Luziva , parece que tem juítiça na auçao de 
fua antiguidade 5 porque em fua íituação fe 
moftra que alguma delias he a Cidade Rap- 
ta , que Ptolomeu fitua naquelia coita nas 
correntes do rio chamado Rapto , por ra- 
zão delia; do nafcimento, e curfo do qual 
já atrás fizemos menção , e mais particular- 
mente fera em a noífa Geografia. E fegun- 
do contam os Mouros deMelinde, glorian- 
do-fe de já ferem fenhores daquella coita 
comarca ás Cidades aífima nomeadas , ante 
da noífa entrada na índia pouco mais de 
íincoenta annos , EIRey de Melinde man- 
dou com cem Cafres da terra alguns Mou- 
ros deícubrir o rio , que fahe em Culiman- 
ja , que eftá obra de huma légua de Me- 
linde , que fegundo noilo parecer , he o Rap- 
to que aílima diífemos , poíto que não ef- 
tá per Ptolomeu em fua verdadeira altura. 
Os quaes defcubridores caminharam pola 
borda delie trinta dias; e vendo que o rio 

era 



24 ÁSIA de João de Barros 

era mui largo , quanto mais fubiam per el- 
le , cheio de muitos cavallos marinhos , e 
que não levaram modo de fe paíTar da ou- 
tra banda , onde viam a terra efcampada , 
e jazer roupa eftendida dos moradores , de 
que era habitada , e que nefte tempo tinham 
gaitado os mantimentos que levavam fem 
acharem povoado 5 de que os pudeíTcm ha- 
ver pola terra fer alpera , e cuberta de ef- 
peíTo arvoredo , notadas eílas coufas , e as 
mais que viram 5 tornáram-fe pcra Melin- 
de. Dahi a pouco tempo 5 ou que a ida dei- 
tes efpertou os de dentro do fcrtao , ou co- 
mo quer que foi, veio huma grande cáfcla 
de gente a pé toda preta , e de cabello re- 
trocido , com muito ouro ., e marfim a buf- 
car roupas pêra leu ufo. AíTentado íeu ar- 
raial fora da povoação de Culimanja , onde 
EIRey de Melinde então eílava 5 vieram-fe 
a defconcertar com elie por os grandes di- 
reitos que lhe pedia • e vendo elle que fe 
queriam ir , como que hiam bufcar outro 
porto , mandou dar de noite nelles , c fo- 
ram roubados , que caufou tamanho efcan- 
dalo , que nunca mais alJi tornaram. Agora 
cm noffos tempos a fama da grandeza def- 
te rio , e que vinha da terra do Prefte João 
per huma terra , a que elles chamam das 
Amazonas , por ferem barões nos feitos , e 
os maridos afeminados , e que dentro neíte 

in- 



Década II. Liv. I. Cap. IL 25* 

interior havia muito ouro 5 hum Portuguez 
chamado Jorge d 5 Affonfeca Capitão de hu- 
ma fuíta , que andava com outros per aquel- 
la cofia bufcando fua ventura , entrou neííe 
rio , e foi per elle aílima finco dias. E por- 
que elle não oufava de fahir cm terra , e a 
gente delia efpantada de tal novidade não 
queria fua communicação , tornou-fe a fahir y 
temendo falecer-lhe o mantimento , dando 
nova da grandeza do rio , e dos muitos 
cavallos marinhos que nelle havia , e dadif- 
poíição da terra. Ao pre fente leixando o cur- 
ió delle pêra feu tempo , e tornando a Trif- 
tao da Cunha , que não fabia as paixões 
antigas , que EÍRey de Melinde tinha com 
feus vizinhos 5 crendo o que elle dizia , que 
porcaufa danoíTa amizade eraavexado del- 
les , polo comprazer , efpedido delle , partio- 
fe pêra Oja , levando lá fete velas menos 
das com que partira deite Reyno , as duas 
que trouxe António de Saldanha , e de 
Ruy Pereira perdida , eade João Gomes 
d'Abreu , que ficou em a Ilha S. Lourenço , 
e as duas que mandou a Çofala , e a de Ál- 
varo Telles Barreto , que o eftava efperando 
no Cabo Guardafu. Chegado a Cidade Oja , 
que fera de Melinde dezefete léguas , a qual 
em edifícios era a maneira de Mombaça, 
peró que afituação delia fofíe mui difieren- 
te por eíla fer per hum rio dentro , e Oja 

na 



iG ÁSIA de JoÃo de Barros 

na coita brava , com hum muro da banda 
da terra com temor dos Cafres , e do mar 
recife , e má fahida que a fazia mais forte , 
tanto que furgio 5 mandou hum batel a ter- 
ra notificar ao Xeque delia quem era , e que 
folgaria de praticar com elle algumas cou- 
fas 5 que compriam a ferviço d^ElRey de 
Portugal feu Senhor. Ao que refpondeo o 
Xeque , que elle era vaflallo do Soldão do 
Cairo , e que fern fua vontade , por elle ler 
o Soberano Califa do Profeta Mahamed, 
elle não podia ter communicaçao com gen- . 
te , que tanto perfeguia aquelles que o fe- 
guiam 3 e mais os tratantes do Cairo , que 
navegavam os mares da índia : c que além 
deite mal tão commum , que os Mouros 
tinham recebido , particularmente elle o ti- 
nha experimentado em duas nãos que lhe 
os Portuguezes tomaram. A caufa por que 
cite Mouro mandou tal refpoíta a Triítão 
da Cunha ? não foi tanto polo que elle di- 
zia , como por eítar já de dias mui aperce- 
bido pêra fe defender ? com muitos Cafres 
da terra firme feus amigos 5 temendo eíta 
vintação por parte d'E!Rey de Melinde po- 
las differenças que entre elles havia ; e tam- 
bém por ver que as náos , fegundo o tem- 
po , não podiap alli eítar na coita dous dias , 
que elle podia dilatar com palavras , quan- 
do aqueilas não foliem bem recebidas. Trif- 

tao 



Década II. Liv. I. Cap. II. 27 

tão da Cunha , porque também tinha enten- 
dido o perigo do porto , fegundo o que 
diziam os Pilotos Mouros , que com elle 
hiam , deo-fe a tal preíTa , havido confelho 
com os Capitães, que ao outro dia em os 
bateis foi demandar a terra , repartido em 
duas capitanias , elle em huma , e AfFonlb 
d 5 Àlboquerque na outra. Epoíío que o mar 
andava em favor dos Mouros com a má 
jazeda que deo ao fahir 3 de que elles fe 
íbuberam bem ajudar , vindo defender a 
praia enxutos , e os noflbs fahirem molha- 
dos , todavia a feu pezar tão banhados de 
fangue , como elles fahíram da agua , deA 
pejando a praia , começaram de fe metter 
pela Cidade , bufcando amparo em fuás ca- 
fas. Mas os noflbs os apreilavam de manei- 
ra , que não fizeram os Mouros mais deten- 
ça na Cidade , que em quanto a atravefla- 
ram toda , indo-fe amparando dos botes da 
lança dos noflbs. No qual tempo ouvindo 
dizer Nuno da Cunha , e D. Affonfo de 
Noronha , que ô Xeque com hum tropel 
de gente fe hia recolhendo pêra fora da Ci- 
dade a hum palmar 5 como eram mancebos , 
e andavam em competência a quem o fa- 
ria melhor, cada hum per fua parte foranj 
dar com elle já fora dos Mouros. E com 
a gente que levavam , rompendo pelo car- 
dume dos Mouros, que queria defender feu 

Se^ 



a8 ÁSIA de JoÁo de Barros 

Senhor , houve naquelíc feito huma perfia 
de lançadas , e frechas , na qual o Xeque 
foi morto , e dizem que D. Affonfo lhe 
poz o primeiro ferro , e com elle era Fer- 
não Jacome feu cunhado , e hum feu page 
chamado Scipião Cayado , e Nuno Vaz de 
Caftel-Branco. E foram com Nuno da Cu- 
nha naquella morte d'ElRey , e dos que com 
elle pereceram , Jorge da Silveira filho baf- 
tardo de Diogo da Silveira , e hum João 
Azeitado feu colaço mui valente cavallci- 
ro , e António de Sá moço da Camará d'EI- 
Rey 9 e Fernão Feixó. Ante do qual feito 
tinha acontecido outro a Jorge da Silveira , 
digno de tão bom cavalleiro , como elle 
era. Indo-fe os Mouros recolhendo ao pal- 
mar , foi Jorge da Silveira com o feu co- 
laço dar com hum Mouro homem nobre 
em feu trajo, que levava huma mulher mo- 
ça de bom parecer ante íi , que parecia fua 
efpofa ; e quando vio que Jorge da Silvei- 
ra encarava nella , deo de mão á efpofa , 
mandando-lhe que fe falvaíle , e voltou fo- 
bre elle polo entreter. A efpofa vendo que 
por caufa fua fe hia oíferecer á morte , tor- 
nou com elle , moftrando onde elle por ci- 
la morreífe ahi queria fua morte. Jorge da 
Silveira quando os vio travados hum no 
outro nefta competência da morte , enten- 
dendo o cafo ; deo-lhe de mão , dizendo , 

que 



Década II. Liv. I. Cap. IL 29 

que fe falvafTem , que não queria apartar 
tal amor. Triftão da Cunha , e AíFonfo d ? Al- 
boquerque tiveram tanto que fazer na par- 
te que a cada hum coube , que não fahíram 
contra o palmar, mas juntos já com a vi- 
ctoria da Cidade defpejada , deo Triftão 
da Cunha licença que a metteíTem a faço ; - 
e por fe não deterem muito nelle , quall 
como quem queria que agente fe recolhef- 
fe , mandou-lhe pôr o fogo per partes , mais 
temporão do que devera , cá foi caufa de 
morrerem alguns dos noífos. De maneira , 
que mais poder teve o fogo contra elles, 
que os Mouros ; porque como muitos an- 
davam per dentro das caías no esbulho , 
foi o fogo per algumas partes cercando a 
fahida , com que alguns ficaram feitos em 
cinza , ou mortos ás mãos dos Mouros : e 
deite trabalho efcapou hum Fidalgo de Por- 
talegre chamado Duarte de Soufa , ficando 
aleijado dos pés dos nervos que- lhe o fo- 
go encolheo , e per ventura parte deita alei- 
jão fora melhor na língua , polas paixões 
que ella ordenou entre o Vifo-Rey , e Af- 
fonfo d 5 Alhoquerque , como fe verá. Re- 
colhido Triítao da Cunha ás náos , foi dal- 
li ter a Cidade chamada Lamo , que he 
mais adiante quinze léguas , a qual já efta- 
va aífombrada , efperando fua deítruiçao, 
porque Triftão da Cunha lhe tinha manda- 
do 



30 ÁSIA de JoÁo de Barros 

do diante hum menfageiro , que foi hum 
dos navios que levava , mandando ao Ca- 
pitão delle que felançaffe fobre huns ilheos , 
que tem na lua paragem , e que não leixaf- 
fe entrar , nem fahir alguém. O qual te- 
mor deo tanta prudência ao Xeque , a que 
elles chamavam Rcy , que em Triítão da Cu- 
nha íurgindo , fe veio metter nas fuás mãos , 
dizendo , que queria fer vaííallo d'ElRey 
de Portugal , com a qual obediência con- 
feguio dar-lhe em nome delRey huma Pa- 
tente , e huma bandeira das Armas do Rev- 
no , como a leu tributário , cm quantia de 
feiscentos miticaes d'ouro em cada hum an- 
uo , que logo pagou , e mais muito refref- 
co da terra. Efpedido Triftão da Cunha 
delle , foi ter a outra Cidade mais adiante 
deita , chamada Brava , aíTentada na coita , 
em povo , edifícios > e tra&o muito mais 
nobre , e já tributaria a nós polo que paf- 
fou com as fuás Cabeceiras Ruy Lourenço 
Capitão da Taforea 3 que foi em compa- 
nhia de António de Saldanha o anno de 
quinhentos e três. O qual tributo cuítou 
mui caro ás Cabeceiras que o concederam ; 
porque tornados á Cidade do lugar , onde 
os Ruy Lourenço tomou , (fegundo atrás 
fica 3 ) foram maltratados dos outros princi- 
paes , que com elles governavam a Cidade , 
e difpoítos de fua governança , por tãa le- 
ve- 



Década II. Liv. I. Cap. II. 31 

vemente concederem o tributo , fem valer 
a eftes condemnados dizerem que o fizeram 
por cautela de lhe não roubarem a náo , que 
levavam carregada de tanta fazenda , como 
todos fabiam. E como gente obrigada a 
efta divida , que não tinha paga , eílavam 
mui fortalecidos , e confiados em os muros > 
torres , e lítio defenfavel de fua Cidade , e 
a fahida mui perigofa com os recifes do 
porto. Triftão da Cunha tanto que furgio 
diante delia , mandou a terra hum recado 
per Diogo Fernandes Pereira , que hia por 
meftre da náo Cirne de Affoníò d 3 Alboquer~ 
que , e fora já alli em companhia de Antó- 
nio de Saldanha por Capitão , e meftre da 
náo de Setúbal ; e a refpoíla que trouxe, 
foram palavras de gente foberba , e que 
não tinham experimentado anoífo ferro. E 
nas coitas de Diogo Fernandes mandaram 
dar huma moftra da gente , que tinham pê- 
ra fe defender , fahindo pfei^numa porta , e 
entrando per outra 5 que eílavam ao longo 
da praia obra de féis mil homens todos 
armados a feu modo , e em tão boa orde- 
nança , que eram melhores pêra ver que 
commetter. Vendo Triíláo 'cfa Cunha a de- 
terminação delles , tanto que amanheceo , 
elle per huma parte , e Aífonfo d'Alboquer- 
que per outra , juntamente foram demandar 
a terra , qne lhe foi mui bem defendida com 

fré- 



32 ÁSIA de JoXo de Barros 

frechas , zargunchos , pedradas , e outras 
armas de arremeço , tão bailas que não po- 
diam tomar porto , ré que á enfta do feu 
fangue , e dos Mouros ellcs foram entra- 
dos per três partes do muro , por fer tão 
baixo , e fraco per aquelle lugar , que não 
fe houveram mifter efeadas. E como per 
onde foi efta entrada era o mais alto da 
Cidade , e a maior parte da povoação lhe 
ficava em ladeira abaixo , e os Mouros an- 
davam já com langue , e animo menos do 
que tinham quando ella foi commettida , 
começaram todos de a dcfpcjar. Mas efte 
deípejo fe não vio nos principaes Mouros 
que a governavam ; porque a maior parte 
delles vendo a defordem da gente commum , 
como cavalleiros 5 ficaram cada hum no lu- 
gar onde a morte o tomou , cumprindo o 
facramento que tinham feito ao povo de 
morrer por defensão, e liberdade de todos. 
Finalmente efta entrada foi de maneira com- 
mettida , e tão pelejada de todos , e cada 
hum tão oceupado em íua forte , que pou- 
cos fouberam dar conta da fúria do feito , 
fomente que ella amanfou a foberba da- 
quella Cidade , e per efta vez perdeo o no- 
me de Brava , e ficou tão manfa , como 
hum corpo fem alma de refiftencia. E fo- 
ram tantos os imigos que alli pereceram , 
que fe não puderam contar , e dos noflbs 

té 



Década II. Liv. I. Cap. II. 33 

té quarenta c duas pefíoas , e feridos fef- 
íènta e tantos : e neíles mortos entraram hum 
batel de té dezoito delles , que foçobrou 
vindo para a náo de Triítão da Cunha cai- 
regado de fato do esbulho da Cidade , e 
entre os afogados foi hum João Borges ho- 
mem honrado Cidadão de Lisboa , e o 
Capeiiao da náo ; e alguns que fe falváram 
foi em hum efquife , em que hia Fernão 
Trigo meftre da náo de Francifco de Ta^ 
vora. O qual batel fe com fua perdição não 
aviíára os outros , fegundo a gente andava 
cubiçofa de apanhar , e trazer á ribeira o 
esbulho da Cidade , por ella eftar cheia de 
fazenda , muitos fe houveram de perder ; 
mas Triítão da Cunha mandou logo ter ten- 
to nelles por não virem a outro tal defaf- 
tre. Do qual , fegundo fe depois dizia , pa- 
rece que a caufa foi huma crueza , que uíí* 
ram alguns homens baixos que hiam nelle , 
efoi não podendo tirar as manilhas de pra-* 
ta , que as Mouras traziam nos braços , lhos 
cortavam; mas como a Deos não aprazem 
coufas que a humanidade não foffre , elles , 
e as manilhas ficaram no rolo do mar. Tris- 
tão da Cunha , porque a entrada deíla Ci- 
dade foi hum dos illuftres feitos , que té 
aquelle tempo fe fez naquellas partes , por 
memoria deiie , peró que fe tinha vifto em 
outros mui honrados P quiz receber aqui a 
TomdL P.L C hon^ 



34 ÁSIA de João de Barros 

honra da cavallcria da mão de Affoníò d'Al- 
boquerque, por elle fer Cavalleiro da Or- 
dem de Sant-Iago : e aííi a recebeo Nuno 
da Cunha feti filho , que não foi pequeno 
contentamento a Affoníò d'Alboquerque dar 
per lua mão honra áquelle Capitão , de bai- 
xo da bandeira do qual elle vinha , c gran- 
de gloria a Trilião da Cunha , fendo ho- 
mem de idade , confeflar que pêra fua hon- 
ra , e a poder dar aos outros , ainda lhe fa- 
lecia efta de mão alheia. O qual depois que 
a teve , a deo a Ruy Dias Pereira , hum Fi- 
dalgo que feria de íincoenta annos , e aífi 
a outros muitos , encommendando a Affon- 
fo dWlboquerque , que juntamente com el- 
le o fizeíle áquelles que o quizeífem fer; 
porque o feito foi tão honrado , e cada 
hum fez tanto 5 que todos foram merecedo- 
res delia. No qual , além dos Capitães no- 
meados , fe acharam alguns Fidalgos , que 
por ferem mancebos , não levavam cargos , 
fenão o de feu fangue , que quando he no* 
bre , como era o feu , em toda idade fe 
moftra , e por fua memoria poremos os que 
vieram á noífa noticia. D. João de Lima , 
e D. -Jeronymo de Lima feu irmão , Ma- 
nuel de la Cerda, e Fernão Pereira feu ir- 
mão , João Rodrigues Pereira , e Duarte 
Pereira feu irmão , Gil Barreto, e Diogo 
de Magalhães feu irmão , D. Manuel Pe- 

rei- 



Década II. Liy. I. Cap. IL e III. 3? 

reira , Pêro d'Alboquerque , Simão de An- 
drade , António de Miranda d' Azevedo, 
Pcro de Soufa d 5 Azevedo 5 Baftiao d'Abreu , 
Henrique Moniz , D. João Henriques , Fran- 
cifco de Bovadilha , Aires de Soufa Chi- 
chorro y Fernão Gomes de Lemos j Antó- 
nio da Silva de Soure , e Álvaro de Mou- 
ra , cada hum dos quaes , além das quali- 
dades do íeu Tangue , per feus feitos mere- 
ceo efte lugar de lembrança. 

CAPITULO III. 

Como Trijiao cia Cunha par tio para a Ilha 
Socotord 5 e a defcripçao delia : e como 
tomou aos Mouros huma forta- 
leza , que nella tinham. 

H Ávida eíla viótoria , deteve-fe Triílaó 
da Cunha três dias na Cidade, aííipor 
recolher muitos mantimentos que nella achou , 
como por fatisíazer á gente com o feu ef- 
bulho , e per derradeiro lhe mandou poer 
fogo , ultimo caftigo de fua foberba. E pof- 
to que quando fe fez á vela daqui, levava 
em propoíito dar outra tal vifta á Cidade 
Magadaxo , que fera deíla quarenta e finco 
léguas contra o Cabo Guardafu , porque o 
tempo lhe não deo lugar, paífou avante té 
fio rofto delle , onde achou Álvaro Telles , 
que (como atrás diífemos ? ) veio ter aqui 
C ii do 



36 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

do temporal que houveram; e fe os outros 
que foram neftes feitos que contámos, traziam 
honra , e fazenda , cllc não tinha a fua náo 
menos boiante do que alli ganhara com féis 
náos 5 que tinha tomado. E era tanta a fa- 
zenda delias , que de a não poderem trazer 
no batel para a náo , lançavam entre cila 5 
e a náo dos Mouros tantos fardos de cou- 
ías no mar , que lhes ficava em lugar de 
ponte bem comprida , per fima dos quaes 
traziam ás coitas outros de mais rica lbrtc. 
Dada huma viíla a eíte Cabo Guardafu , 
mandou Triftão da Cunha governar a Ilha 
Socotorá , do fitio , e coufas da qual trata- 
remos hum pouco primeiro que venhamos 
ao que elle fez nella. Efta Ilha alguns que- 
rem dizer , por fer mui grande , e a maior 
daquella garganta dos mares , que vam a bo- 
car o eílreito do mar Roxo , que hc aquel- 
la , a que Ptolomeu chama Diofcoridis , de 
huma Cidade delia deite nome \ mas como 
em a noíía Geografia tratamos a verdade 
deita Ilha , para lá leixwamos a relação del- 
ia. O que ora- faz a noífo propofito he 
faber que efta Ilha Socotorá he de compri- 
do pouco mais ou menos vinte léguas , e 
de largo nove. O lançamento deita fuacom- 
pridao he qiiaíi Leite Oefte , e tomada quar- 
ta de Noroeíte , ( por fallarmos fegundo a 
rumaçao dos marinheiros ; ) cuja altura da 

par- 



Década II. Liv. I. Cap. III. 37 

parte do Norte he doze gráos , e dous ter- 
ços. Em todo o feu circuito não ha porto , 
nem eftancia , em que muitas náos poíTam 
feguramente invernar : per o meio delia ao 
modo de efpinhaço corre huma corda dç 
ferranias de huns picos altos , e fragofos , 
que demandam as nuves , per íima dos quaes 
por altos que são 3 quando curfam as venta- 
nias do Norte , lá lhe vam lançar as áreas 
da praia. E por eftar mui patente a eíles 
ventos he mui efcaldada , poílo que per en- 
tre aquellas ferras tem alguns valies abriga- 
dos , onde os moradores fazem fuás femen- 
teiras de algum milho 5 e paftam feu gado. 
Toda a praia delia he limpa pêra a nave- 
gação , fomente na face contra o Norte tem 
duas ilhetas juntas , a que por fua femelhan- 
ca chamam as duas irmans , fera da terra 
firme da Arábia , que lhe fica ao Norte , té 
fincoenta léguas , e do Cabo de Guardafu , 
que eílá ao Occidente delia no ultimo fim 
da terra de Africa , trinta. Os portos que os 
noííos tomam por colheita , a hum chamam 
Coco 5 onde os Mouros tinham fua habita- 
ção 3 ou Calancea , que he mais Occidental , 
e entre Benij , que eílá contra o Oriente. 
A terra em fi não he tão efteril como os 
moradores são rudos , e de pouca induftria : 
porque nos lugares onde .os ventos não rei- 
nam ? creára toda maneira de plantas ; po- 
rém 



38 ÁSIA de JoÂo de Barros 

rém as naturaes , e que a terra per íi dá, 
são maceiras d'anáfega , palmeiras, drago- 
eiros , de que colhem muito fangue de dra- 
gão ; e dá o melhor aloé que fe labe , don- 
de geralmente todo por razão do nome da 
Ilha fe chama Socotorino. O mantimento 
dos naturaes he milho , tâmaras de toda for- 
te , e geralmente leite , que lhes ferve de co- 
mer, e beber. Todos são Chriílaos Jacobi- 
tas da cafta dos Abexijs , però que muitas 
coufas não guardam de feus coftumes , os 
mais dos homens tem os nomes dos Apof- 
tolos , e as mulheres de Maria. Sua adora- 
ção he a Cruz , e são tão devotos delia , 
que per habito todos trazem huma ao peí- 
coço y e em algumas cafas que tem de ora- 
ção , eílc he o leu Orago. Geralmente todos 
vam rezar a ellas trcs vezes , huma muito 
cedo á maneira de Matinas , outra a horas 
deVefpera, e outra ás Completas, e a lua 
oração he em Chaldeo , e o medo de re- 
zar he dizer hum fó hum vcrlb , e os ou- 
tros juntamente , como coro , reipondem 
com outro. E çntcndéranvlhe es ncíTcs , que 
os já ouviram rezar , efta palavra Alkluia > 
tem circumeisão , e jejum á maneira de Ad- 
vento , e huma fó mulher : da novidade que 
hão , pagam dizimo á Igreja. São homens 
geralmente bem difpoftos , baços na cor - 9 e 
as mulheres mais alvas , e mui barois , aíli 

na 



Década II. Liv. I. Cap. III. 39 

11a eftatura , e compofiçáo dos membros, 
como no feu exercício , porque também pe- 
lejam em qualquer affronta , como os mef- 
mos maridos , donde ha opinião que já em 
outro tempo viveram fem ter companhia 
dos homens ao modo de Amazonas. Somen- 
te pêra haver geração , das náos que vinham 
ter áquella Ilha , haviam alguns ; e quando 
tardavam , per feiticeria as faziam vir pêra 
haverem homens pêra efte effeéto , ao que 
fe pode dar credito \ aíil por ferem barões , 
como por hoje ferem ainda tão grandes fei- 
ticeiros , que fazem couías maravilhofas. O 
trajo geral delles lie de pannos que fazem , 
e outros fc veítem de pelles do gado que 
tem ; he gente mui beftial , vivem em lapas 
no alto affaftados do mar : fua peleja he ás 
pedradas com fundas , e alguns tem efpadas 
de ferro morto. Nefte anno , que Trilião da 
Cunha aqui chegou , fegundo fe depois fou- 
be per elies , havia vinte e féis annos que 
eram fubditos a EIRey de Caxem , que he 
na terra da Arábia , a que chamam Farta- 
que , fronteira a eíla Ilha. O qual defejando 
o fenhorio delia , no anno de quatrocentos e 
oitenta mandou huma Armada de dez velas 
corn mil homens dos feus Fartaquijs , c por 
Capitão hum feu fobrinho , que a vieífe con- 
quiíhr. E porque a Ilha em li he mui fra- 
gofa , e no interior tem algumas ferras , que 

em 



4o ÁSIA de JóXo de Barros 

em nenhum modo fc podem entrar , e os 
Socdtorinos fe acolheram logo a ellas fem 
os Mouros lhes poderem fazer damno ; fun- 
dou efte.fobnnho d'E]Rey deCaxcm huma 
fortaleza em huma bahia chamada Benij no 
lugar do Coco , que era onde vinham mui- 
tas náos a tratar com eftes Socotorinos , com 
fundamento que efta fortaleza lhe impediria 
o cornmercio pêra não darem jahida a fuás 
novidades , e haverem o que lhe vinha de 
fora. O qual jugo os fobmetteo a pagarem 
tributo aElRey de Caxem , que ordenada- 
mente tinha alli cem homens , e intitulava- 
fe por Rey de Socotorá. E a eftc porto che- 
gou Triftão da Cunha na entrada d 5 Abril ; 
e poílo que elle ao tempo delia fua chega- 
da não tiveífe tanta noticia da Ilha como 
ora temos , já per informação dos Mouros 
que traziam de Melinde , c alguns cativos 
de Brava , foube da fortaleza que os Mou- 
ros tinham , e que gente feria a com que 
podia pelejar , e o modo do fitio da terra , 
e por ifib em chegando ao porto com a 
vifta , e informação que trazia , entendeo fer 
efeufado tirar a Villa de 'Madeira , que diP 
femos levar de cá. Porque a fortaleza , peró 
que a cento e trinta Mouros que nella efta- 
vam com o feu Xeque , deflem animo de 
trezentos , por ter bom muro ? e torres com 
fuás guaritas em lítio de boa defensão , co- 
mo 



Década II. Liv- I. Cap. IIL 41 

mo já vinham affeitos ao combate das Ci- 
dades que leixavam deftruidas , não fizeram 
muita conta delia. PaíTado efte primeiro dia 
da chegada , que fe gaitou em amarrar as 
náos , e recados que Triftão da Cunha man- 
dou ao Xeque , a que elle não refpondeo 
em modo pêra viver em paz ; no lèguinte 
metteo-fe em hum batel com Affoníb d'Al- 
boquerque , e alguns Capitães , e hum Pi- 
loto dos Mouros de Brava , que lhe foi 
moftrar lugar per onde podiam fahir. O 
qual ainda que era eícampado , e defronte 
da fortaleza huma carreira de cavailo , que- 
brava o mar alli tanto , que por dar boa 
fahida á gente , ainda que liie défíe mais 
comprido caminho , elegeo por melhor deP- 
embarcação a frontaria de hum palmar, 
onde fe fazia modo de angra > com funda- 
mento , que quando os Mouros acudiíTem 
a efte que elle tomava , Affonfo d' Alboquer- 
que , que havia de ir com a gente da fua capi- 
tania , pudeííe ficar mais defpejado no outro , 
dando o mar jazeda pêra iílb. Os Mouros 
vendo que Triftão da Cunha andou ao longo 
da ribeira a huma , e outra parte , e que 
nefra do palmar fe deteve , como quem o 
notava pêra fua fahida , toda aqueila noite 
feguinte trabalharam , decepando algumas 
palmeiras , e com eíias , e as outras em pé 
fizeram humas tranqueiras á maneira de ek 

tan- 



42 ÁSIA d e João de Barros 

tancia , em que aíTcíláram humas bombardas 
que tinham , que ao outro dia , que era fefta 
feira de Lazaro , em que Triftão da Cunha 
íaJiio , lhe fizeram muito darnno y e detive- 
ram tanto , que nefta detença teve Affonfo 
d'Alboqucrque efpaço , e o íugar livre pcra 
ialiir com lua gente polo eícampado frontei- 
ro á fortaleza. D. Aífonfo de Noronha feu 
lobrinho , como quem defejava ver a noiva 
com quem o haviam de dcipolàr pola provi- 
são que levava d 5 ElRey de Capitão da for- 
taleza que fe alJi fr/eíTe , com huns poucos 
de befteiros , e efpingardciros que levou em 
o feu batel , e alguns homens que pêra iífo 
efeolheo , tomou primeiro a terra , c come- 
çou de encaminhar pcra a fortaleza. Em com- 
panhia do qual hiam James Teixeira , Nuno 
Vaz de Caftello Branco , Pedralvares do Car- 
tuxo 5 e outro Pedralvares moço da Camará 
d'ElRey , que fora page do Conde de Abran- 
tes , ao encontro dos quacs veio o Xeque , 
que os recebeo com obra de quarenta Mou- 
ros com grande animo , indo-fe defendendo , 
e offendendo como valentes homens. O Xe- 
que como , além de fazer o officio de cavallei- 
ro , não perdia o cuidado de Capitão , trazia 
olho cm Triftão da Cunha , receando que fe 
metteíle entre elle , e a fortaleza , que era 
íua acolheita ; e tanto que o vio que fe che- 
gava a elia > foi dando mais campo a D. Af- 

fon- 



Década II. Liv. L Cap. III. 43 

foníb com tento , vindo aos botes das fuás 
lanças , que lhe fazia pouco damno , porque 
traziam elies humas adargas de vaca crua , 
que coípia o ferro de fi , e elles tão deftros em 
faber tomar nellas os botes , e tiros , que pa- 
recia que efgrimiam , e não pelejavam. Trií- 
tão da Cunha per eííe mefmo modo , depois 
que paííou o trabalho da artilheria 5 e pedra- 
das debaixo das palmeiras , vinha com té fef- 
fenta delles aííi a bote de lança ; e fendo já 
mui cerca das portas da fortaleza , o Xe-» 
que apartou trinta homens , com que fez 
huma maneira de volta comprida com tanto 
impeto , que fe retiraram os noílbs atrás. 
D. Affonfò quando vio o embaraçar dos 
béíleiros , e efpingardeiros , e que não fe 
achava com mais 5 que com féis , ou fete 
homens , quafi como quem recebia aífronta 
de o ver Içu tio , e os outros Capitães > que 
lhe vinham já nas cofias, ante que chegaf- 
fem a elle, com eíTes poucos que o acom- 
panhavam , que eram os principaes , fechou 
com o Xeque , pondo nelle a iança tão te- 
za que o derribou , mas não o ferio por 
trazer hum laudel de laminas, e o bote não 
fer em cheio , mas per huma ilharga. Os 
Mouros vendo o Xeque derribado , acudi- 
ram todos fobre elle , onde carregaram tan- 
tos dos noífos , que o Xeque ficou alli mor- 
to ás lançadas, e com elle oito feus, fem fe 

fa- 



44 ÁSIA de João de Barros 

faber quem foi o primeiro que o fangrou , 
na qual preíFa os outros com o rumor dei- 
te cafo , e chegada de AíFonfo d'Alboquer- 
que , tiveram tempo de fe íalvar no caítel- 
lo. Triílao da Cunha por entrar de envolta 
com os que trazia diante , por muito que 
fe apreflbu , como eram mais deílros no fu- 
gir 5 que os noíTos defeançados pêra correr , 
quando chegou á porta do caftello 5 achou 
AíFonfo d'Alboquerque , e muita pedrada 
que lhe tiravam de fima 3 de que elle houve 
huma com hum canto que o fez acurvar. 
Com o qual damno por ler muito , os nof- 
fos fe afaftáram , té que vieram huns troços 
de efeada , que vinham no batel de D. Af- 
fonfo , per os quaes o muro foi fubido ; e 
o primeiro que nelle arvorou bandeira 3 foi 
Gafpar Dias Alferes de AíFonfo Dalboquer- 
que , e trás elle Job Queimado, com feu 
aguião j e outros que o feguiam. A qual 
fubida caufou defpejarem os Mouros a gua- 
rita ? que eftava fobre a porta 5 que a defen- 
diam não fer quebrada 5 como logo foi fei- 
ta em rachas a poder de machados , que 
deo entrada a todos em hum pátio da for- 
taleza. E os primeiros que chegaram a hu- 
ma porta per que fe fubia a huma torre, 
que era da menagem 5 . foram ; Nuno da 
Cunha , e D. António de Noronha irmão 
de D. AíFonfo y e eílando ambos em preíía 

de 



Década II. Liv. I. Cap. III. 45 

de arrombar a porra , tirando-lhe de íima mui- 
ta pedrada , chegou Trilião da Cunha , e 
quando vio o filho com D. António , que 
andavam em modo de competência a quem 
fe metteria mais no quente ? entreteve a gen- 
te , e diíie contra Affoníb d' Alboquerque , 
por fer tio de D. António : Leixemos cevar 
efles dous cachorros ; e então como quem 
os açuíava ? dizia ao filho : Ah Ntmo , ah 
Nuno ! Porém porque das janellas recebiam 
damno , mandou aos béíleiros , e eípingar- 
deiros que tirafíem a ellas , com que^ as des- 
pejaram. A outra gente vendo tomado poír 
ie deita parte, começou de feefpalhar pelo 
pátio bufcando íubida , té que hum golpe 
delles, em que entravam D. Jeronymo de 
Lima , D.João feu irmão , Manuel Telles , 
Manuel de la Cerda , fubíram per huma ef- 
cada de pedra , que hla dar no muro , buf- 
cando modo cada hum per onde podia en- 
trar com os Mouros. No qual tempo foi 
a porta da fala , em que os Mouros efta- 
vam , quebrada , e recolhêram-íe a huma 
torre , que por fer forte , parecia-Ihes pode- 
rem efcapar alli , mas eíles foram logo fe- 
guidos , 110 commetter dos quaes , as graças 
de Triíláo da Cunha com feu filho , e Dom 
António os houveram de matar. Porque fen- 
do a porta arrombada com hum buraco, 
per que podia caber hum homem, queren- 
do 



à\6 ÁSIA de JoÂo de Bauros 

do cada hum delles entrar com a adarga 
diante , outra adarga de Affoníò d'Albo- 
querque , que elie lançou fobre a cabeça de 
D. António 5 defendeo de lha não cortarem , 
e a Nuno da Cunha falvou feu aio João 
Fernandes > e outro tal riíco correo Jorge 
Barreto. Porque citavam os Mouros tanto 
fobre o buraco , que como alguma adarga 
apparecia , logo era fatiada , e ainda tiveram 
huma defensão , pondo elles huns fardos de 
roupa da terra chamados Cambuiijs , os 
quaes embaraçavam quanto damno lhe que- 
riam fazer. Com a qual ajuda , fendo obra 
de vinte e finco homens , aíli fe defendiam > 
que nunca puderam fer entrados , poílo que 
Affonfo d'Alboquerque mandou vir do feu 
batel dous padezes de campo , fenao depois 
que alguns dos noíTos íubíram ao eirado 
defta cala, e começaram de a defeubrir, e 
lançar-lhes em baixo tijolos , e pedras , que 
os defatinou muito. E a hum dos primeiros 
que quiz ir fazer efta obra , que era João 
Freire page de íriftâô da Cunha , ao faltar 
de hum eirado em outro , foi morto per 
elles j na qual fubida fe achou trás elie Nu- 
no Vaz de Caftello Branco , e António de 
Liz de Setúbal , e Diniz Fernandes de Mel- 
lo filho baftardo de Gonçalo Vaz de Mel- 
lo 5 o qual poílo que naquelle tempo era 
pouco .conhecido, e eftimado, por fer hài 

mem 



Década II. Liv. I. Cap. III. 47 

mem pardo nas cores , deita ida de Triftãd 
da Cunha ficou havido por quão cavalleiro 
fe elle fempre moftrou , como fe verá adian- 
te. Finalmente eftes , e outros per íima , e 
Triftao da Cunha , e AíFoníb cPAlboquer- 
que per baixo com os outros Capitães , 
(pofto que lhe quizeram dar a vida por quão 
valentes homens eram 3 ) nunca puderam aca- 
bar com elles , té que hum , e hum acabou 
vingando ília morte. Acabado efte feito , 
que durou efpaço de três horas , e cuílou a 
vida do page de Triftao da Cunha 5 e de 
féis , ou fete que faleceram depois dos Í111- 
coenta e tantos feridos que alli houve , acha- 
ram que dos Mouros morreram paflante dé 
oitenta , e cativos hum fomente chamado 
Homar ., que era mui bom Piloto da coita 
da Arábia , e depois aproveitou muito a Af- 
ibníb d'Alboquerque , em quanto alli an- 
dou , e aífi hum cego que acharam mettido 
em hum poço fecco , homem de muita ida- 
de y o qual levado ante Triftao da Cunha, 
e perguntado que como tinha vifta pêra fe 
metter naquelle lugar pêra que os homens 
hão mifter quatro olhos i refpondeo 9 que ne- 
nhuma coula os cegos viam melhor , que o 
caminho per que podiam ter liberdade , e 
vida , com a qual graça lhe deram liberda- 
de. Efte foi o maior esbulho que fe alli 
houve í e algumas armas , e mantimentos 

da 



48 ÁSIA de J0Â0 de Barros 

da terra , que Triítão da Cunha mandou 
recolher pêra aquelles , que haviam de ficar 
naquclla fortaleza. Agente da terra , que ci- 
tava em olho deíle feito , como não tinham 
muita noticia de nós , não ouíaram dcfcer a 
baixo , e tinha coinfigo recolhidas as mu- 
lheres , e filhos dos Mouros , que eram ne- 
tos deites naturaes da terra ; porque ao tem- 
po que Triítão da Cunha íahio , defpejáram 
elles huma povoação , que citava fóra da for- 
taleza , onde tinham toda fua família. Po- 
rém depois que lhe Triítão da Cunha man- 
dou recado , e fouberam ler toda aqueiia 
gente Chriítã , vieram-fe a elle , e lançaram- 
fe a feus pés , dando-lhe graças da mercê ? 
que receberam na viétoria daquelles infiéis , 
debaixo do poder dos quaes eram avexa- 
dos , tomando-lhes mulheres , filhas , e fa- 
zenda , e outras injurias ás fuás pefibas , pc- 
dindo-lhe polo nome de Chriíto Jefus , que 
elles confelTavam, houveífe por bem de os 
amparar , e defender. Triítão da Cunha em 
refpoíta deitas palavras ditas com lagrimas , 
osconfolou, dando-lhes conta como EIRey 
de Portugal feu Senhor , fabendo ferem elles 
Chriítaos , e os trabalhos que padeciam , lhe 
mandara que paíTafie per aquella fua Ilha , 
e lançando os Mouros fóra , fizeíTe huma 
fortaleza , em que leixaíTe gente pêra defen- 
são delles j que eíta nova podia dar a to- 
dos, 



Década II. Liv. I. Cap. III. 49 

dos , e que não queriam mais delles , fomen- 
te dos mantimentos da terra , de que po- 
diam ter neceílidade ; e também per mão 
dos Gííiciaes d^Elíley, que alli haviam de 
ficar , podiam dar fahida ás novidades , que 
lhe a terra dava , e per commutação delias 
haver outras de que tiveflem neceílidade - y e 
o principal de tudo era a liberdade de fuás 
peflbas 5 e poderem fer doílrinados em as 
coufas da Fé de Chrifto. Do que elles fica- 
ram mui contentes 5 e a terra adernada em 
paz , e commercio com os noffos , come- 
çando logo defcer de fíma áquella povoação 
que os Mouros alli tinham , e em moda 
de feira traziam gado , e todo outro manti- 
mento. Muitos dos quaes per meio de Frei 
António da Ordem de S. Francifco , que 
hia ordenado pêra efta obra , receberam Bap- 
tifmo em a mefma mefquita dos Mouros , 
que foi feita Templo de Deos da vocação 
de N. Senhora da ViEloria , o qual Fr. An- 
tónio 5 como era Religiofo devida de gran- 
de exemplo , aíli nefte principio , como de- 
pois . por fer mui accepto á gente da terra , 
per dentro da Ilha andou pregando , e fa- 
zendo obras de varão Apoílolico. Triftao 
da Cunha ? em quanto Fr. António fazia ef- 
te officio 5 fez eíie o leu de Capitão , dan- 
do ordem de repartir a fortaleza pêra fegu- 
rança dos que alli haviam de eítar^ á qual 
Tow.ILP.L D pos 



^0 ÁSIA de JoÃo de Barros 

poz nome $. Miguel , e tomou a menagem 
delia a D. Affonlb de Noronha , que a le- 
vava per EIRcy : aílí proveo a gente orde- 
nada , que eram té cem peflbas , das quaes 
Fernão Jacome de Thomar , cunhado de 
D. Affoníb , ficou por Alcaide mor ? por Fei- 
tor Pêro Vaz dllorta , e Gafpar Machado , 
e Franciico Saraiva Eícrivaes , e aíii outros 
Officiaes , que começaram lervir feus offi- 
cios a íeis de Maio de quinhentos e fete. 
Trilião da Cunha , a dentadas cilas coufas , 
porque o tempo era ainda mui verde pêra 
paílar á índia , que era na força do inver- 
no na cofia delia , mandou todalas náos ao 
porto de Benij , onde podiam eílar o tempo 
que alli fc houveííem de deter 3 por fer o 
mais feguro dos que a Ilha tinha ; no qual 
tempo teve alguns rebates dos Socotorinos 
quaíi meios alevantados contra a nofla for- 
taleza , per induzimento dos Mouros que 
efeapáram, fazendo-lhes crer que lhes hia- 
mos tomar a terra , e que outro tanto ti- 
nhamos feito na índia. A qual coufa ainda 
que pêra os rebates os noíTos veíliíTem pou- 
cas vezes as armas , deo-lhes muito traba- 
lho , porque fe levantaram ícm querer tra- 
%Qf mantimentos , té que tornaram outra í . 
vez á nofla amizade ; porém fempre os j ( 
noíTos a tinham por fufpeitofa com eftes 
Mouros ., que andavam lançados entre el- 

les, | 



Década II. Liv. I. Cap. III. e IV. çt 

les , e eram -lhes- acceptos por razão das 
mulheres Socotorinas , com quem eílavam 
cafados , e de que tinham filhos. E em quan- 
to não fez tempo pêra Triftáo da Cunha fe 
partir 5 fe armou huma fuíla , que de cá do 
Reyno fe levou a madeira lavrada ; e por- 
que faleciam muitas peças , cortaram- íè hu- 
ma fomma de maceiras da anáfega pêra lia- 
mes , por alli haver muita copia delias. 
Vindo o tempo da monção s com que Trif* 
tão da Cunha podia navegar , que era a 
dez de Agofto , partio-fe Affonfo d'Albo- 
'querque per a coíla de Arábia dahi outros 
dez dias , os quaes leixa remos té feu tem- 
po , por dizer o que o Vifo-Rey D. Fran- 
cifco fez na índia em quanto elles fizeram 
1 ' o que té ora relatamos. 

CAPITULO IV. 

Do que fizeram as Armadas que o Vi- 
.. fio-Rey mandou correr a cofia da índia no 
^ I verão do anno pafiado de fieis : e como fiufi 
pendeo certos Capitães por aconfielharem 
fieu filho D. Lourenço que não pelej afife 
com a Armada de Calecut y que efiava em 
Babul. 

C^ Orno da Armada de Trilião da Cu-* 
^ nha não paífou á índia vela alguma , 
houve nella entre os noííos grande confu- 

D ii são; 



5T2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

são j peró que todos prefumiíTem a verda- 
de , que era invernarem naquella coita de 
Moçambique , ou Mclinde. Mas como o 
animo dos homens acerca das couías que 
efpera , fempre imagina o contrario do que 
deíeja , concorreram dous finaes da Nature- 
za em Cochij , que por ferem muitas ve- 
zes íignif cativos de grandes cafos , lançavam 
eííes íbbre eíle não paflar muitos juízos. E 
o primeiro final foi hum cclipfe do Sol , 
liuma quarta feira treze de Janeiro do anno 
de quinhentos e féis , huma hora depois 
de meio dia , que durou até as duas horas 
e meia ; e efeureceo tanta parte do Sol , 
que fe viram muitas eílrellas. E o outro fi- 
nal foi tremer a terra a quinze de Julho do 
anno feguinte per efpaço de huma hora com 
alguns intervallos , e tão rijamente 3 que fe 
houvera naquelle tempo os edifícios de pe- 
dra 5 e cal 5 que agora ha , fempre cahiriam 
muita parte delles. E fobre eílas couías não 
verem náos , não podiam diílimular a trif- i 
teza que por iífo tinham , o que era pelo í 
contrario nos Mouros ; porque eftes comoj 
o feu animo contra nós citava nas muitas, | 
ou poucas náos que de cá vão , andavam | 
todos mui contentes , principalmente EIRey; 
de Calecut, a quem não faleciam efperan-í 
ças de feiticeiros , que lhe promettêram gran-jj 
úq vidoria contra nós ; fe naquçjjç tempo; 

nos fi 



Década II. Liv. L Cap. IV. 5*5 

nos commetteíTe. Com as quaes promeflas, 
e ajudas dos Mouros , que também pro- 
gnoíticavam a feu propofito, ainda que do 
verão paíTado ficou mui quebrado com a 
viíloria , que D. Lourenço houve da fua 
Armada , tornou reformar outra contra as 
náos de Coulão , Gochij , Cananor , e ou- 
tros portos , que eftavam em noíTa amiza- 
de. Porque como ordinariamente em cada 
hum anno todos no verão navegavam fuás 
mercadorias deites lugares pêra os portos 
de lima té Cambaya , e os de lá té Cei- 
lão , e dahi perto da enleada de Bengala té 
Malaca , fegundo a neceflidade que cada 
hum tinha das coufas , parecia-lhe que pois 
não eram vindas náos , e gente do Reyno , 
que não oufaria o Vilb-Rey de apartar de 
íi a Armada , que lá tinha em favor das 
náos daquelles lugares que coílumava man- 
dar, e por efta caufa lhe ficava a elle Ça- 
morij a coita defpejada pêra feu intento. O 
Vifo-Rey , a quem parte deitas coufas per 
intelligencias de EÍP^ey de Cochij eram def- 
cubertas , por quebrar o animo ao Çamo- 
rij , moftrou neíte verão ter mais forças do 
que eile efperava , fazendo maior Armada 
na guarda das náos da coíla Malabar 5 e 
novamente outra em guarda de algumas náos , 
que de Cochij foram a Choromandel bus- 
car mantimentos 7 por ter fabido que náos 

de 



5*4 ÁSIA de João de Barros 

de Calecut as hiam lá efperar ; e também a 
comprar drogarias , que a hum porto de 
Choromandel eram chegadas em hum jun- 
co de Malaca , já com ordenança de cada 
anno vir alli , por não oufar lubir mais af- 
lima , temendo noíTas Armadas. Na qual Ar- 
mada foram duas galés , dons navios , e 
hum paráo , de que foi por Capitão mor 
Manuel Façanha , que era vindo da forta- 
leza de Anehediva, que o Vifo-Rey man- 
dou desfazer ; e peró que achou o junco 
de Malaca , tinha lá vendido fuás drogas 
a Mouros de Calecut , e cUes poílos em 
faívo ; e por levar regimento , que não fi- 
zeíle damno ao junco , tornou-fe a Cochij. 
E em guarda da coita Malabar fez outra 
Armada de dez velas 5 Capitão mor Dom 
Lourenço , c os outros Rodrigo Rabello , 
Filippc Rodrigues , Bermum Dias , Lucas 
d ? AíFonfeca , Antão Vaz , Gonçalo de Pai- 
va , Gonçalo Vaz de Góes , João Serrão , 
Diogo Pires , e Simão Martinz. Partido 
D. Lourenço , e em fua companhia as nãos 
de Cochij , paíTando per Cananor , ficou al- 
li Gonçalo Vaz tomando agua , e outras 
coufas de provisão ; e depois que as rece- 
beo , indo pela cofia em diante em bufea 
de D. Lourenço na paragem do monte De- 
li , achou huma náo de Cananor 5 a qual 
lhe aprefentou o feguro que trazia do Ca- 

pi- 



Década II. Liv. I. Cap. IV. 57 

pitão Lourenço de Brito pêra poder nave- 
gar , o qual feguro commummente acerca 
dos Mouros , e noflbs ao prefente fe cha- 
ma cartaz., E porque Gonçalo Vaz achou 
neila indícios ler de Calecut , e que o fe- 
guro fora havido fubrepticiamente , não lho 
quiz guardar , e metteo a náo no fundo 
com os Mouros que a navegavam ,■ todos 
cofeitos em huma vela por não haver me- 
moria delles. O qual feito depois cuílou 
muita guerra , que fe fez á fortaleza de Ca- 
nanor , como fe adiante verá ; 'e por iíío 
tirou o Vifo-Rey o navio a Gonçalo Vaz , 
poílo que dava por defculpa parecer-lhe o 
feguro fubrepticio. D. Lourenço , correndo 
a cofta , chegou tanto avante como o por- 
to de Chaul; e eftando furto de fora, ap- 
parecêram ao mar humas fete náos , as quaes 
iem terem conta com elle , como traziam 
vento , e maré , entraram pêra dentro do 
rio a furgir diante da Cidade. Quando Dom 
Lourenço vio a foberba delias , e que fo- 
mente não acudiram a certos tiros de pe- 
louro, que lhes mandou tirar em modo de 
falva , porque dentro do rio eftavam Dio- 
go Pires com a galé , e Simão Martinz com 
o bargantim , que elle mandara entrar em 
favor das náos de Cochij que lá eram, 
ajuntou todolos bateis mui bem armados, 
e foi-íè pelo rio aífima pêra haver falia dei- 
las, 



y6 ÁSIA de JoXo de Barros 

las , e o mais que clle pudeffc , pofto que ^ 
fegundo lhe dilferam alguns Mouros Pilo- 
tos , as náos não eram do eftreito de Me- 
ca , mas de Ormuz , que podiam trazer ca- 
vallos. Chegado D. Lourenço onde as náos 
diante da Cidade já citavam furtas , ajun- 
tou-fe a elle a galé , e bargantim , que tam- 
bém as tinham ialvado , e vendo os Mou- 
ros fua determinação , c a terra tão vizinha , 
foi o temor tamanho nelles , que começa- 
ram de fe acolher a cila ; mas D. Louren- 
ço lhes deo tamanha prefla 5 que primeiro 
que le acolheíTem a terra , a maior parte 
delies a ferro , e na agua pereceram. Ef- 
corchadas as náos de mui rica fazenda que 
traziam , parte da qual recolheram os na- 
vios pequenos que ficaram em baixo , come- 
çaram alguns Mouros mercadores de Chaul 
mover compra dos cavalios que as náos tra- 
ziam , que era a maior parte da fua carga. 
E porque andaram niíTo com manhas , e 
cautelas , anojado D. Lourenço dos feus mo- 
dos , mandou poer fogo ás náos , onde to- 
dos fe queimaram , que foi coufa de que 
fe elles mais efpantáram , ver que ante qui- 
zeram os noííos poer fogo a tudo , que o 
dinheiro que por dias davam ; o qual não 
era tão pouco que não pudera fazer cubi- 
ca a hum homem fem dia. Tornado Dom 
Lourenço á fua Armada, andou de fora téj 

que 



Década II. Liv. I. Cap. IV. 57 

que as náos de Cochij tomaram fua car- 
ga 5 as quaes elle foi acompanhando ; e an- 
te que chegafle a Dabul , veio ter com el- 
le Francifcq Pereira Capitão do navio Vi- 
iítoria , que ficara em Cochij acabando de 
fe fazer preftes pêra vir em fua companhia. 
O qual lhe deo conta 3 que fendo tanto avan- 
te , como os ilheos de San&a Maria , hou- 
vera vifta da Armada de Calecut , a qual 
trazia diante íi , e que fe eípantava como 
não topara com ella : que lhe parecia , pois 
elle D. Lourenço não houvera vifta de ta- 
manlia frota , feria por ella fe metter em 
algum rio. D. Lourenço por eftar certo el- 
la não paliar pcra íima , e que o tempo fer- 
via mais a elle que a ella , fufpeitou que fe 
metteria em Dabul , e com efta prefumpção 
mandou metter mais vela té que furgio na bo- 
ca do rio de Dabul , onde vieram a elle huns 
Mouros , dizendo que eram de Cochij , e 
vieram alli ter com duas náos fazer fua mer- 
cadoria , parecendo-lhe eítar toda a cofia 
limpa de Armadas com a fua em que clles 
confiavam ; mas depois de elle fer paíTado 
pêra íima entrara dentro hum Capitão do 
Çamorij com huma Armada 3 que lhe tinha 
tomado fuás náos ; e por elies ferem vaííal- 
los d 5 EJRey de Cochij, pediam a fua mer- 
cê que lhe tornaífe reílituir o feu. D. Lou- 
renço efpedindo os Mouros $ por fer já 

hum 



58 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

hum pouco tarde , com clperança que ao 
outro dia fe determinaria niíTo , té faber 
o eítado dos imigos , ou ver fe com a 
chegada delle faziam alguma mudança , tan- 
to que fe foram , poz logo em confelho 
o modo que teriam pcra o feguinte dia en- 
trarem a pelejar com efta Armada. Porém 
foi-lhe mui contrariado efte feu propofito , 
principalmente daquelles de cujo parecer feu 
pai lhe mandava que tomaífe a determina- 
ção de qualquer feito que houveíTe de com- 
metter , poendo-lhe diante o grande núme- 
ro de velas , e a eftreiteza do rio , e o fa- 
vor dos Mouros da Cidade j e mais não fa- 
berem fe em algum ardil dos mefmos Mou- 
ros pêra o acolherem dentro daquelle rio , 
de que ainda não tinha muita noticia. E 
também que aquellas náos , que os Mou- 
ros diziam ferem de Cochij , fe o foram ? 
vieram em fua companhia como as outras , 
e que elle não era obrigado dar ajuda , e 
favor em cafo tão perigofo , como a entra- 
da daquelle rio era , fenão áquelles que el- 
le trazia em fua guarda , e não a qualquer 
Mouro que lhe vieífe dizer : Sou vajjàl/o 
cPElRey de Cochij. Finalmente os que eram 
que elle não entraíTe , debateram tanto nif- 
fo , que chegaram a modo de requerimen- 
to por parte do ferviço d 5 E!Rey , a que os 
homens em cafos são mais obrigados que 

a fua 



Década II. Liv. I. Cap. IV. 5^ 

a,fua honra, com que D.Lourenço fe par- 
tio dalli bem agaftado. E fendo tanto avan- 
te como o rio chamado Zingaçar , que fera 
de Dabul quatro léguas contra Cochij , fo- 
ra já de hum temporal que lhe deo , e 
não da paixão que levava , o bargantirn , e 
hum paráo que hiam diante cofeitos com 
a terra por defcubridores , vendo que hu- 
ma náo , que eílava farta na boca do rio , 
picou a amarra , e fe metteo pêra dentro 
com temor delles , começaram feguir a náo 
polo rio affima obra de huma légua té ci- 
la ancorar ante huma povoação grande, 
poíla fobre o rio em hum tefo , ao longo 
da qual eílava huma caía grande , que pa- 
recia fervir de recolhimento de mercadorias 
pêra pagarem íeus direitos , com hum cães 
grande lavrado de cantaria que nobrecia a 
praça , derredor do qual, e per todo o rio 
havia muitas náos , e navios pequenos. Dom 
Lourenço , quando vio entrar o bargantirn , 
e paráo trás a náo , efpedio de íi Diogo 
Pires com a galé , o qual chegando ao cães 
favorecido com os outros , e diípoíiçao do 
lugar , temendo que fe tornaífe com recado , 
perdia a conjunção do tempo , e que baila- 
va por recado as bombardas lá que podiam 
ouvir , começaram todos três com effas que 
tinham defpejar a praça do cães de muitos 
Mouros, e Gentios que acudiram, e tanto 

fe 



6o ÁSIA de João de Barros 

fe chegaram ao cães , té fe fazerem fenho- 
res de algumas náos , que eftavam com a 
proa em terra, primeiro que D. Lourenço 
chegafle á força de remo chamado pela ar- 
tilheria. Com a chegada do qual fahíram 
todos em terra , e tomaram alguma fazen- 
da que acharam na cafa , e depois a entre- 
garam ao fogo , e aífi a todalas náos , e 
navios do porto , fomente duas mui grof- 
fas , e ricas de Ormuz , as quaes aífi intei- 
ras elle levou comíigo ; e comellas, c com 
as náos que levou em fua guarda , entrou 
em Cochii , cuidando fer bem recebido de 
feu pai por as viítorias que houvera. Peró 
como elle já tinha fabido o que paíTou em 
Dabui per hum navio que foi diante , cita- 
va tao indignado do filho, que nelle qui- 
mera executar hum grande caíligo , fenao 
fora certificado quanto elle D. Lourenço tra- 
balhou por pelejar, e que por obedecer ao 
confelho daquellcs que lhe dera por princi- 
paes coníelheiros , leixára de o fazer. O 
qual cafo elle houve por huma tao grande 
injúria , que fufpendeo os culpados de fuás 
capitanias , e os mandou a eíle Reyno ; e 
diífe , que mal fofle a morte que levava a 
Pêro da Nhaya , pois fora cauía de apartar 
da companhia de feu filho a Nuno Vaz Pe- 
reira ; porque fe elle fora prefente , não fo- 
ra então má o confelho. E porque alguns 

Fi- 



Década II. Liv. I. Cap. IV. 61 

Fidalgos , fallando por eftes Capitães 3 lhe 
diziam que elle os devia caftigar , e não 
mandar a efteReyno com tal infâmia dian- 
te d'ElRey , reípondeo , que elle tomava 
efte caio não por parte da honra de feu fi- 
lho 3 mas da bandeira das Armas cTElRey 
feu Senhor , e que per ventura Sua Alteza > 
como tinha mais perfedlo juizo , o tomaria 
per outra maneira : que elle não queria caf- 
tigar os feus Capitães fenão com as pe- 
nas que lhe elle déíle , porque em fuás Or- 
denações não achava pofto efte cafo pêra 
conforme a elle o caftigar. Do qual feito, 
em que elle houve que feu filho ficava com 
algum detrimento de fua honra , veio a lhe 
poer por precepto que no confelho de pe- 
lejar fernpre tomaíTe os votos de certos Ca- 
pitães , por lhe os ter por tão cavalleiros, 
que pêra commetter hum honrado feito, 
ainda que perigofo , não haviam de apre- 
fentar muitos inconvenientes por fegurança 
da vida. Do qual precepto , e aíli do deí- 
contentamento que D. Lourenço trazia de 
íl por efte cafo , mais eftranhado na boca 
de feu pai 5 que na opinião de muitos , veio 
elle depois perder a vida , como adiante fc 
verá. 



CA^ 



6z ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO V. 

Como Lourenço de Brito Capitão da for- 
taleza de Cananor foi cercado 5 no qual 
tempo paffou muito trabalho , té que foi 
foccorrido per Triftao da Cunha , com a 
chegada do qual Llliey de Cananor ajjen- 
tou com elles paz. 

POÍlo que os Mouros , que viviam em 
Cananor , tivefíeffl hum grande jugo 
fobre feu pelcoço na fortaleza que alli tí- 
nhamos , e cila dor jazia com grandes raí- 
zes dentro na ília alma , o temor lhe aba- 
tia a execução deíie ódio em quanto vi- 
veo o Rey Gentio da terra , com quem o 
Almirante D. Vafco da Gama , e depois o 
Vifo-Rey aííentáram a paz , e concórdia 
que fempre com cllc tivemos. Peró por el- 
■ le falecer nefte tempo , legundo fc difíe per 
azo dos Mouros 5 e fueceder outro , que 
favorecia fuás couías contra nós , ficaram 
elles tao foberbos , que logo os noffos fen- 
tíram eíle feu favor; e por não parecer que 
moviam guerra fem caufa , tomaram efta 
por fundamento. Em a náo , que Gonçalo 
Vaz de Góes metteo no fundo , (como ora 
vimos , ) hia hum Mouro fobrinho de Ma- 
male , hum dos mais ricos , e honrados que 
havia naquelle Malabar , o qual era mora- 
dor 



Década II. Liv. I. Cap. V- 63 

dor cm Cananor ; e parece que 5 rota a ve- 
la , em que Gonçalo Vaz mandou metter 
os Mouros que tomou , foram ter á coita 
de Cananor os feus corpos , entre os quaes 
foi conhecido pelos veftidos , e íinaes efte 
fobrinho de Mamale , e aíli alguns dos ou- 
tros. A qual coufa deo fufpeita da verdade , 
por haver tão pouco que a náo fahíra de 
Cananor , e Gonçalo Vaz quaíi na eíleira 
delia 5 que foi caufa de tanto pranto , e al- 
voroço entre os Mouros ,- que com aquelle 
ímpeto de dor fe foram a Lourenço de Bri- 
to , aqueixandò-fe deJle que os enganara 
com feu feguro , pois lho não guardavam , 
fem delíe quererem receber defculpa. E co- 
mo Mamale , além de perder o fobrinho , 
perdia muita fazenda , e ellc era o princi- 
pal que recebia o damno , ajuntou todas as 
partes offendidas , e foi-fe a EIRey de Ca- 
nanor , e affi clamaram jufíiça do cafo , que 
lhe concedeo tomarem fatisfação delle co- 
mo pudeffem. O qual Mamale tanto que 
teve efta licença d ? ElRey , carteou-fe logo 
com os Mouros de Calecut , os quaes fize- 
ram com o Çamorij que efcreveíTe a EIRey 
de Cananor J que moveíle guerra contra a 
noíTa fortaleza , porque elle o ajudaria a 
libertar de tamanha fujeiçao , ao que elle 
obedeceo : cá fegundo fe dizia na fuccef- 
sâo do Reyno pêra elle Rey de Cananor 

vir 



64 ÁSIA de João de Barros 

vir áquelle eftado , teve ajudas do Çamo- 
rij ; e por razão de lhe ler nefta divida , 
levemente obedeceo aíeu requerimento. Fi- 
nalmente o negocio íe travou de maneira y 
que quando D. Lourenço per alli paíTou , 
recolhendo-fe a invernar a Cochij , fabendo 
de Lourenço de Brito como a terra por 
aquelle cafo ficava meia alevantada , lhe lei- 
xou feffenta homens da Armada , e alguns 
mantimentos , e monições , temendo que 
com a vinda do inverno os Mouros a vicí- 
íèm commetter, como de feito aconteceo , 
porque te li foram humas encubertas , em 
que EIRey de Cananor fe não delcubrio 
de todo. Porém vendo Lourenço de Brito 
que o negocio chegava já a virem alguns 
Capitães d'ElRey deícubertamente com gen- 
te a lhe correr té as portas per Patamares , 
que são homens , que andam muito per ter- 
ra por razão do inverno , efereveo ao Vi- 
Íò-Rey o eftado em que eílava ; e que além 
diífo efperava que o Çamorij havia de man- 
dar todo feu poder em ajuda d'E!Rey de 
Cananor, fegundo tinha labido per alguns 
Gentios feus amigos , com quem tinha ami- 
zade , principalmente per hum fobrinho d'El- 
Rey que era o Principe , que por lua mor- 
te havia de fueceder no Reyno. Chegada 
efta carta a Cochij huma quinta Feira de 
Endoenças > citando aos Officios do dia, 

não 



Década II. Liv. I. Cap. V- 65: 

não deo o Vifo-Rey mais tempo que té fe 
acabarem , mandando logo com muita di- 
ligencia embarcar feu filho D. Lourenço com 
a mais limpa gente que alli eftava ; e elle 
Vifo-Rey per íi de cafa em cafa andou to- 
mando ás peíToas parte do mantimento que 
tinham pêra provisão da gente que manda- 
va, E foi tamanha a preífa por acudir a 
efta fortaleza de Cananor , que os Centú- 
rios , que andavam armados guardando o 
fepulchro , ( fegundo coíhime da noíTa Reli- 
gião Chriftã , ) ficaram em calças , e gibão , 
porque cada hum foi bufcar as armas qije 
tinham empreitadas ; e pofto que o tempo 
era mui forte pêra fe metterem no mar, 
todavia pode mais o animo dos noflbs , que 
a fúria que elle moftrava. Chegado Dom 
Lourenço com efta gente a Cananor , por- 
que levava per regimento que ficafle debai- 
xo do mandado de Lourenço .de Brito por 
honra de fua peílba 3 e nome de Capitão 
da fortaleza dadp por EIRey , nunca Lou- 
renço de Brito o quiz confentir, dizendo, 
que não havia elle de mandar o filho do 
Vifo-Rey da índia , e mais fendo elle per 
fua peflba tal Capitão , que merecia man- 
dar a todos , e ninguém mandar a elle. Fi- 
nalmente entre elles fe paflaram tantas cou- 
fas fobre hum querer dar honra a outro, 
que aífentou D, Lourenço de leixar toda 
Tom.II. P.L E aquei- 



66 ÁSIA de João de Barros 

aquella gente que levava pêra ficar com Lou- 
renço de Brito aquelle inverno , e elle tor- 
nou-fe pêra Cochij fó , pois ifto não trata- 
va mais que de íua peílba. Com a vinda 
da qual gente Lourenço de Brito mandou 
fazer huma tranqueira mui forte com hu- 
ma cava a maneira de barbacã além do mu- 
ro da fortaleza ; não tanto por fegurança 
delia , quanto por razão de hum poço de 
agua de que bebiam , que eftava dahi hum 
tiro de pedra, defronte do qual EIRcy de 
•Cananor tinha mandado fazer huma cava, 
que cortava de mar amar, leixando fomen- 
te huma paífagem mui cílrcita pêra os noí- 
fos terem ferventia do poço , tudo a fim de 
o defender. Aíli que cada hum per fua par- 
te trabalhava de fe aperceber , como em cou- 
fa que havia de durar todo o inverno , co- 
mo durou ; e o primeiro fangue que os nof- 
fos começaram verter naquelle cerco que 
lhe EIRey poz , que feria de vinte mil ho* 
mens , foi por tomar agua do poço , por- 
que Jogo os Mouros eram fobre elles por 
lha defender. E poílo que neftas fahidas não 
havia gota de agua que não cuftaífe duas 
de fangue , era tamanha a fede entre os nof- 
fos , que ante queriam á cufta delle fatisfa- 
zer a ella , que padecer tanta neceíhdade, 
á qual Deos lhe proveo com huma indus- 
tria deThomaz Fernandes meftrc das obras 

da 



Década II. Liv. I. Cap. V. 6y 

da fortaleza , ordenando huma mina per bai- 
xo da terra , que hia dar obra de huma 
braça abaixo da garganta do poço , e fo- 
lhado per íima de modo que a terra não 
cahiíTe na agua. Ao outro dia á vifta dos 
Mouros mandou Lourenço de Brito fahir 
muita gente de enxadas ; e moftrando que 
queriam tomar agua , rebateram toda a ter- 
ra de íima do poço fobre o folhado , como 
que arrunhavam o poço , e não queriam ter 
ufo de coufa que tanto langue lhe cuílava. 
Os Mouros vendo efte desfazer do poço, 
creram que os noflbs tinham novamente 
aberto outro dentro na fortaleza , e confir- 
maram efta prefumpçao porpaflarem muitos 
dias fem íahirem fora ; e por efte poço fer 
caufa da tranqueira , e cava que tinham fei- 
to junto delle j a qual obra já não lhes fer- 
via pêra aquelle effedlo , ante recebiam mui- 
to damno da noíía artilheria, que Lourenço 
de Brito tinha pofto na tranqueira 5 que man- 
dou fazer contra a fua ? levantaram dalli 
feu arraial pêra debaixo de hum palmar, e 
pouco , e pouco o desfizeram de todo , pa£ 
fando muitos dias fem virem travar com a 
fortaleza. Lourenço de Brito , por lhe pare- 
cer mais myfterio que temor , fem mais cau- 
fa levantarem o arraial , defejando haver al- 
guma linguado que paíFava entre os Mou- 
ros y íltandou huma manhã a fahir certo$ 

E ii ho** 



68 ÁSIA de João de Barros 

homens ; e tanto que vieíTem fobre elles , 
le recolheíFem hum pouco apreíTados per 
hum lugar, onde hum carpinteiro da forta- 
leza tinha armado hum cepo , per o qual 
modo Lourenço de Brito houve hum índio 
que cahio nellc. E pofto que particularmen- 
te não foube tudo o que deíejava , difle- 
llie , que a caula principal de levarem o 
cerco , era eftarem ordenando certos enge- 
nhos pêra trazerem humas balas grandes de 
algodão , e cairo , como amparo da gente , 
pêra hum grande combate que lhe haviam 
de dar: e que o officio defta primeira gen- 
te , que vieíTe detrás das balas , havia de 
fer trazer rama pêra entulhar a fua cava , 
e depois que foííe rafa , poer fogo á tran- 
queira , e nas coitas deites a gente de armas 
com eícadas efcalarem a fortaleza per toda 
parte. A qual nova confirmou hum recado 
íecreto , que de noite veio a Lourenço de 
Brito da parte do Principe de Cananor fo- 
brinho d ? ElRey , que procurava ganhar com 
benefícios noíTa amizade , pêra ter favor nof- 
fo em tempo de fuás neceíTidades. E entre 
alguns avifos que lhe mandou , foi, que em 
quanto o cerco não vinha , no tempo que 
elle Lourenço de Brito viíTe que melhor fe 
podia fazer , fahiíTe com gente , e decepaíTe 
quantas palmeiras pudefle , por fazer maior 
campo defronte da fortaleza , pêra que o 

ar- 



Década II. Liv. I. Cap. V. 69 

arraial da gente , que havia de fer muita , 
lhe ficaífe mais longe , com os quaes avifos 
também lhe mandou duas almadias de man- 
timentos. Lourenço de Brito quando vioef- 
tes dous foccorros do Príncipe , mais lhe 
pareceo virem da mão de Deo.s , que de 
hum homem tão conjunéto per parenteíco 
com EIRey ; e aífi como per mao deíle Gen- 
tio naquelle tempo o focorreo , aflí pelas 
fuás favorecidas delíe foram livres daquella 
vinda dos Mouros ; porque cortado o pal- 
mar , que o Príncipe mandou dizer, quan- 
do veio o dia do combate das balas , pofto 
que lhe deo muito trabalho , tudo foi em 
damno dos imigos ; e a caufa foi efta. Ven- 
do os Mouros miniftros deíla invenção , que 
no primeiro commettimento a nofla artilhe- 
ria embaçava nas balas , com que elles não 
recebiam damno , tomaram tamanha oufa- 
dia 5 que de alvoroçados começaram de fe 
defordenar , querendo quafí ás mãos vir ti- 
rar os páos da noíía tranqueira ; no meio 
da qual defordem com duas peças groífas y 
que Lourenço de Brito mandou mudar, aífi 
lhe acertaram a coftura das balas , que jun- 
tamente os corpos dos imigos 5 e o algodão 
delias hia pelo ar. E fobre efla obra da nof- 
íà artilheria fahio Lourenço de Brito s que 
acabou de confumar a vi&oria , matando , 
e ferindo nelles té que os fez virar as coi- 
tas, 



7<3 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

tas , trabalhando cada hum por falvar a vi- 
da, e ficando a cava entulhada mais dos cor- 
pos delles , que dos feixes da lenha que 
traziam pêra iflb. Havida eíta vi floria , e 
os Mouros portos debaixo do palmar em 
modo de cerco , afíbmbrava-fe ainda Lou- 
renço de Brito tanto com elles , que deter- 
minou de os lançar dalli , e ordenou de dar 
no arraial huma noite de efcuro ' 9 e chuva , 
por faber que os Mouros , e Gentios neíte 
tempo são mui covardos ; a capitania da 
qual fahida deo ao Alcaide mor Guadalaja- 
ra , por fer o inventor deita ida , com o 
qual foram té oitenta homens , em que en- 
traram os principaes que alli eftavam , no 
qual commettimento íe fez hum mui hon- 
rado feito. Porque como neíte tempo a gen- 
te citava defcuidada , c por razão da chuva 
toda emrofcada , e encolheita em frio , e 
fono , tanto que os noflbs com huma grita 
deram no arraial , começaram as camarás da 
artilheria fazer huma trovoada , e a fuzilar 
de maneira , que tudo juntamente não pare- 
cia coufa de homens , fenão que o Ceo 
chovia fogo , agua , ferro 5 fangue , e final- 
mente morte de mais de trezentos dos imi- 
gos que alli pereceram. Tornados os noflbs 
a fc recolher, trouxeram por dcfpojo certas 
peças de artilheria de ferro, e algum man- 
que âiies trabalhavam por haver 

po- 



Década II. Liv. I. Cap. V- 71 

pola grande neceffídade que tinham deile, 
o qual lhe N. Senhor trouxe ás mãos , co- 
mo remédio do perigo em que depois fe 
viram por caufa de perder boa parte do 
que tinham na fortaleza. Porque per defcui- 
do de hum homem do Feitor Lopo Cabrei- 
ra , que leixou huma candea na Feitoria de 
fora da fortaleza, onde os moradores tinham 
fuás cafas palhaças, arderam todas de noi- 
te , em que fe perderam quantos mantimen- 
tos eílavam nellas , que fentíram mais que 
toda a outra fazenda. A qual coufa poílo 
que Lourenço de Brito trabalhou por encu- 
brir, dando a entender que todolos manti- 
mentos eílavam dentro na fortaleza em as 
cafas do armazém delles , todavia no aper- 
tar da ração que fe dava a cada hum , fe 
Começou logo a fentir , principalmente ácfcf- 
ca dosefcravos das partes, alguns dos quaes 
com fome fugiram pêra os Mouros , dan- 
do nova no eftado em que a fortaleza fica- 
va. Os quaes Mouros , parecendo-lhes que 
per efte modo podiam travar com os nof- 
fos , lançáram-lhes algumas vacas diante no 
palmar , e fobre elles cilada , parecendo-lhes 
o que foi, fahirem os noíTos a ellas ; peró 
não fuccedeo como os Mouros efperavam , 
porque a fome , poílo que diminuifle em os 
membros , dobrava as forças do animo , com 
que a pezar delles as vacas foram recolhi- 
das 



72 ÁSIA de JoXo de Barros 

das aquella , e outra vez ; e de lhe fucce- 
der mal 5 não ufáram os Mouros mais deite 
ardil , por não darem de comer aos noflbs 5 
que lhe a elles bem pezou. Com que vieram 
a tanta eítreiteza de fome , que não ficou 
na fortaleza cão , gato , e ratos , que tudo 
não fofle mahtimento de maneira 3 que a 
gente commum aííi com fome , como tra- 
balho dos combates que tiveram ., e vigias 
de noite , quafi toda jazia doente. Mas Nof- 
fa Senhora , a quem os noflbs fe hiam en- 
commendar na Ermida fua da vocação da 
Vi&oria , que D. Lourenço fez na ponta 
da terra 3 a quinze de Agoílo , em que a 
Igreja celebra a Feita da fua Aflumpção , 
obrou com elles fuás mifericordias com eíte 
eíFeíto mais milagrofo , que natural. Alc- 
vantou-fe o mar em fúria , e cada vez que 
o rolo delie defcarregava na terra da pon- 
ta 5 onde eítava eíla fua Ermida ? lançava 
dentro grande número de lagoílas , que os 
noflbs houveram por manná enviado do j 
Ceo ; porque não fomente aos sãos 5 mas 
aos doentes deram vida ; e foi tanta a có- 
pia , que tiveram nellas huns dias que co- 
mer. E verdadeiramente fègundo o trabalho 
logo fuccedeo, fe N. Senhor lhe não acu-j 
dia com eíte adjutorio, e aífi o Principe dei 
Cananor do que feu tio ordenava pêra os 
commetter > fem dúvida a fortaleza fora en- : 

tra- ! 



Década II. Liv. I. Cap. V. 73 

trada. Porque como já no mez (PAgoíto, 1 
que naquella coita he princípio de verão , 
o mar de algum modo fe pudeíTe navegar; 
vendo EiRey de Cananor que per os com- 
bates da terra já tinha experiência do da- 
mno que recebia , e que as noílas náos po- 
diam ler mui cedo na índia , ante que che- 
gaílem , ordenou commetter a fortaleza pe- 
la ponta que diííemos eílar torneada domar, 
não fomente com barcos , e catures , que po- 
diam tomar terra pêra os homens faltarem 
na agua 5 mas ainda com ou{ra invenção de 
caítellos , como os que o Çamorij levou á 
guerra de Cochij , quando Duarte Pacheco 
pelejou com elle , a qual foi ordenada pe- 
los Mouros de Calecut. E porque no dia 
deite combate ? que havia de fer per terra , 
e per mar ? fe havia mifter muita gente , do- 
brou o Çamorij a que tinha enviado a Ei- 
Rey de Cananor de maneira , que fe ajun- 
taram paíTante de íincoenta mil homens. 
Lourenço de Brito como era defte cafo avi- 
fado pelo Príncipe , e que os Mouros toda 
fua confiança punham na parte domar, por 
eílar a fortaleza per ella com menos defen- 
são 3 pola fegurança que té aqueíle tempo 
tiveram com a fúria do mar não dar jazeda 
a ferem per alli commettidos , neíla parte 
poz a maior defensão , aífi de artilheria , co- 
mo de gente > e porém não fe anticipou 

tan- 



74 ÁSIA de João de Barros 

tanto neílcs repairos que fez , pêra que os 
Mouros viíTem que citava elle previfto do 
cafo. Finalmente vindo o dia 5 tiveram os 
Mouros ainda hum modo de ardil no dar 
efte combate , e foi ante manhã commette- 
rem a fortaleza pela parte da terra , pêra 
que acudiílem todolos noíTos a ella , .e en- 
tretanto veio o corpo da frota demandar o 
feu lugar , parcccndo-lhe que o havia de 
achar defemparado , a qual feria de mais 
de duzentos barcos de remo de toda forte > 
muita parte delles ordenados em jangadas 
pêra trazerem mais corpo de gente , e en- 
tre elles traziam duas daquellas máquinas , 
em que viriam cento e fmcoenta homens. 
Peró como Lourenço de Brito a tudo cita- 
va provido 5 pofto que o dia foi de grande 
trabalho , e o combate durou té a tarde , 
aprouve a Deos que todo aquelle grande 
apparato , c eítrondo que os Mouros tra- 
ziam 5 fe tornou em feu damno ; porque pe- 
la parte da terra , ainda que vieram pelejar 
com os noíTos a mão tenente , querendo 
fubir per as tranqueiras , foi tanta a mão 
decepada delles que alli ficou , e tantos cor- 
pos efpedaçados da artilheria , que fez ar- 
redar os trazeiros. E fe eftes receberam da- 
mno , muito maior foi o que levaram os 
do mar : cá nefta parte eítava aiTeítada a 
nofla artilheria mais groíla , e não havia ti- 
ro 



Década II. Liv. I. Cap. V. 75* 

to fem arrombar paráos , fem eípedaçar cor-» 
pos ? de maneira que tiveram os peixes por 
huns dias huma boa cea nelJes 5 e os noflbs 
bem de lenha que queimar dos paráos , e 
máquinas 3 que o mar depois com a maré 
lançou á cofta. Com o qual eftrago os pri- 
meiros que fe arredaram do combate 5 fo- 
ram eftes do mar i que deo caufa a que Lou- 
renço de Brito paílafle a maior parte da 
gente , que aqui tinham , ao outro combate 
da terra , onde acabou de confumar a vidio- 
ria , a qual ainda que foi com fangue dos 
noffos , aprouve a Deos que por fer mais 
gíoriofa y não houve algum que morreíTe 
nella. E por memoria de fuás pefíbas ? di- 
remos os nomes de alguns principaes , .que 
vieram -á nofla noticia: Francifco Pantoja, 
Jorge Façanha , e Álvaro Paçanha irmãos , 
Fernão Peres d'Andrade, e Simão d'Andra-* 
de irmãos , Ruy Pereira 3 Ruy de Sampayo , 
Álvaro de Brito , Jorge Fogaça , Francifco 
de Miranda 3 Diogo Pereira, Pêro Fernan- 
des Tinoco 5 Francifco Serrão , Gonçalo 
Vaz de Góes , João Gomes Cheiradinhei- 
ro 5 António Rapofo. Os quaes não fomen- 
te neíle dia , mas em todo o cerco , que 
durou mais de quatro mezes , padeceram 
muita fome , fede, vigias, e muitos com- 
bates , e outros trabalhos , que os cercos 
tão apertados , e fem foccorro tem , ma s 

ain- 



jG ÁSIA de JoXo de Barros 

ainda verteram muito fangue ; e aprouve a 
Dços que efte dia foi o ultimo defte traba- 
lho , porque dahi a poucos, que foram a 
vinte e fete d 5 Agofto , chegou Triftão da 
Cunha. Com a vinda do qual EIRey de 
Cananor aflentou paz mui favorável a nós , 
que lhe Lourenço de Brito , e elle acceptá- 
ram , a condição de a confirmar o Vifo- 
Rey , a qual confirmou tanto que Triftão 
da Cunha chegou a Cochij 5 onde foi rece- 
bido com grande honra ília > e prazer de 
todos. 

CAPITULO VI. 

Como o Vifo-Rey , e Triflao da Cunha 
ãejlruiram hum lugar d^ElRey de Calecut 
chamado Panane ; e partido elle Triftão da 
Cunha pêra efte Reyno , achou em Moçam- 
bique parte da Armada , que de cá partio 
o anno de fete : e de algumas coufas , que 
aconteceram aos Capitães delia y em que fe 
perdeo Vafco Gomes d? Abreu. 

OVifo-Rey D. Francifco d 5 Almeida , co- 
mo eftava provido das coufas necefia- 
rias pêra a carga daquellas náos , que efpe- 
rou o anno paliado 5 e não paliaram á ín- 
dia , (por as caufas que eferevemos , ) e fo- 
bre efte apercebimento tinha feito outro pê- 
ra as náos defte anno de fete , que também 
não paliaram , como veremos > ficáram-lhe 

as 



Década II. Liv. T. Cap. VI. 77 

as coufas da carga tão fobrepoítas ? que em 
breve tempo a deo a Triftão da Cunha. A 
maior detença que houve , foi em dar pen- 
dor a algumas náos , no qual tempo elle 
alTentou comTriftão da Cunha que de paf- 
fada , quando fe viefle , viria em fua com- 
panhia , e dariam em Panane j hum lugar 
d'EÍRey de Calecut, por ter nova que na- 
quelle porto carregavam algumas náos de 
Mouros , em guarda das quaes eítavam qua- 
tro Capitães do Çamorij ? de que o princi- 
pal era hum Mouro homem de lua peíTòa 
per nome Cutiáile. O qual Çamorij tinha 
fortalecido o lugar com muita artilheria y 
gente , e grandes monições de guerra , por 
íêr huma camará , onde elle mandava que fe 
fizefle a carga das náos dos Mouros , que 
tratavam no feu Reyno : cá efte porto era 
hum rio j onde podiam receber algum am- 
paro das noíías Armadas de Cochij. Aper- 
cebidos Triftão da Cunha com as náos da 
carga , e o Vifo-Rey com as veias da Ar- 
mada da cofta , chegaram a efte lugar de 
Panane huma tarde vinte e três d 5 Od:ubro y 
o qual lugar fera a baixo de Calecut con- 
tra Cochij quatorze léguas. Os Mouros co- 
mo eítavam efperando efta vinda , e a eífe 
fim tinham feito na entrada da barra do rio 
de cada parte huma força á maneira de ba- 
luartes com artilheria > e em fima no lugar 

to- 



78 ÁSIA de João de Barros 

toda a fronteria delie com outra tal defen- 
são ; vendo tamanho poder de náos , e na- 
vios furtos na barra y como gente que efpe- 
rava defender o feu , além dos repairos que 
tinham feito , toda aquella noite ante da ma- 
nha , em que efperavam ferem commetti- 
dos , gaitaram em dobrar outros repairos ; e 
per derradeiro , por fe animarem todos , fo- 
ram-íè os principaes a huma mefquita a fa- 
zer folcmne voto de morrerem todos em 
defensão do lugar. O Vifo-Rey , e Triftão 
da Cunha furtos na entrada da barra , e vií- 
to o modo , e defensão de léus baluartes , 
ordenaram que três caravellas folfem diante 
com toda agente quepudelTem abatida por 
caufa da artilheria dos baluartes ao tempo 
que a maré fubiíTe , c entre ellas por ampa- 
ro os bateis de todalas náos , cada Capitão 
em o feu, e feus filhos na fahida em terra 
com eítes bateis levaífem a honra da dian- 
teira ; os Capitães que andavam na índia , 
acompanhaífem a D. Lourenço ; e os que 
vinham pêra efte Reyno , a Nuno da Cu- 
nha 3 e elles Vifo-Rey , e Trilião da Cunha 
na trazeira em a galé de Diogo Pires. Quan- 
do veio ao outro dia pela manhã , começa- 
ram abocar o rio , onde eftavam as eílancias 
que todos receavam , foi maior a grita que 
deram ao paíTar dos baluartes , que o da- 
mno da fua artilheria ; porque aprouve a 

Deos 



Década II. Liv. I. Cap. VI. 79 

Deos que o lugar delles era foberbo fobre 
a barra , e ella aíTeftada mais pêra náos de 
alto bordo , que bateis , e caravellas rafas 5 
com que os noílbs paliaram per baixo dos 
pelouros , que hiam aíTobiando per fim a. Os 
dous Capitães , que levavam a dianteira quaíí 
em modo de competência a quem primei- 
ro tomaria a tranqueira do lugar, cada hum 
por íua parte aíli trabalhou , que ambos pa- 
reciam levarem defordem no remar * peró 
quando veio ao commetter , aíli o fizeram 
com tento, que ambos a feu tempo, com 
animo , e ordem deram nos Mouros. A 
maior parte dos quaes , como gente offere- 
cida á morte , não fe contentaram efperar 
os noílos detrás das tranqueiras que tinham 
feito , mas vindo á praia , mettiam-fe na agua , 
e dentro nos bateis queriam pelejar com el- 
les de maneira , que aquella primeira che- 
gada, eíle foi o maior pejo que os noífos 
tiveram ; porque como apinhoados em os 
bateis , e não podiam ajudar-fe das armas 
á fua vontade , e os Mouros andavam leves 
naquella agua , detiveram-fe hum bom pe- 
daço fem tomar terra , té que fizeram outro 
tanto como os Mouros, faltarem na agua, 
onde logo dos noífos foram mortos três , 
de que o principal era hum Cavalleiro per 
nome Gil Cafado. Na qual detença , quando 
D. Lourenço chegou á tranqueira , já achou 

mui- 



8o ÁSIA de João de Barros 

muitos homens ante íi ás lançadas com os 
Mouros , onde houve huma mui crua con- 
tenda ? huns por fubir , e outros por defen- 
der a fubida ; e entre o fangue , e fúria de 
que todos andavam cubertos , era tamanha 
a fumaça da artilhem ? que fe não viam 
huns aos outros , no qual tempo andavam 
já todos de envolta , aíTi os que vinham com 
o Vifo-Rey , e Triílao da Cunha , como os 
que foram diante com feus filhos. E os pri- 
meiros que fe viram em lima daquella tran- 
queira tao defendida , foram : Pêro Barreto , 
Payo de Soufa , Rodrigo Rabello , Gonça- 
lo de Paiva , e Pêro Cam , que fez fubir 
em lima o guião de D. Lourenço. O Vifo- 
Rey quando vio cite guião de leu filho em 
lima , e elle em baixo hum pouco embara- 
çado no fubir , porque o pejavam as ar- 
mas , da galé donde eílava com Trilião da 
Cunha , começou a bradar 5 dizendo : Ah 
D. Lourenço 5 que preguiça he cjfa ? Ao 
que elle confiadamente refpondeo : Dou lu- 
gar a quem me ganhou a honra da dian- 
teira. Trilião da Cunha , porque também 
vio o filho na preza , em que D. Lourenço 
eftava , difle-lhe : Ah Senhor D. Lourenço , 
peço-vos muito por mercê que me vades crif- 
mar ejjè cachopo Nuno áquella mefquita , : 
onde fe recolhe aquelle pegulhal de Mou- 
ros , que hoje efpero em Deos que feja fan- 
ai- i 



Década II. Liv. I. Cap. VI. 81 

Hificada com ejia bandeira de Chrijio , que 
iremos arvorar nofeu Altar. Nuno da Cu- 
nha quando ouvio a encommendaçao de íeu 
pai 3 como quem obedecia 3 ajuntou-fe á 
ilharga de D. Lourenço ; e obraram eílas 
palavras de léus pais tanto nelles , que logo 
no feu rofto foram ambos fangrados cada 
hum com fua ferida ; e a que houve D. Lou- 
renço , foi em hum feito de fua pefíba mui 
honrado , que lhe aconteceo com hum Mou- 
ro , que era dos quatro Capitães ordenados 
pêra a defensão daquelle lugar. O qual, 
quafi como homem offerecido a morrer , 
poz os olhos em D. Lourenço , e entenden- 
do fer principal peifoa , cuberto com fua 
adarga meio curvo remetteo ás pernas polo 
decepar. D. Lourenço como era hum dos 
maiores homens que então havia neíle Rey-* 
no , achando o Mouro mettido debaixo de 
fi , fez dous paflbs atrás , e defceo com hu- 
ma faca de ambalas mãos , de que eíle u fa- 
va, de tal vontade, quefendeo o Mouro té 
os peitos , que foi hum dos maiores golpes 
que fevio , fendo o Mouro homem de boa 
eftatura , e envolto em carnes ; e ou que elle 
com a força , quando defceo com a faca , 
ou que o Mouro o tomou per aquelle lu- 
gar, elle recebeo no collo do braço huma 
ferida de aíTás perigo: cá por fer lugar de 
nervos , e muitas veas , vafava muito fan- 
tow. II. P. L F gue. 



%2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

gue. A nofla gente começando a fentir a vi- 
étoria com o rerraer dos Mouros , não lhe 
davam efpaço a fe amparar : elles por cum- 
prir feu voto , e juramento y vendo que o 
Gentio da terra , e aíTi alguma gente civil 
os defamparava , como gente conftante , fem 
mudar pó juntos em huma praça ante que 
chegaíTcm á meíquita de baixo do ferro dos 
uoflbs, ficaram alli todos mortos, e alguns 
delles em fuâ companhia. Nefte tempo , por- 
que affi no mar , como na terra a gente fof- 
íe igual no trabalho , mandou o Vifo-Rey 
a alguns Capitães das caravelas 5 que foi- 
fem commetter as náos dos Mouros , e ou- 
tros .navios que eílavam em eftaleiro , e lhe 
puzeííem fogo , no qual feito elles tiveram 
tanto perigo como os da terra , porque as 
náos também eftavam cheias de gente , que 
as defendia , em quanto viram qi:e os feus 
em terra não eram entrados de todo. Porém 
como a victoria começou de acompanhar 
os noíTos , afli os imigos do mar , como dâ 
terra íe puzeram em fugida ; e alguns cui- 
dando que íe podiam falvar na mefquita , 
acabaram nella , e aífí era rezao que no lu- 
gar onde tinham perdido as almas , deíTem 
íepuitura aos corpos. O número dos quaes ; 
entre eftes , e os que morreram na praia 
paliaram de quinhentos , e dos noíTos dez- 
'oito j mas riao foi peflba notável > e feridos 

mais 



Década II. Liv. I. Cap. VI. 83 

mais de feffenta , de que os principaes eram , 
Pêro Barreto , Payo de Soufa , Fernão Pe- 
res d' Andrade , Jorge Fogaça. E o damno 
que o Çamorij mais fentio , (peró que aqui 
morreflem todolos Capitães , e muitas pef- 
foas notáveis , ) foi a perdida do lugar j e 
náos , que alii eftavam carregadas de muita 
fazenda , que alcançou a muitos , porque o 
fogo tudo coníumio. E o de que os Mou- 
ros mais fe maravilharam foi , havendo alli 
tanta fazenda , não fazer cubica áquelles 
Capitães , e mandarem queimar tudo íèm 
tomarem mais defpojo , que a artilheria. 
Acabado efte feito , que foi hum dos hon- 
rados que fe commetteo naquellas partes , 
e fe fizeram alguns Cavalleiros pelos méri- 
tos que nelle tiveram , tornou-iè o Vifo~ 
Rey com Triftâo da Cunha a Cananor 3. 
lhe dar a carga de gengivre , que ainda não 
tinha tomada , e em dez de Dezembro fe 
fez Trilião da Cunha á vela pêra efte Rey- 
no , paliando per Quiloa , onde leixou a 
11* I Pêro Ferreira certos deípachos , que lhe hou- 
3,1 ve do Vifo-Rey em favor dos negócios, 
r que eram paífados entre elle , e Nuno Vaz 
ri Pereira. Chegado a Moçambique a nove de 
■â Janeiro' do anno de- quinhentos e oito, 
lia, achou parte da Armada , que o anno pal- 
iei- fado de fete partio defte Reyno ; e toman- 
ito do aqui agua ? e lenha ; partip-fe coiii três 
ais . F ii vé* 



84 ÁSIA de J0X0 de Barros 

velas fomente que com elle vinham ; e as 
outras que eram o feu navio , Capitão João 
da Veiga , e Job Queimado , partiram de- 
pois , por chegarem fendo elle já partido. 
E porque a náo Leitoa a velha Capitão Lio- 
hel Coutinho , que vinha na conferva deitas 
duas velas 5 ahrio algumas aguas , com que 
não podia paflar , baldeou-íè a fua carga 
em a náo Sandto António , Capitão Henri- 
que Nunes de Leão , que alli eítava inver- 
nando com os outros Capitães ? qiie de cá 
partiram o anno de fetc , como logo vere- 
mos , e Lionel Coutinho veio por pafTagei- 
to com Henrique Nunes. E poíto que to- 
dos vieram a cite Reyno a falvamento , foi 
com aífás trabalho dos que vinham com 
Triítao da Cunha , porque fe metteo na 
coita de Guiné , onde lhe morreo muita 
gente de doença ; e Job Queimado por ar- 
ribar a Moçambique , quando tornou aquel- 
le anno , como vinha íò , foi roubado dos 
Francezes. Quanto ás náos que acharam em 
Moçambique , eram parte de onze velas que 
o anno de fete partiram deite Reyno , íete 
pêra a carga da efpeciaria repartida em três 
capitanias mores , de que eítes eram os Ca- 
pitães : Jorge de Mello Pereira filho de 
Vafco Martins de Mello Alcaide mor da 
Cabeça de Vide , e com elle Henrique Nu- 
nes de Leão , que tornou com carga da Lei- 
toa , 



Década IL Liv. I. Cap. VI. 8? 

toa, e Fernão Soares filho de Gil de Car- 
valho era o outro*, e debaixo de fua ban- 
deira Ruy da Cunha , e Gonçalo Carneiro , 
e o outro Capitão mor era Filíppe de Caf- 
tro filho de Álvaro de Caftro , e com elle 
feu irmão Jorge de Caftro. Partidos eftes Ca- 
pitães, depois delles a vinte d 5 Abril partio 
Vafco Gomes d' Abreu filho de Antão Go- 
mes d 5 Abreu , o qual EIRey mandava por 
Capitão a Sofala com finco velas pêra guar- 
da de toda aquella cofta té Melinde ; e os 
Capitães que haviam de andar naquelles na- 
vios da Armada , eram : Lopo Cabreira , 
Pêro Lourenço , Ruy Gonçalves , e João 
Chanoca. E levou mais em fua companhia 
dous navios , Capitães Martim Coelho filho 
de Gonçalo Coelho , e Diogo de Mello fi- 
lho de João de Mello , os quaes hiam or- 
denados pêra andarem de Armada com Af- 
íbnfo d 5 Alboquerque na cofta da Arábia. 
E provêo EIRey a Vafco Gomes defta ca- 
pitania por falecimento de Pêro da Nhaya , 
por elle lhe dizer como era falecido , fem 
faber que o Vifo-Rey D. Francifco tinha 
provido delia a Nuno Vaz Pereira : cá fe- 
gundo a qualidade da peííoa de Nuno Vaz , 
e ferviços que tinha feito , e quanto traba- 
lhou em aíTentarem as coufas de Quiloa , 
e Çofala , que andavam em revolta acerca 
do íucceder na fortaleza deCofala., e titulo 

d'£l- 



26 ÁSIA de JòXo de Barros 

d'ElRey de Quiloa , per ventura nem ellc 
Vafco Gomes , nem Nuno Vaz morreram 
cada hum per feu modo , como adiante íe 
verá. Partido ellc Vafco Gomes , fendo tan- 
to avante como o rio Sanagá , por má na- 
vegação , perdeo-fc de noite o navio de 
JoaoChanoca, levando elle o farol; e quiz 
Deos que a cerração era tamanha i que não 
havia atinar a farol , porque também os ou- 
tros fe perderam com elle. E a gente defta 
caravela foi ter roubada dos Negros ao Ca- 
bo-verde na angra Bezeguiche , onde Vaf- 
co Gomes cftava , e partido dalli 5 chegou 
a Çofala a oito de Setembro , e entregue da 
fortaleza , Nuno Vaz Pereira que eftava por 
Capitão 5 metteo-fe em o navio de Martim 
Coelho té Moçambique , e nefte caminho 
toparam com Jorge de Mello , que andava 
entre aquellas Ilhas bem trabalhado com 
máo tempo , e todos alli andaram , ( como 
dizem , ) ás redes té que a vinte de Setem- 
bro entraram todos em Moçambique , Mar- 
tim Coelho , e Diogo de Mello com Jorge 
de Mello , fem ainda lá ferem Fernão Soa- 
res , -e Filippe de Caftro. E depois que to- 
dos fe ajuntaram , vifto como não podiam 
paiTar ainda , porque em a náo de Jorge 
de Mello hia Duarte de Mello filho de Pê- 
ro de Mello Forca, o qual EIRcy manda- 
va por Capitão 3 e Feitor com Ruy Varella 

feu 



Década II. Liv. I. Cap. VI. %7 

feu moço da Camará por Efcrivão , e ou- 
tros Officiaes pêra eílarem alli-em Moçam- 
bique 5 e que fizeíTem huma fortaleza com 
caías pêra recolhimento da gente ; ordena- 
ram os Capitães de todas aquellas náos gai- 
tar o tempo 3 que alli haviam de invernar , 
em fazer eílaobra. Com a qual fizeram tam- 
bém huma Igreja da vocação de S. Gabriel 
com huma cafa grande em modo deHofpi- 
talpera agazalhar os doentes ., que ordinaria- 
mente havia no tempo que as náos alli in- 
vernáram. E porque na índia faria grande 
confusão não panar nenhuma náo aquelle 
anno , confultáram de mandar com recado 
ao Vilb-Rey a Ruy Soares Commendador 
de Rodes , que alli ficara da Armada de 
Triftão da Cunha , efperando pelo navio de 
Pêro Quareíma pêra fe ir nelle , andar com 
Affonfo d'Alboquerque , como EIRey man- 
dava , a qual viagem elle acceptou , peró 
que foíle de muito riíco , porque além de 
fer ferviço d'E!Rey , era elle da creaçao do 
Prior do Crato D. Diogo d' Almeida irmão 
do Vifo-Rey D. Francifco , e folgou de fe 
ir pêra elle. O qual fendo pouco mais de 
vinte léguas de Moçambique , topou a náo 
Saneia Maria das Virtudes Capitão João 
Gomes d 5 Abreu , que como vimos , fe apar- 
tou de Triftão da Cunha na coita da Ilha 
S. Lourenço j e o que então Ruy Soares 

fou- 



$8 ÁSIA de João de Barros 

foube dos que hiam em a náo , foi irem 
ter ao porto de Matatána , e como João 
Gomes por caufa de íe ir ver com EIRey , 
de que teve recado , entrara dentro per hum 
rio em o batel da náo. No qual tempo fo- 
breveio tão grande temporal , que o rio fe 
cerrou ; e vendo que aos quatro dias não 
tinha nova de João Gomes , e o tempo os 
não lekava efperar , fe partiram a Deos mi- 
fericordia fem Piloto , por elle fer ido com 
João Gomes. Porém depois fe foube que 
João Gomes morreo entre nojo , e enfer- 
midade em cafa do Senhor de Matatána ; 
porque o Piloto , e outros que foram com 
elle , vendo-o morto > concertaram o batel y 
e com aíílís perigo , e trabalho vieram ter 
a Moçambique. Ruy Soares , como hia ro- 
ta abatida , com o recado que levava , fez 
feu caminho , entregando a capitania da náo 
a Jorge Botelho de Pombal , que levava no 
feu navio , e aíli lhe deo Piloto ; mas ainda 
a fortuna delia não acabou aqui i mas em 
huma Angra , onde fe metteo junto de Pa- 
tê, fendo já em companhia delia outra ca- 
ravella, Capitão Manuel Alvares moço da 
Camará d 5 EiRey , que eftava em Mclinde , 
em que a gente da náo fe falvou. Partido 
Ruy Soares , que chegou á índia como ve- 
remos 5 tanto que o tempo deo lugar á fro- 
ta que invernava em Moçambique $ partio , 

e deo- 



Década II. Liv. I. Cap. VI. 89 

e deo-lhe Deos melhor viagem té chegarem 
á índia , do que teve Vafco Gomes d ? A- 
breu em huma que quiz fazer depois , que 
aflentou as couías de Çofala. A qual via- 
gem ; fegundo elle denunciou em fahindo 
de Çofala , era querer dar huma vifta ás 
obras de Moçambique , e correr aquella 
cofta 5 como lhe EIRey mandava ; mas al- 
guns quizeram dizer que leu propofito com 
aquelles navios era ir defcubrir o cravo , 
e gengivre da Ilha de S. Lourenço , que lá 
levou a Trilião da Cunha , por andar efta 
fama na boca dos Mouros , e opinião dos 
noflòs , com defejo de cada hum fer o pri- 
meiro ; peró ante de chegar a Moçambi- 
que fe perdeo com todos quatro navios 
íem fe íaber o como 3 fomente haver pre- 
fumpçao que foçobráram com hum tempo , 
que ás vezes curfa neíla paragem , aífi na 
terra, como no mar, o qual paíTa com ta- 
tamanha fúria , (fegundo os Mouros di- 
zem , ) que leva huma corda fem lhe ficar 
arvore , nem coufa em pé , e tudo vai fo- 
çobrar no mar 5 e como fe houve que era 
perdido , ficou por Capitão de Çofala Ruy 
de Brito Patalim , que fervia de Alcaide 
mor, e elle leixára em feu Jugar. E fe os 
clamores dajuíliça, que cada hum pede do 
mal que recebe , ante Deos são ouvidos , 
aífi dos infiéis , como dos Cathclicos 5 peró 

que 



5?o ÁSIA de João d.e Barros 

que os feus juizos a nós são occultos, pa- 
rece que fe ouviram os de Soleimam , que 
Pêro da Nhaya , como atrás fica , per mor- 
te de feu pai tinha feito Governador da ter- 
ra por os Jerviços que fez a fortaleza. O 
qual fendo também favorecido dos outros 
Capitães , dizem que fem deméritos feus 
Valco Gomes o tirou daquclle governo , e 
proveo a hum feu irmão ; e não fomente 
perdeo eíla honra que tinha , mas ainda foi 
defterrado com alguns Mouros principaes 
da terra de íua valia, com fama que eram 
prejudiciaes á fortaleza 5 parte dos quaes 
foram viver a Melinde , e outros per toda 
efta cofta , e todos acabaram no eftado , em 
que vivem os deílerrados. 



DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO II. 

Dos Feitos j que os Portuguezes fize- 
ram no defcubrimento y e conquifta 
dos mares , e terras do Oriente : em 
que fe contém as coufas, que Affon- 
íbd'Alboquerque fez na conquifta do 
Reyno Ormuz : e afíi outras que nef- 
te tempo o Viíb-Rey fez na índia , 
té depois da morte de feu filho Dom 
Lourenço. 

CAPITULO I. 

Como Affonfo d? Alboquerque com a Armada 
que lhe ficou , partido de Socotorà , to- 
mou na cofia da Arábia finco Vil- 
las do Reyno Ormuz. 

COmo efíe Reyno de Portugal per hum 
particular dom de Deos lhe he con- 
cedida efta prerogativa , ganhar os 
íitulos de fua Coroa per conquifta de infiéis , 
c eíle he o feu verdadeiro património , prin- 
cipalmente dos Arábios , que , como no 
principio diffemos , difcorrendo das partes 
Orientaes da fua pátria Arábia, vieram ter 
a eílas Occidentaes ; parece > que coxuo Deos 

per- 



9^ ÁSIA de João de Barros 

permittia que elfes foíTem flagello , e çafti- 
go dos peccados de Hefpanha , deítruindo , 
e aílblando a terra aos naturaes delia , aííi 
ordenou que , paífados tantos feculos , a 
gente Portuguez a mais Occidental de Hef- 
panha , e do próprio folar delia , não fo- 
mente dentro na fua efteril Arábia per o 
mefmo modo a poder de ferro foíTem exe- 
cutar eíla natural prerogativa , deítruindo- 
lhe fuás Cidades , queimando fuás cafas , 
cativando-lhe mulheres , e filhos , e fazen- 
do-fe fenhores de fuás fazendas , e pátria , 
mas ainda a gente Perfia mui célebre em 
jiome , nobre per antiguidade de Reyno , 
armas , e policia , pagaífe eíla offenfa feita 
a Hefpanha , por fe converterem á feita def- 
tes bárbaros Arábios 5 té os fobmettermos 
debaixo do jugo , e potencias de noífas Ar- 
mas com as victorias que delles houvemos 
em a conquifta do Reyno Ormuz , cujo ef- 
tado fe contém neftas duas partes , Arábia , 
Perfia. A relação das quaes vi&orias come- 
çaremos nefte íègundo Livro , ante que faia- 
mos do anno de quinhentos c oito , por 
não confundir o tempo em que fe as cou- 
fas fizeram , o qual quanto em nós for , tra- 
balharemos por guardar no proceflb delias. 
E também porque os feitos de AíFonfo d'Al- 
boquerqUe, a quem fe deve tão grande ef- 
tado 3 como he o de Ormuz , tenham no- 
vo 



Década II. Liv. II. Cap. I. 93 

vo princípio, pois elle foi o primeiro que 
trilhou efta terra de Arábia , a qual elle ti- 
nha por conquifta no Regimento d 5 ElRey, 
e principalmente andar com aquella Arma- 
da , que levou entre eftes dous eftreitos do 
mar Roxo , e Períio , que era a entrada , 
e fajiiM dos Mouros naquellas partes da 
índia. O qual AíFonfo d'Alboquerque , de- 
pois' que fe fez o feito de Çocotorá , e Trif- 
tao da Cunha fe partio pêra a índia , dahi 
a dez dias , que eram vinte de Agofto , par- 
tio elle também pêra eíle lugar de fua con- 
quifta com as fete velas que leva\a : féis 
náos Capitães Francifco de Távora , Ma- 
nuel Telles , AíFonfo Lopes da Cofta , An- 
tónio do Campo , João da Nova , e elle 
Capitão mor , e mais huma fufta que fe fez 
em Çocotorá, Capitão Nuno Vaz de Caí- 
tello-branco , em que hiam té quatrocentos 
e feífenta homens de peleja. E porque os 
tempos o não leixáram andar naquella gar- 
ganta do eftreito do mar Roxo , paífando- 
le á cofta de Arábia , começou de a correr 
té dobrar o Cabo Ròçalgate , que he no 
princípio da cofta , onde começa o eftado 
do Reyno Ormuz ; ao qual cabo Ptolomeu 
chama Siragro promontório , e põe em qua- 
torze gráos da parte do Norte , e per nós e£ 
tá verificado em vinte e dous gráos e meio. 
O primeiro lugar do Reyno de Ormuz, 

a que 



94 ÁSIA de JoÂo de Barros 

a que Affoníò cTAlboquerque chegou , foi 
hum chamado Calayate , que fera de den- 
tro do cabo vinte léguas , o qual em fuás 
ruinas , e edifícios moítrava já em outro 
tempo fer alguma populofa Cidade ; e íe- 
gundo fama dos naturaes , hum tremor de 
terra, a poz no eílado em que AíFonfo d'Al- 
boquerque a achou , que era povoação no- 
bre com muros , torres , cafas , janellas ao 
modo de Hefpanha. O fitio da qual por 
fer á borda da praia com hum poufo 5 em 
que as noíTas náos fe abrigaram do tempo 
que traziam , a fazia ainda mais formola á 
viíta dos noífos. Affonfo d'Alboquerque , 
depois que as teve ancoradas , mandou hum 
recado a terra ao Regedor da Villa , no- 
tificando-lhe quem era com algumas pala- 
vras , per que lhe denunciava paz , e amiza- 
de ; ao que elle refpondeo , que aquella Vil- 
la era d'ElRey de Ormuz > e por ter labi- 
do delle quanto defejava amizade d'ElRey 
de Portugal , a Villa , e elle eftava ao que 
elle mandaífe pêra fupprimento de qualquer 
neceffidade de mantimentos que, a fua Ar- 
mada tiveífe; e pêra fe poderem communi- 
car ambos , em quanto não aífentáram eíla 
paz , que lhe mandaífe dous arrefens 5 e. el- 
le mandaria outros dous ao batel onde hou- 
veífe de fer eíla prática ; e com efte recado 
mandou hum barco carregado de refrefco 

da 



Década II. Liv. II. Cap. I. 95- 

da terra. AfFonío cPAlboquerque , porque 
naquelle dia era já tarde , ao feguinte man- 
dou Manuel Telles , AfFonío Lopes da Coi- 
ta , e a João da Nova em feus bateis com 
os arrefens , que eram Gafpar Machado íèu 
page, ejoão Neftão Efcrivão da fua não; 
. e dados eftes , e rebebidos os outros pelos 
apontamentos, que lhe AfFonío d 5 Alboquer- 
que deo , aíTentáram a paz , e amizade chã- 
mente, e por expedida em final de obediên- 
cia huma boa cópia de mantimentos té el- 
le fe ver com EiPvey de Ormuz. E porque 
no porto eftava huma náo de Adem , te- 
mendo o guazil que os nofíos quizeílem 
lançar mão delia , metteo nas pazes que não 
recebeíle damno : o Capitão da qual de cor- 
tezia mandou a AfFonfo d'Alboquerque hum 
prefente de mantimentos , e algumas peças 
de feda ; e fem mais paflar couía alguma , 
íè partio daquelle porto. Ao feguinte dia 
foi furgir ao de outra Vilía chamada Cu- 
riate , que feria dalli dez léguas ^ na qual 
foram mui mal recebidos , confiados os Mou- 
ros em hum repairo , que fizeram ao longo 
do mar , em quanto fe os noífos detiveram 
em Calayate. AfFonfo d'Alboquerque quan- 
do vio que , em refpoíla de hum recado que 
lhe mandou* a terra per Gafpar Rodrigues 
lingua , lhe tiraram muita frechada , man- 
dou logo aos Capitães da? náos que com 

ar- 



96 ÁSIA de João de Barros 

artilheria varejafíem a Villa , parecendo-lhe 
que com eíla trovoada viefFem a mais cor- 
tezia da que fizeram ao feu recado. E por- 
que aos Mouros não os aííbmbrou o ef- 
rrondo , e damno da artilheria pêra deice- 
rem de leu propofito , aílentou Affonfo d'Al- 
boquerque aquella noite em confelho o mo- 
do de combater a Villa • e quando veio 
ante manha eram todolos Capitães em feus 
bateis derredor da náo capitania , onde re- 
cebida huma abíbíviçao geral do Capellao 
da náo , todos em hum corpo com grande 
eftrondo de trombetas , e grita puzeram o 
peito em terra. Porém não lhes foi afli le- 
ve de tomar , porque ante de chegarem á 
eftancia , em que tinham afleftada fua arti- 
lheria , acharam hum mamillo de terra , que 
fe torneava de agua com preamar á manei- 
ra de ilheo , e de maré vazia hiam do lu- 
gar a elle a pé enxuto , em o qual por fer 
íoberbo fobre a praia , fizeram hum modo 
de baluarte 5 onde eftavam obra de finco- 
enta homens , gente eícolhida , em guarda 
de certas peças de artilheria. Affonfo d'Al- 
boquerque , porque o dia d'ante tinha vif- 
to eíle ilheo , e temendo que delle lhe po- 
dia vir algum damno , mandara a elle Af- 
fonfo Lopes da Cofta , e António do Cam- 
po : tanto que o vio feito huma pinha de 
gente , e como a artilheria delle varejava a 

ri- 



Década II. Liv. II. Cap. I. 97 

ribeira , tornou-os a mandar que o commet- 
teflem : e elle com os outros Capitães tor- 
nou ao longo da praia pêra no cabo delia 
vir encavalgado a -terra , e dar na eítancia 
da artilheria que eítava fobre o porto , por- 
que commettella de roíto era couia de gran- 
de perigo. Affoníb Lopes da Coíla , e An- 
tónio do Campo > por dar boa conta do 
que lhe era encommendado , aíli apertaram 
com os Mouros que eftavam no ilheo , que 
á cufta da vida de hum dos nofíbs , e de 
alguns feridos , elles defpejáram o lugar, 
recolhendo-fe ás eftancias da Villa , ficando 
alli quatro 5 ou finco mortos. Affoníb d'AI- 
boquerque a eíle tempo , pela parte que ef- 
colheo pêra encav algar a aftancia da arti- 
lheria , andava travado com huma batalha 
de Mouros , que o veio receber ao cami- 
nho por lhe defenderem a entrada , onde 
havia tanta frechada , lançada , e fúria de 
peleja , que não podiam romper os Mou- 
ros. Porém como elle trazia o olho no ilheo 
que lhe ficara atrás , e vio que era já dei- 
pejado , apertou muito mais com os Mou- 
ros , temendo que eíles dous Capitães lhe 
ficavam hum pouco longe, enao fe podiam 
ajudar huns aos outros. No qual tempo João 
da Nova com certos béfteiros , e alguns ho- 
mens de armas de fua capitania á força de 
braços arrincáram huns páos da traaquei- 
Tom.ILP.L G ra, 



98 ÁSIA de J0X0 de Barros 

ra , e fez tal entrada , que com ajuda de 
Jorge Barreto , e Manuel Telles ella foi ar- 
rombada per aquella parte, onde logo acu- 
dio hum grande pezo de gente. A vinda 
da qual , ainda que deo muito trabalho áquel- 
les Capitães , como parte delia era da que 
impedia Affonlò d 5 Alboquerque , ficou elle 
tão defabafado , que parece que a hum cer- 
to termo lhe quiz Deos moílrar a vi&oria ; 
porque elle per efta parte > e os outros pela 
que lhe coube em forte , começaram demet- 
ter os imigos cm fugida ? defamparando el- 
les as tranqueiras , e mettendo-fe pelas ruas 
da Villa , té que a bote de lança os lança- 
ram delia , vaiando per duas portas que 
tinham da banda do fertão contra outra po- 
Voaçáo , que eftava além de hum palmar, 
que efcolhéram por amparo , onde já tinham 
pofto mulheres , filhos , e o melhor de lua 
fazenda. Aos quaes Affoníò d'Alboquerque 
nao quiz mais perfeguir , e fe contentou 
com os lançar de fuás cafas , e dar faço a 
luas fazendas., e per derradeiro mandar poer 
fogo a todo o lugar , e a dez zambucos , 
e três , ou quatro náos , que citavam no por- 
to , rio qual feito foram mortos três dos nof- 
fos , e feridos vinte e tantos , e dos Mou- 
ros fe contaram pelas ruas fetenta e tantos. 
Caíligado efte lugar , como Affonfo d 'Al- 
•boquerque não tinha nelie mais que fazer, 

par- 






Década II. Liv. II. Cap. I. <?<? 

partio-fe pêra outro chamado Mafcate , que 
feria dalli oito léguas , o qual era muito 
mais forte que os paliados , de cerca , tor- 
res , e baluartes tudo repairado de novo , 
aíli de munições de fua defensão , como gen- 
te de foccorro que era vinda da terra firme. 
Porque como efta Villa era mais perto de 
Ormuz 5 e EIRey com fama de noíTas Ar- 
madas , e experiência de algumas náos , que 
lhe tinham tomado na índia, eftava aífom- 
brado , tinha provido todolos lugares da- 
queila coda 5 e principalmente efte por fer 
mais vizinho 5 o qual per toda a frontaria 
do mar eftava repairado de novo. AíFonfo 
d 5 Alboquerque chegado a elie , e vendo-o 
tão crefpo 5 bem lhe pareceo que o recebi- 
mento havia de fer frechadas , e logo man- 
dou feu recado ao Governador delle per 
António do Campo em o feu batel , e com 
elie Pêro Vaz Feitor da Armada por faber 
o Arábigo ; e a refpofta que trouxe foi vir 
hum Mouro , que o Governador com elie 
mandava pêra fallar a AíFonfo d'Alboquer- 
que : a fubftancia do qual recado era que- 
rer com elie paz , e amizade , e que pêra 
defpeza de lua Armada daria tantos fardos 
de arroz , e tâmaras , e aíli alguns carnei- 
ros ? porque elie tinha recado d 5 ElRey de 
Ormuz feu Senhor per que lhe mandava, 
que vindo áquelle porto alguma náo , ou 
G ii náos 



ioo ASIx\ de JoÁo de Barros 

náos cPElRey de Portugal j lhe fizcfle todo 
gazalhado , eprovcffe de mantimentos. Af- 
foníb d'Alboqucrquc quando achou melhor 
acolhimento do que elle efperava , pofto 
que entendeíTe que o Governador o fazia 
com alguma cautela de malicia , ou prudên- 
cia ? mandou a terra receber os mantimen- 
tos , e fazer aguada em huns poços , que 
cílavam á borda da agua. E citando os nof- 
ibs neíla obra de tomar agua , viram vir 
hum homem groílb , bem tratado , fem a tou- 
ca que elles coílumam , como afrontado d'al- 
guma coufa j e tanto que chegou efpaço 
que o podiam ouvir , começou de bradar > 
dizendo que fe acolheflem ; no qual tempo 
eram tantos Mouros fobre a praia , que 
quando o Feitor Pêro Vaz , que recebia os 
mantimentos , e os outros da aguada fe re- 
colheram aos bateis , foi já com aíTás de 
preífa ; e primeiro que elles chegaífem ás 
náos , chegou a ellas a nova deite alevan- 
tamento com artilheria que os Mouros des- 
carregaram nellas. Porque elles como viram 
que não puderam fazer damno a eftes , que 
fe recolheram aos bateis , foram-fe ao mu- 
ro , onde tinham alguma artilheria cevada , 
e começaram de varejar com ella , e dar 
gritas , que pareciam romper o Ceo , fem 
Affonfo d'Alboquerque poder faber a cau-J 
fa daquella mudança , nem menos aos que ; 

ef- 






Década II. Liv. II. Cap. I. 101 

eílavam em terra lha faberem contar ; fo- 
mente que o homem que os viera avifar, 
lhe parecia fer o Governador da terra pola 
prática que no concerto da paz com elle 
tiveram : e que o mais que lhe entenderam 
era , que os Mouros , que novamente vieram 
aquella noite a foccorro , não queriam eítar 
pela paz que elle aíFentára , e que íobre 
iífo o injuriaram; que pedia a elle Capitão 
mor que fe lembralfe delle. O qual nego- 
cio era aífi como AíFonfo d 5 Alboquerque 
depois foube 5 porque aquella noite entra- 
ram certos Capitães d'ElRey de Ormuz com 
obra de dous mil homens Arábios em foc- 
corro da Villa ; e quando acharam as pa- 
zes feitas , e que o Governador por lhas 
AíFonfo d'Alboquerque dar em modo de tri- 
buto , lhe concedera duzentos carneiros, 
quatrocentos fardos de arroz , e duzentos 
de tâmaras , parte das quaes coufas eram 
já recolhidas ás náos , começaram de inju- 
riar o Governador , charnando-lhe capado , 
homem fraco , por tão levemente fe entre- 
gar , tendo huma Villa tão forte, e aper- 
cebida pêra fe poder defender j ao menos 
téEIRcy feu Senhor lhe acudir com aquel- 
le foccorro que elles traziam , e outras mui- 
tas palavras injuriofas , fem valer ao Gua- 
zil luas razoes, dizendo que mais o fizera 
por fervir a EIRey , que por outro refpei- 

to; 



ioz ÁSIA de João de Barros 

to ', porque não podia fer coufa mais ba- 
rata, que com hum pouco de mantimento 
que dera, comprar a liberdade, e vida de 
quantas almas eítavam naquella Villa , ten- 
do ante os olhos o que fizéramos em as 
outras. E quando vio que nenhuma razão 
lhe valia , e as palavras com que o trata- 
vam , em modo de trifteza , e proteítaçao 
do damno que a Villa podia receber , lan- 
çou a touca em terra , e fahindo-fe pela 
porta fora, moítrando ao povo que o inju- 
riavam polo que tinha feito , veio ter com 
os noflbs , dando-lhcs aquelle avifo. Affon- 
fo d 5 Alboquerque , poíto que deitas coufas , 
quando Pêro Vaz fe recolhco , não era tão 
particularmente informado , bailou o pouco 
que difib foube , e o muito que os Mouros 
fizeram , moítrando em quão pouca conta 
tinham a noífa Armada , pêra fe determinar 
no que havia de fazer , que era ao outro 
dia íahir em terra por aquelle fer já a maior 
parte gaitado. E entretanto , porque recebia 
grande damno de huma bombarda groíla , 
que os Mouros tinham poíto em hum lu- 
gar foberbo fobre as náos , mandou Aífon- 
íb Lopes da Coita , que com a gente de 
lua náo viííe fe podia dar huma chegada 
onde eítava aquella bombarda , e lha cn- 
cravaíle , a qual íahida cuítou matarem hum 
homem , e ferirem fere , ou oito a AfFonfo 

Lc- 



Década IL Liv. II. Cap. I. 103 

Lopes 3 e fem acabar o que hia fazer, íè 
tornou ás náos. Os Mouros como nefta fa- 
hida de AfFonfo Lopes entenderam o da- 
inno que a noffa Armada recebia daquella 
bombarda , trouxeram logo alli outra , e 
em guarda delias muita gente, as quaes fa- 
ziam tanto mal 9 que fe o dia fora maior , 
fora neceflario ás náos mudarem o poufo, 
mas com a vinda da noite ceifaram ambas. 
Porém quando veio ao outro dia , tiveram 
clles tanto que fazer por acudirem á praia , 
onde AJfonfo d'Alboquercjue fahio com todo- 
los Capitães , que não ficaram as bombardas 
aquella manha tão acompanhadas como es- 
tiveram á tarde. Porque como os noífos 
hiam já indignados do engano , e mal que 
tinham recebido , mettêram-fe com os Mou- 
fos com tanto Ímpeto , que por muitos que 
eram , em breve efpaço lhe fizeram defpe- 
jar humas tranqueiras que aquella noite fi- 
zeram , e entrando com elles de rondão 
pela Viiia té os enxotarem da outra parte 
delia contra hum campo que eftava entre 
os Mouros , e huma encuberta , onde os 
noflbs não quizeram chegar. Cá , além de 
irem já mui canfados , temeo Aífonfo d' Al- 
boquerque alguma cilada de gente freíca , 
e mandou entreter a gente , contentando-fe 
com lhe N. Senhor dar aquella vidloria em 
tão breve efpaço, peró que foi com morte 

♦ de 



J04 ÁSIA de João de Barros 

de oito peííbas dos noífos , e vinte e tan- 
tos feridos 5 e dos imigos jaziam per eflas 
ruas fetenta e tantos ; e entre elles foi acha- 
do o próprio Governador , que AfFonfo d'Al- 
boquerque muito fentio , por não ter cul- 
pa nefta mudança que os Mouros fizeram , 
legando foube per alguns cativos que alli 
foram tomados. O qual Guazil foi achado 
no meio do campo , que diíTemos eftar en- 
tre os muros da Cidade , e a encuberta , e 
derredor delle fete , ou oito Mouros ataíTa- 
lhados dos noflbs ; e por o lugar onde foi 
achado fe foube, que o contrameftre da náo 
de AfFonfo d'Alboquerque , a que chama- 
vam Jorge Fernandes 3 lhe deo a primeira 
ferida , e D. António de Noronha lhe aca- 
bou de tirar a vida , porque neíle lugar fe 
acharam todos , e ainda em boa preza , fem 
faberem fer efte o Governador. E porque 
quando elle veio dar avifo a Pêro Vaz , 
mandou pedir a AfFonfo d'Alboquerque que 
fe lembraíTe delle , peró que foube fer mor- 
to por honra de fua peífoa , fabida qual 
era fua cafa per meio de hum Caciz , ho- 
mem de tanta idade que fe não pode aco- 
lher , mandou a Nuno Vaz de Caftello bran- 
co que eftivefíe em guarda delia , e não 
foífe faqueada com as outras ; porque ain- 
da que o Governador por fer eferavo ca- 
pado d'ElRey não tivefíe herdeiros , por 

me- 



Década II. Liv. II. Cap. I. 10? 

memoria da gratificação quedávamos áquel- 
les de que recebíamos algum beneficio , hou- 
ve por bem que fua caía ficaíTe inteira , e 
dentro o Caciz velho pêra depois dar ra- 
zão da tenção delle a Affonfo d'Alboquer- 
que. Leixada cita Villa , pafíbu-fe a outra 
chamada Soar , da qual fe defpejou ante 
de fua chegada a maior parte da gente ; o 
que não quiz fazer o Alcaide da fortaleza , 
e alguns Mouros principaes , por lhe não 
deftruirem o lugar, vendo que fe não po- 
diam defender , ante fe concertaram com 
Affonfo d'Aiboquerque , fazendc-fe vafíal- 
los d'ElRey D. Manuel com folernnidade, 
mandando elle a Jorge Barreto de Caftro 
com gente a poer huma bandeira fobre hu- 
ma torre da fortaleza , a qual lhe foi en- 
tregue pelo Alcaide , e depois tornou levar 
a bandeira em fima de hum cavallo 5 e gen- 
te derredor delle , com pregoes que denun- 
ciavam aqueila fortaleza ficar d 5 EÍRey Dom 
Manuel 4 e Portuga! , e o Alcaide a rece- 
bia da mão de Affonfo cfAlboquerque feu 
Capitão mor daquelia Armada : com obri- 
gação de a Villa haver de pagar de tribu- 
to em cada hum anno outra tanta quantia 
quanta pagava a ElRey de Ormuz pêra 
mantimento do Alcaide , e gente que efti- 
Veffe em guarda delia; edefte ad:o mandou 
Affonfo cPAlboquerque tirar inílruinentos. 

Paf- 



io6 ÁSIA de João de Barros 

PaíTados dous dias , em que AfFonfo d'Al- 
boquerquc fe deteve neíla Villa , partio-fe 
pêra outra chamada Orfaçao , que eítá adian- 
te quinze léguas > na qual teve pouco que 
fazer , cá chegando a ella fe defpejava. Po- 
rém porque ao tempo que os noífos bateis 
poiavam a gente em terra , acharam raíto 
dos Mouros que fe recolhiam contra hu- 
ma ferra , mandou AfFonfo d'Alboquerque 
a feu fobrinho D. António com té cem ho- 
mens no alcanço delles , onde os noífos paf- 
fáram aífás de trabalho. Porque os Mou- 
ros por defender fuás mulheres , c filhos , 
que levavam ante íi , fofriam mui bem o 
ferro que lhe punham , e com o feu tam- 
bém cfcalavam a carne dos noífos de ma- 
neira 5 que huns por defender , e os outros 
oífender , todos trabalharam tanto , té que 
os Mouros fe puzeram em laivo , e parte 
ficaram mortos , e vinte e duas almas foram 
cativas , de que as mais delias eram mulhe- 
res ? e meninos , com que D. António fe 
jecolheo , trazendo a gente mui canfada da- 
quelle alcanço , e alguns delles bem feridos. 
E porque eíte lugar era já mui vizinho de 
Ormuz , por reverencia de fer tanto na fa- 
ce de EIRey , não lhe quiz mandar poer 
fogo , fomente foi laqueada per efpaço de 
ires dias que fe alli deteve , repairando-fe 
de algumas coufas , como quem efperava 

ver- 



Década II. Liv. II. Cap. I. I II. 107 

ver-fe ante o porto daquella illuílre Cida- 
de Ormuz , tão nomeada per todo o Mun- 
do y como o mais célebre empório , e ef- 
cala delle, ao qual chegou dahi a três dias 
já no fim de Setembro do anno de quinhen- 
tos e fete ; do fundamento , e coufas da 
qual eferevemos neíle feguinte Capitulo. 

CAPITULO II. 

Do fitio da Cidade Ormuz fituada na 
Ilha Gerum : e da fua fundação 3 e Reys 
que teve depois de fer fundada 3 té o anno 
de quinhentos e fete , que Âffonfo d'Albo~ 
querque chegou a ella. 

A Cidade de Ormuz eftá fituada em hu- 
ma pequena Ilha chamada Gerum , que 
jaz quàíi na garganta de dentro do eftreito 
do mar Perlio , tão perto da cofta da terra 
de Períia 5 que haverá de huma á outra três 
léguas 5 e dez da outra Arábia , e terá em 
roda pouco mais de três léguas, toda mui 
efteril , e a maior parte huma maneira de 
fal , e enxofre, íèm naturalmente ter hum 
ramo 5 ou herva verde. A Cidade em íl he 
mui magnífica em edifícios , groiTa em tra- 
to , por fer huma efcala , aonde concorrem 
todalas mercadorias Orientaes , e Occiden- 
taes a ella , e as que vem da Perfia 5 Ar- 
ménia y e Tartaria , que lhe jazem ao Nor- 
te, 



lo8 ÁSIA de JoÃo de Barros 

te^ de maneira que não tendo a Ilha em íi 
coufa própria , per carreto tem todalas eíti- 
madas do Mundo. Porque té agua ? coufa 
tão commum , tirando alguma de três po- 
ços , e cifternas , toda lhe vem da terra fir- 
me da Perfia , parte delia em vaíilhas , e outra 
folta em barcas com toda hortaliça , verdu- 
ra , fruta verde , e forôdea que defpende , 
que he em abaítança , affi da Comarca a 
que elles chamam Mogoítão , como deltas 
Ilhas que tem por vizinhas , Queixome , 
Larec , e outras ; com que a Cidade he tão 
viçofa, e abadada, que dizem os morado- 
res delia , que o Mundo he hum annel , e 
Ormuz huma pedra preciofa engaftada nel- 
le. O eftado do Reyno Ormuz , de que ef- 
ta Cidade Jic fua cabeça ? e por razão da 
qual clle tomou o nome , eftá em eftas duas 
coftas , Arábia ao longo do mar , em que 
entram as Villas per que Aífonfo d'Albo- 
querque paliou , e na Perfia ; do número , 
e rendimento das quaes adiante faremos par- 
ticular relação. O princípio deíle Reyno Or- 
muz , (legundo contam as Chronicas dos 
Reys delle , que nos foram interpretadas 
de Períico , ) foi per efia maneira. Nos an- 
nos de feiscentos e oitenta de Mahamed 
pela conta dos Arábios , e do Nafcimento 
de Jeíus Chrifto noífa Redempção de mil 
duzentos fetenta e três , reinando na Perfia 

Aba- 



Década II. Liv. II. Cap. II. 109 

Abacahom , o que deo aquella celebrada 
batalha ao grão Tártaro Barahom , que foi 
o primeiro Príncipe daquellas partes que fe 
fez Mouro , era Senhor de rodo aquelle 
eftreito do mar Períico hum Príncipe , a 
que elles chamam per nome commum Rey 
de Cáez , per eftas palavras , Malec Cáez , 
o qual tinha feu affento em huma Ilha def- 
te nome Cáez , que eftá dentro defte eftrei- 
to finco léguas de terra da Perfía junto do 
Cabo Nabão. O qual Rey fenhoreava da 
Ilha Gerum té a de Bahárem , tendo por 
vizinho hum Rey per nome Gordunxá , cu- 
jo eftado era na terra da Períia defronte 
defta Ilha Gerum , em huma Comarca per 
nome Mogoftão , que quer dizer Palmar 
em língua Perííca ruftica 5 e em Perfico an- 
tigo Ormuz , onde tinha huma Cidade def- 
te nome , que nos tempos paífados foi tão 
célebre , que Ptolomeu em a fua Geografia 
a íituou na fexta taboa de Afia , chaman- 
do-íhe Armuza , a qual ao prelente he def- 
truida , em cujas ruínas eftá huma fortaleza 
chamada Cuxftac , e outros dizem não fer 
efta fenão a de Mináo , íituada fobre hum 
rio cabedal que rega o Mogoftão. Vendo 
efte Gordunxá que a Ilha Gerum eftava na 
face das fuás terras , e ante Malec Cáez 
não era eftimada , e fegundo o que delia 
entendia , peró que efteril per natureza fof- 



no ÁSIA de João de Barros 

fe, per artificio elleefperava de afazer mais 
frudtuofa que todo o leu Mogoílão : leve- 
mente , como coufa de pouca valia, man- 
dou commecter a EIRey de Cicz que lha 
vendeíle , dizendo , que elle tinha aquelia 
Ilha Gerum tão longe de Cáez , como cl- 
íe fabia , e tão vizinha das fuás terras do 
Mogoílão , que forçadamente os feus natu- 
raes , que andavam a pelcar , como vinha 
o tempo , não tinham onde fe acolher fe- 
não a ella ; e porque muitas vezes tinham 
algumas differenças com os pefeadores feus 
vaííallos que habitavam nella , por tirar ef- 
tas paixões entre efta gente pobre , lhe pe- 
dia que lha vendeíle , pois delia não tinha 
nenhum rendimento. EIRey de Cáez por 
ter cm pouca conta cila Ilha , levemente 
por comprazer a Gordunxá , concedeo na 
venda delia ; porém labida efta deliberação 
d'ElRey, per alguns feus, c principalmente 
pola Rainha lhe foi impedida , reprefen- 
tando que a Ilha Gerum era huma chave 
que abria , e fechava aquelle eftreito , de 
que elle era Senhor : e que bem como hu- 
ma chave de ferro per 11 era mui pouca 
coufa , em quanto fecha , e abre algum gran- 
de thefouro não le deve dar por preço ; 
aífi aquelia Ilha não per fi , mas pelo offi- 
cio que tinha , em nenhuma maneira a de- 
via dar por todo o Mogoílão. Vendo Gor- 

dun- 



Década II. Liv. II. Cap. II. iii 

dunxá que Malec Cáez fe tornava a arre- 
pender da palavra que lhe tinha dada , co- 
meçou de fe queixar gravemente delíe , e 
com os queixumes per hum a parte 5 e pei- 
tas per outra aos que contrariavam a Ei- 
Rey , veio o negocio a fe poer em parecer 
de humCaciz chamado Xeque Doniar, ho- 
mem que por authoridade de feu officio . 
Malec Cáez fe governava per elle : o qual 
com ajuda dos peitados no prefente , e elle 
com elperança do futuro requerimento que 
efperava ter com Gordunxá , vieram a pôr 
o cafo a EIRey em termos de honra , e 
verdade pola palavra que tinha dada , e 
mais que podia fechar, nem abrir Gordun- 
xá ., pois era hum homem que fe náo far- 
tava de tâmaras do Mogoílao. A Rainha, 
ou que o efpirito lhe revelava o que havia 
de fer , ou porque tratava efte negocio lèm 
intereífe , contrariava tanto o cafo , que veio 
dizer a EIRey, que elle em nenhuma ma- 
neira confentiíTe á fua porta ninho de águia , 
que lhe comeífe a fua criação : ao que EI- 
Rey já movido pelos outros, meio indigna- 
do por a Rainha fazer tanta conta de Gor- 
dunxá j que o queria fazer peflba ante elle , 
reípondeo , que Gordunxá não era águia, 
mas elle , e que fomente com o bater de 
fuás azas de temor o faria metter no ven- 
tre de fua madre; que efte negocio tratava 

já 



112 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

já de íua honra , e que não havia de mof- 
rrar ao Mundo que lhe lembrava hum tal 
homem. Finalmente Gordunxá per meio de 
Xeque Doniar, e dos outros peitados hou- 
ve a Ilha ; e em premio do que niflb tra- 
balhou , diííe-lhe Xeque Doniar , que não 
queria mais delie , que huma efmola de ju- 
ro pêra huma cala de oração, que fazia em 
louvor de feu Profeta Mahamed , e ifto de- 
pois que elle fe vilTe morador em huma Ci- 
dade feita naquella Ilha Gerum. Gordunxá, 
porque efte Xeque neíle feu peditório lhe 
prognofticava o que elle mefmo efperava 
Fazer, com juramento folemne lhe fez diíTo 
eferitura , a qual efmola os Reys de Or- 
muz , que fuecedêram a efte Gordunxá , ho- 
je em dia pagam a huma mefquita , que fez 
efte Caciz em huma Comarca chamada Hon- 
gez de Xeque Doniar , junto da Cidade La- 
ra , que fera de Ormuz obra de quarenta 
léguas. Gordunxá havida efta Ilha , aíll co- 
mo o cuidou , aíTi o poz em obra, man- 
dando dahi apouco tempo fazer navios de 
remo , e huma força na Ilha Gerum, onde 
obrigava todalas velas que navegavam aquel- 
le mar, que lhe pagaíTem hum tanto: fobre 
o qual caio travada guerra entre elle , e 
Malec Cáez , durou per tantos annos , que 
veio a deílruir a própria Ilha de Cáez, on- 
de Malec vivia. E não fabendo elle que 

lu- 



Década II. Liv. li. Cap. II. 113 

lugar elegefle pêra fua habitação , e fe tor- 
nar a reftituir , difle-lhe a Rainha fua mu- 
lher 5 que não lhe fabia lugar mais íeguro 
que o ventre de fua madre , porque efte da- 
va elle por acolheita a Gordunxá , quando 
ella lhe reprcfentava as coufas , em que fe 
elle ao prefente via. Finalmente Gordunxá 
fe fez Senhor do eftado de Malec ; e por- 
que EIRey da Períia , a quem elle pagava 
certo tributo , acudio a iífo , mandando gen- 
te fobre o Mogoítão contra Gordunxá , e 
elle fe não atreveo eíperar alii a potencia 
de tamanho Principe ; pafíòu-íè com toda 
fua cafa , e fazenda á Ilha Gerura , íeixando 
a fua Cidade Ormuz deíerta de todolos po- 
voadores 5 e em memoria delia , e do feu 
nome fundou outra em Gerum , que he a 
de que ora efte Reyno de Portugal he Se- 
nhor , e daqui fe contratou com EIRey da 
Períia de lhe pagar cada anno hum tanto 3 
e de cinco em cinco mandar feu Embaixa- 
dor a lhe dar obediência de vaííallo em feu 
nome. Com o qual concerto Gordunxá fin- 
cou Rey pacífico , não fomente do Mogofc 
íao que tinha, mas de todo o eftado que 
ganhou de Malec Cáez, e dahi em diante 
fe fez Senhor da entrada , e fahida de toda 
a navegação daquelle eftreko de Períia , o 
qual naquelle novo eftado reinou trinta an- 
nos , e per fua morte leixou eftes filhos, 
Tom.lLP.L H To- 



ii4 ÁSIA de João de Barros 

Torunxá > Mahamcdxá, que depois reina- 
ram 5 o primeiro trinta e quatro annos , e 
por não leixar filhos , reinou o irmão vinte 
e nove , do qual fuccedeo Cobadim feii fi- 
lho , que reinou trinta annos , e per faleci- 
mento delle ficaram dous filhos , Ceifadim , 
que reinou vinte annos , e Torunxá leu ir- 
mão trinta per falecimento fcu. O qual To- 
runxá leixou cites filhos , Magdçud , Xaba- 
dim , Sargol , e Xavez , e todos reinaram 
huns em defeito de filhos dos outros , o 
primeiro dez annos , o fegundo onze , o ter- 
ceiro anno e meio. E porque deíles irmãos 
ficou Ceifadim moço de té doze annos , o 
qual reinava a eíte tempo que Affoníò d'Al- 
boquerque chegou a efta Cidade Ormuz , 
convém pêra melhor entendimento da hif- 
toria determo-nos aqui hum pouco. Em vi- 
da de Xabadim , que era o fegundo filho 
de Torunxá 5 eftava por Governador de Ca- 
layate feu irmão Sargol , o qual começara 
fervir efte cargo do tempo d'ElPvey Ma- 
gdçud feu primeiro irmão ; e como os Mou- 
ros por fua infidelidade fempre irmãos são 
fufpeitofos a irmãos , e pais a filhos , princi- jj 
palmente eftes de Ormuz, onde havia 1 exem- 
plos de huns matarem aos outros , e a lhe 
fer piedofos os cegaram per artificio de fo-í 
go , dos quaes cegos defta linhagem Real 
AiFonfo d 5 Alboquerque , como veremos em 

feu 



i 



Década II. Liv. II. Cap. II. 115* 

feu tempo , achou mais de vinte e tantas pe£ 
foas , começou o Sargoi temer-fe do íeu 
fegundo irmão chamado Xabadim , depois 
que reinou. Finalmente chegou o negocio 
a tanto , que Sargoi fugio pêra dentro do 
fertáo da terra da Arábia , onde elJe efteve 
por Governador , e foi buícar amparo em 
ElP^ey Soleimam Bernabhon 5 que reinava 
naquelia parte 5 que os Mouros propriamen- 
te chamam Aman ; porque em vida d'El- 
Rey Torunxá pai delle Sargoi , Jiouvera já 
prática pêra elíe caiar com huma filha dei- 
te Soleimam. E aconteceo , que eftando elle 
acolhido nefta parte , huns eícravos Abexijs 
da Gamara d^ElRey Xabadim íèu irmão o 
mataram na Ilha de Queixome 5 onde elle 
Rey tinha huma cafa de prazer , per fale- 
cimento do 'qual os Governadores do Rey- 
no levantaram por Rey a Xavez menor ir- 
mão delle Sargoi , pertencendo per direito 
a elle. Huns dizem que ifto procedeo de 
hum capado per nome Cóge Atar 3 homem 
fagâz , de que adiante fallaremos , e outros , 
que foi porque os Perílcos tem ódio aos 
Arábios. Porque como eíie Sargoi quaíi to- 
da fua creaçao fora na Arábia, e tinha feus 
coftumes , não o haviam já por natural 5 e 
quizeram antes eleger feu menor irmão Xa- 
vez ; mas pelo que adiante fuecedeo , como 
veremos , parece proceder tudo de Cóge 
H ii Atar* 



n6 AS1A de João de Barros 

Atar. Sargol fabendo que leu irmão era le- 
vantado por Rey , e que» pêra cobrar o 
Reyno EIRey Soleimam , em cuja cafa dle 
eílava , lhe não dava ajuda, ante fentio que 
o podia impedir por algum recado do no- 
vo Rey 5 diílimulcu com elle , té que íecre- 
tamente fugio , e fe foi a EIRey de Lafah , 
que he huma Cidade trinta léguas mettida 
no fertao de Arábia , defronte da Ilha Ba- 
barem , que eftá dentro no eftreito do mar 
Perfico , o qual Rey per nome Atjoat era 
daquella antiga linhagem do Bengebras , hu- 
ma das notáveis cabildas dos Mouros Ará- 
bios ; em a qual Cidade Lafah , Sargol eíle- 
ve algum tempo , não tanto como homem 
que hia pedir ajuda , como moftrando que 
bufeava amparo de fua peífoa. No qual 
tempo fecretamente teve algumas intelligen- 
cias em Ormuz; e depois que achou oífer- í 
tas de peffoas , e aíTi em Raez Nordim , e í 
Raez Carnal leu cunhado , homens podero- 
fos Perficos , e parentes delle Sargol, que j 
viviam na Villa Xilau fronteira á Ilha Ba- 
barem , e féis léguas do Cabo Verdeílão , 
deo conta a EIRey Atjoat defte favor que - 
tinha pêra cobrar o Reyno de Ormuz , que 
era feu. O qual , peró que moftrou que li- 
beralmente o queria também ajudar, quan- ( 
do veio a conclusão do cafo , não quiz met- 
ter feu poder fenão per contrato > que Sar- 
gol 

i 



Década II. Liv. II. Cap. II. 117 

gol fez com elíe , promettendo que fe per 
via de fua ajuda elle fofle Rey de Ormuz , 
de lhe dar livremente a Ilha Baharem , e 
a Villa Catifa a ella fronteira , íítuada na 
coita da Arábia , que eram do eílado do 
Reyno de Ormuz ? por ferem peças mui vi- 
zinhas a Lafah , e de grande rendimento , 
principalmente Baharem por razão da pef- 
caria do aljofre que tem , que he o mais 
oriental daquellas partes. Eítando as coufas 
nefte eítado , veio EIRey Xavez de Ormuz 
faber parte deitas ajudas , que feu irmão ti- 
nha pêra vir cobrar o Reyno , e iíto per 
via de hum Mouro principal de Ormuz 
chamado Raez Nordim , com quem íè car- 
teava o outro Raez Nordim de Xilau fobre 
efte negocio , pedindo-lhe o feu favor , e 
dos outros amigos , por parte de Sargol , 
por eíles Nordijs ferem parentes. EIRey Xa- 
vez ? tanto que teve eítas cartas , fez com 
Raez Nordim que trabalhaíTe com o outro , 
e affi com Raez Carnal por o haver em feu 
íerviço com grandes promeífas : cá eíles te- 
mia elle mais que EIRey de Lafah , por 
terem muita embarcação , e gente frécheira 
da Períia , o que elle não tinha por viver no 
ferrão , e a fua gente fer coítumada mais 
ao campo , que á guerra do mar. Final- 
mente efte Nordim de Ormuz fecretamente 
fez que o outro ? e Raez Carnal vieflem a 

Or- 



Ii8 ÁSIA de João de Barros 

Ormuz a fc ver com EIRey 5 aííentando 
com elles , que quando vieflem com feu ir- 
mão ao tempo de romper a batalha , que eí- 
peravam de fer naval , elJes lè pairariam de 
Sargol pêra elle. Mas elles leixavam orde- 
nado o contrario com RaezNordim; c era 
que elles , e os de ília valia , todos feriam 
em ajuda de Sargol por clle Xavez fer mal- 
quifto , principalmente por caufa de Còge 
Atar feu Governador. Concertada efta ida , 
ordenou Sargol que os dous cunhados Raez 
Nordim, eRaez Carnal foíTcm por mar, e 
elle com EIRey de Lafah iriam per terra , e 
viriam todos a fe ajuntar em Julfar huma 
Villa na corta da Arábia , que he do Rey- 
no Ormuz das mais perto povoações delle 
de dentro do eftreito. Vindo todos a cfte 
lugar j cada hum per ília via , aíli Sargol 
com luas ajudas , como EIRey Xavez com 
ília Armada mui groíía efperar aqui o ir- 
mão 5 quando veio ao commctier da pele- 
ja , vio-fe elie tão defamparade , que não 
achou quem o feguiíle , ienão Cóge Atar 
feu Governador , e com tudo foi prezo. E 
poíio que Sargol logo quizera entregar-fe 
de fua peflba , ElP v ey de Lafah lho não j 
quizdar ienúo com juramento , que elle Sar- I 
gol o não mataíle j o que elle concedeo ; ! 
mas depois que Sargol fe vio em Ormuz; 
íley pacífico , o cegou 7 e poz na caía on- 
de 



Década II. Liv. II. Cap. II. 119 

de eítavam os outros cegos. E permittio 
Deos que no cabo do reinado delle Sargol , 
que durou nelle trinta annos , por não lei- 
xar filho , levantaram por Rey a Ceifadim 
filho deite feu irmão Xavez , o qual era mo- 
ço de doze anhos ao tempo que Affoníb 
d 5 Alboquerque alli chegou , e governado 
per Cóge Atar poios ferviços que tinha fei- 
to a feu pai , e fer homem mui aítuto , pê- 
ro que capado , e efcravo fora d ? E!Rey Tu- 
runxá leu avô. Porque neítas partes he mui 
gerai couía os Reys fervirem-fe deites ca- 
pados , e aííi d'outros efcravos feus de va- 
rias nações ; e quando os acham homens 
fieis , e de boas habilidades , fempre lhes en- 
tregam as principaes coufas do governo de 
leu eítado. E a caufa porque o fazem 5 he 
de tyrannos : cá per huma parte fe temem, 
e não querem fazer Governadores a homens 
poderoíòs naturaes da terra , porque não 
tenham favor do povo com quem poííam 
reinar algum modo de traição ; e per outra 
querem tyrannizar o povo per mão deites 
feus efcravos , aos quaes elles muito a miú- 
do dão huma creíta de lhe tomar quanto 
tem , e logo o tornam a por no offxio pê- 
ra lhe fazer outro tanto , e aos capados ain- 
da eítimam mais por não terem filhos pêra 
quem hajam de roubar. Aííi que por efta 
caufa são os efcravos acerca dos Mouros 

mui 



120 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mui efUmados , dos quaes os Rcys Gentios 
não ufam , pofto que da communicação del- 
íeis em algum modo já tenham eftes Gover- 
nadores , mas não que os eicravos tenham 
ante elles tanta dignidade. Os quaes eicra- 
vos , como per o decurfo tiefta Hiiloria fe 
vera , e em a noíía Geografia muitas vezes , 
mataram os Senhores , e fe apoderaram do 
eítado do Senhor , porque o animo humano 
fofre mal fujeição ; e por cauía deita liber- 
dade não ha parte no Mundo , onde fe não 
ache mão armada pola defender. Tornando 
a Cóge Atar , que era hum deites já feito 
tyranno daquelle Rcyno Ormuz , por oRey 
fermoço, equafi huma eftarua fem ter elei- 
ção de querer, tanto que foube das coufas, 
que Affonfo d'Alboquerque vinha fazendo 
pela coita da Arábia , não fomente proveo 
nas que pode, mas ainda teve modo no des- 
pacho das náos eftrangeiras , que eram vin- 
das áquelle porto de Ormuz com mercado- 
rias , de as deter , eíperando cada dia a che- 
gada das noílas. E como além de fer homem 
iagaz , tinha acerca do povo cobrado cre- 
dito de cavalleiro nas guerras , e diíTensões 
paliadas que houve em Ormuz , toda a de- 
fensão da Cidade dependia delle , o medo 
de prover a qual , aíli no repairo , e provi- 
sões delia, como gente frécheira que man- 
dou vir de ambas as terras firmes da Per, 

fia, 



Década II. Liv. II. Cap. II. 121 

íia , e Arábia , e regimento que deo ás náos 
da ordenança que entre íl haviam de ter, 
tudo ifto lhe deo ainda mais credito. E ain- 
da por artificio de fe mais acreditar aíTom- 
brava a EIRey , e a todos 1 comnoíco 5 ante 
que Affoníb d 5 Alboquerque chegaífe , por 
mais abfolutamente mandar a donde alguns 
principaes começaram tomar fufpeita delle : 
cá efte encher a Cidade de tanto Arábio, 
e Perfio frecheiro com os outros apercebi- 
mentos de defensão , podia dar azo a que 
elle Cóge Atar fe levantaííe com o Reyno 
de todo. Finalmente a Cidade , ao tempo 
que Aflbnfo d"Alboquerque chegou a ella, 
com eftcs apercebimentos de Cóge Atar 3 ef- 
tava mui provida de todalas coufas 5 e teria 
dentro em íi trinta mil homens , em que ha- 
veria mais de quatro mil frecheiros Perlios y 
gente mui defira nefce ufo ; e haveria mais 
de quatrocentas velas , em que entravam 
íèííenta náos , e entre eílas havia huma d'El- 
Rey de Cambaya , que feria de oitocentos 
toneis , e outra do Príncipe quaíi do mef* 
mo porte. Nas quaes eflariam mil homens 
de peleja , e mil e quinhentos em todalas 
outras , aíli por parte dos fenhorios , como 
deíle Cóge Atar as mandar prover pêra de- 
fensão do porto ; e as outras velas eram 
navios pequenos , que navegavam aquelle 
direito, e as mais delias eram huns, a que 



Í22 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

elles chamam Terradas , cujo ferviço era 
da terra firme trazer á Cidade o neceílario , 
€ eítaiiam em cftalciro té oitenta peças. 

CAPITULO III. 

Como Afforfo cV Alho quer que chegou d Ci- 
dade Ormuz : c da peleja que houve 
com as nãos , que cjlavam 
no porto. 

AFfonfo d'Alboquerquc , ao tempo que 
chegou ante o porto deita Cidade Or- 
muz 3 que foi no fim de Setembro , entrou 
com todalas náos cheias de bandeiras , c ef- 
tendartes , e por moitrar nefta primeira vifta 
que era coftumado a ver mais populofas Ci- 
dades , e maior numero de náos , e que to- 
dalas daquelle porto eítimava em pouco , 
foi furgir em meio de finco , que eram as 
mais poderofas , principalmente a d ? ElRey 
de Cambava chamada Merij , c tão vizinho 
delia , que ficaram as bóias d'ambas entre- 
cambadas. E tanto que foi furto , em lugar 
de falvar a elles , e a Cidade , aílbmbrou a j 
todos , enchendo aquelle porto de fumaça , 
e trovões da artilheria , que durou per efpa- 
ço de meia hora , porque té as camarás da 
miúda ferviam naquelie modo de terror ? | 
o qual foi tamanho em todes , que come- l 
çáram logo os barcos , e bateis tecer de || 

náos 



Década II. Liv. II. Cap. III. 123 

náos em náos , e do mar pêra terra , e del- 
ia a elle , com tão apreífado curfo de reca- 
dos huns aos outros, como fervia o eípiri- 
to década hum com temor do que lhe po- 
dia aquecer na entrada daquelle temeroío 
hoípede , de cuja obra já tinham noticia 
pola experiência que tomaram alguns, que 
eíperáram na entrada das Villas daquella 
cofta , parte dos quaes eram já alli em Or- 
muz aííinaiados do noííb ferro. E todo efte 
fervor de bateis , fegundo o que AíFonfo 
d'Alboquerque entendeo , eram recados do 
modo como fe haviam de haver no pele- 
jar , parecendo-lhe , que elle havia logo de 
querer commetter fahir em terra. Porém por 
lhe moílrar que a Cidade não eftava tão des- 
apercebida que levemente o podia fazer, 
fahíram á praia obra de oito mil homens , 
entre gente armada , e outra folta , por da- 
rem entender que não fahíram a fe moí- 
trar , mas a ver aquella novidade da feição 
das náos, e gente eftrangeira que nellas vi- 
nha , e não fomente na terra deram efta mof- 
tra, mas ainda no mar, apparecendo muita 
gente per todalas náos , a flor da qual era 
nas de Cambaya. Affonfo d 5 Alboquerque , 
paliada mais de huma hora depois de fua 
chegada , fem alguém vir a elle , enfadado 
deefperar, mandou o feu efquife com hum 
recado á náo grande de Cambaya , porque 

em 



124 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

em feu apparato moítrava ler a capitania 
de todalas outras. O qual recado obrou 
tanto , por as palavras delíe ferem de con- 
clusão , que veio logo em fua companhia 
outro efquife da náo dos Mouros com o 
Capitão delia , acompanhado de íeis peflbas , 
todos mui bem tratados. Affoníb d 5 Albo- 
querque , como celebrava eftas coufas com 
muita folemnidade , efperou o Mouro aflen- 
tado no meio da tolda da náo em huma 
cadeira de efpaldas guarnecida de feda, pof- 
ta fobre ricas alcatifas , e clle armado de 
humas couraças de brocado com bocetes , 
c fralda , e hum capacete na cabeça guar- 
necido d'ouro , e á parte efquerda hum pa- 
jem com iium cíloque rico , e a direita ou- 
tro que lhe tinha a adarga , e todolos Fi- 
dalgos , c principaes peífoas armados em 
ordem que faziam rua a quem lhe quizeífe 
vir fallar. E per o convés da náo toda a 
outra gente folta também armada com lan- 
ças , béílas , efpingardas , alabardas , fegun- 
do cada hum efperava de fe ajudar com 
outras armas defenfivas. O Mouro , além de 
fer homem apeflbado , e viítofo , também 
vinha como quem fe queria moftrar gentil 
homem , poíla na cabeça huma fota de fe- 
da , e ouro , e veftida huma cabaia de fe- 
tim crameílm apedrado de ouro , com la- 
vores de outra cor , panno em viíla rico , c 

gra- 



Década II. Liv. II. Cap. III. 12? 

graciofo 5 e na cinta hum terçado lavrado 
de ouro , e pedraria , e lmma adaga da mei- 
ma forte , e na mão hum arco com quatro 
frechas , e hum pajem que lhe trazia o ef- 
cudo. O qual em entrando em a náo , pof- 
to que foi per cima das carretas 5 e repairos 
da artilheria ? ( por afll o ordenar AíFonfo 
d'Alboquerque , ) e em toda ella havia bem 
que ver , como homem prudente 3 e animo- 
fo ? não fez conta decouía alguma das per- 
que paífava ; e chegando ante AíFonfo d 5 Al- 
boquerque , fez-lhe lua cortezia , inclinando 
a cabeça té meio corpo , fegundo feu ufo , 
com todolos outros que o acompanhavam , 
que também vinham, em feu modo louçaos. 
AíFonfo d'Alboquerque levantando-fe , com 
gazalhado o recebeo ; e fez aflentar a fua 
ilharga em humas almofadas de feda , ao 
qual 5 depois que repoulòu , per meio da Lín- 
gua que lhe levou o recado , diífe , que fua 
vinda foífe mui boa , e que elle tomara a 
EIRey de Ormuz feu Senhor tão de fubito , 
que não tivera tempo pêra fe aperceber pê- 
ra tão honrado hofpede ; fomente á hora de 
fua chegada elle tivera hum recado de Có- 
ge Atar Governador d^ElRey 5 em que lhe 
mandava quefoubeíTe quenáos eram aquel- 
las que ancoravam , porque fegundo a in- 
formação que tinha , podia fer hum Capi- 
tão d 5 E!Rey de Portugal , que per os luga- 
res 



I2Ó ÁSIA de João de Bakros 

res da cofta da Arábia vinha fazendo al- 
gum damno. Que fendo efte , e vindo co- 
mo amigo , rccebello-hiam com toda a hon- 
ra , e gazalhado , como mereciam os Capi- 
tães de tamanho Príncipe ; e fe vinha com 
o propolito que elle moftrou per os lugares 
d'filRey de Ormuz íèu Senhor , que lhe 
fariam o recebimento conforme a fua che- 
gada ; e que eftando pêra vir a fua Senho- 
ria com efte recado , foi neceíTario efpcrar 
que acabaífe aquelle temporal da fua arti- 
lheria , em meio do qual lhe deram hum 
feu recado tão aprelTado , que por não in- 
correr em culpa de vagarofo , ante elle vinha 
faber o que mandava , e também dizer efte 
recado de Cóge Atar. AfFonfo d^Alboquer- 
que dando-lhe as graças da fua vinda , peró 
que entendeo o artificio de fuás palavras por 
parte de Cóge Atar , refpondeo-lhe a ten- 
ção , , e não a ellas , dizendo , que elle era 
Capitão d'ElRey D. Manuel de Portugal 
enviado per elle pêra andar de Armada na- 
queila cofta da Arábia , e dar paz áquelles 
que a quizeíFem acceitar com fe fazerem feus 
tributários ; e aos que efta condição não 
aprouveífe , os deftruir totalmente : e que 
elle Capitão mor defta lei , que lhe EIRey 
feu Senhor dera , ufára per todalas partes 
per onde viera, aííi em companhia do feu 
Capitão mor, com que elle viera doReyno 

de 



Deçada II. Liv. II. Cap. III. 127 

de Portugal , o qual com huma grofla Ar- 
mada era paflado á índia a fc ajuntar com 
o Vifo-Rey delia , como depois que elle 
per íi fó começou entrar na coíla de Ará- 
bia , onde achou gente mui íbberfaa cheia 
de enganos, e mais defejofa de guerra, que 
de paz , que lhe elle offerecia ; e como a 
gente Portuguez a guerra com Mouros , por 
fe crearem nella , os deleitava mais que o 
repoufo , não negaram a luta a quem os 
provocou. Finalmente elle ferefumio niíío, 
que podia dizer a EIRey , e ao feu Gover- 
nador Cóge Atar que o enviara , que elle 
era vindo per mandado d'E!Rey feu Senhor 
a notificar a EIRey de Ormuz , que fe que- 
ria pacificamente navegar os mares da ín- 
dia , que lhe havia de pagar hum certo tri- 
buto em final de vaíTallagem , por quanto 
elle tinha guerra com os Mouros em as 
partes Occidentaes de feu eílado : que eíla 
herança herdara de feus avós , e que por ha- 
ver fua benção , não fomente lhe fazia guer- 
ra nas partes de Africa , mas ainda na ín- 
dia , que tinha mandado defeubrir. Porque 
como os Arábios per ímpeto de cubica , 
leixando fuás terras , fe foram eftendendo per 
armas té chegar a Hefpanha , lançando os 
naturaes de fuás próprias cafas , aífi os Reys 
de Portugal , que são Senhores de boa par- 
te delia, per lei de reftituição os lançaram 

dei- 



128 ASIiV de João de Barkos 

delia , e das partes de Africa que tinham 
por f rontaria ; e ao prefente EIRey D. Ma- 
nuel que reinava , mandava a dl^ feu Ca- 
pitão que lhe fizeífe crua guerra em efta 
própria Arábia. Porém porque efta lei podia 
ter alguma excepção acerca d'ElRey de Or- 
muz , por feu eftado não fer todo na Ará- 
bia j elle feguramente podia navegar os ma- 
res da índia , e em EIRey feu Senhor acha- 
ria amizade pêra fuás ncceífidades , pagan- 
do-lhe algum tributo , e que efta era a con- 
dição da paz, e a da guerra não lhe limi- 
tava. Expedido o Mouro de Affonfo d'Al- 
boquerque com efta tão comprida refpofta , 
de que elle não foi mui contente , já quan- 
do íahio , aíli por ella , como pelo que no- 
tou em toda a não , que ardia em armas , 
Ília tão torvado , e cheio de temor , que fo- 
brelevou a prudência , e fegurança que mo C- 
trou na fua entrada ; e como homem que 
queria comprazer pêra o que diante fuccc- 
deífe , não tardou muito com huma Carta 
de crença d'ElRey aíTellada do feu Sello , 
e com elle outro Mouro , que depois ficou 
corrente neftes recados , chamado Cóge Bei- 
rame Arménio, que pelo ferviço que aqui, 
e depois fez , veio a efte Reyno , e recebeo 
mercê d'ElRey : A fubftancia da vinda dos 
quaes foi darem huma honefta defculpa 
por parte de Cóge Atar não vir logo a fe 

ver 



Década II. Liv. II. Cap. III. 129 

ver com elle Capitão mor pêra praticarem 
naquella paz que apontava , porém que ao 
dia feguinte elle o faria. Mas eíla promefía 
era fegundo a verdade que elle uíava em 
todalas outras coufas de feu governo , man- 
dando ao outro dia o Mouro Coge Beira- 
me defculpar-fe a AfFonfo d'Alboquerque 
por não vir aquelle dia ; e tantos recados 
fe paííáram de hum ao outro té que fe 
paiTou todo o dia , o qual artificio enten- 
dendo elle Affonfo d 5 Alboquerque , diíTe ao 
Mouro que não vieíTe mais a elle , fenao 
com acceitação de humadas duas coufas que 
lhe tinha dito , a paz com as condições del- 
ia , ou guerra aberta fem limitação de algu- 
ma condição. O Mouro , porque eítes feus 
caminhos eram dilatar tempo pêra entretan- 
to metterem gente que efperavam da terra 
firme , parte da qual mettêram aquella noi- 
te , quando veio ao feguinte dia , a refpofta 
que trouxe foi dizer EIRey , e Cóge Atar 
feu Governador , que aquella Cidade não 
coftumava pagar tributos , fenão receber ren- 
dimentos per entrada , e fahida de merca- 
dorias ; que por honra d 5 ElRey de Portu- 
gal fe ^Ue Capitão queria contratar em al- 
gumas , lhe feria feito honra , e acceitariam 
fua amizade. E peró que a refpofta de Af- 
fonfo d^Alboquerque foi pêra temer , pela 
conclusão que logo tornou de commetter 
Tom.ILP.L I a Ci- 



130 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

a Cidade , eílimou Cóge Atar tão pouco 
fuás palavras , que quando veio a noite , aífi 
na Cidade 5 como em as náos , tudo eram 
gritas , tambores , c outros inítrumentos de 
guerra a feu ufo , e com iílo algumas pala- 
vras de pouca eítima em que tinham os 
noíTos. E ainda pêra maior confusão deita 
obra de noite , quando amanheceo , appare- 
cêram todalas náos , e navios atulhados de 
gente com fuás arrombadas feitas d'algo- 
dão, e ao longo do mar, onde lhe pareceo 
que podiam commetter a terra, tinham af- 
feítada alguma artilheria , e pela praia tan- 
ta gente armada que a cubria, e na Cida- 
de não havia eirado , janella , ou coufa de 
vifta contra as noífas náos 5 que não eítivef- 
fe cheia , como quem efperava dalli ver al- 
gumas feitas de prazer. Em que > fegundo a 
opinião delles 3 os noííos haviam de fer to-l 
mados ás mãos , porque aíTi o mandava Có-I 
ge Atar , dizendo , que os queria vivos pê- 
ra os trazer repartidos pelas fuás náos por 
afama que tinham deferem grandes homens, 
do mar. Affonfo d'Alboquerque , porque já! 
110 dia paífado tinha entendido que cite ca-í 
fo fe havia de acabar per juizo d<a armas 
logo então houve confelho com os Capi- 
tães j e aífentado o tempo y e modo , repar 
tio o trabalho per elles , dando preceptq 
^que ninguém alferraífe fenão ao tempo qu< 



N 



o eí- 



Década II. Liv- II. Cap. III. 131 

o elle fizeííc : cá eíta obra havia de fer de* 
pois que a arrilheria fizeíTe a fua ; e havida 
viftoria das náos , ( como elle efperava em 
Deos , ) delia tomariam o favor pêra com- 
metrer a Cidade* Quando veio a manha , 
dando o final da peleja, começou a artilhe- 
ria defparar , indo-íè as noíTas náos atoando 
por fe mais chegar ás dos imigos ; e refpon- 
dendo eiles também com a fua , ( peró que 
nao foífe tão furiofa como a noíla , ) ficou 
o rompimento deitas duas frotas com a fu- 
maça , e afuzilar de fogo , e terror dos trons , 
emiftura da grita, huma femelhança de -in- 
ferno , íèm huns , e outros fe poderem ver > 
nem ouvir , por tudo fer huma confusão. 
No meio da qual ufáram os imigos de hu- 
ma induftria , que tinham ordenada, e era 
com mais de cento e vinte tantas terradas , 
que são barcos de remo ligeiros , (os quaes 
"leftavám encobertos com as náos,) quando 
*|veio ao termo que tinham aíTentado , que 
ir jera náefcuridão da fumaça, fahio hum car- 
jíttunie delles com o remo tefò, e grita que 
Wfobrelevávà a artilheria , e vieram deman- 
a* dar as noíTas náos per huma parte , kriçan- 
4do-ihes dentro huma chuva de frechas per- 
pipidas', muitas das quaes encravaram os-nof- 
'4fós. Feito o qual emprego , remettiam ou- 
fkfòs , trocàndo-fe de huma náo em outra 
c^pe maneira , que o feu recolher era ir en~ 

I ii era-* 



132 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

cravar outra náo , ao modo de huma orde- 
nada efearamuça , na qual fe efquentáram 
tanto por os noflbs eftarem prezos em as 
náos fem os poderem feguir , que fe vieram 
elles a atrever quererem fubir ás náos. Mas 
deite atrevimento levaram logo a paga , af- 
faftando-íe mais depreífa do que chegaram ; 
e ainda nefte affaítar apontaram os nolfos a 
artilheria miúda táo rafteira , que mettêram 
muitos barcos no fundo , com que leixáram 
aquelJe modo de pelejar , e roram bufear 
abrigada das náos groíTas contra a parte da 
terra. Cóge Atar com outros Capitães a ef- 
tç tempo andava em hum batel mui efqui- 
pado ao longo da terra animando os feus, 
com recados que dalli mandava , que com- 
metteífem entrar em as noífas náos com os 
navios pequenos. Peró como vio o recolher 
das terradas pelo damno que recebiam , não > 
oufou fahir á praia , e todo feu negocio era 
de lugar feguro entre a terra 3 c as náos 
grolTas , com as quaes fe elle amparava da 
noífa artilheria , trabalhar que da terra vief- 
fe mais gente , e fe metteíte nellas > e ain- 
da que os Mouros andavam já efearmenta- 
dos da fúria da noífa artilheria , tanto fez 
com as terradas , que tornaram outra vez ás 
noífas náos a lhe lançar dentro aquella chu-i j 
va de fetas , no qual commettimento , come 
osnoífos tinham já mais tento nellas, met. 

té- 






Década II. Liv. II. Cap. III. 133 

têram no fundo quinze , ou vinte. Vendo 
os noffos como a gente deitas terradas an- 
davam nadando por íb acolher a terra , e 
outros das náos dos Mouros faziam outro 
tanto 5 temendo mais o damno que nellas re- 
cebiam da nofla artilheria , que o perigo do 
mar , com o favor da viótoria , mettêram-fe 
nos bateis que tinham a bordo das náos > 
e vieram demandar o cardume deíles nada- 
dores , e ás lançadas 3 chuçadas , e eftocadas 
os fifgavam de maneira , que o fangue que 
delles bufava tingia o mar. Aífonfo d'Àl- 
boquerque a efte tempo , como eílava mais 
vizinho das náos dos imigos , tinha mettido 
no fundo duas , a do Príncipe de Cambaya , 
e outra; e quando foi pêra entrar em anáo 
Merij , depois que defcahio de todo fobre 
ella j houve tanta refíftencia', que durou pri- 
meiro que entraíTe hum grande pedaço ; e 
o primeiro que a ella íiibio do batel , em 
que fe mcttêram pêra iíTo , foi Pêro Gon- 
çalves Piloto mor da Armada , e em fua 
companhia hum marinheiro per nome Pêro 
Fernandes , e trás elles Gafpar Dias Alferes 
de Aífonfo d'Alboquerque , ao qual cuflou 
áquella entrada cortarem-lhe a mão direita , 
e por ella lhe deo Aífonfo d'Alboquerque 
dez mil reaes de tença em quanto viveo. 
E trás eííes entraram Jorge da Silveira , Ge- 
mes Teixeira, Lourenço da Silva hum Fi- 
•' • dal- 



134 ÁSIA de JoÂo de Bakkos 

dalgo Cafíelhano , João Teixeira 5 Joanne 
Mendes Botelho , Nuno Vaz de Caftello- 
branco , Gonçalo Queimado , Joanne Men- 
des da Ilha, Pêro Cam moço da Camará 
d'ElRey , e outros muitos , que o favor da 
viítoria levou trás íi , com que a náo foi 
enxorada dos Mouros que a defendiam , 
lauçando-fe todos ao mar, temendo menos 
o perigo d'agua , que o ferro dos noflbs. 
Os Capitães das outras noíTas náos , cada hum 
na forte que lhe coube , não houveram in- 
veja em feus feitos aos de Affonfo d'Albo- 
querque , peró que elle commettefTe a mais 
perigofa náo do porto , porque todos rema- 
taram o fim de leu trabalho com íe faze- 
rem fenhores das náos que commettéram , 
e a gente das outras , que ficaram vendo o 
exemplo de feus 'vizinhos , leixáram os caf- 
cos vazios , e falváram-fe em terra. Os nof- 
fos alargando eftas que não tinham quem 
as defender , fcguindo a viíloria cem os 
bateis , e terradas que tomaram , foram-fe | 
ao longo da ribeira , onde puzeram fogo a j 
mais de trinta velas , cortando-lhes as amar- I 
r.as 3 depois que o fogo tomou poffe dei-í 
las , as quaes foram dar comfigo na terra; 
firme da cofia da Perfia ; porque o vento , j 
que ventava per (ima da Ilha , as encarni-j 
nhou pêra lá. Feita eíla queima nas do mar A 
mandou AíFonfo d'Albo quercue poer fogo \ 

a hum i 



! 



Década II. Liv. II. Cap. III. 13^ 

a hum grande número delias , que eílavam 
em eílaleiro no cabo do arrabalde , iem ha- 
ver quem da Cidade oufafle de as defender : 
tamanho foi o temor que levavam da fúria 
do fogo , e ferro dos noflbs , e todo feu 
cuidado erafalvarem fuás peíToas dentro na 
Cidade , temendo ainda que a viétoria lhes 
déíle oufadia pêra logo quererem entrar nel- 
la , peró que foiTe já fobre a tarde. E an- 
dando o fogo em duas , ou três- náos del- 
ias 5 veio Cóge Beirame com outro Mouro 
em huma terrada a força de remo capean- 
do com huma bandeira branca , como quem 
queria dar algum recado 5 ao qual Affonfo 
(1'Alboquerque mandou Nuno Vaz de Caf- 
tello-branco em a fufta t , em que andava 
com Gafpar Fires que fervia de língua , fa- 
ber o que queria. Mas o outro Mouro que 
vinha com Cóge Beirame , como era natu- 
ral do Reyno de Grada , e fabia bem o 
Heípanhol , c vinha pêra fer interprete \ che- 
gando a Nuno Vaz 5 fallou logo tão folta- 
mente , que não fervio o noíTo. Os quaes 
trazidos ante Affonfo d'Alboquerque , entre 
muitas couíàs que eíle lhe difíe em modo 
de o querer comprazer , e lifonjear pela vi- 
storia , a refolução do recado a que vinha 
era , que EIRey i e Cóge Atar lhe pediam 
que ceíTaífe a fúria de feu poder , e não man- 
daífe queimar o arrabalde, e náos que ef- 

ta- 



136 ÁSIA de João de Barros 

tavam no eílaleiro , que tomaíTe por fatisfa- 
çao da culpa que tinha em não acceirar fua 
amizade , a morte de tanta gente , e perda 
de tantas náos , e fazenda ? como tinha per- 
dida , porque todo o mais damno que man- 
daíTe fazer , foubeífe certo que era feito nas 
coulas d'EÍRey de Portugal , por elie 5 e 
todo feu Reyno eítar a feu ferviço j e da- 
quelle dia em diante fobmettia feu eftado a 
todalas condições que elle Affonfo d'Albo- 
querque pedia por parte de tamanho Prín- 
cipe. E que pêra confirmação deita fua von- 
tade , ao dia feguinte mandaria peíToas que 
aífentalfem eílas coufas da paz com mais re- 
poufo do que naquclla hora podiam ter os 
corações d'ambos ,. o delle Capitão mor com 
prazer da vi&oria , e o feu com trifteza de 
não ter acceitado o que lhe elle d'ante offe- 
recia por parte d'E!Rey de Portugal , Prín- 
cipe a quem elle defejava conhecer , e fer- 
vir. Porque naquelle dia o prazer 5 e trifte- 
za não fe conciliava bem , e todos citavam 
tão cegos , que nem os vencedores fabcriam 
pedir 5 nem os vencidos conceder. Affonfo 
d'Alboquerque , porque fua tenção não era 
deftruir totalmente aquella Cidade , ( ainda 
que o pudeffe fazer , ) mas trazella ao jugo 
de fervidão , como tinha mandado dizer a 
EIRey 3 refpondeo a eíte feu requerimento , 
que era contente entreter a fúria dos feus 

ca- 



Década II. Liv. IL Cap. III. 137 

cavalleiros ; porém que foubeíTe certo que 
ao feguinte dia 5 faltando do que lhe man- 
dava pedir , e prometter , que a Cidade fe- 
ria mettida a fogo , e a ferro , porque a 
gente Portuguez não perdoava culpa tercei- 
ra ; e que nenhuma coufa caíligava com 
mais indignação , que palavras íimuladas. 
Que por acatamento de lua real pefíba , por 
lhe dizerem fer de pouca idade . e fem cul- 
pa do que era paliado , elle fe recolhia ás 
fuás náos fem aquelle dia íè fazer mais da- 
mno ; e por quanto o fogo tinha já tomado 
poíTe de três ? ou quatro náos das que eíla- 
vam em eftaleiro , como elle via , que as 
mandaííe Cóge Atar apagar ? e que olhaífe 
não o accendeíle maidr no animo dos Portu- 
guezes 5 faltando ao feguinte dia do recado 
que mandava. Expedidos eftes Mouros , re- 
colheo-fe Aífoníb d'Alboquerque com to- 
dolos Capitães ás náos , bem canfados do 
trabalho daquelle dia : cá durou das nove 
horas té quaíi Sol poílo , em que morre- 
ram dez peííoas dos noíTos \ e íincoenta e 
tantos feridos \ e dos Mouros , íegundo fe 
depois foube , morreram mil feiscentos e 
tantos , dos quaes obra de oitocentos dahi 
a três dias apparecêram os corpos fobre a 
agua , que pêra os noflbs mareantes foi hu- 
ma proveitofa pefcaria , porque nos bateis 
andavam a lhes tirar terçados , agumias giiar- 

ne- 



138 ÁSIA de J0X0 de Barros 

nccidos de ouro , e prata , anneis , e jóias , 
de que fe elles arreiam. E a mais maravi- 
lhofa coufa que neíta batalha fucccdco , e 
houveram por milagre , foi acharem mui- 
tos deites corpos dos Mouros atraveflados 
com fuás próprias frechas , fem entre os 
noííos haver alguém que tirafle com arco, 
de que elles ufam. 

CAPITULO IV. 

Como EIRey Ceifadim de Ormuz ajjen- 

tou pazes com Affonfo d^Alboquerque , fa- 

zendo-fe vafjallo d'* EIRey D. Manuel, com 

tributo de quinze mil xarafijs , as quaes 

foram logo quebradas : e a caufa porque. 

ELRey de Ormuz como , fegundo dif- 
femos , era de pouco mais de doze an- 
nos , aíli por fua tenra idade , como por viver 
fujeito á tyrannia de Cóge Atar , não ti- 
nha liberdade , nem oufadia pêra confultar 
eílas coufas com alguém , nem menos al- 
guma peífoa oufára de o fazer , porque era 
Cóge Atar tão ciofo , que aíli o Rey, co- 
mo os vafíallos andavam aíTombrados del- 
le. Principalmente depois que da fua mão , 
com nome de defender a Cidade , merteo 
dentro nella muitos amigos Perfios , e Ará- 
bios , e todos ficaram daquelle dia da ba- 
talha vivos 3 c sãos j e os naturaes da Ci- 

da- 



Década II. Liv. II. Cap. IV. 139 

dade , como quem defendia mulheres , e 
filhos, e toda a fubílancia de lua vida, efi 
tes foram aquelles que a perderam. Com o 
qual falecimento de gente toda a Cidade 
foi pofla em hum contínuo choro , porque 
além de fer mal commum , particularmen- 
te todos tinham que chorar : cá não fe acha- 
va cafa onde não houveíTe pai , filho , ma- 
rido , irmão , ou parente morto. Còge Atar , 
poílo que pêra íeus propoíitos trazia o ani- 
mo encruado 9 e foberbo , vendo tanta la- 
grima , e contínuo clamor, temeo que fe 
Aífonfo d'Alboquerque no íeguinte dia pu- 
zeíTe o peito em terra , poucos haviam de 
fer em defendimento da Cidade ; e toma- 
da ella , elle como cabeça defte feito fica- 
va com a fua mais obrigada a caíHgo que 
nenhum da Cidade , e mais fendo de todos 
tão mal quiílo. E ainda que elle quizera 
metter efte negocio em outra ventura , por 
não vir ao que lhe tinha mandado dizer 
Aífonfo d'Alboquerque , temendo também 
que a dor de todos lhe podia naquelle tem- 
po ir á mão , leixado feu particular inte- 
reffe pola conjunção do tempo , tomou ou- 
tro caminho , fazendo ajuntar nas cafas d'EI- 
Rey todolos principaes da Cidade pêra con- 
fultarem o que deviam fazer 5 dando elle 
conta do recado , que EIRey tinha manda- 
do ao Capitão por remédio dç o entreter 

na- 



140 ASTA de João de Barros 

naquelle impcto do vencimento , e affi da 
refpofta que elle mandara : e per final de- 
terminação , depois que fe deram muitas 
razões , aflcntáram que acceitafíe EIRcy o 
que lheAíFonlb d'Alboquerque mandara di- 
zer; porque ainda que íujeiçao era igual á 
morte , todavia cm quanto os homens ti- 
nham vida , tinham remédio ; e melhor era 
efperar a cortezia daquelles homens , que 
a fua fúria. Quanto mais , que pela expe- 
riência que tinha viíto das próprias terras 
de Ormuz perquc paliaram , todalas que 
fe lhe deram não receberam damno ; e fe- 
gundo fe dizia era gente que mais peleja- 
va por gloria da vicioria , que por haver 
poífe de terras , c contentavam-fe com o 
dcfpojo de qualquer preá que tomavam , e 
com cila fe acolhiam pera fua terra. Por- 
que gente que andava efpancando o mar, 
cujo intento era efte , e o de feu Rcy fe- 
gurar que as efpeciarias não entraílem no 
mar Roxo, a qual fegurança eftava na cof- 
ta do Malabar , onde tinha o feu Vifo-Rcy 
com fortalezas ordenadas a efte fim fem 
conquiftarem as terras do fertão ; bem fe 
podia efperar que o feu pedir tributo de 
vaflallagem havia de durar pouco , e mais 
podia fer que huma cópia de dinheiro , que 
lhe deflem , remiria tudo. Aííentado efte 
confelho eníre eiles , por caufa da prefla 3 

que 



Década II. Liv. II. Cap. IV. 141 

que Affoníb d 5 Alboquerque deo ao Mou- 
ro , logo em amanhecendo , mandou Cóge 
Atar pôr huma bandeira branca nas caías 
d'ElRey 3 e com os dous Mouros de re- 
cado veio outro homem principal chama- 
do Raez Nordim feu Guazil pêra fe verem 
com Affoníb d'Alboquerque 5 e começarem 
de entender em o negocio da paz j porque 
Cóge Atar , como era cautelofo , primeiro 
per elles quiz tentar a vontade de Affonfo 
d'Alboquerque , que fe ver com elle. Os 
quaes , depois que vieram , e tornaram com 
recados , e apontamentos de huma a outra 
parte, aíTentou EiRey no que lhe Affonfo 
d 3 Alboquerque pedio , de que logo naquel- 
le dia fe formou hum contrato de paz, que 
fe aííignou pêra ambas as partes na forma 
que abaixo veremos. Pêra maior folemni- 
dade do qual aílentáram que foíTe eíte con- 
trato jurado por EIRey , e feus Governa- 
dores , e por Affonfo d'Alboquerque , em 
huma ponte de madeira tão mettida dentro 
no mar , que pudeífe EIRey eílar nella com 
todo apparato de feu eftado , e Affonfo 
d'Alboquerque em os feus bateis. Aperce- 
bidas todalas coufas pêra eíla folemnidade 
de viítas , e confirmação de paz , veio EI- 
Rey a efta ponte acompanhado de Cóge 
Atar 3 Raez Nordim , e de feus Officiaes , 
Emires de fua cafa , que são os nobres dei- 
la 3 



142 ÁSIA de João de Barros 

la , vertidos de fefta com todolos inftrumeh- 
tos de prazer, que elles ufam nos taes tem- 
pos , eltando a ponte toda cuberta de ricas 
alcatifas , e toldada de pannos de ouro , e 
feda daquellas partes , onde EIRey fe af- 
fentou em feu aífento , efperando que Af- 
fonfo d 5 Alboquerque viefle. O qual ao tem- 
po que partio das náos com feu apparato 
de bateis > aíli foi temerofo de ouvir a ex- 
pedida delias , como alegre pêra folgar de 
ver a fua chegada á ponte , porque á par- 
tida tudo era fogo , trovoada da artilheria ; 
e chegando á ponte , ouviram trombetas , 
atambores , viram bandeiras , feda , efcaria- 
tas , collares , cadeias , e outros arreios de 
ouro, e prata : aíli que fe nos Perfios ha- 
via que ver, levavam os Portuguezes mui- 
to que defejar , c fobré tudo a viftoria, 
que lhes deo poder pêra irem naquelle ha- 
bito a hum aéto tão illuftre , como era fob- 
metter debaixo do jugo d'ElRey D. Ma- 
nuel feu Senhor outro Rey; não dos Alar- 
ves da barbara Barberia , nem dos Ethio- 
pias de Guiné , nem do Gentio do Mala- 
bar, ou de outras Provincias çafaras da po- 
licia da noíía Europa , cujas carnes fe Co- 
brem níial cubertas com hum pobre pannó 
de lã , ou algodão., e cujas alfaias , e appa- 
rato de cafa , e ferviço de fuás peífoas he 
huma barbara pobreza , peró que em gran- 
de- 



Década II. Liv. II. Cap. IV. 145 

deza de terra , e número de povos fejam 
mui poderofos ; mas hum Rey da antiga, 
e real proíapia dos Perfas , gente tão po- 
litica em íciencia y armas , governo , cos- 
tumes , e trajo , que não achou Xenofom 
Reys mais illuftres , nem povo mais nobre > 
com que per feu exemplo pudeífe doutrinar 
aos feus Gregos em a fua Cyropedia que 
eicreveo. E poíto que ao preíente em al- 
guma maneira eftê barbarizada eíla gente 
Períia com a fedia de Mahamed 3 e entra- 
da dos Arábios naquelías regiões , ainda são 
tão grandes , e magníficos neílas coufas , 
que todo feu ferviço he ouro 5 prata 5 per- 
las , pedraria , e fedas ; e tanto -diíto , que 
fe podem haver por pródigos ? e mimoíbs 
no modo de fe tratar , porque as alcatifa- 
das de ouro , e feda de feu eftrado podem 
fervir de riquiffimos dóceis da cabeça dal- 
guns Reys , e Príncipes deita noíía Euro- 
pa. Finalmente he gente , que quando Gre- 
gos , e Romanos fe querem gloriar em fuás 
hiítorias , celebram com mais facúndia al- 
guma vidloria , fe a delJes tiveram , do que 
nós celebramos eíla primeira que houvemos 
deite Rey. Sem termos da noíTa parte aquel- 
las fuás legiões de tanto número de folda- 
dos , fomente quatrocentos e feífenta Por- 
tuguezes , fracos , e debiles em forças cor- 
poraes , corrompidas per tão diveríos cli- 
mas * 



£44 ÁSIA de João de Barros 

mas , e vários mantimentos , obrou nelles 
tanto a virtude de feu animo , obediência , 
e lealdade com que fervem a feu Rey , que 
tomando per força de Armadas tantas Vil- 
las , e Lugares deite Reyno Ormuz ? afli fe 
fizeram temidos com fuás vistorias , que 
dentro na fua metropoli Ormuz entram ver- 
tidos de feita a triunfar de hum Rey , que 
tinha em defensão delia tão grande núme- 
ro de náos no mar , tanta gente de armas 
em terra , e tudo tão temerofo de commct- 
ter ? que com razão em os noífos furgindo 
com fete velas , podiam efperar , o que cui- 
davam delles , ferem tomados ás mãos , e 
poítos debaixo de lei de fervidão. Mas 
Deos , em cujo poder eítam todolos Rey- 
nos 3 e eítados da terra , e que tem olho 
naquelles , que vertem feu fangue por con- 
ífsão da fua Fé , neíte dia trouxe a poten- 
cia deite Rey infiel a fe fobmetter debaixo 
do efcabelo dos pés d^ElRey D. Manuel , 
na entrega que fez de fua peífoa aquelle 
illuílre Capitão AíFonfo d'Alboqucrque , que 
alli eítava em feu nome \ o qual em che- 
gando a EIRey , o abraçou , moítrando-lhe 
mais amor de pai , que feveridade de vi- 
éloriofo Capitão. E paífados os aítos da- 
quella primeira viíta , aífentado cada hum 
em fua cadeira no cabo da ponte , e feito 
filencio y em Perfico huma vez , e em no£ 

& 



Década II. Liv. II. Cap, IV. 145 a 

fa lingua outra , em alta voz fe leo todo o 
contrato que era feito entre elles» A íiil> 
ftancia do qual em , como EIRey Ceifadim , 
íegundo Rey deite nome em Ormuz ; que 
aili eftava prefente 5 fe fazia vaífallo ePEl- 
Rey D. Manuel o primeiro defte nome em 
Portugal com tributo de quinze mil xará- 
fijs de ouro em cada hum anno , pagos nas 
rendas daquelleReyno a elleAffoníb d'AI* 
boquerque Capitão da conquifta daquelia 
cofia da Arábia , ou aos Governadores , e 
Capitães geraes da índia , ou a quem o di- 
to Senhor Rey D. Manuel mandaííe ; e o 
mais rendimento ficava a elle dito Rèy Cei- 
fadim pêra defensão , e governo deíie ? ê 
defpeza de fua peíToa , e cafa. E que elle 
Ceifadim daria hum lugar na parte que el- 
le Affonfo cTAlboquerque quizeííe , onde 
fariam huma fortaleza pêra nella eílar hum 
Capitão , e certos homens pêra guarda da 
fazenda que aili eíliveíTe do dito Senhor 
Rey D. Manuel , com outras mais condi- 
ções ,-e declarações, íegundo fe no contra- 
to contem. O qual logo foi jurado per EI- 
Rey em o moçafo de fua Sefta , e per Af- 
fonfo d'Alboquerque em Jium Livro dos 
Evangelhos , e depois foi jurado per Cóge 
Atar Governador d"'ElRey , e per Raez 
Nordim , e aili juraram ambos que recebiam 
em governo o Reyno de Ormuz , e a peí- 
Tom. II P. L K foa 



146 ÁSIA de João de Barros 

foa cTElRey em guarda pcra o fcrvir com 
toda fé , lealdade , por razão de fua pou- 
ca idade j &c. Finalmente , como as eícri- 
turas do dia d'ante citavam feitas , e aífig- 
nadas , Aífonfo d'A.lboquerque entregou a 
fua a ElRey , a qual era em Portuguez , e 
ao noflTo u lo , e ElRey entregou a lua ao 
feu em duas línguas , Periia , e Arábia , ef- 
critas em duas folhas de ouro batido am- 
bas de hum teor, cada huma com três fel- 
los , hum d'E!Rey de ouro , e os dous de 
Cóge Atar , e Raez Nordim , que eram de 
prata , mettidas em duas caixas de prata , 
fegundo coítume dos Reys Orientaes. Fei- 
ta cita folemnidade de contrato de vaííalla- 
gem , e expedido Affoníb d'Alboquerque 
d'ElRey , tornou-fe com aquelle triunfo de 
fua yiíloiia ás náos , onde foi recebido com 
a muíica da artilheria , com que ellas cele- 
bram todalas feitas ; e ElRey também em I 
feu modo em fe recolJiendo , foi recebido, 
de todo o povo , moítrando terem todos 
contentamento daquelle aífento de paz. E 
não fomente naquelle dia , mas nos dous 
feguintes y aífi na Cidade , como em as náos r 
por celebrar aquella folemnidade de paz . 
todos fe pairaram em feitas ; no fim dos 
quaes começou Affonfo d'Alboquerque en-j 
tender na obra da fortaleza com titulo de 
cafa de recolhimento dos que alli haviair 
v. de 



Década ÍL Liv. II. Cap, IV. 147 

de ficar. Pêra a qual obra ElRey mandou 
logo pagar finco mil xarafijs a conta dos 
quinze de tributo , e aíli deo ajuda de tc- 
dalas achegas , e alguns Officiaes , e fervi- 
dores , aos quaes foi dado cuidado de tra- 
zer, e amaflarem o geílb com outra rhiftu- 
ra de efterco compofto á maneira de be- 
tume , de que ufam naquella terra , princi- 
palmente nas obras que fe fundam na agua , 
I como fe eíla fundou , pegada nas cafas d'El- 
\ Rey com duas ferventias ; huma pêra a Ci- 
í dade , e outra pêra o mar de maneira , que 
; fem perigo pudeíTe entrar , e fahir deíla 
fem lhe ler impedida a embarcação ; ou 
S vinda do mar a ella ; e os noííbs tinham 
I cuidado , repartidos em capitanias , de trazer 
j a pedra em bateis de huns edifícios , e pe- 
dreira de huma ponta da Ilha, onde fe cha- 
' ima Turumbáca. No lavrar da qual obra 
1 ; tinha AíFonfo d'Aíboquerque eftemodo : em 
3 'rompendo alva vir-fe das náos com todo-» 
; los bateis , e eíquifes ao lugar ; e tanto 
Mque fe punha o Sol , recolhia-íê ás náos, 
»■ !e na maneira de ir , e vir a gente fempre 
•andava com artifícios porencubrir aos Mou^ 
: ros quão pouca tinha , temendo que fe el- 
' les o foubeífem , podiam reinar alguma ma- 
■ licia ; porque entre elles era fama que em 
1 as náos havia dous mil homens , e por não 
fl perder eíla opinião , lá os trocava, como 

K ii re* 



148 ÁSIA de Jo ao d e Barros 

reprefentador de huma comedia , vindo huns 
em diverfas figuras , ora com humas ar- 
mas , ora com outras, repartidos per giros 
das náos. Havendo já dias que fe lavrava 
nefta obra com a mais preíTa que íe podia 
dar , mandou dizer Cóge Atar • a AfFonfo 
d 5 Alboqucrque , que na banda dalém na terra 
firme em hum porto , que íe chama Ban- 
der Angon , lugar onde vem ter as cáfilas 
da Períia , eram chegados dous Embaixa- 
dores d^EiRey de Xiraz , os quaes vinham 
pedir certo tributo , que os Reys de Or- 
muz já de muito tempo pagavam aos Reys 
da Períia. E por eíte Rey de Xiraz ler 
vafiallo do Xeque Iímael , que era Pvey de 
toda Perfia , e mui vizinho a Ormuz 5 ti- 
nha cuidado deita arrecadação polo tempo 
do pagamento fer chegado : que mandava 
ifto dizer a lua Senhoria , porque como 
aquelle Reyno de Ormuz citava debaixo 
da protecção d'ElRey de Portugal , e a el 
le pagava tributo , a eile Capitão comoí r 
author deita obra pertencia a refpoíta que; 
EIRey de Ormuz feu Senhor havia de dar . 
que vilTe fuá Senhoria niíTo o que podk 
refponder. AfFonfo d'Alboquerque , poítc 
que em alguma maneira foubeíTe como o 
Reys de Ormuz pagavam aos de Perfia hun 
tanto , ainda que não era tão particular 
mente 7 como fica atrás , e lhe depois fc 

din 






Década II. Liv. II. Cap. IV. 149 

dito 5 porque eíle Cóge Atar era homem 
fagaz , e manhoib , parecendo-lhe que ef- 
tes Embaixadores eram per elle trazidos 
alli induítrioíamente pêra algum propoííto 
1 feu , mandou-ihes dizer , que de mui boa 
I vontade elle queria dar relpoíta aos Em- 
baixadores ; que lhe mandafle lá peíToas de 
authoridade pêra lha enviar per eiles. Vin- 
! do dous homens honrados ante elle Affonfo 
! d'Alboquerque , mandou-lhes dar juramen- 
to em o feu moçafo 3 entregando-lhes huns 
i poucos de polouros de" ferro coado de ar~ 
j tilheria , e huns ferros- de lanças . e molhos 
Í de fetas , e diíTe , que pelo juramento que 
| tinham recebido aprefentaffem aquellas cou- 
i las aos Embaixadores , e lhes difleíTem da 
I parte delle Capitão mor , que os Reys , e 
í| Príncipes tributários a EIRey de Portugal 
)i feu Senhor ? quando de outros eram reque- 
1 ridos por algum tributo , naquella moeda 
i-j lho pagavam , porque delia tinha os feus 
t G armazéns cheios pêra os ímigos , e pêra os 
jc| amigos abria feus thefouros , fe delíes ti- 
rllham neceílidade. E fe EIRey de Xiraz 
lil alguma couíà queria a EIRey Ceifadim de 
il Ormuz , que eííe AíFonfo d 5 Alboquerque 
■ficava alli fazendo huma fortaleza i a qual 
iilfe havia de encher daquella moeda , e de 
>ttiiui esforçados , e valentes cavalleiros : que 
/ôtja ella podia mandar requerer os taes paga- 

men- 






i^o ÁSIA de JoXo de Barros 

mentos , porque elles haviam de refponder 
por EIRey Ceifadim. Da qual rcfpofta Có- 
ge Atar não ficou muito contente , por el- 
le fer o repreíèntador deites falfos Embai- 
xadores , como Affonfo d'Alboquerque fou- 
be depois ; porque como na obra da for- 
taleza , que creícia, fe acerefeentava nelle 
huma incomportável dor, vendo nella hum 
duro jugo íbbre feu pefcoço , que lhe aba- 
tia quantos penfamentos lhe reprefentava a 
fua tyrannia ; e a gente da Cidade per hu- 
ma parte tornava contra elle favor nella , e 
per outra não oufava levantar os olhos con- 
tra hum Portuguez , fervia o feu efpirito 
em bufear modos como ella não foííc mais 
avante ; e quando vio que eíla invenção dos 
Embaixadores lhe não fervio , bufeou ou- 
tra entrada, e foi per eíla maneira. Aííon- 
fo d'Alboquerque , como andava encobrindo 
que os Mouros não entcndelTem a pouca 
gente que tinha , e também por evitar des- 
manchos de homens de armas , ordenou que 
em cada náo houveíTe hum Feitor das par- 
tes , que com hum Efcrivão , e meia dúzia 
de homens em feu dia a giros hiam a Ci- 
dade comprar mantimento , e o neceífario 
que cada hum queria. O qual modo de 
comprar EIRey D. Manuel deo por regi- 
mento aos Capitães logo nos primeiros 
annçs denoíío defeubrimento , por não ha- 
ver ; 



Década II. Liv. II. Cap. IV. 15T 

ver caufa de fe romper a paz com o Gen- 
tio da terra , e também por os homens não 
perverterem , e abaterem huns aos outros 
nas compras , e vendas de fua própria fa- 
zenda , zelando o bem 5 e proveito de to- 
dos. E porque os homens eram máos de 
contentar das compras que fe faziam per 
mão deite Feitor 5 e Efcrivão , e clamavam 
ao Capitão mor que não haviam de com- 
prar a jóia , nem o brinco pêra fuás mu- 
lheres 5 e filhas per olho alheio , por ferem 
coufas de appetite 3 de que Ormuz he huma 
feira deitas cubicas , accrefcentou que pou- 
cos 5 e poucos , com eítes dous Officiaes 5 fof- 
iem a Cidade pêra trazer a gente contente no 
trabalho da fortaleza. Cóge Atar como fou- 
be que os noífos andavam de dous em dous 
pela Cidade comprando eítas coufas , man- 
dou finco , ou féis homens com algumas 
línguas com xarafijs de ouro , que he hu- 
ma moeda que vale trezentos reaes dos 
noííos , aos convidar como de íi j fe queriam 
alli ficar, que lhes dariam a dez xarafijs por 
mez 3 e que viveíTem em fua lei : cá dei- 
tes não queriam mais que enfinarem pele- 
jar ao modo Portuguez aos da Cidade , por- 
que lhe parecia bem pêra fc ajudar diííò , 
quando tiveílem guerra com os Reys da 
terra firme daPeríia, com que algumas ve- 
zes contendiam. As quaes offertas move- 
ram 



i$z ÁSIA de JoÂo de Barros 

ram a íinco homens de pouca forte , e de 
menos confciencia , três dos quaes eram Le- 
vantifcos j e hum Bifcainho , que fc cha- 
mava meftre Martim artilheiro , e hum Pe- 
dreanes Portuguez natural da Ilha da Ma- 
deira filho de huma Mourifca. Aecrefcen- 
tou mais a efte rompimento de paz , que 
fe caufou deites lançados com os Mouros , 
ter dado Aítbníb cf Alboquerque por apon- 
tador da gente da Cidade , que fervia na 
obra pêra lhe pagarem feu trabalho , hum 
João de Ortega Caítelhano , o qual por ef- 
ta converfação de apontar os Mouros , c 
por fer homem azado pêra commetter efte 
feito , deicubrio a Cóge Atar quão pouca 
gente era a noífa , e outras coufas de al- 
gumas differenças 3 que havia entre o Ca- 
pitão mor , e os outros Capitães fobre o 
fazer daquella fortaleza , da qual eJles não 
eram contentes ; com que clíe Cóge Atar 
teve animo pêra poer em eífecto o que de- 
fejava , e começou per aqui. Em quanto 
os noífos de noite eftavam em as náos , que 
a obra da fortaleza ficava fem vigia , man- 
dou picar a parede de huma cafa d'ElP.ey , 
que vinha dar na obra que os noflbs fa- 
ziam , com fundamento de a hum certo 
tempo > quando os noflbs eftiveíTem mais 
defeuidados , com hum golpe de gente en- 
trar per ajii com áks, e outros a hum 

cer- 



Década II. Ljv. II. Cap. IV. 15*3 

certo final darem nos que andavam á pe- 
dra com os bateis. Mas efte feu fundamen- 
to não houve eífedlo ; porque ante de ir 
mais avante , fabendo Affonfo d'Alboquer- 
que como eram defapparecidos os finco ho- 
mens que diíTemos , mandou dizer a elle 
Cóge Atar , que lhos enviaífe, não faben- 
do ainda como eram induzidos per elle ; 
ao que elle refpondeo , que pela diligencia , 
que logo mandou fazer na Cidade , não fe 
achavam taes homens , e havia fuípeita fe- 
rem paífados á terra firme , e como ella 
era larga , feriam já poftos em falvo. Af- 
fonfo d'Álboquerque replicou a efte feu re- 
cado com indignação 5 dizendo , que os ho- 
mens lhe foliem logo trazidos , e não cu- 
ra íTe de mais recados fobre fua fugida, fe- 
nao foubeíTe certo que fobre iíío metteria 
a Cidade a fogo , e langue ; porque aquel- 
la era a maior injúria que lhe podia fazer y 
negar-lhe os homens de armas cPElRey feu 
Senhor 3 de que havia de dar conta, como 
fe cada hum foíle feu filho. EIRey á in- 
dignação deftas palavras acudio , refponden- 
do per íi , que a guerra , e a paz tudo eP- 
tava na fua mão ; mas que lhe pedia que 
olhaííe que qualquer damno que iòbre iífo 
fe fizeífe , não fe fazia a imigos , mas a 
hum vaíTaílo d'E!Rey de Portugal , entre- 
gue a ellç Capitão mor per hum folemne 

con- 



1^4 ÁSIA de JoÃo de Bauros 

contrato jurado poucos dias havia : que 
proteftava fer innoccnte dos homens que pe- 
dia, e naò fer caufa de nenhum movimen- 
to de guerra , a qual quando era injuíta j 
fempre ficava íbbre a cabeça de feu au- 
thor. 

CAPITULO V. 

Da guerra que Affbnfo d? Alboquerque 
fez d Cidade Ormuz , té que o leixdram 
três Capitães dos que com elle andavam , e 
fe foram d índia : e do que elle mais fez 
té ir invernar d Ilha Cocotord. 

AFfonfo d'Alboquerque a efte recado 
d'ElRey reipòndeo ; e houve de am- 
bas as partes , e aífi de Cóge Atar tanta 
repetição de palavras , abonando cada hum 
fua caufa , que fe foram accendendo de 
maneira no peito delles , té que romperam 
de todo. E o primeiro damno que AfFonfo 
d 5 AIboquerque mandou fazer , foi enviar 
Affonfo Lopes dVAcofta, António do Cam- 
po , e João da Nova , que com fua gente 
foífem em os bateis a hum arrabalde da 
Cidade , e que trabalhaíTem por haver al- 
guns Mouros a mão , e ifto a fim de ator- 
mentar os da Cidade , por a efte tempo 
ter já fabido per hum Alouro chamado Có- 
ge Abrahem, grão hnigo de Cóge Atar, quan- 
to a Cidade defejava a paz , e que elle Có- 



Década II. Liv. II. Cap. V. 157 

ge Atar fó era o que queria mover guer- 
ra , e pêra iíTo rinha picada a parede das 
cafas d'ElRey. Peró como íodolos Capi- 
tães eram contra o parecer de Affonfo d'Al- 
boquerque neíte rompimento , eftes que man- 
dou foram de tão má vontade em feu pei- 
to 5 que naquelle commettimento mais en- 
xotaram os Mouros , que lhes fazer outro 
damno : fomente por cumprimento trouxe- 
ram dous Mouros velhos , que mais foram 
trazidos ás coitas por fua muita velhice y 
do que elles vieram por feu pé. CógeAtar 
como vio ateado o fogo que elk defeja- 
va , por ter já fabido a pouca gente que 
havia em as náos , aquella noite mandou 
poer o fogo a hum bargantim , que Affon- 
fo d'Alboquerque tinha mandado fazer , o 
qual eftava em termo que-dahi a três dias fe 
pudera lançar ao mar. E começando arder 5 
ouviram brados do muro per lingua Por- 
tuguez , que diziam : Affonfo cP Albuquer- 
que 5 açude ao teu bargantim com os teus 
quatrocentos homens , que ahi acharás fe- 
tecentos frecheiros que te efperam ; e com 
efías palavras dizia outras conformes ao ef- 
tado de hum dos noífos fugidos que elle 
era. Affonfo d 5 Alboquerque quando vio ar- 
der o bargantim , e lhe diííeram as pala- 
vras defte máo Chriílao , quem quer que 
díe foíTe , ardia o feu elpirito , vendo de 

quan- 



i^ó ASIA.de JoXo de Barros 

quanto mal foram caufa aquelles finco máos 
homens, que fe lançaram com os Mouros. 
Sobre o qual. cafo tanto que amanheceo , 
mandou a Francifco de Távora que com 
a gente da ília náo lhe foíle queimar hu- 
mas náos , que citavam emcftaleiro daquel- 
las a que já mandara poer o fogo no dia 
da batalha 3 as quacs foram foccorridas de 
maneira que o fogo lavrou mui pouco ; e 
quando paflbu per diante das caias d 5 El- 
Rey , delparou lium tiro , com que lhe ma- 
taram o Piloto da náo , que levava comíi- 
go no batel ; e fe mais fe detivera naqucl- 
le lugar , náo fora aquelle o derradeiro , 
porque vieram outros tiros fobre elle. O 
que Àffonfo d'Alboqucrquc muito fentio , 
e já indignado do pouco acatamento que 
lhe tinham , mandou outra vez aos Capi- 
tães que foííem a humas cafas grandes , que 
eftavam afoitadas da Cidade, parecendo-lhe 
que citaria nellas alguma peííoa notável, a 
qual fendo tomada , poderia per ella haver 
aquelles finco homens , em o qual negocio 
fe houveram de perder eítes Capitães que 
a elle foram : cá fahíram a elles té trezen- 
tos homens , em que entravam muitos de 
cavallo , que os fizeram recolher de melhor 
vontade do que a elles levavam pêra lhe 
fazer damno ; e ante quizeram trazer nome 
de covardos P que de vingativos , porque 

viam 



Década II. Liv. II. Cap. V. 15-7 

viam Affonfo d 5 Alboquerque que procedia 
naquella guerra mais per modo de paixão , 
que de cauía mui notável \ e que ainda que 
a tiveffe , a devera diílimular té poer a for- 
taleza no eftado que delia puderam fazer a 
guerra ; e o que mais obrigou a todos , 
foi verem que também os Mouros lhe ti- 
veram acatamento : cá podendo-lhe fazer 
damno ao recolher dos bateis , diffiinulá- 
ram com elle , como gente que também lhe 
•pezava daquella guerra íèr movida. Final- 
mente aíTi os da Cidade, como os noíTos , 
eram contra ella: fomente Cóge Atar com 
fua malícia por feu particular intereífe , e 
Affonfo d'Alboquerque com defejo de vin- 
gança., e mais por haver a madros lança- 
dos , ambos defejavam de levar a fua von- 
tade avante. E porque os Capitães fobre 
eíla paixão , qtíe Affonfo d 5 Alboquerque 
queria feguir, o culpavam, elle por defcul- 
pa dizia, que infiftir elle tanto naquelle ca- 
fo , não era por razão dos homens que fu- 
giram , porque bailava ferem elles vis , e 
de pouca conta pêra os pouco eftimar ; mas 
por não dar azo aos Mouros commetterem 
outra maior couía 3 como tinha fabido que 
já commettiam no cortar da parede das ca- 
fas , e por iífo convinha não lhe diílimular 
aquella pública pêra os enfrear nas fccretas , 
vendo com quanto rigor fe punha ao caf- 

ti- 



158 ÁSIA de João de Barros 

tigo delia. Com as quaes razoes , e outras 
que elle Affonfo d'Alboquerque reprefenta- 
va do ferviço d'ElRey , obrigou a todos 
fazerem aquella guerra á Cidade ; e por- 
que ella fe mantinha da terra firme , e não 
tinha mais vida que agua , hortaliça , e fru- 
ta j que todolos dias lhe vinha de lá , man- 
dou a Manuel Telles , Affonfo Lopes d' Acoi- 
ta , e António do Campo eftar quali em 
torno da Ilha em certos lugares pêra im- 
pedirem não lhe vir coula alguma , com 
que a Cidade fe vio cm grande aperto. Por- 
que além da neceífidade que tinham deitas 
coufas , algumas terradas , ( que são barcos 
pequenos , ) que foram tomadas per elles , 
cortaram os narizes 5 orelhas , e mãos aos 
Mouros delles , e poftos em terra, entra- 
ram meios mortos pela Cidade > que fazia 
hum grande terror , e efpanto. E como a 
gente que nella eílava era muita , e com ef- 
tas coulas ninguém de dia , nem de noite 
oufava palfar a terra firme , principalmente 
bufear agua , de que tinham maior neceífi- 
dade , algumas peífoas de noite hiam buf- 
ear agua a huns três poços , que eftavam 
em huma ponta da Ilha , onde chamam Tu- 
rumbáca , que fera da Cidade pouco mais 
de huma légua quafi junto da praia , fobre 
os quaes poços Cóge Atar tinha poílo hum 
Capitão com duzentos frecheiros , e vinte 

e íin- 



Década II. Liy. II. Cap. V. 15-9 

e finco de cavallo , aífi por defender efta 
agua dos noííbs que alli foflem ter, como 
por a repartir entre o povo , e não haver 
algum defmancho fobre ella. Da qual cou- 
fa fendo AfFonfo d'Alboquerque fabedor, 
mandou a Jorge Barreto de Caftro com o 
batel da capitania , e AíFoníò Lopes à y Acoi- 
ta , e joao da Nova com os feus , e a gen- 
te neceífaria , em que entravam algumas pef- 
foas nobres , que foífem a tupir aqueiíes 
poços 7 o que elles fizeram bem a feu fal- 
vo ; e porque como fua chegada foi ante 
manha , e quaíi fubita por no caminho te- 
rem tomado língua, que lhesdeo avifo co- 
mo a gente eílava defeuidada , entre efte 
defeuido , e fomno pereceo a mais delia , 
não fomente da gente de armas , que eílava 
em guarda , em que entrava alguma de ca- 
vallo , mas ainda do povo , que hia bufear 
eíta agua de noite; de maneira que os po- 
ços foram atupidos de mortos , e vivos , 
té dos cavallos que fe alli tomaram. E in- 
do-fe o Capitão da guarda deites poços re- 
colhendo com alguns que eícapáram deíle 
desbarato > foi dar com outro dé fua mor- 
te : cá nefte tempo vinha D. António de 
Noronha em hum batel com gente em ref* 
guardo deftoutros Capitães ? e era o lugar 
onde D. António o topou por fer eftreito 
entre o mar ^ e hum morro de terra tão 

aza- 



i6o ÁSIA de João de Barros 

azado pêra o commctter , que convidou a 
D. António faftir em terra a commcrtello , 
onde o matou com dez , ou doze frechei- 
ros , que o acompanharam na morte , por- 
que outros que também vinham com clle , 
porfegurar ávida o leixáram. Affonfod'Al- 
boquerque tanto que foube do bom fuccef- 
ío deites Capitães , acudio logo , e temen- 
do que os Mouros vieflem alimpar os po- 
ços com força de gente , ainda que foi con- 
tra parecer dos Capitães , que andavam bem 
avorrecidcs deíla guerra , todavia mandou 
ficar naquelle lugar AfFonlb Lopes em o 
feu batel em favor de hum tiro pofto em 
hum paflb per onde a gente dcfcia a tomar 
agua j que era no cume de hum tefo , que 
eítava íbbre eítes poços , com o qual tiro , 
que era hum berço , ficaram vinte homens , 
de que era Capitão Lourenço da Silva hum 
Fidalgo Caítelhano homem de fua peflòa. 
A gente commum da Cidade 5 quando fou- 
be do caio deites poços , em que tinham 
efperança de fua vida , andavam clamando 
que ante queriam cativeiro , que morrer á 
lede : e era a coufa tão piedofa 5 que foi 
neceífario ir EIRey em peflba ? e Cóge 
Atar com muita gente de cavallo , e de pé 
frécheira pêra ir defatupir , e tomar eítes 
poços , em que eftava a vida de todos ; ao 
que AíFonfo d > Alboquerque acudio. Na qual 

ida,, 






Década IL Liv. II. Cap. V, 161 

ida , aífi de huma , como da outra parte , hou- 
ve mais fangue, do que havia agua dentro 
nos poços , em que hum pajem de AíFoníò 
d'Alboquerque foi morto \ porfalvar o qual 
D. António de Noronha , Jorge da Silvei- 
ra , e outras peflbas nobres foram bem fre- 
chados , ainda que as armas defenderam 
em alguma maneira a carne , e Gonçalo 
Queimado Alferes de AíFonfo d'Alboquer- 
que houvera de perder hum olho com hu- 
ma frecha , que lhe fendeo huma fobran- 
celha. Finalmente ainda que a peleja não 
foi com a peíToa d^ElRey , nem Cóge Atar , 
fenáo com hum Raez Dilamixa feu portei- 
ro mor , que vinha diante em modo de 
defcubruíor , foi ella de tanto perigo, que 
eííeve Aíronfo d'Alboquerque em condição 
de fe perder com toda a gente que leva- 
va , por fe arredar tanto da praia , que quan- 
do fe quiz recolher, poílo que tinha man- 
dado a Aífonfo Lopes d'Acoíla , e Antó- 
nio do Campo , que lhe tiveííem a embar- 
cação fegura , achou quaíl tomado o lugar 
per onde havia de vir a ella. Cá pêra def- 
cer á praia , onde os bateis eftavam , havia 
hum tefo ; e como a noíía gente vinha afron- 
tada das frechadas , defejofa de tomar fô- 
lego dentro nos bateis , não curando de ro- 
dear pêra vir a elles , porque per eíle tefo 
era mais curto caminho , lançáram-fe per 
Tom. II. P.L L el- 



IÓ2 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

elle , e vieram todos cahir huns fobre os 
outros em baixo na praia ; e foi grande di- 
ta não fe efpe tarem -huns nas lanças dos 
outros. E não leriam em baixo , quando 
começaram frechar nelles muitos Mouros , 
parte que citavam aqui em cilada encuber- 
tos dos bateis , como dos que eram em ci- 
ma do teíb , onde fe entretiveram por fer 
lugar tão íngreme , que não quizeram des- 
cer per elle; porém dalli frechavam osnof- 
fos que eílavam tão apinhoados , que toda- 
las frechas fe empregavam nelles , té ra- 
charem as haftes das fuás lanças que tinham 
arvoradas , fem com ellas lhes- poderem fa- 
zer damno , nem manear por o lugar fer 
eftreito. E eílando todos nefte perigo , on- 
de já era Affonfo d'Alboquerquc ? que veio 
arrodeando por outra parte , quiz Deos que 
tirando com hum berço dos bateis em que 
fe queriam embarcar , deo em o Capitão 
daquelles frecheiros que acoíTavam os nof- 
fos , o qual andava a cavallo fobre aquel- ' 
le teíb , homem bem luftrolb em feu trajo > I 
e armas , e Capitão em faber mandar aquel- 
la gente : e foi o tiro tão vióloriofo, que 
o tomou per huma coxa , com que o ca-; 
valío o levou arraftando por também ir fe-, 
rido , e trás elle foram os frecheiros vendo 
feu Capitão efpedaçado , que deo lugar aos 
noífos fe embarcarem de vagar , a morte 

do 



Década II. Liv. II. Cap. V. 163 

do qual EIRey muito fentio por íhr o feu 
porteiro mor que diíTcmos. Acabado efte 
feito por aquelle dia , fe recolhco AíFonfo 
d'Alboquerque ás náos ; e peró que foi em 
alguma maneira arguido de culpa pelos Ca- 
pitães em querer aventurar fua penca com 
a flor daquella Armada , não importando 
tanto ao ferviço d'E!Rey , todavia eJIe tor- 
nou mandar a eftes três Capitães , Manuel 
Telles , Affonfo Lopes d'Acoíta , e António 
do Campo , que fe foflem lançar naquella 
I parte da Ilha, que lhe clle ordenara', pêra 
\ impedirem não vir mantimento, nem ajuda 
i alguma á Cidade. E havendo alguns dias que 
I andavam neíla guarda , foube Affonfo d 3 Al- 
1 boquerque per Mouros , que tomaram em 
I huma terrada , como a huma pequena Ilha 
I chamada Laxa , que eftá á vifta de Ormuz , 
; havia de vir certa gente com algum man- 
; timento pêra dalli per terradas de noite fe 
1 recolher na Cidade , ao qual negocio man- 

* 1 dou eíles três Capitães, Chegados a elíe 
linão acharam coufa alguma, fomente huma 
: * montearia de veação , e caça de perdizes 

* iquc fizeram da muita que os Reys de Or- 

* muz alli tinham mandado lançar como em 
fr jparque pêra fe irem defenfadar. . Acabada 
A a qual caça , entraram em confulra de lei- 
$ pearem Affonfo d'Alboqnerque , e fe irem 

? pêra a índia , com fundamento que como 

L ii fe 



164 ÁSIA de João de Barros 

fe viífe fem elles , leixaria aquclla perfia , 
e faria outro tanto \ e quando todos fe vif- 
fem ante o Vilb-Rey D. Francifco , cada 
hum aprefentaria fua razão ; tomando por 
caufa de fua ida no arrazoamento que fo- 
bre ella fizeram , aos Meftres , e Pilotos, 
e peffoas de conto que com elles andavam , 
eítas razoes : Que o princípio daquella guer- 
ra , e proceífo delia mais procedia da in- 
dignação de Affonfo d 5 Alboquerque , que 
de alguma notável caufa: eque todo o da- 
mno que faziam a Cidade em tolher vi- 
rem-Ihe mantimentos , a mefma frota o pa- 
decia por eílar já tão neceílitada como os 
próprios cercados ; e pêra haver huma pi- 
pa de agua , lhe cuítava muito fangue , co- 
mo todos fabiam , por Cóge Atar ter pofto 
gente cm guarda nas aguadas da terra fir- 
me , onde a coftumavam fazer; acerefeen- 
tando mais aeílas coufas outras que tinham 
paíTado com Affonfo d'Alboquerque. E era 
que logo no primeiro movimento da guer- 
ra , tendo-lhe elles dito quão injufla lhe pa- 
recia , e quão neceflario era diílimular o def- 
appareccr daquelles cinco homens té fe aca- 
bar a fortaleza em que trabalhavam , pêra 
mais a feu falvo delia obrigarem a Cóge 
Atar aos entregar, e atalharem as fuás ma- 
lícias , chegaram a tanto que lhe aprefen- 
táram hum papel em modo de requerímen 

to 



Década II. Liv. II. Cap. V. 165 

to aílinado per todolos Capitães , e princi- 
paes Fidalgos da frota , a tempo que elle 
Affonfo d'Alboquerque eftava na mefma obra 
da fortaleza. No qual requerimento lhe re- 
prefentavam eílas coufas aílima ditas , con- 
cluindo que elles não eram obrigados a lhe 
obedecer em mais , que naquellas coufas 
que trazia per Regimento d'ElRey , que 
era andar de Armada naquella coíla da Ará- 
bia, e boca do mar Roxo contra as náos 
de Meca , que entravam , e fahiam per el- 
la bufcar efpeciaria. E elle em lugar diíTo 
leixava-fe eftar alli fazendo huma fortaleza , 
tendo aquella Ilha de huma parte Mouros 
da coíla da Períia , e da outra os da Ará- 
bia , gente a mais cavalheira de todo o 
Oriente , que em dous dias , partido elle Af- 
fonfo d'Alboquerque dalli , podia levar a 
fortaleza na mão ; quanto mais que a mef- 
ma Cidade em íi era tão popuiofa , que fem 
eílas ajudas o poderia fazer, por aquella for- 
taleza ficar mui remota do eílado da índia , 
| e paílagem das náos deíle Reyno de Portu- 
; gal 5 de que podia receber algum favor. O 
I qual requerimento aíli defaprouve a AíFonfo 
| d 5 Alboquerque 5 que tomando-lho da mão, 
\ diíle que relponderia a elle ; e em elles vi- 
rando as coílas , deo o papel a hum pedrei- 
I ro , que eftava fechando hum portal da for- 
I taleza , e diíTe-lhe que o puzeffe por fecho y 

e o 



i66 ÁSIA de João de Barros 

e o carregaíTe bem de pedra , e cal , que 
já levava a fua refpofta ; e queria ver quem 
era tão oufado que desfazia os portaes da 
fortaleza d'ElRey feu Senhor por ver o 
que elle refpondia aos taes requerimentos, 
a qual coula efeandalizou muito a todalas 
peííbas que hiam aflinadas nelie. Tinha tam- 
bém procedido outro cafo de que os Capi- 
tães , e principaes Fidalgos andavam mui 
defgoftofos , e era , que cada hum efperava , 
que feita a fortaleza, tinha méritos pêra fi- 
car nella por Capitão , a qual elle dava 
a Jorge Barreto de Caftro por levar hum 
Alvará d'ElRey , que o proveffe de alguma 
fortaleza ; e era efta dada com condição , 
que eftiveíTe nella té a vinda de feu fobrinho 
D. AíFonfo de Noronha , que eftava em 
Çocotorá. E porque Jorge Barreto a não 
quiz acceptar com efta condição , e elle Af- 
fonfo d'Alboquerque a deo a D. António 
de Noronha , que a quiz per aquelle modo 
ter té vinda de feu irmão , e elle fe pafiar 
pêra a de Çocotorá , parecco a todos que 
ifto era artificio pêra feus fobrinhos ficarem 
naquellas duas fortalezas , cá por ferem ir- 
mãos não fe haviam de defavir. Aífi que 
com a relação de todas eftas coufas , que 
eftes três Capitães reprefentáram aos princi- 
paes das fuás náos , os provocaram a que 
aquella feguinte noite fe fizeílem á vela ca- 

mi- 



Década II. Liv. II. Cap. V. 167 

minho da índia; e em fahindo da boca do 
cílreito , foram tão dkofos que tomaram 
duas náos , huma de Cambaya 3 e outra de 
Chaul , ambas carregadas de muita fazenda , 
com a qual preza chegaram ante o Vifo-Rey 
D. Francifco. AíFonfo d^Alboquerque vendo 
que tardavam per efpaço de dous dias , man- 
dou á Ilha , onde os tinha enviado 5 a Dio- 
go Fernandes Pereira Meftre da íua náo 
em hum batel , e achou fomente hum ho- 
mem 3 que per deícuido , quando fe elles 
recolheram ás náos ; ficou em terra , do qual 
AíFonfo d'Alboquerque foube a fua partida y 
e as caufas porque , fegundo contamos. 
Sobre o qual caio Ale não fez mais que 
mandar tirar inítrumentos do eftado em que 
tinha poíto a Cidade ao tempo que fe fo- 
ram , pêra o enviar a efte Reyno a EIRey ; 
e o mais que pode diíiimuiou a triíteza dei- 
te D que elle muito fentio ; e como quem 
fazia pouca conta da ajuda delles, não lei- 
xou de proceder no modo do cerco que 
tinha fobre a guarda , que não vieffe foccor- 
ro algum á Cidade. Paliados poucos dias, 
que eíles Capitães eram idos , fuecedêram 
coúfas com os dous Capitães que ficavam, 
com que per alguns dias os veio a fufpen- 
der das capitanias ; porque como andava 
efeandalizado da defobediencia dos outros , 
não quiz foífrer a eíles coufa alguma deita 

qua- 



168 ÁSIA de JoÃo de Barkos 

qualidade. E a primeira coufa foi com João 
da Nova , ao qual tendo clie Affoníb d'Al- 
boquerque mandado, que com Francifco de 
Távora foiTe de noite a terra firme da ban- 
da da Períia fazer aguada a hum lugar cha- 
mado Nabande , quando veio as horas da 
partida 5 não quiz ir ; e foram , e vieram 
tantos recados de hum ao outro , téqueAf- t 
fonfo d^AJboqucrque foi á náo de João da 
Nova 3 onde achou a gente do mar amuti- 
nada polia no caftello davante , com voz 
que elles não vinham obrigados pêra andar 
de Armada por ferem de náo de carreira 
da carga da efpeciaria , a qual andava mais 
pêra fe ir ao fundo , que efpancar o mar ; 
e fe os Capitães quizeram falvar a pimenta 
que nella hia pêra Portugal , baldeando-a 
cm a náo que António de Saldanha trouxe, 
também elles queriam falvar fuás vidas ; e 
mais que não tinham braços pêra andar to- 
do dia remando nos bateis , e dar á bomba 
de continuo por fe a náo não ir ao fundo , 
e fobre ilTo as armas ás coitas , e mais pa- 
decer fome, e fede. Aífonfo d'Alboquercue 
com eílas , e outras palavras , ( em muitas 
das quaes elles tinham razão , ) ficou tão 
confufo , que converteo a rcfpoíta a João 
da Nova , dando-íhe a culpa daquclla união ; 
e finalmente de palavra em prlavra poz nel-j 
le as mãos com menos acatamento do que 

me- 



■i 



Década II. Liv. II. Cap. V. 169 

merecia hum Capitão cPElRey , pofto que 
João da Nova não tiveífe mais fidalguia em 
fatigue , que as qualidades que atrás apon- 
támos , que nelle havia. Levado dalli prezo 
á mefma náo de Affonfb d'Alboquerque , 
não tardou muito que também fufpendeo a 
Franciíco de Távora com preíumpção que 
teve de fe querer ir pêra a índia ; porém 
paíTado aquelie furor , foram eftes dous Ca- 
pitães tornados a fuás náos , e com elles foi 
fazer hum honrado feito á Ilha Queixome 
pegado com terra firme , que fera de Or- 
muz té três léguas ; e o cafo procedeo da- 
qui. Soube Aífoníb d'Alboquerque pelos 
Mouros que cada dia fe tomavam nas ter- 
çadas , que paliavam da terra firme pêra Or- 
muz , como da Ilha Baharem vinha pêra 
aquella de Queixome huma Armada com 
foccorro de gente , e mantimentos , que íè 
haviam de recolher em humas cafas d'El- 
Rey , que tinha naquella Ilha Queixome > 
pêra dalli fe paíTarem de noite a "Ormuz, 
Por impedir o qual foccorro , foi ter a efta 
Ilha ; e pofto que houveram vifta da frota 
dos Mouros , como todalas velas eram ter- 
radas ligeiras , que correm muito á vela , 
eremo, puzeram-fe em falvo. AfFonfod'Al- 
boquerque parecendo-lhe que nas cafas d 5 EI- 
Rey podiam achar alguma coufa pêra pro- 
visão da Cidade > e dar alguma cevadura á 

gea- 



tyo ÁSIA de João de Barros 

gente de armas 5 que ficou com mágoa de fe 
as terradas acolherem , fahio em terra no 
lugar deílas cafas ; em guarda das quacs 
achou mais de trezentos homens , em que 
entravam íeílenta de cavallo , que as defen- 
diam mui valentemente como cavalleiros. 
Onde João da Nova houvera de ficar , por- 
que fubindo per huma efeada a cima , lhe 
mataram diante delle hum homem , e feri- 
ram outro , e elle foi derribado , e bem fe- 
rido > mas acudio-lhe Gemes Teixeira , João 
Teixeira , Nuno Vaz de Caftello Branco , 
e outros que o livraram , e aqui foi morto 
o Capitão das cafas , com que os Mouros 
as defpejáram , e os noííos fe fizeram fenho- 
res, delias, ficando perto de oitenta mortos 
per cilas nos lugares, onde osnoíTos lhes ti- 
raram a vida á cuíta de feu próprio fangue. 
Depois com outra tal nova de virem alli 
mantimentos , tornou Affònfo d'Alboquer- 
que a efta Ilha Queixome a hum lugar cha- 
rnado Meloal , onde também achou reíiften- 
çia de mais de quinhentos frecheiros , le- 
vando elle oitenta homens fomente , a qual 
gente alli mandara ElFvey de Lara pêra fe 
paliar a Ormuz em foccorro com algum 
mantimento , de que eram Capitães huns 
feus fobrinhos ambos irmãos , os quaes o 
fizeram tão valentemente na defensão do lu- 
gar ? que ambos alli morreram com a maior 

par- 



Década II. Liv. II. Cap. V. 171 

parte da gente que tinham. E por ferem 
peflbas notáveis , AíFonfo d'Alboquerque 
mandou metter feus corpos em huma terra- 
da , e com elles hum Caciz homem de gran- 
de idade , que achou em huma mefquita do 
lugar 5 per o qual mandou a Çóge Atar 
hum recado 3 que alli lhe enviava osdefen- 
fores que o vinham foccorrer , e que elle 
Caciz lhe contaria como morreram , e aíli 
quem o acompanhava. Queimado o lugar, 
o maior defpojo que fe delle houve , foi 
huma alcatifa que fervia em a mefquita y a 
qual tomava quaíi a metade da cafa, e não 
a podiam mover quatro homens ; e eílando 
em preza de a partir pêra a poderem tra- 
zer \ chegou AíFonfo d 3 Aiboquerque , e com- 
provi-lha , e depois a mandou a Sant-Iago 
de Galiza pêra ferviço de fua cafa \ por elle 
fer Cavalleiro da fua Ordem, em memoria 
da vi&oria que alli houve. Vendo elle Af- 
fonfo d ? Alboquerque a gente mui canfada 
dos trabalhos que levavam de dia , e de noi- 
te neftes , e em outros faltos , e aífi no rol- 
dar toda a Ilha , e que a náo Flor de la 
mar de João da Nova não fe podia fufter 
fobre a agua por a muita que fazia , deter- 
minou de ir invernar a Çocotorá 5 por fer 
já tempo ; e deo licença a João da Nova 
que fe pudeífe ir á índia a correger a fuá 
náo pêra carregar , e fe vir a eíle Pveyno , 

e aíli 



172 ÁSIA de JoXo de Barros 

e aífi a Jorge Barreto de Caftro , e a Gaf- 
par Dias , que fora feu Alferes pela aleijão 
<jue tinha da mão que lhe cortaram na en- 
trada da náo Merij. Partido de Ormuz na 
entrada de Março , e fendo tanto avante co- 
mo Mafcate , poílo que a licença que João 
da Nova tinha pêra fe partir, havia de fer 
quando elleAffonfo d'Alboquerque o expe- 
diífe y vendo que o levava mais longe do 
que convinha a fua navegação pêra a ín- 
dia , elle não efperou por mais expedida , 
e de noite fe fez na volta delia , onde che- 
gou a Deos mifericordia , e Aífonfo d'Al- 
boquerque a Çocotorá. E porque no tem- 
po que elle palíou eílas coufas i e invernou 
nefta Ilha , paliaram outras , aíli no Cairo , 
e na índia , como em duas Armadas , que 
o anno de fete , e oito partiram deite Rey- 
no pêra lá , faremos de todas relação no fe- 
guinte Capitulo por eíte fer o feu lugar. 



CA- 



Década II. Livro II. 173 

CAPITULO VI. 

Como o Soldao do Cairo fez hurna Armada 

fera a índia , depois que o Padre Frei 

Mauro tomou ao Cairo : e do que Mir 

Ho cem Capitão mor delia paffou 

té chegar a Dio. 

COmo atrás efcrevemos , a eítc Reyno 
veio hum Religioíò per nome Fr. Mau- 
ro maioral daCafa de Saneia Catharina de 
Monte Sinay , com cartas do Papa a El- 
Rey D. Manuel fobre o defiftir das coufas 
da índia por razão das ameaças do Soldao 
do Cairo. Efte Religiofo tornado ao Papa 
com a refpofta d'ElRey , elle o expedio , 
efcrevendo ao Soldao o que fizera naquelle 
cafo fobre que Fr. Mauro viera a elle , do 
qual particularmente fe podia informar com 
outras palavras , que refpondiam ao que lhe 
tinha eícrito o Soldao. E pofto que efte 
Fr. Mauro nao levava a refpofta conforme 
ao feu defejo , nem por iífo tornou com os 
temores que elle trouxe d'ante elle , por ir 
mui fatisfeito com as razoes do cafo , e aíll 
das efmolas que EIRey D. Manuel lhe deo 
pêra aCafa de Saneia Catharina. Nem me- 
nos o Soldao executou o que diíTe que ha- 
via de fazer , fomente converteo o Ímpeto 
de fua fúria em mandar fazer huma Arma- 
da 



174 ÁSIA de JoÃo de Barros 

da pêra cumprir com os Principes , que lhe 
fobre iífo tinham efcrito da índia , como 
difíemos. E porque oEgypto por razão de 
não chover nelle , carece da creação de mui- 
tas coufas , foi neceíTario ao Soldao prover- 
fe de fóra deíías que são as principaes pêra 
as taes expedições , madeira , ferro 3 breu , 
velame , e officiaes pêra o lavramento das 
náos , e galés , que havia de fazer : a maior 
parte das quaes coufas houve, do mar de 
Levante , principalmente madeira , que foi 
cortada nas montanhas de Efcandalor. As 
quaes por ferem nas terras do Turco , e en- 
tre ambos naquelle tempo haver quebra , di- 
zem que houve elie eíla madeira á inftancia 
de Venezeanos; e indo carregada em vinte 
e finco náos , e em fua guarda oitocentos 
Mamalucos , parece que permittio Deos que 
como eíla Armada ie fazia contra Portu- 
guczes , que Portuguez encetafle logo a ma- 
deira delia como prognoftico que depois 
havia de fenecer a mãos de Portuguezes. 
Porque andando Fr. André do Amaral Bai- 
lio deíle Reyno , noflb natural , e Confer- 
vador, e Chanceller da Ordem de S.João, 
naquelle tempo aífiftente em Rodes , com hu- 
raa Armada da Religião de féis náos , e 
quatro galés , em que trazia obra de feis- 
centos homens de peleja , deo nefta Arma- 
da do Soldao , mettendo-lhe finco náos no 

fun- 



Década II. Liv. II. Cap. VI. 17? 

fundo 5 e tomou féis. Na qual peleja lhe 
matou trezentos homens, edas outras náos 
ainda algumas fe perderam com hum tem- 
poral que depois tiveram de maneira , que 
dez fomente foram ter ao porto de Alexan- 
dria. Levada a madeira pelo Nilo aííima té 
o Cairo , depois que ahi foi lavrada , a leva- 
ram em camellos per três jornadas té Suez y 
hum porto do mar Roxo , que eílá no ul- 
timo feio delle ; e porque com a perda da 
outra madeira falecia muita da neceífaria 
pêra féis náos , e féis galés , que fe haviam 
de fazer aquelle anno té fe prover de mais 
pêra outra Armada j em a terra do Abexij 
ao longo do mar do porto Alocer pêra bai- 
xo contra Suez em algumas ferras , que ca- 
hem fobre dle , foi cortada alguma liaçao 
pêra galés , e outra madeira delgada bem 
fraca, e charneca, em que fe moítra a efte- 
rilidade da terra. Acabadas eítas doze pe- 
ças , e fornecidas de gente do mar , a maior 
parte da qual era Levantifca de toda na- 
ção , delia que hia per fua vontade , e 
outra que foi tomada das náos , que eíla- 
■vam em o porto de Alexandria , partio Mir 
Hócem Capitão mor delia caminho da ín- 
dia. O qual , peró que não foílé Mamaluco 
dos que andavam eleitos pêra os taes car- 
gos , foi efcolhido pelo Soldao por fer ca- 
valleiro de fua peífoa ? e mui ufado nas cou- 

fas 



176 ÁSIA de J0X0 de Barros 

fas do mar , cuja natureza era huma comar- 
ca a que os Perfas chamam Cordiftao , que 
he entre Babylonia , e Arménia , e por ra- 
zão da natureza, tinha por appellido Cor, 
donde entre elles era chamado Mir Hócem 
Cor : Mir acerca dos Perlas ferve de pro- 
nome , e denotação de honra , a qual fe dá 
a homens que sao feitos Capitães de gen- 
te , ou tem já nobreza do fangue deites , e 
Hócem he nome próprio , e Cor , ou Cor- 
dij appellido da pátria. Em eíta Annada 
que íevou hiam té mil e quinhentos ho- 
mens de armas , e fegundo o caminho , e 
obras que fez o Soldão , mandou a mais 
que pode á índia em adjutorio dos Mouros - 7 
porque chegado ao porto de Imbó , que he 
huma povoação principal da coita da Ará- 
bia , que diftará da fua Metropoli Medina 
Elnebi , que quer dizer Cidade do Profeta , 
obra de dezefeis léguas , entrou nella per 
força de armas , e matou o Xeque dalli , o 
qual acudio de dentro do fertao corn mui- 
tos Alarves a lhe defender a fahida em ter- 
ra. A caufa do qual damno que Mir Hó- 
cem alli fez , foi y porque efte Xeque era Se- 1 
nhor de toda aquella Comarca per onde 
todolos Mouros deitas partes do Occiden- 
te vam em romaria a fua cafa de Meca; e 
como efte era Senhor do campo , obrigava 
a todalas cáfilas deites romeiros a lhe paga- 
rem 



Década II. Liv. II. Cap. VI. 177 

rem hum tanto por cabeça. E porque nefte 
modo de arrecadar direitos fazia esbulho 
de quanto achava , acudio o Soldão do Cai- 
ro aos clamores deites peregrinos , e con- 
certou-fe com efte Xeque 5 que lhe queria dar 
cada anuo doze mil íòltanis , moeda de ou- 
ro do feu cunho , que ferão da nofía doze 
mil cruzados , e não tiveífè conta com as 
cáfilas , e as leixaíTe paliar francamente , dan- 
do a entender que fazia efta obra em modo 
dèy efmola ? e caridade áquella pobre gente. 
Mas a verdade era trato de mercadoria , 
porque todo peregrino que partia do Cai- 
ro , ou das terras delle Soldão , na cáfila 
em que hia , ficava regiftado pelos feus Of- 
ficiaes , e pagava dous foltanis , hum que 
d'antes pagava de portagem , e outro que 
elle dizia pagar ao Xeque , na qual pafla- 
gem tinha huma grande renda. E como lhe 
era coufa dura dar ao Xeque os doze mil 
foltanis , havia quatro annos que lhos não 
queria mandar pagar 3 que caufou ao Xe- 
que tornar ao roubo que d'antes fazia. O 
Soldão moítrando que zelava o bem com- 
mum , e que a elle como Calyfa da fecta 
de Mahamed pertencia a emenda do da- 
mno , que era feito aos romeiros de fua ca~ 
fa , mandou Mir Hócem que trabalhaíTe por 
1 1 tirar eíle máo cofíume ao Xeque , e quando 
! não , que lhe tomaífe eíle porto de Imbó , 
Tom.lLP.L M que 



178 ÁSIA de João de Barros 

que era a melhor coufa queelle tinha, ede 
mais renda , pola entrada , e fahida que as 
cáfilas dos peregrinos alli faziam 5 e algu- 
mas mercadorias que daquelle mar concor- 
riam a elle. Mir Hócem , tomada eíía Villa 
de Imbó, poz logo nella gente de guarni- 
ção , e expedio huma náo das que levava 
com algum delpejo do que alli houve , man- 
dando com elle nova ao Soldao da vistoria 
que daquelle bárbaro houve , e pedindo-lhe 
mais gente pelo que alli leixava. Expedida 
a náo , partio-fe elle também via de Judá 
Cidade marítima da Arábia , onde chegou , 
a qual era tributaria ao Soldao na terça par- 
te dos direitos que pagavam todalas merca- 
dorias , o qual tributo havia annos depois 
da nofla entrada na índia , que lhe não pa- 
gava hum Xeque Senhor da Cidade cha- 
mado Daravij , dizendo , que noflas Arma- 
das impediam o rendimento que tinha , e 
eíía pouquidade que havia lhe era necelía- 
ria pêra defensão da Cidade , fe alli folie- 
mos ter. E porque Mir Hócem lhe não c 
nheceo deita razão , veio o negocio a juiz 
de ferro , entrando elle a Cidade á forç; 
de armas ; e peró que os Alarves eram ma 
armados em comparação da gente que Mi: 
Hócem tinha , e fomente com páos toílado: 
de arremeço oíFendiam feu imigo , por fe- 
rem muitos recebeo Mir Hócem tanta per 

da 



1 



Década II. Liv. II. Cap. VI. 179 

da de gente , que lhe conveio efperar allí 
té o Soidão mandar mais , a qual lhe man- 
dou pedir per huma náo , que daqui expedio 
com parte dodeípojo. Tirando a qual par- 
te , toda a maior da outra que lhe ficou , 
elle Mir Hócem recolhco pêra íi , fern que- 
I rer partir com a gente de armas , dizendo 
| que todos hiam a íoldo ; e ainda cite , depois 
, da primeira paga que houveram em o por- 
I to de Suez , não lhe tinha feito outra , ha- 
; vendo já quatro mezes que eram partidos 
\ delle. Donde fe caufou alevantarem-fe al- 
I guns Turcos com hum galeão , de que era 
! Capitão hum Mouro natural de Tunes tor- 
i to de hum olho chamado Ráez Moftafá , 
o qual foi ter com efte galeão a Dabul, 
j onde o varou , e depois fez o que veremos 
| adiante. Mir Hócem , depois de ter efcrito 
ao Soidão como efte Capitão fe U\q levan- 
I tara , e que toda a mutinação da gente era 
,;por lhe não pagarem foldo que tinha ven- 
. eido , e o Soidão o prover com dinheiro, 
Iç gente em as náos que lhe tinha enviado 
;com parte do defpojo , partio-fe caminho 
da índia , e paflbu per a Cidade Adem > on- 
de fe deteve quatro dias fomente , e dahi 
foi cofteando a terra té Calayate ? onde o 
J(! não quizeram receber , dizendo que eftava 
|jpor ElRey de Portugal ; que fe era verda- 
ípe que elle hia buícar os Portuguezes, em 

M ii Ox~ 

1 



180 ÁSIA de João de Barros 

Ormuz eftava hum feu Capitão , que o foíTe 
ver , então da tornada lhe fariam o gaza- 
Ihado que merecefle : ifto diziam elles por 
AíFonfo d'Alboquerque , que , (como efere- 
vemoSj) havia pouco que paliara per alli, 
e eftava em Ormuz. Mir Hócem , porque 
muita parte da fua empreza de nos lançar 
da índia eftava no favor d'ElRey de Cam- 
baya , e de Melique Az Capitão de Dio , 
de quem o Soldão tinha recebido cartas de 
grandes offertas , e levava por Regimento , 
que primeiro que palTalíe á coita do Mala- 
bar , fe vifle com Melique Az, e fe con- 
formaíTe com o feu confelho , e vontade 
d'ElRey de Cambaya acerca de nos com- 
metter , não fe quiz deter em Calayate , nem 
tomar confelho , que lhe os moradores da- 
vam que foífe a Ormuz a bufear AíFonfo 
d'Alboquerque. Ante , ouvindo dizer que per 
alli andava Armada noífa , fe partio mais 
preftes , temendo que o podia encontrar, 
porque eftava mui novo no modo que ha- 
via de ter comnofeo , e queria primeiro ter 
informação de Melique Az. Aífi que com 
efte fundamento fez fua derrota a Dio , on- 
de foi recebido com muito gazalhado , por 
eftar cada dia efperando por elle : cá tinha 
cartas íer já pofto em caminho , com a vin- 
da do qual fuecedeo o que veremos neft< 
íeguinte Capitulo. 

CA- 



Década II. Livro II. 181 

CAPITULO VIL 

Como D. Lourenço foi dar guarda às nãos 

de Cochij , e Cananor , que hiam carregar 

a Chaul ; e eflando furto dentro no 

rio , Mir Hócem Capitão do Sol- 

dão veio a pelejar com elle. 

OVifo-Rey D. Franciíco d 5 Almeida , de- 
pois que fe expedio de Trilião da Cu- 
nha , pafíado o feiro de Panane , ficou na- 
| quella coita do Malabar com alguns navios , 
i e mandou huma Armada de oito velas com 
| D. Lourenço feu filho , que foíTe dar guar- 
| da ás náos de Cananor , e Cochij , e cor- 
j refle a coíla té Chaul, como ordinariamen- 
te fazia naquelles mezes do verão. Os Ca- 
\ pitaes das quaes eram Pêro Barreto de Ma- 
galhães, Duarte de Mello, Gonçalo Perei- 
Ira ,^Francifco da Nhaya 5 António Lobo 
'Teixeira , e Payo de Soufa, e Diogo Pi- 
|rcs Ayo de D. Lourenço , cada hum em 
ifua galé , e os outros levavam navios re- 
jdondos , e latinos. E porque algumas das 
iiiács , em cuja guarda elle hia , hiam orde- 
inadas pêra a Cidade Chaul , e elle té alli 
'levava determinado correr a coíla , porque 
b mais pêra cima era já doPveyno deCam- 
paya , entrou no rio de Chaul com ellas ; 
£ na viagem que fez té aiii quaíi de ca- 

mi- 



i2z ÁSIA de JoÃo de Barros 

minho , fem fazer demora por razão deílas 
náos que levava em guarda , tomou algu- 
mas velas de Mouros , que fahiam dos por- 
tos de toda aquella cofta. Eíla Cidade Chaul , 
onde D. Lourenço chegou , eílá íítuada den- 
tro per hum rio de bom porto , pouco mais 
de duas léguas da barra , em povoação , 
egroflura de trato huma das principaes da- 
quella cofta 7 de que era fcnhor o Nizama- 
luco , hum dos doze Capitães do Reyno De- 
can , a que nós corruptamente chamamos 
Daquem , de que ao diante faremos par- 
ticular relação. O Nizamaluco por fer ho- 
mem de grande eftado , pofto que tiveíTe 
efta Cidade marítima , e outros portos de 
mui groíTa renda > o mais do tempo , por 
cftar mais vizinho ao Reyno Decan , reíi- 
dia dentro no fertão em outras Cidades de 
feu eftado ; mandando aos Governadores , 
que tinha pofto neftas marítimas , que á nof- 
ias Armadas fizeflem muito íerviço , e con- 
tentaflem os Capitães delias , não fomente 
polo temor que tinha delles , mas ainda por 
o grande rendimento que havia das náos 
do Malabar, em cuja guarda D. Lourenço 
vinha. Affi que por efta caufa , ainda que 
todos eram Mouros, que naturalmente nos 
tem ódio 5 quando elie chegou a Chaul, 
foi mui bem recebido do Governador : e 
havendo mais de vinte dias que elle eftava 

ef- 



Década II. hm II. Cap. VIL 183 

cfperando que as náos acabaíTem de tomar 
fua carga pêra fe tornar a fahir com cilas , 
e ir recolhendo per todolos portos as que 
leixava per elles fazendo fua fazenda , co- 
meçou haver entre os Mouros huma nova 
confula , dizendo que huma Armada do 
Soldão era chegada á índia ; e vindo mais 
a particularizar , diziam que efta Armada 
paliara pelos lugares da coita da Arábia , 
que Affonfo d'Alboquerque tomara ; e que 
íabendo o Capitão delia corno eíle eílava 
em Ormuz, e era homem velho, refpondê- 
ra que não bufcava Capitães velhos , fenao 
mancebos , e que diziam que expedido da- 
qui, fe fizera na volta de Dio, onde eíla- 
va D. Lourenço ; porque elle , e os mais 
dos Capitães da fua frota eram homens man- 
cebos , e os Mouros lançavam muitas ve- 
zes novas falfas a feus propofitos , pareceo- 
lhe que efta nova , e palavra de Capitães 
moços era por motejar delles , e também 
pêra os fazer ir dalli pêra algum fim. Pai- 
fados dous , ou três dias , que andava efta 
nova na boca dos Mouros fem certo au- 
thor , veio-fe hum Brâmane a D. Louren- 
ço , e deo-lhe huns figos da terra , fegundo 
leu coftume, quando querem pedir alguma 
coufa , e em modo de fegredo lhe diíTe , 
que vinha de Cambaya , onde foubera que 
dentro no porto de Dio eílava huma Ar- 
ma- 



184 ÁSIA de João de Barros 

mada do Soldão do Cairo , que lho fazia 
faber , pcra que eftivelTe fobre avifo , por- 
que lhe parecia não íer fabedor diífo. Dom 
Lourenço , ainda que tomou fufpeita do ca- 
fo por algumas particularidades que lhe da- 
vam conjectura de íer verdade , dando con- 
ta deita nova do Brâmane aos Capitães , 
affentáram fer artificio dos Mouros 5 e que 
como peflbas fufpeitofas , que nelle não ha- 
via de fazer imprefsão aquella nova per bo- 
ca delles , por nos ferem odiofos , da fua 
mão lançaram aquelle Brâmane Gentio co- 
mo parte fem fulpeita : e também elle fol- 
garia de acceitar aquella vinda a elle com 
efperança que por fer avifo, e aífi pola frui- 
ta feria também pago como foi , por os 
Gentios ferem mui fujetos a commetter qual- 
quer coufa por mui pequeno preço. Eítan- 
do D. Lourenço neíla dúvida de haver por 
verdadeira eíla nova , chegou Pêro Cam 
Capitão de huma caravela latina com huma 
carta de feu pai , pela qual lhe fazia faber 
que entre os Mouros fe dizia que a Dio 
era chegada huma Armada do Soldão , e 
que depois Lourenço de Brito lhe eferevê- 
ra por o ter fabido de huma náo que alli 
viera ter. Sobre a qual carta elle fe tornara 
a Cananor , onde ficava com quatro velas , 
e tivera confelho fe fe viria ajuntar com 
elle j e por a nova não fer de author de 

vif- 



Década II. Liv. II. Cap. VIL iS; 

vifta , e ao porto de Dio ordinariamente ca- 
da anno vinham náos de mercadoria do ef- 
treito de Meca , e em guarda delias pode- 
riam vir algumas mais velas armadas pêra 
as defender das noíTas pelo damno que re- 
cebiam os annos paliados 3 e que a iílo cha- 
mariam os Mouros Armada do Soldão, 
pareceo a todos a lua vinda eícuíada. Que 
lhe mandava Pêro Cam pêra com feu con- 
felho , e o de Pêro Barreto , Duarte de 
Mello , e Diogo Pires feu Ayo fe determi- 
nar em qualquer coufa que houveífe de fa- 
zer , por ferem de mais madura idade pêra 
poder aconfelhar , que os outros Capitães y 
pofto que todos foífem mui cavalleiros pê- 
ra commetter hum honrado feito. D. Lou- 
renço como teve efte recado de feu pai, 
peró que era tão incerta nova, como a el- 
le tinha , todavia mandou recado ás náos 
de Cochij , que fe aviaíTem o mais cedo que 
pudeíTcm pêra eftarem preíles , fe alguma 
coufa fobrevieífe. As quaes eftando já qua- 
íi carregadas pêra poderem partir 5 huma 
feita feira a tarde , andando D. Lourenço 
em terra com os outros Capitães lançando 
barra , e lança , e tendo as galés a proiz 
em terra , todos occupados em folgar , e 
prazer , como quem eílava em Cochij , vie- 
ram-lhe dizer que fora da barra do rio a 
la mar appareciam náos grandes , e vinham 

ma- 



iS6 ÁSIA de JoXo de Barros 

mareadas , como que paflavam avante a ou- 
tro porto. E porque tá aquelle tempo na 
índia os noíTos não tinham vifto náos da- 
quella feição , pareceo a todos que feria 
Affonfo (PAlboquerque , que viria de Or- 
muz , porque efperavam cada dia por elle. 
Porém depois que as náos começaram de 
abocar o rio , e entre ellas viram galés , e 
navios de remo, acabaram de crer fer ver- 
dadeira a nova que os Mouros deram; e a 
grão prefla mandou D. Lourenço que cada 
Capitão fe recolheffe á fua náo , e fe aper- 
cebefle pêra aquelles hofpedes. E a ordem 
em que elle D. Lourenço os quiz eíperar , 
foi , que as galés eftiveffem como citavam 
com proiz em terra , e logo junto delias 
os navios pequenos , e mais ao mar a fua 
náo , e a meio rio a de Pêro Barreto , tão 
largo delle , que per entre ambos pudeíTe 
paliar a frota que vinha . fe quizeiTe tomar 
o poufo ante a Cidade. Poílo D. Louren- 
ço nefta ordem o melhor que pode , em 
quanto aquelle breve tempo lhe deo lugar , 
era já Mir Hocem Capitão daquclla frota 
dentro no rio , todo embandeirado com ban- 
deiras j e eílendartes de feda de cores , e os 
eftáes forrados delia com louçainhas per to- 
dalas gáveas , como gente de feita, e que 
vinha a algumas vodas de prazer , e não 
de morte 5 como ellas foram. O número 

das 



Década II. Liv. II. Ca?. VIL 187 

das fuás velas com que entrou com efta 
pompa , era quatro náos , hum galeão , féis 
galés , e outra mais pequena fem appella- 
çao , em que vinha o Mouro Maymame 
Marcar, que fora nella com embaixada ao 
Soldão fobre eíta Armada , como atrás fi- 
ca. E porque a náo deMir Hocem era de 
té quatrocentos toneis , e elJe vinha com 
propofito de aferrar á noíTa capitânia , poz- 
fe na dianteira , e as outras enfiadas huma 
na outra , todas em bom compaíFo pêra ca- 
da huma aferrar as noífas ; porque fegundo 
a nova que tinha pêra as atalaias de Me- 
lique Az , que mandou efpiar a noífa Ar- 
mada , fabia que eílavam defcuidados , e 
por mais homens de guerra que foíTem, o 
defcuido era grão parte pêra os levar na 
mão em chegando ; e entre náo , e náo vi- 
nha huma galé , e per popa da fua a de 
Maymame já com as veias tomadas , fomen- 
te traquete, e mezena com vento frefco de 
viração , todos a ponto de guerra , como 
homens que fabiam bem daquelle mifíer. E 
com efta prefumpção mettendo-fe entre a 
náo de Pêro Barreto , que eílava quaíi a 
meio rio , foi demandar a capitania , a qual 
náo achou tão mal apercebida , como elle 
cuidava ; porque fe lançou dentro nella pe- 
louros de bombarda, fetas , bombas de fo- 
go 7 e outros artifícios de guerra naval, a 

tu- 



i88 ÁSIA de João de Barros 

tudo lhe refpondêram de maneira , que 
não quiz abalroar , peró que a íua náo fof- 
fe muito fobranceira íbbre a de D. Lou- 
renço , e paliou adiante tomar o poufo de- 
fronte da Cidade ; e per eílc modo palia- 
ram todalas outras velas , quando viram que 
feu Capitão não abalroava. Somente a der- 
radeira náo , como trazia o batel per popa 
hum pouco comprido o cabo delle , na de- 
tença que fez com as outras que tinha por 
da vante, foi-lhe a maré, que era tefa, en- 
cavalgar o batel fobre a amarra de Pêro 
Barreto ; e ficou tão embaraçada , que ven- 
do elle , e D. Lourenço como citava , qui- 
zeram-fe alar pelas ancoras pêra a entala- 
rem entre fi ; mas fentindo ella o perigo , 
deo hum pique ao cabo , e paífou por da- 
vante perdendo o batel. Porém foi á eufta 
da náo de D. Lourenço , leixando-a cheia 
de fetas , dardos , e bombas de fogo , que 
lhe queimou , e encravou muita gente , e 
alguma em a náo de Pêro Barreto ; porque 
como as náos de Mir Hocem eram mui 
fobranceiras fobre as noíTas , e vinham á Le- 
vantifea com potes , e rede , que os noífos 
ainda não ufavam , receberam muito da- 
mno. Pafiadas aquellas primeiras nuvens de 
fumo da artilheria , e chuva de fetas , de 
que as noílas náos ficaram cheias , e o rio 
coalhado y como era já Sol poíío , cada hum 

dos 



Década II. Liv. II. Cap. VIL 189 

dos Capitães eníendeo em curar os feus , e 
prover , pêra em amanhecendo tornarem ac- 
cender efte fogo de mortes. Mir Hocem , 
porque levava Mouros Pilotos , que fabiam 
bem o rio , e principalmente Maymame , 
por feu confelho ufou defta induftria. Co- 
mo as fuás náos demandavam menos fun- 
do , que as noífas , por não ferem de qui- 
lha , poílo que maiores foífem , ordenou- 
fe ao modo de D. Lourenço. As galés com 
os efporóes em terra per popa das fuás dà 
banda de lima da Cidade ? e ellas com as 
proas enfiadas com a corrente do rio con- 
tra as noífas , que lhe ficavam tão juntas 
humas ás outras ? e per lima dos bordos 
pranchas polias de maneira , que fe podiam 
fervir humas com outras , com a qual or- 
dem eftava a fua náo capitânia vizinha . á 
de D. Lourenço, como homem que queria 
amparar os feus y e fer o primeiro que os 
Boífos achaífem pêra receber qualquer af- 
fronta. D. Lourenço também aquella noite 
aífentou com os feus Capitães , que como 
a maré da manhã vieífe , ir logo fobre elle , 
por da terra fer avifado que Mir Hocem 
eftava como homem que fe fazia preftes 
mais pêra fe defender , que commetter ; por- 
que cuidou que em gente defeuidada não 
achaífe tanta defensão 5 e feu fundamento 
era, (peró que D. Lourenço não folie fa- 

be- 



190 ÁSIA de João de Barros 

bedor diíTo , ) efperar que vieíTe Melique 
Az com a frota de fua fuftalha , que eram 
quarenta velas , como com ella leixára aí- 
fentado. E a ordem que D. Lourenço deo 
pêra commctterem eftes imigos , foi , que 
elle havia de aferrar a náo de Mir Hócem , 
e Pêro Barreto a outra junto delia , e Gon- 
calo Pereira , e António Lobo Capitães dos 
navios redondos as leguintes ; e Pêro Cam , 
Franciíco da Nhaya , e Duarte de Mello 
Capitães das caravelas latinas andaíTem de 
fora acudindo á maior preífa , e onde mais 
neceííario fofle; e Diogo Pires com a ga- 
lé grande , e Payo de Soufa com a peque- 
na foliem demandar as dos imigos cofeitas 
em terra , que eílavam aílima delles , c tra- 
balhaflem por as tomar per huma ilharga , 
pêra que entrando huma, ambos foíTemen- 
xorando as outras. 



CA- 



Década II. Livro II. 191 

CAPITULO VIII. 

Como D. Lourenço pelejou com Mir Hó- 
cem : e por caufa da vinda das fujias de 
Me li que Az> Senhor de Dio , que veio em 
ajuda delle Mir Hócem , fahinão-fe D. Lou- 
renço com a Armada pêra fora do rio , per 
defajlre a fua não deo em huma eftacada > 
onde elle morreo com a mais da gente pe- 
lejando. 

TEndo D, Lourenço dado efta ordem 
aos Capitães , e cada hum aquella noi- 
te vigiando no apercebimento do dia feguin- 
te j tanto que a maré os ajudou pêra ir fo- 
bre feus imigos, abalou D. Lourenço com 
todos. E como as noflas galés eram mais 
leites por caufa do remo , tomando as ou- 
tras per huma ilharga , como D. Louren- 
ço lhe mandou , (foi coufa maravilhofa, 
e dura de crer ! ) aílí levaram a churma 
delias com todolos outros que as defendiam 
ante íi , como quem careava gado não re- 
vel de metter a caminho , mas mui defejo- 
fo de o tomar em faltos , e pulos , como 
eíles faziam , lançando-fe delles em terra , 
e outros ao mar ; e alguns , que não po- 
diam tomar o paflb feguro , davam com- 
figo entre agua , e terra no meio da vafa 
de maneira ; que ficavam logo mortos na 

quel- 



192 ÁSIA de João de Barros 

quelle vifco que os detinha , porque fobre- 
vinham os nofíbs , e ás lançadas lhes faziam 
alli o enterramento. D. Lourenço , e Pêro 
Barreto indo demandar as náos , ambos fe 
acharam em vão ; porque Mir Hócem , além 
de ter os cabos mui compridos pêra fe po- 
der alargar dosnoífos, ufou deita induftria : 
tinha dado rajeiras ás fuás náos , e quando 
vio que hiam fobre elle , metteo-fe tanto 
na vala 5 que não puderam abalroar com 
elle por as noífas velas demandarem mais 
fundo. D.Lourenço vendo que todo o fei- 
to havia de fer com murrões de fogo , man- 
dou defparar artilheria , a qual como fe ac- 
cendeo de ambalas partes , começou fazer 
huma obra que dava femelhança de infer- 
no : cá de quando entre aquelle groífo fu- 
mo appareciam huns relâmpagos envoltos 
com a trovoada que procedia delles , tão 
temerofa aos ouvidos , e efpantofa á vifta y 
que aflbmbrava a gente , e muito mais quan- 
do viam o companheiro com que eílavam 
fallando arrebatado de ante feus olhos , íi- 
cando-lhe parte do corpo aos pés. Aííi que 
tendo animo pêra commetter os imigos , 
não tinham modo pêra exercitar fuás for- 
ças ; as quaes quando fe occupão na fúria 
de pelejar mão por mão , não confentem 
que entre o temor no feu animo , como faz 
naquelle que acha ociofo} de maneira que 

os 



Década II. Liv. II. Cap. VIII. 193 

os das náos por não aferrarem , tinham ata- 
das as forças, e o eípirito vago em cuidar 
quando feria a fua hora. Somente Francif- 
co da Nhaya , e Pêro Cam , vendo que 
muitos Mouros fe lançavam das galés ao 
mar , mettêram-fe em bateis , e começaram 
de os alancear , o qual damno fez que os 
Mouros tornaram de mandar as próprias 
galés , vendo que no mar eram alanceados-, 
e nellas havia já pouca gente dos noííos. 
E o primeiro homem de nome que mata- 
ram nefta fúria de fogo , foi António Bar- 
reto de Magalhães irmão de Pêro Barreto , 
que eílava em a náo de D. Lourenço , e 
da parte dos Mouros , Maymame Marcar , 
em paga do trabalho que levou na embai- 
xada que fez por trazer efta gente a índia, 
e foi efta fua morte eftando per popa da 
náo de Mir Hocem em a galé em que foi 
fazendo fua oração , que elle a chamam Ca- 
la. Sendo já boa parte do dia paífado, e a 
maior da viração , e não do trabalho em 
que eftavam , ouviram os noíTos grande gri- 
ta de prazer em toda a Armada de Mir 
Hocem , pela qual entenderam que lhes 
vinha alguma ajuda : té que D. Lourenço 
pelo gajeiro da fua gávea foube como pe- 
lo rio entrava huma grande frota de fuftas , 
a qual era de Melique Az Senhor de Dio 
que Mir Hocem efperava polo que leixava 
" Tom.lL P.L N af- 



194 ÁSIA de João de Barros 

aíTentado com elle. D. Lourenço cm cou- 
fa de tão grande fobrcfalto a primeira cou- 
ia que fez , foi mandar aos navios , c ga- 
lés , que ante de chegarem a elles , por fe 
não irem ajuntar com Mir Hocem , os fof- 
fem entreter com artilheria. Os quaes como 
vinham com alvoroço de gente folgada , e 
que não tinha experiência da fúria da nofla 
artilheria , fazendo pouca conta delia na- 
quella primeira chegada , commettêram com 
grandes alaridos a paílagem , dcípendendo 
do armazém que traziam , que coalhavam 
o ar com enxames de muita frecha , e fe- 
ta , e afuzilar da artilheria miúda , pare- 
cendo-lhes que eftes aguilhões de morte fa- 
riam caminho. Mas como eram furtas fem 
amparo , e vinham bailas , ficaram logo mui- 
tas tão defapparelhadas , que não oufáram , 
nem puderam ir mais avante dosnoíTos na- 
vios. Melique Az 5 quando fe vio naqueila 
primeira chegada aíTi recebido, e que Mir 
Hocem não o viera receber , e eftava mais 
como homem cercado , que pera poder aju- 
dar, tomou hum pouíb que ficava a baixo 
donde os noflbs partiram quando foram 
demandar Mir Hocem , com fundamento i 
que de noite fe iria pera elle , como fez 
pela outra banda da terra , temendo os nof- 
fos navios. Porém entretanto defejando fa- 
ber em que eílado elle eítava , mandou a 

duas 



Década II. Liv. II. Cap. VIII. i# 

duas furtas que fe cozeíTem com a terra da 
banda da povoação , e em toda maneira 
chegaffem a lhe levar íèu recado ; as quaes 
pofto que comrnettêram o caminho primei- 
ro que lá chegaffem , hiam taes da artilhe^ 
ria das caravellas , que tomaram terra com 
cedo a fe repairar , e abrigar com o favor 
dos Mouros que delia lhe acudiram, e fi- 
caram aíli fem os noffos lá poderem che- 
gar. E porque ao tempo que acabaram de 
tomar poufo , era já mui tarde , e peró que 
elles vieffem mui folgados , os outros , que 
eftavam na fúria da peleja , não fe podiam 
ter em pé do trabalho de todo o dia , na- 
quelle não fe fez mais que entender cada 
hum na cura dos feridos , e lançar os mor- 
tos ao mar depois que foi noite , por não 
moftrarem huns aos outros o damno que 
tinham recebido. D. Lourenço nefte dia com 
os outros foi ferido de duas frechadas , hu- 
ma das quaes por fer no roílo, lhe fez vir 
huma febre mui grande , pêra remédio da 
qual fe fangrou , com que ficou tão leve , 
que teve logo novo confelho com ôs Ca- 
pitães no modo que teriam de pelejar com 
os imigos com a vinda de Melique Az. E 
I paffados muitos debates no votar de cada 
; hum , affentáram que vifto o citado da gen- 
! te que tinham ferida , e munições que lhe 
i faleciam , e o grande número das velas dos 

N ii imi- 



i<)6 ÁSIA de João de Barros 

imigos , não era coufa de prudência pele- { 
jar com ellcs em tão eftreito Jugar : por j 
tanto clle D. Lourenço devia logo mandar 
hum recado ás náos de Cochij , que efta- • 
vam pelo rio aífima , que fe íàhiffem com | 
a maré da noite , pêra que quando vieííe a 
da manhã , que os tomafle fora do rio , por- i 
que clle havia de fazer outra tanto , e as j 
acompanharia té as falvar ; e então fe os | 
imigos o quizeííem feguir , tinham o mar j 
Jargo , e a vela podiam ajudar-fe melhor f 
delles , que citando decepados naquellc rio. I 
D. Lourenço , poílo que como Capitão em 
jfeu peito approvou o confelho , por razão j 
do que tinha paliado no rio de Dabul cm j 
outro confelho , em que defapprouve a fcut 
pai, neíte tomou a parte de cavalleiro def-i 
confiado , e difle , que em nenhuma manei- 1 
ra elle fahiria de noite , porque na fua ter- j 
ra chamam aquelle modo , fugir. E quej 
mais damnava a honra dos homens qual-j 
quer coufa deitas, como era feita de noite,, 
ainda que ufaífem diílb como de induítria 
contra íeus imigos , que de dia , porque ai 
olhos viftos querer-fe melhorar em lugar j 
contra ellcs , quando á rédea folta os não. 
leixavam , efte retraer prudência , e caval-j 
laria era : por tanto elle nefta parte da noi- 
te não feguiria feu parecer , fomente emi 
mandar ás náos de Chochij que fe puzef-i 

fem ; 



Década II. Liv. II. Cap. VIII. 197 

fem da barra fora j e quanto a elles , de- 
pois delias fora , então podiam eleger ou- 
tro melhor lugar. Approvado efte parecer, 
em que também era Pêro Barreto , e Dio- 
go Cam 5 mandou logo dalli a Payo de 
Soula 5 e a Diogo Pires com aquelle reca- 
do ás náos , o que elles fizeram com dili- 
gencia : e ainda nefta ida acharam em lima 
duas galés das féis deMirHòcem, as quaes 
tomaram levemente por acharem a gente 
dormindo , e as trouxeram á toa , que deo 
muito prazer a D. Lourenço. As náos de 
Cochij , como lhe era mandado 5 com o ter- 
renho huma hora ante manha abocavam já 
a barra , e puzeram-fe na volta de Cochij > 
parecendò-lhe que levavam D. Lourenço nas 
coitas , como lhe mandara dizer : peró elle 
foi impedido de maneira 5 que ficou alli por 
mais tempo do que elles cuidavam , per e£ 
ta maneira. Tanto que elle foube lerem em 
baixo 5 e o Sol deícubrio todo o rio , pê- 
ra que huns pudeíTem ver a obra dos ou- 
tros , mandou aos navios pequenos que def- 
fèm vela 3 e começaífem de íahir trás ellas , 
e a náo de Pêro Barreto na fua efteira 9 e 
elle na trazeira com menos vela. As fuíías 
deMeliqueAz tanto que viram abalar Dom 
Lourenço , com novo animo , parecendo- 
Ihe que fugia ? fahíram remo em punho com 
hum alarido que atroou todo o rio 5 por- 
que 



198 ÁSIA de J0X0 de Barros 

que como o Sol ainda não tinha gaitado os 
vapores delle , andava eíta grita , e afli a 
trovoada da artilheria tao embaçada na grof- 
fura do ar , que não podia fahir dalli , e 
era tudo hum trovão de vozes confufas , que 
fazia tanto damno no animo de todos , que 
té aos próprios authores aííbmbrava. E a 
primeira obra que eíta fuítalha fez naquella 
remettida como gentes , foi chegarem á náo 
de D. Lourenço , que ficava detrás de to- 
das , e defcarregarem nella quanta artilhe- 
ria levavam cevada , e huma chuva de fre- 
chas j e ilto tão a miude , e bailas , que coa- 
lhavam mais o ar, do que eítava com a 
fumaça da artilheria : ao que D. Lourenço , 
e Pêro Barreto refpondiam , com que algu- 
mas das fuítas ficavam deiapparelhadas de 
galeotes meias cfpedaçadas com a noíTa ar- 
tilheria ; mas andavam ellas tão azedas nef- 
te feu modo de peleja , que lhe não fazia 
temor verem ir o companheiro em pedaços 
pelo ar. Havia neíte rio feitas pelos mora- 
dores da Cidade três eítacadas , que atra- 
veílavam boa parte delle , as quaes eram 
pêra os pefcadores da terra ao modo de co- 
mo cá ufamos dos caneiros de pefcaria , po- 
rém eítas tinham outra difFerença : cá eram 
de huns páos ? a que chamam areca , tao 
direitos 5 compridos , e delgados , como pi- 
nheiros, Os quaes em terra á força de ma- 



Década II. Liv. II. Cap. VIII. 199 

ço mettiam em huns olhos de pedras de 
mós , e então eram aprumados onde os que- 
riam metter, todos em ordem, com que fi- 
cavam mui íéguros , porque as mós aíTen- 
tavam navafa; epor razão do comprimen- 
to que tinham , quando vinha a maré , eíta- 
vam tremendo como varas com a força del- 
ia ; e fe algum navio queria paliar , eram 
tão brandas , que davam o lugar neceflario 
pêra fua paíTagem 3 e tornavam-fe a endi- 
reitar , á maneira de humas vergcnteas. Vin- 
do D. Lourenço acoflado das ft.ítas , che- 
gando-fe , e affaftando-fe delle á maneira de 
genetes , revezando-fe em quadrilhas , com 
que encravavam muita gente da noíTa , aííi 
da náo , como da galé de Payo de Soufa , 
que a rebocava por acalmar o vento , deo 
comfigo entre eíla eftacada ? e como vinha 
encodada por ív.zão de huma bombarda que 
lhe a fuíta de Melique Az deo per junto 
do leme 5 em a náo cahindo entre as cíla- 
cas , que ellas foram correndo ao Jongo das 
cintas do coílado meias embuizadas , quan- 
do huma veio ter ao lugar da bombarda ? 
barafuftou pelo baraço com que. a náo ficou 
retida 5 e o pezo da agua , que nella entra- 
va , aífi a foi atraveífando entre as outras 
éftacas , que ficou amarrada , não a huma , 
mas a muitas. D. Lourenço vendo que a 
náo de Pêro Barreto com as outras fe hiam 

fa- 



200 ÁSIA de JoÁo de Barros 

fahindo , e o rebocar da galé não furdia 
avante , mandou a Pedreanes o Ganchino 
Piloto da náo que foífe ver o que os deti- 
nha ? porque per fora não viam coufa al- 
guma. Tornado o Piloto aflima debaixo da 
náo onde foi , difle : Senhor ? a não fe vai 
ao fundo per agua que faz , a qual anda 
no paiol do pão ; e he tanto o fervor del- 
ia , que não ha modo de a tomar , nem quem 
oufe de entrar dentro. Dada efta nova , vi- 
ram todos claramente fua perdição , porque 
a olhos viílos a náo fe hia ao fundo , c a 
galé por lhe arrebentar o cabo com a for- 
ça que punha no remo , era já expedida 
delia , mais por culpa dos remciros , a maior 
parte dos quaes eftavam feridos , que por 
defeito de Payo de Soufa ; porque como 
o cabo arrebentou , quizera tornar a tomar 
a náo , mas todo feu trabalho foi de bal- 
de : cá a maré defeia mui teza , e não ha- 
via braço são , que pudeííe romper o tezão 
da agua , nem os ânimos de todos eram de- 
fejos de ir bufear a morte , vendo o mar 
coalhado das fetas , e tiros das fuílas de 
Melique Az. No qual tempo deram a Dom 
Lourenço huma bombardada , que lhe le- 
vou meia coxa 5 com que acurvou ; ao que 
logo acudiram os principaes da náo , que- 
rendo-o paliar em hum paráo que pêra iííb 
mandaram aperceber ao Contra-meílre > e 

le- 



Década II. Liv. II. Cap. VIII. 201 

levallo a curar á náo de Pêro Barreto , não 
tanto por lhe falvar a vida , porque a feri- 
da não era pêra efperar que a podia elle 
ter , quanto por falvar feu corpo , que não 
viefle a mãos dos Mouros por honra defte 
Reyno , e não fe gloriarem delle : tão pou- 
ca efperança havia em todos de % fe poder 
falvar. Chegando a D. Lourenço os que 
miniftravam eíta obra de falvar com pala- 
vras piedofas do eftado em que o viram , 
refpondeo que o leixaíTem , porque mais lhe 
oífendia a alma eíta piedade que com elle 
queriam ufar , do que lhe laílimava o corpo 
aquella ferida ; que lhes pedia que cada hum 
tornaífe a feu officio de Cavalíeiro como 
eram , porque pêra elle qualquer peífoa bas- 
tava pêra lhe atar aquella ferida com huma 
touca. E mandou que o encoítafíem ao pro- 
páo junto do mafto meio aíTentado em hu- 
ma cadeira quaíi em giolhos 5 e vendo-íc 
naquelle eftado , levantou as mãos a Deos , 
dizendo : Senhor > pois te approuve de me 
tirar o poder pêra ajudar a ejies Cavah 
leiras , que derramam feufangue por confif* 
são da tua Fé : peço-te que aqui atado nej 2 - 
ta columna , que eu tomo por gloria com a 
lembrança da tua \ hajas por bem que os 
ajude com a falia , pois naopofjb com apej- 
foa , porque ellafeja teftemunha que te con- 
feffò com alma , pois o corpo desfaleceo. Aca- 

ban- 



202 ÁSIA de JoÃo de Barros 

bando citas palavras , e convertendo-fe á 
gente que pelejava , querendo-os ajudar com 
outras y nao da fraqueza da morte que lhe 
vaiava ofangue, mas que lhe diítava o ani- 
mo de Cavallciro, e clpirito de Catholico 
barão , nao perdendo o officio de Capitão , 
nem o conhecimento pêra dar gloria a feu 
Dcos j veio outra bombarda que lhe levou 
todalas coitas da parte direita defeubrindo- 
lhe os bofes. Morto eíte Capitão , deo a 
morte licença que fem nenhum acatamento, 
por não verem alli jazer o leu corpo , que 
per alguns homens de armas fofle lançado 
em baixo no convés , como hum íacco de 
terra junto do fogão ; e como era hum dos 
maiores homens deite Reyno , aífi atroou a 
náo a pancada que o feu corpo deo em bai- 
xo 5 que muito maior terror fez no animo 
de todos o tom deita cahida , que a vós da 
fua morte. Ao qual corpo feguio hum feu 
pajem per nome Lourenço Freire Gato , que 
o arraítou per huma perna pêra dentro do 
fogão pera melhor poder prantear aquelle 
que o creára , e per hum olho lançava as 
lagrimas , e per outro vertia langue de hu- 
ma feta que lho quebrara , té que na entra- 
da da náo foram os Mouros dar com eí- 
le , onde acabou fobre o corpo de feu Se- 
nhor como leal criado 5 e efpecial Cavallei- 
ro , porque primeiro que o mataíTeiu , fez 

hum 



Década II. Liv. II. Cap. VIII. 203 

hum monte de corpos mortos , debaixo dos 
quaes ficou enterrado o de feu Senhor > e 
dí.Q fobre clles. Como a náo foi cheia da 
morte de D. Lourenço , e ella aos olhos 
viítos fe hia ao fundo , foi tamanho o alvo- 
roço deites dous Capitães , Mir Hocem , e 
Melique Az 5 que leixáram de feguir as ou- 
tras velas , pondo ambos todo feu poder 
por tomar ás mãos os que ficavam vivos 
nefta capitânia , não fabendo fer o Capitão 
morto , vendo que na tomada deita náo es- 
tava toda a gloria de feu vencimento. So- 
mente' hum dos feus galeões, que hiam na 
eíteira de Pêro Barreto , não leixou de o fe- 
guir hum bom pedaço ; mas quando vio 
que Pêro Barreto o efperava, lançou anco- 
ra , não oufando de o commetter, porque 
também vio elíe que os feus fe punham der- 
redor da capitania , e era com tanta preíTa 
de chegar a ella 5 como que não tinham 
mais que fazer que entrar dentro. Peró el- 
les foram tão bem recebidos , que três ve- 
zes os lançaram fora da náo : cá ella expe- 
dia de fi a gente de Mir Hocem , e a fuf- 
talha de Melique Az ao modo que faz 
hum bravo touro a lebres que o acofsão , 
eítripando huns , embaçando outros , e ou- 
tros atemorizando de maneira , que aíh de- 
cepada como eítava . e meia no fundo , 
não oufavam de a entrar , e primeiro tomou 

agua 



| V SI A pe JoXo de Barros 

agua pofle delia, que os M Porque 

indo ajá entraram , nem os noilos tini 
pólvora, nem langue, iem neile tempo po- 
fi becorridos, trabalhando niflb os 
Capitães quanto puderam , principalmente 
Pêro Barreto, Duarte de Mello, e outros, 
mettendo-íc em S >uíà , 

e de Diogo Pires, que como A Dora 

Lou a por fa- 

ber que ficava elle com meia perna I 

A qual nova levou oG :!lre DO 

■ que per ipparelhou; eifto cau 

rem ainda 06 Capitães muito maior di- 
ligencia por chegar a elle 3 ao menos por 

ar Tua peílba , que da nao nao 
conta ; mas nem vento , nem maré, nem 
braço havia que ajudaífi íèjo que to- 

tinham ; e iobre tudo eram ur- 
da fuíhlha de MeliqueAz, que acabou 

l iilo 
te elles íè recolheram , 
e os ( . ( . . defunto 

quaíi todos o feguíram : cá de cento e I 
tos que é ente foram cativos d( 

nove; e entre os mortos, foram João Ro- 
drigues Paçanha . alli era Capitão do 
convés , e feu irmão Jorge Paçanha filhos 
de Manuel Paçanha, e R eira do 
garve-, Souro Maior, Francifco de Novaes 
Capitão da proa, e Feitor da náo , Ruv de 

Sam- 



Década II. Liv. II. Cap. VIII. w$ 

Sampayo , filho de Álvaro Ferreira , Antó- 
nio de Soufa , Ruy de Soufa , Antão de 
Gaa , Eftevão de Vilhena de Setúbal Ca- 
valleiro da guarda cPElRey , que era Capi- 
tão da popa , Diogo Velho , e outras peí- 
foas nobres. E fegundo fe affirmou , nefra 
não de D. Lourenço , e nas outras velas , 
dos noíTos morreram cento e quarenta pef- 
foas , e feridos foram cento e vinte e quatro , 
e as principies peífoas dos catives foram , 
Triílao de Gaa , Baítiao Rodrigues , que 
ora he Juiz da balança da Moeda de Lis- 
boa , Lourenço Fiiippe veador de D. Lou- 
renço j Álvaro Lopes Barriga meílre da 
náo , Gonçalo Tarouca criado do Vifc-Rey , 
e os outros eram homens do mar , alguns 
delles com feridas mais de morte , que com 
efperança da vida. Dos quaes cativos o que 
mais honra ganhou naquelle feito , foi hum 
Grumete , que fervia de Gajeiro natural do 
Porto per nome André Fernandes, ou Gon- 
çalves , o qual fendo ferido per huma ef- 
padoa de hum eípingardao , e aleijado da 
mão efquerda , com a direita dous dias e 
meio fe defendeo da gávea fem o poderem 
entrar; té que Melique Az vendo quão va- 
lente homem era, mandou que lhe não ti- 
iraíTem , e com grandes promeflas , e jura- 
mento da fegurança de fua vida fe entre- 
gou y o qual depois foi bem agalardoado 

do 



2o6 ÁSIA de João de Barros 

do Viíb-Rey , e acabou cm Malaca comi- 
tre de huma galé , fcrvindo primeiro muito 
tempo de meílre da náo , em que Aftbnfo 
d'Alboquerque andava. A qual viítoria pcf- 
to que foi havida per cfte deíaílre , e não 
com aquella liberdade de pelejar mão por 
mão 5 como os noííos quizeram , todavia cuf- 
tou a Mir Hócem , e a Melique Az mais 
de feiscentos homens mortos , e grande nú- 
mero de feridos ; e a perda , e damno def- 
ta gente foi cauía de ambos fe deterem alli 
alguns dias enterrando huns , e curando ou- 
tros , e dar honrada fepultura ao Embaixa- 
dor Maimame ; ao qual mandaram fazer 
huma mefquita , onde foi fepultado com 
letreiro da caufa da fua morte , c alampa- 
das de prata pêra arderem ante elle , haven- 
do fer homem fanélo , porque além de fer 
religiofo da fua fedia , dizem os Mouros 
que morreo fazendo o Cala , que he aélo 
de fua certa falvação. E fobre o corpo de 
D. Lourenço mandaram eftes dous Capitães 
fazer grande diligencia pêra também lhe 
dar honrada fepultura , em lembrança da 
viítoria que delle houveram ; mas Deos não 
lhe quiz entregar o corpo por dar maior 
gloria a fua alma 5 a qual deve eílar entre 
os eleitos de Deos no lugar daquelles que 
são Martyres ; pugnando pola Fé , e Lei de 
Deos. 

CA- 



Década II. Livro II. 207 

CAPITULO IX. 

Como os Capitães , que andavam com 
7). Lourenço , levaram nova de fua morte ao 
Vifo-Rey feu pai : e como Me li que Az lhe 
efireveo huma carta de confolaçao fobre el- 
la : e as caufas porque , e o fundamento 
da fua medrança , e da Cidade Dio , de 
que elle era Senhor. 

S noííos Capitães como viram o feito 
acabado , fahidos da barra do rio , fi- 
zeram fua via caminho de Cochij , hum 
pouco defordenados , como quem não le- 
vava Capitão mor ; e porém não tão efpa- 
Ihados , que huns não foliem em vifta dou- 
tros pêra fe poder ajudar quando cumpriíTe. 
E fendo tanto avante como os ilheos quei- 
mados , que são junto de Goa 5 vieram dar 
com elles Manuel Telles , Affonfo Lopes 
d' Acoita, e António do Campo , que hiam 
de Ormuz ; e cuidando que eram Rumes , 
por muitos íinaes que lhe faziam não que- 
riam efperar , té que vieram em conheci- 
mento ferem elles ; os quaes fabendo aquel- 
le defaftre , eftiveram todos em confelho 
pêra tornar 3 e não ir ante o Vifo-Rey fem 
lhe levar nova fe era feu filho morto , fe 
vivo j e quando foífe morto , aprefentarem- 
fe ante elle vingadores , e não menfajeiros 

de 



2o8 ÁSIA de João de Barros 

de fua morte. Porém viíla a difpofição da 
gente 5 e quão desfalecidos citavam do ne- 
ceíTario , e que tão grande coula , ( pois fe 
não achavam naquelle accidente , ) não fe 
devia de tornar a ella fenão per ordenança 
do Vifo-Rey , foram-fe a cile a Cochij , o 
qual tomou a nova da morte de fcu filho 
com aquelia paciência que tem tão catholi- 
cos , e prudentes barões como elle era , di- 
zendo áquelles , queporiífo o queriam con- 
folar , que elle não podia defejar a feu filho 
género de mais honrada , e melhor morte 
que aquelia , pois era por feu Deos , e por 
feu Rey 5 e em officios de Capitão , e Ca- 
valleiro. Paííados aquelles primeiros dias , 
que todos o Vifo-Rey defpendeo em man- 
dar curar os feridos , e confolar aos que 
temiam poder elle ter algum, efcandalo del- 
les cm não acudirem a feu filho , porque 
não havia algum que o viífe morrer, però 
que elle foubeííe que não era feu filho ho- 
mem que fe havia de entregar em cativei- 
ro , a primeira diligencia que fez pêra fa- 
ber fe era vivo , foi mandar hum Jogue a 
Chaul a ilTo ; o qual Jogue era de huma 
certa feéla de homens ao modo de Filofo- 
fos que leixam o Mundo , e em habito vil , 
e baixo andam per todalas terras em roma- 
rias , e ás vezes fe apartam em lugares foli- 
tarios a fazer penitencia , e por iífo entre 

os 



Década II. Liv. II. Cap. IX. 209 

os Gentios são tidos em grande veneração , 
e podem andar per toda a parte fem lhes fer 
feito algum damno , dos quaes em outra 
parte faremos maior relação. Efte como era 
homem , que em Cochij tinha alguns paVen- 
tes , per meio d^ElRey á inftancia do Vifo- 
Rey fez feu caminho a Cambaya 3 e foi ter 
com os cativos , que cativaram em a náo de 
D. Lourenço > indo elles prezos em carre- 
tas de hum lugar de Cambaya chamado Ga- 
ga porto de mar per Champanei , huma Ci- 
dade das principaes do Reyno j e o modo 
que teve de lhe fallar, foi chegar-fe a hu- 
ma das carretas , onde hiam Triftão de Gaa , 
e Baíliao Rodrigues ; e fazendo que lhe pe- 
dia efmola , como que fofíem Gentios , deo- 
lhe hum pelouro de cera , e difTe-lhc : Re- 
fpondei ao que achardes dentro , e eu tor- 
narei a vós daqui a dous dias. Na qual 
cera vinha humefcrito doVifo-Rey, afub- 
ftancia das breves palavras que trazia, di- 
zia fe feu filho era morto , e que homens 
\ eram cativos pêra logo prover na foltura 
1 delles. Ao que refpondêram nas cofias da 
carta , que tornaram dar na própria cera ao 
, Brâmane per aquelle modo que a elle deo , 
I e per ella foube o Vifo-Rey da morte de 
feu filho 5 e quantos eram os cativos. Ten- 
iído elle já ao tempo que efte Brâmane veio 
líabido todo o cafo per cartas, que Mouros 
Tom. II. PJ. O de 



2io ÁSIA de João de Barros 

de Chaul lhe efcrevêram , e aflí per huma 
carta de confolação , que lhe Melique Az 
efcreveo fobre eíla morte de feu filho com 
grandes gabos de íua cavalleria , e o que fi- 
zera té feu falecimento. Que quanto aos 
Portuguezes , que cativaram na entrada da 
náo , queElRey de Cambaya mandara que 
lhos levaífem á Cidade de Champanel , on- 
de elle eftava ? defejando de ver homens 
que taes coufas faziam; que elle trabalharia 
muito poios haver , e feriam delle tratados 
como fua Senhoria faberia per elles : cá os 
homens , que tinham nome de Cavalleiros , 
no lugar da peleja haviam de romper a car- 
ne de feu imigo , e depois de vencido , o de- 
viam tratar como irmão. E porque não tar- 
dou muito tempo que o Vifo-Rey foi to- 
mar conta a Melique Az dentro no feu por- 
to de Dio do cativeiro deites homens , on- 
de lhos elle trouxe ; e daqui em diante 
toda eíla noífa hiftoria vai tratando dos ne- 
gócios , e guerra que tivemos com efte Mou- 
ro 3 fendo vaífallo d'ElRey de Cambaya ,j 
do qual fempre fazemos maior menção em, 
quanto elle viveo , que do próprio Senhor ; 
convém que digamos que homem era , e os 
méritos per que veio ter áquelle eftado. Se-| 
gundo o que pudemos alcançar dos quepar-j 
ticular communicação tiveram com efte Me-T 
lique Az y elle era Roxo de nação , dojj 

Chri- ; 



Década II. Liv.-II. Cap. IX. ÍíI 

Chriftãos heréticos da Roxia 5 trazido a 
Coníiantinopla entre outros cativos , que os 
Turcos de lá coftumam trazer. O qual fen- 
do comprado per hum mercador , que trata- 
va naquellas partes de Coníiantinopla pêra 
Damafco , e Alepo 3 e dahi pêra Bafçorá , 
que he no fim do mar Perfico , aconteceo 
que indo efte mercador em huma cáfila de 
Alepo pêra efte Baíçorá , faltaram com a 
cáfila huns Alarves que a quizeram roubar, 
em defensão da qual fe puzeram todolos 
mercadores. Na qual peleja efte Melique 
Az , (que naquelle tempo havia nome Yaz 5 ) 
como era mancebo , e fegundo o ufo da 
pátria , grande frecheiro 5 fez coufas por 
! íalvar o Senhor , que naquelle feito mere- 
\ ceo nome de valente homem. Salva a ca- 
fila do concurfo dos Alarves , chegou a Baf- 
\ corá , e o Senhor de Yaz com íuas merca- 
dorias paflbu-fe a Ormuz , e dahi ao Rey- 
\ no de Cambaya , reinando ÉlRey Mahamud > 
' \ com o qual tendo negocio efte mercador , 
i fez-lhe hum prefente das coufas que levava 3 
' e entre ellas lhe deo efte Yaz feu efcravo , 
' como huma jóia de muito preço , por fer 
! muito bom frecheiro , e mancebo de gran- 
■ ■ de animo no que tinha vifto delle. Ficando 
"• leite Yaz com EIRey , como naquellas partes 
& efta de cavalleiro habilita tanto os homens , 
togue de eícravos os faz livres 7 e fobem a 
fr O ix ef- 



212 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

eftado de fenhores , aconteceo que fobre o 
nome de valente homem , que elle cobrou 
nas guerras do Reyno de Cambaya , fuc- 
cedeo efte calo , per que ficou livre de e£- 
cravo que era. Eftando EIRey em hum cam- 
po , onde tinha aíTentado feu arraial de hum 
exercito de gente por caufa de huma guer- 
ra que fazia a EIRey do Mando , paliando 
per cima hum milhano , deo huma talhadu- 
ra, que veio cahir fobre a cabeça d'ElRey, 
que acertou de eftar no campo fóra da lua 
tenda ; e como os Mouros são mui agou- 
reiros acerca delias coufas que os cuja , 
principalmente em aílo de guerra , e mais 
vindo do ar , houve EIRey tanta paixão , 
que convertendo-fe pêra osqueeftavam der- 
redor delle , diífe : Não fei coufa que ago- 
ra não déjje por matar aquella ave. Yaz , 
que eílava prefente, ouvindo as palavras d'El- 
Rey , embebeo huma frecha no arco , e aííi í 
ofavoreceo a fortuna pêra vir a eftado quej 
veio , que veio o milhano abaixo atraveíTa-i 
do na frecha. E aprefentado ante EIRe) 
aquelle feu defejo pofto em effeito , ficou tac 
contente da deftreza de Yaz , que logo alli 
o fez livre , e mandou dar foldo de homer 
livre. Finalmente , porque além da fua valen-j 
tia era homem prudente , e fagaz em o.f 
negócios , pouco, e pouco fubio ante EI- 
Rey a gráo de hum dos principaes Capi- 
tães ; 



Década II. Liv. II. Cap. IX. 213 

taes que tinha , dando-lhe por dignidade efte 

Íronome Melique 5 que he denotação de 
onra acerca delles ; e mais em galardão de 
feus ferviços , a requerimento delle , lhe deo 
a povoação deDio, que eftá fituada em hu- 
ma ponta que a terra faz ; e porque o mar 
a cercou com hum eíleiro , que a tornea de 
todo em figura de triangulo , ficou com no- 
me de Ilha. A qual povoação , (fegundo 
contam as Chronicas dos Reys do Guzara- 
te , ) Dariar Hão pai deite Mahamed edifi- 
cou , fendo fomente hum pequeno acolhi- 
mento de pefcadores , peró que antigamen- 
te já alli foffe huma Cidade , de que havia 
poucas ruinas , fomente alguns letreiros em 
linguaGuzarate antiquiffimos. E a caufa def- 
te Rey Dariar Hão Mouro edificar aquella 
Cidade, (fegundo fe conta na Chronica def- 
te Rey , ) foi de huma victoria 3 que elle hou- 
ve de huns juncos de Chijs , que alli vieram 
ter em tempo que elles tinham Feitoria em 
Cochij , e em algumas partes da índia. Em 
a qual peleja morreram dous irmãos d'El- 
Rey , e finco tios com muita gente nobre 
do Reyno , e elle ficou mui mal ferido ; po- 
rém no fim delia tomou os juncos, que são 
náos de boa carga , em que houve "grande 
defpojo ; e por memoria de úo iliuítre fei- 
to , em quanto fe alli deteve no enterrar os 
mortos ^ a que logo fez huma mefqiuta , 

man- 



ai4 ÁSIA de João de Barros 

mandou fundar huma povoação , a que poz 
nome Dio. A qual pofto que ao tempo que 
EIRey Mahamud a deo a Melique Az , era 
coufa nova , e pouco frequentada de gente j 
como elle Melique Az era homem experto , 
e prudente , com fua induílria a fez tão cé- 
lebre per trato de mercadoria , que além do 
que cada hum anno pagava a EIRey de tri- 
buto , fe fez hum riquiílimo homem , com 
que fortaleceo 5 e nobreceo a Cidade de mu- 
ros , torres , e baluartes , principalmente de- 
pois que nós entrámos na índia. No qual 
tempo concorriam a ella tantas nãos do 
mar Roxo , Períico , e de toda a coita da 
Arábia, e da índia , que os lugares de den- 
tro da enfeada de Cambaya , que per razão 
do trato eram ricos , e nobres , ella os des- 
fez. Cá por ella eílar fora dos Macareos da 
enfeada de Cambaya , com os quaes fe per- 
dem muitas náos por ferem tão grandes que 
as foçobram , tanto que eíla Cidade Dio 
foi povoada , o que as outras tinham de 
proveito , por fer de mais fegura navegação , 
chamou pêra íi , da qual coufa começou 
Melique Az fer mui invejado , e tinha ante 
EIRey grandes competidores , principalmen- 
te hum Melique Gupi Senhor da Cidade 
Baróche, que he dentro na enfeada de Cam- 
baya 5 por ter perdido todo o feu trato por 
razão de Dio. Morto EIRey Mahamud 3 j 

que 



Década II. Liv. II. Cap. IX. n? 

que fez honrado efte Melique Az , e rei- 
nando EIRey Modafar feu filho , e depois 
EIRey Bádur que lhe fuccedeo , (como 
adiante veremos,) era já eíle taopoderofo, 
e ufava de tantos artifícios , que fe fazia te- 
merofo aos mefmos Príncipes , temendo el- 
les a amizade , que elle moftrava ter ccm- 
nofco. E de fe elles não fiarem delle , peró 
que os ferviffe , e pola neceííidade que ti- 
nham de feu ferviço , elles lhe faziam mer- 
cê , dando-ihe terras , e accrefcentamento : 
era elle tão poderofo , e eílava fempre tão 
apercebido , como fe per elles houveífe de 
fer cercado per terra , ou per nós pelo mar , 
de maneira , que tendo EIRey Bádur huma 
guerra com os Resbutos 3 povos que confi- 
nam com as mefmas terras de Dio , levou 
elle Melique Az em fua ajuda efte exerci- 
to : de cavallo dez mil , de pé quinze mil , 
em que entravam quinhentos archeiros de 
fua guarda , efpingardeiros trezentos , bom- 
bardeiros íincoenta , homens de enxada , 
fouce , e machado pêra fazer caminhos qui- 
nhentos , carretas com artilheria , e muni- 
ções quinhentas , de bois de carga , que fer- 
viam de açacáes de acarretar agua quinhen- 
tos , e outros tantos que levavam manti- 
mentos , decamellos com tendas, emaçame 
delias quinhentos , e de artilheria de toda 
forte fetenta peças 7 e de frechas fobrecelen- 

tes 



ni6 ÁSIA de JoÂo de Barros 

tes duzentas mil , com outras muitas armas , 
e munições que refpondiam a tamanho ap- 
parato , tudo á fua culta , fomente alguma 
de gente de cavallo , que lhe EIRey man- 
dou fazer á fua. Na qual ida que fez com 
eíte apparato , fendo aquella terra de Cam- 
baya mui fértil , e barata, e o foldo pêra 
comer mui pequeno , ainda gaitava por dia 
quarenta mil fedeas , moeda que são da nof- 
fa mil e duzentos cruzados , a razão de do- 
ze reaes a fedea 5 tendo nefte mefmo tempo 
noventa velas de remo , a maior parte das 
quaes mantinha á cufta d'ElRey , fazendo- 
lhe crer ferem neccífarias pêra defcndimcnto 
da coíla por caufa das noílas Armadas. E 
valia então o rendimento aíli da Cidade de 
Dio , como de outros lugares que lhe os 
Reys deram , que pagando elle hum tanto 
a EIRey , que era a maior parte , ficava-lhe 
pêra fua defpeza cento e feífenta mil cruza- 
dos por anno ; e a fora eíte rendimento , 
tinha tratos , e induítrias , que importavam 
hum groíTo dinheiro 5 a maior parte do qual 
gaitava não fomente neítas coufas , mas 
ainda em groffas peitas aos acceitos a EIRey 
por fe fegurar naquelle fenhorio. E era tão 
fagaz , e artificiofo em feu viver , que á fua 
própria cuíta per terra fe fegurava delRey , 
e pelo mar , moítrando temor de nós á cufta 
âdk ? tendo fempre peraiífo preítes muitos, 

na-* 



Década II. Liv. II. Cap. IX. 217 

navios de remo ; no provimento dos quaes 
embebia toda a parte , que EIRey havia de 
♦haver do rendimento de Dio. E porque com 
noffas Armadas as náos que vinham a efte 
porto de Dio não oufavam de navegar por 
ferem de Mouros noíibs itnigos , em que 
Melique Az começou logo íèntir a perda 
no rendimento da entrada , e fahida das 
mercadorias ; quando Mir Hócem chegou 
a Dio, foi mui bem recebido delle , porque 
também per fua intercefsão EIRey de Cam- 
baya tinha efcrito ao Soldão, ofFerecendo- 
lhe feus portos , e ajudas , mandando Ar- 
mada contra nós. Porém como Melique Az 
era cautelofo , e homem que olhava ao lon- 
ge o fucceíTo das coufas , poílo que fofíe 
com aquella frota de navios de remo em 
ajuda de Mir Hócem , que caufáram. a mor- 
te de D. Lourenço , teve modo como eíie 
foíTe diante a receber o primeiro encontro 
de qualquer damno ; porque feu propoííto 
foi , que fe Mir Hócem levaíTe a peor , não 
lhe dar tanto a mão que lhe Acarte lá o bra- 
ço. Mas como a fortuna favoreceo a fua 
induílria , a primeira coufa que quiz da vi- 
dloria 5 foram todolos cativos , os quaes 
mandou curar , e tratar com todolos mimos 
que pode , e depois de curados os mandou 
a EIRey de Cambaya á Cidade de Cham- 
panel \ porque além d'ElRey os querer ver, 

fa- 



2i8 ÁSIA de João de Barros 

fazia elle muito em leu credito ir ante eíle 
■teftemunho , que os feus navios foram a cau- 
fa principal da vi&oria 5 a qual abonação 
MirHócem também ante o Soldão quizera 
ter com aquelle prefente. Melique Az , além 
de lançar mão deites cativos pêra eífeito de 
feu credito ante EIRey , e de fe poder apro- 
veitar delles ao diante com o Vifo-Rey , 
por lhe aprazer , como diíTcmos , mandou 
fazer grandes diligencias fobre o corpo de 
D. Lourenço pêra lhe dar folemne fepultu- 
ra , porque entendeo que a lua morte não 
havia de paliar fem punição; e por iíTo per 
huma parte eferevia ao Vifo-Rey cartas de 
conforto , e per outra fortalecia a Cidade , 
como quem efperava o retorno da ajuda 
que deo a Mir Hócem , a qual não tardou 
muito tempo , como fe verá nefte feguinte 
Livro. 



DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO III. 

Dos Feitos , que os Portuguezes fizeram 
no defcubrimento , e conquiíta das 
terras , e mares do Oriente: em que 
fe contém como o Vifo-Rey D. Fran- 
cifeo d 5 Almeida desbaratou a Arma- 
da do Soldão do Cairo , e o mais 
que fez té o matarem na Aguada de 
Saldanha vindo pêra efte Reyno. 

CAPITULO L 

Como o Vifo-Rey D. Francifco fe fez 
prejles pêra ir dejiruir a Armada de Mir 
Hócem\ e ante que partijfe , de o defpacho a 
duas Armadas que de fie Reyno foram : hu- 
rna do anno de fete , que invernou em Mo- 
çambique ; e outra de oito , Capitão mor 
Jorge d? Aguiar : e o que pajfou com Affbnfò 
d? Albuquerque emCananor indo de Ormuz. 

Viso-Rey D. Francifco como tinha 
' pofto a confolaçao da morte de feu 
filho na vingança delia , tanto por fa- 
tisfazer ao paternal amor 5 çxiq leva trás 11 
a maior parte do defejo cios homens , co- 
mo porfaber quáo alvoroçados andavam os 

Mou- 




220 ÁSIA DE JoXo DE BARROS 

Mouros , tomando huma nova oufadia nef- 
ta Armada do Soldao j a primeira coufa em 
que entcndeo foi em dar ordem a que to- 
dalas náos , e navios , que haviam mifter cor- 
regimento , fe trabalhaífe nelles , principal- 
mente em a náo Flor de la mar , em que 
João da Nova andou com Affonfo d\Albo- 
querque em Ormuz , que , como difíemos > 
quando fe delle apartou não fe podia ter fo- 
bre agua : cá por fer de quatrocentos toneis > 
e a maior que então havia na índia , efpe- 
rava o Vifo-Rey de ir nella bufcar Mir Hó- 
ccm , que naquelle tempo andava na boca 
dos Mouros , como hum remidor , que os 
hia a falvar do noífo poder. E o que mais 
accrcfcentou o animo a eíles Mouros na- 
quella conjunção foi não verem aquelle 
anno de fete alguma náo deite Reyno , por- 
que todalas que partiram , invernáram em 
Moçambique íèm os noflbs diífo ferem fa- 
bedores ; fomente no fim de Maio do anno 
feguinte foi ter o Commendador Ruy Soa- 
res detrás do Cabo Comorij meio perdido : 
da chegada do qual o Vifo-Rey per Pata- 
mares foi avifado , não per elle , mas per 
hum Senhor Gentio fem faberem que náo 
era , fomente teve preíumpção que podia 
íèr Affonfo d'Alboquerque , e que efgarrá- 
ra com algum temporal. E porque era no 
inverno daquellas partes , e a náo não po- 
de- 



Década II. Liv. III. Cap. I. 221 

deria vir a Cochij , mandou lá Garcia de 
Soufa em huma caravella com ancoras , ca- 
bres , e outros provimentos pêra fe repai- 
rar , té que o tempo défle lugar a fe vir, 
e cartas ao Senhor da terra pêra todo o fa- 
vor quehouveífe mifterj a qual viagem Gar- 
cia de Soufa fez com aífás perigo , e por 
não poder tornar a Cochij , per terra man- 
dou Ruy Soares ao Vifo-Rey as cartas que 
levava deite Reyno. E afll lhe dava conta 
como naquella fua viagem , fendo tanto avan- 
te como o roílo do Cabo Guardafu , topa- 
ra com huma náo de Mouros , com a qual 
eftivera aferrado quatro horas , e que não 
fizera tão pouco em fe falvar delia por fer 
mui grande , e atulhada de gente , em que 
houve de ambalas partes tanto damno , que 
cada hum fe contentou de não tornar áqueí- 
la requefta , e principalmente elle por ter 
já cahido em pena 5 indo com aquelle re- 
cado que importava mais que tomar a pró- 
pria náo , poer-fe a perigo de não ir avan- 
te. As quaes cartas chegadas a Cochij con- 
foláram a todos , fabendo a frota que efta- 
va em Moçambique , e muito mais o Vifo- 
Rey , porque com fua chegada poderia ajun- 
tar velas , e gente pêra confeguir feu deíe- 
jo. E porque com a vinda daquellas náos 
havia deter trabalho no aviamento da car- 
ga delias, porque fe haviam de ajuntar duas 

Ar- 



222 ÁSIA de João de Barros 

Armadas , efta de fere que não paflbu , e a 
outra do armo de oito , que havia de par- 
tir defte Reyno , as quaes o podiam impe- 
dir algum tanto mais do que queria o ne- 
gocio que havia de ir commetter, mandou 
prover nas feitorias tudo , pêra que não lhe 
occupaflem muito tempo. E certo , que fe- 
gundo foi grande a frota , que o anno de 
oito defte Reyno partio , fe ella chegara 
inteira na ordenança que EIRey a manda- 
va , muito maior trabalho lhe houvera ain- 
da de dar do que elle imaginava , porque 
nella o mandava EIRey vir , que fora pa- 
ra elle termo de morte não leixar acabado 
o que elle fez ; que além de fer hum dos 
mais illuítres feitos que fe na índia fizeram > 
ficara em rifco de fe perder. Porque ifto 
temos vifto no decurfo deita conquifta de 
Afia , que cada hum dos que a governam 
quer acabar o que começa , e poucos dam 
fim a obra começada per outrem : caufa de 
ferem perdidos negócios de muita impor- 
tância ? e em feu lugar fuecederem grandes 
inconvenientes ; e que quando alguns fe fol- 
dáram foi á eufta de vidas de homens , e 
da fazenda d'ElRey , como fe não foífe 
mais gloriofo dar bom fim a hum honra- 
do negocio , que principiallo , pois fabe- 
mos que o fim ^ e não o princípio he o que 
approva, ou reprova todalas coufas. Mas 

prou- 



Década II. Liv. III. Cap. I. 223 

prouve a Deos que as coufas da Armada, 
que partio o anno de oito deíle Reyno , em 
que eile Viío-Rey fe havia de vir, fe or- 
denaram de maneira , ainda que com traba- 
lho , e perda dos navegantes , que deo ei- 
le fim a feu intento : e as caufas que El- 
Rey teve de mandar tamanha frota , como 
veremos , foram citas. Vendo eile como a 
conquiíta da índia era tão derramada , e 
tão grande coufa , que hum Capitão não 
podia fer prefente em tantas partes , como 
era as perque fe vafava a eípeciaria per mãos 
dos Mouros , que era o eífencial da con- 
fervaçao do eílado delia , porque armas íem 
o commercio , e fruto que ella em fi con- 
tinha , não fe podiam foíler, e com huma 
coufa fe podia confervar a outra ; ordenou 
de repartir efla conquifta em duas capitanias 
mores : huma , que começaífe em a forta- 
leza de Çofala , e acabaífe na ponta de Dio , 
que he no Reyno Guzarate ; e a outra dei- 
ta ponta té o Cabo Comorij. Porque os 
Mouros , depois que viram que com nofFas 
Armadas não podiam navegar as efpecia- 
rias , as quaes Armadas regularmente anda- 
vam de Cochij té Chaul , bufcáram outro 
modo de navegação , principalmente os do 
eílreito de Meca : cá eftes fabiam-íè já guar- 
dar da cofta , navegando tanto ao pego, 
que não pudeflem fer vidos; e fendo tanto 

avan- 



224 ÁSIA DE JoXo DE BARROS 

avante como o porto que hiam demandar j 
commcttiam a terra de roíto ; e quando fa- 
híram do porto per o mcfmo modo cm hu- 
ma noite , fe faziam ao mar de maneira i 
que falvos daquella coita , navegavam pêra 
o eítreito , cuja entrada como achavam lim- 
pa de noflas Armadas , navegavam fegura- 
mente pêra a índia , pêra Malaca , Cam- 
baya , Ormuz , e pêra todalas outras par- 
tes : o que não podiam fazer, andando duas 
Armadas repartidas , huma em a coita da 
índia , e outra na coita da Arábia. Tam- 
bém quizeram alguns dizer que per cite mo- 
do , além de ElKey íêgurar melhor a guar- 
da daquellas coitas , não fazia tamanho ef- 
tado a hum fó homem ; e que cite não fo- 
ra pequeno refpeito pêra cita repartição de 
conquifta , a qual fegundo o tempo depois 
moítrou 5 pudera- fe chamar divisão pêra pa- 
recerem muitas coufas de feu ferviço mais 
que boa governança. Para fundamento do 
qual propofito era ordenada a fortaleza de 
Çocotorá , onde o Capitão mor da coita 
de Arábia podia invernar por eítar no meio 
daquella primeira conquifta ; e o fegundo 
Governador havia de reíidir em Cochij ao 
tempo da carga das náos. E porque EIRey 
mandava vir eíte anno de oito o Vifo-Rey , 
ordenou que AíFonfo d'Aiboquerque , que 
andava na coita da Arábia , fe paííaíTe á ín- 
dia, 



Década II. Liv. III. Cap. I. 22? 

dia , cada hum com feu regimento , fem hum 
fe metter , nem entender na governança do 
outro , com. novo titulo per íl : cá o pri- 
meiro fe intitulava Capitão mor do mar da 
Ethiopia , Arábia , e Períia , de Çofala té 
Cambaya , e o outro da índia ; e ainda , 
fegundo fe affirmou , a tenção d*ElRey era , 
que fe Diogo Lopes de Sequeira, que eíle 
mefmo anno de oito mandou com quatro 
velas a defcubrir a Cidade de Malaca , def- 
cubrindo-a , ficar naquelía parte em outra 
capitania mor pola grande diftancia que 
havia de huma á outra. Aílí que com efte 
fundamento mandou EIRey o anno de qui- 
nhentos e oito dezefete velas . que partiram 
cm duas capitanias : a primeira era de tre- 
ze , oito que hiam pêra a carga da efpecia- 
ria por ferem náos grandes , de que eram 
Capitães Triítao da Silva filho de Affonfo 
Telles de Menezes , João Rodrigues Perei- 
ra filho de Reimão Pereira , Vafco Carva- 
lho filho de Álvaro de Carvalho , Álvaro 
Barreto filho de Aires Barreto 5 Francifco Pe- 
reira Peftana , o qual hia pêra Capitão de 
Quiloa em lugar de Pêro Ferreira : Gonça- 
lo Mendes de Brito irmão de Ruy Men- 
des da Porta da Cruz em Lisboa , João Coí- 
laço hum Cavalleiro da guarda (PElRey : e 
1 na maior náo das ordenadas pêra a carga 
da eípeciaria, que fe chamava S. João , que 
Tom. II. P.L P era 



mG ÁSIA de João de Barkos 

era a maior da frota , hia Jorge d' Aguiar. 
Ao qual EIRey encommendou a capitania 
mor de todalas náos , aíli deitas da carrei- 
ra , como das ordenadas á capitania mor 
da coita da Ethiopia , e Arábia , onde elle 
havia de ficar, e as náos da carga paliar á 
índia, e com ellas eíta S.João, de que fe 
eile havia de mudar a outra das de fua Ar- 
mada , porque nefta mandava EIRey que 
fe vieíle o Viio-Rey D. Francifco d' Almei- 
da. Os Capitães das íinco velas , que com 
elle Jorge <T Aguiar haviam de ficar de Ar- 
mada , eram Duarte de Lemos da Trofa fi- 
lho de João Gomes de Lemos , o qual hia 
por Sota-capitao pêra fucceder a elle Jorge 
cTAguiar por fer feu fobrinho , e Vafco da 
Silveira filho de Mofem Vafco , Pêro Cor- 
rêa filho de D. Fr. Payo Corrêa Bailio da 
Ordem de S.João, e Diogo Corrêa feu ir- 
mão. E além deftas finco velas , que com 
elle haviam de ficar ? Atfonfo d'Alboquer- 
que lhe havia de mandar outras , em que 
entravam navios de remo , pela ordem que 
EIRey mandava em feu Regimento. As 
quatro velas , que Diogo Lopes de Sequeira I 
levava pêra o feu deícubrimento , de que j 
elle era Capitão mor , também eram quaíij 
do porte das de Jorge d 5 Aguiar , navetasí 
de cento e fincoenta té oitenta toneis , osi 
Capitães das quaes eram Jeronymo Teixei-Í 

ra ' 



Década II. Liv. III. Cap. L 227 

ra filho deJoão-Teixeira de Macedo, Gon- 
çalo de Soula hum Cavalleiro , que depois 
foi Meirinho do Paço d'ElRey D. Manuel , 
João Nunes outro Cavalleiro de lua cafa. 
Apercebidas as quaes velas , partio Diogo 
Lopes de Sequeira com as fuás a finco do 
mez d'Abril defte anno de quinhentos e oi- 
to , e Jorge d'Aguiar aos nove, partindo com 
toda a lua Armada junta ; mas depois de 
fua partida foi a mais derramada que quan- 
tas té então , nem depois per muito tempo 
foram deíle Reyno , porque mui poucas 
mantiveram companhia ás outras das da 
capitania de Jorge d'Aguiar , e aflí derra- 
madas foram ter a Moçambique , fomente 
i| eile que fe perdeo com muita gente nobre 
j! que levava ; e fegundo diffe Álvaro Barre- 
j to Capitão da náo Sandia Martha , que hia 
em fua companhia a ré delie , perdeo-fe 
de noite nas Ilhas de Trilião da Cunha» 
Leixando eftas duas Armadas , a de Jorge 
d 5 Aguiar , e a de Diogo Lopes , de que 
adiante faremos relação , e feguindo a ef- 
critura com a viagem das náos ordenadas 
í>, | pêra a carga da pimenta , ellas chegaram á 
:c i índia , e também as que inventaram do an- 
ifi no paífado de íète , fomente a náo Leonar- 
} da , Capitão Francifco Pereira Peílana , que 
os jinvernou em Quiloa pêra onde eíle hia por 
;.- (Capitão. Com a chegada das quaes náos 
;a fi * P ii to- 



f 



12$ ÁSIA de JoÂo de Barros 

toda a gente da índia cobrou grande ani- 
mo , e principalmente o Vifo-Rey , cá lhe 
deo caufa de fe aperceber com maior dili- 
gencia pêra effeito de ir bufcar Mir Hócein 
vendo gente frefca , e algumas munições de 
que eftava neceíTitado ; porque como elle 
efperava de fe vir aquelle anno pêra efte 
Reyno por lho EIRey mandar , primeiro 
queria leixar efte feito dos Rumes acaba- 
do , ou acabar nelle. Pofto que a feu pare- 
cer elle não fazia fundamento de fe poder 
vir aquelle anno , cá não via na índia duas 
peífoas que elle pêra iffo efperava , Affonfo 
d'Alboquerque , que o havia defucceder, e 
a náo S.João , Capitão Jorge d' Aguiar, em 
que EIRey mandava que vieíie : na qual 
náo hia hum das principaes vias das Cartas 
d'ElRey , ás quaes fe elle remettia em hu- 
ma carta que o Vifo-Rey houve. Finalmen- 
te dando ordem affi ás coufas defta Arma- 
da pêra os Rumes , e carga da efpeciaria | 
das náos que haviam de vir aquelle anno 
pêra efte Reyno , por lhe falecer canellaj 
pêra ellas , mandou a Nuno Vaz Pereira f 
em a náo Sanóto Efpirito á Ilha Ceilão pe-í 
ra a trazer , o qual era vindo de Çofala em 
as náos da Armada de Jorge de Mello, 
leixando a fortaleza entregue a Vafco Go- 
mes d 5 Abreu , como atrás fica. Da qual ida 
não trouxe coufa alguma , fomente veio corri 1 

cllef 



Década II. Liv. III. Cap. L 229 

clle Garcia de Soufa, que lá eftava da ida 
que fez quando foi prover a náo de Ruy 
Soares : e a caufa de não trazer canella j 
foi eítar o Rey da terra mui doente , e os 
Mouros terem damnado o Gentio em ódio 
noííb. E pofto que Nuno Vaz lhe pudera 
fazer damno , levava Regimento do Vifo- 
Rey , que não moveííe guerra por razão da 
paz , que feu filho D. Lourenço tinha affen- 
tado , de que eftava por teftemunha o Pa- 
drão que leixou pofto em o lugar de Co- 
lumbo , que Nuno Vaz vio. Nefte mefmo 
tempo mandou também o Vifo-Rey a Pe j 
ro Barreto com onze velas pêra em quanto 
elle defpachava as náos- da carga , que ha- 
viam de vir pêra efte Reyno ? andafíe cor- ' 
rendo a coita do Malabar té Baticalá , im- 
pedindo não entrarem ? ou fahirem náos de 
Mouros ? íenão aquellas que tinham fua li- 
cença pêra poder navegar ; e aíli a Armada 
que o Çamorij fazia pêra enviar a Dio a 
Mir Hócem , como lhe tinha promettido , 
(íègundo adiante veremos , ) e que elle Pê- 
ro Barreto o efperaííe naquella paragem té 
fe ir ajuntar com elle , e dahi partirem ao 
feito dos Rumes. E os Capitães que hiam 
com elle , eram AíFonfo Lopes d'Acofta , 
Manuel Telles , António do Campo , Ál- 
varo Paçanha , Pêro Cam , Filippe Rodri- 
gues , Luiz Preto > Payo de Souía ? Diogo 

Pi- 



1^0 ASIÁ de J0Â0 de Barros 

Pires j e Simão Martins. Partida elta Ar- 
mada , começou o Vilò-Rey defpacliar as 
náos da carreira ; e como duas eram car- 
regadas 3 fazia-as partir na ordenança que 
vinham ; fomente Jorge de Melio Pereira a 
rogo delle Vifo-Rey ficou com a fua náo 
Belém por lhe a elíe também parecer que 
naquelle feito dos Rumes fervia mais Ei- 
Rey , que vir aquelle anno com carga par- 
tindo de lá tantas náos : c parece que o ef- 
pirito diííe ao Vifo-Rey quanta neceííídade 
tinha delle polo que depois paífou na Agua- 
da de Saldanha , como veremos em leu lu- 
gar. E porque algumas náos da carga ha- 
viam de tomar gengivre em Cananor , cá 
do mais que havia em Cochij eítavam de 
todo preftes , partio-íe com ellas pêra Ca- 
nanor a vinte de Novembro , onde chegou ; 
e tendo ainda por defpacliar a náo de Fer- 
não Soares , ea de Ruy d'Acunha , veio 
ter com elie Affonfo d'Âlboquerque , que 
vinha de Ormuz pera fueceder na capitania 
mor da índia por as Provisões que lhe El- 
Rey mandou. Aprefentando as quaes , o Vi- 
fo-Rey lhe refpondeo , que elie vinha jf 
tão tarde por eftarem em féis de Dezem 
bro , fendo as mais das náos da carga par- 
tidas pera eíleReyno, e elie Vifo-Rey pof- 
to em caminho pera ir lançar os Rumes J 
donde eftavam foberbos da vi&oria que ti- 
nham 



Década IL Liv. III. Cap. L 231 

nham da morte de feu filho : que elle não 
lábia dar melhor remédio áquelle feu reque- 
rimento , que ficar alli em Cananor, ou ir- 
fe pêra Cochij repoufar feu corpo dos tra- 
balhos donde vinha , e elle Viíb-Rey iria 
repoufar o feti animo na deftruiçao daquel- 
les Rumes , que foram caufa da morte de 
feu filho ; e que fendo N. Senhor fervido 
que elle não ficaífe vivo daquella empreza , 
então lhe ficava a índia entregue fem mais 
requerimentos ; e tornando delia ? elle lha 
entragaria conforme as Provisões d'ElRey 
feu Senhor. Ao que Afronfo d'Alboquer- 
que replicou , dizendo , que quanto ás náos , 
que ainda alli tinha duas , a de Fernão Soa- 
res , e a de Ruy d'Acunha 5 em que fe po- 
deria vir , e que pêra lançar os Rumes 
elle o iria fazer. Ao que o Vifo-Rey re- 
fpondeo , que elle tinha a efpada na mão , 
e que nunca coftumára de a dar a outrem 
pêra lhe vingar fuás próprias injúrias. AíFon- 
íò d'AIboquerque , poílo que fobre ifto re- 
petio muito mais palavras , vendo que lhe 
não fundiram pêra feu requerimento 5 e pro- 
teftos que fobre iíTo fez , tirados feus inftru- 
mentos , foi-fe pêra Cochij em a fua náo 
Cirne , que a não podiam cftancar da mui- 
ta agua que fazia. E porque elle , depois 
que invernou em Çocotorá , tornou outra 
vez a Ormuz , ante que paííemos adiante , 

fa- 



232 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

faremos relação do que paflbu té chegar a 
fe ver com o Viíò-Rey. 

CAPITULO II. 

Do que Affonfo â? Alboquerque fez depois 

que chegou a Ço cot ora pêra invernar : e 

do que mais pajjou da tornada 

que fez a Ormuz. 

AFfoníò cPAIboqucrque ante que chegaf- 
fe á Ilha Çocotorá , quando partio de 
Ormuz pêra invernar nelía , parecia-lhe que 
naquelles mezes do inverno podia tomar al- 
li algum repouío de quantos trabalhos ti- 
nha paiTado no cerco de Ormuz ; peró de- 
pois que chegou á fortaleza , e vio o efta- 
do em que eílava a gente , houve que os 
feus fe podiam fofrer em refpeito dos que 
ella tinha paliado. Porque os mais dos ho- 
mens eftavam pêra expirar , aífi de fome , 
como das enfermidades , que por razão del- 
ia lhe fobrevieram com os máos mantimen- 
tos que comiam ; cá chegaram a tanta fo- 
me , que tinham cortado meio palmar de 
hum. que eílava ante a fortaleza por lhe co- 
merem o talo , e o mais foram tâmaras , ma- 
çans da nafega , c algumas cabras havidas 
per via de faltos \ que ás vezes faziam , mor- 
tas á efpingarda > por entre elles , e a gen- 
fe da terra haver já rompimento , por an- 
dar 



Década II. Liv. III. Cap. II. 233 

dar damnada com induzimento de trinta 
Mouros que fe lançaram com clles , quan- 
do lhe tomaram a fortaleza. Affonfo d'Al- 
boquerque , porque os mantimentos que tra- 
zia eram mui poucos , expedio logo a Fran- 
cifco. de Távora., que foíTe em a fua náo a 
Melinde 5 e per toda a fua coita bufcaífe 
alguns ; e depois de fua partida elíe mefmo 
Affonfo- d'Alboquerque fe veio pôr no rof- 
to do cabo Guardafu efperar alguma náo 
de preza pêra fe prover, e dalli mandou a 
Jorge da Silveira em hum efquife , e a Nu- 
no Vaz de Caftello-branco em o feu batel 
com té fetenta homens 3 que íè foffem lan- 
çar ao Cabo de Fum , que he além do de 
Guardafu doze léguas contra Melinde , ef- 
perar alguma náo de preza. Com os quaes 
veio ter huma que vinha das Ilhas de Mal- 
diva> que- tomaram levemente ; porque com 
as grandes calmarias que a tomaram no gol- 
fão } á mingua de agua trazia a mais da 
gente morta , e nella tanto mantimento , que 
foi grande fupprimento pêra os noííos. E 
dos principaes Mouros que alii foram to- 
mados , enviou depois Affonfo cFAiboquer- 
que a efte Reyno a EIRey dons , hum dei- 
les Turco de nação , que era Capitão da 
náo , que fe fez Chriftao , e houve nome 
Miguel Nunes , e fervio de repoflciro a EI- 
Rey 3 e outro era Arábio ; homem que tra- 
zia 



234 ÁSIA de João de Barros 

zia no trato da mercadoria bom cabedal , 
e dava mui boa razão das coufas de den- 
tro do mar Roxo. Recolhido todo o man- 
timento 5 e fazenda deita náo , e ella quei- 
mada por lhe não fervir , chegou Francis- 
co de Távora , que vinha de Melinde, e 
em fua companhia Martim Coelho , e Dio- 
go de Mello em feus navios , que , como 
atrás vimos , foram na Armada de Vaíco 
Gomes d 5 Abreu pcra andarem com AfFon- 
fo d'Alboquerque , os quacs também hiam 
providos de mantimentos de huma náo que 
tomaram á viíla de Magadaxo , com que 
AíFonfo d'Alboquerque ficou mui contente 
por lhe N. Senhor acudir com aquella pro- 
visão tão neceílaria alli de mantimentos , co- 
mo de gente j e navios pêra poder tornar 
a Ormuz. E em companhia deFrancilco de 
Távora hiam três homens que achou em 
Melinde , e ficaram alli da Armada de Tril- 
ião da Cunha com fundamento de irem per 
terra defeubrir o Prefte João : a hum cha- 
mavam João Jomcs o Sardo , que era de- 
gredado , e a outro João Sanches Mourif- 
co, que fora criado de •Triftão da Cunha; 
e o outro era Mouro natural de Tunes cha- 
mado Cide Ale , e todos três hiam com 
grandes promefías de lhe ElP.ey fazer mer- 
cê, fe fizeffem aquelle caminho. E porque 
naquelia paragem de Melinde os Negros Ca- 
fres 



Década II. Liv. III. Cap. II. 23J 

fres do fertão he gente mui beílial , e fera , 
houveram confelho que feria melhor entra- 
rem pela terra mais vizinha ao eftreito , que 
he já habitada de Mouros , com que cada 
hum indo por feu caminho fe podia enten- 
der, por todos faberem o Arábigo. Affon- 
fo d'Alboquerque , porque também tinha 
cartas d'ElRey, que achando algum modo 
naquella coita per onde andaífe de Arma- 
da pêra poder mandar alguns homens a ef- 
te defcubrimento do Preíte , que o fizeííe , 
proveo a eítes de dinheiro ; e dando-lhes 
as cartas que tinha pêra o Preíte , os man- 
dou poer no leu efquife junto de huma po- 
voação de Mouros , dizendo , que fugiram 
naqueíle efquife de noite pêra com eíía íí- 
mulação não receberem damno , e os ieixa- 
rem ir fua viagem. Expedidos eítes horçiens y 
deteve-fe ainda Aífonfo ■ d 5 Alboquerque na- 
quella paragem té dous de Maio ; e quan- 
do vio que não vinham mais náos pêra íe 
prover de mais mantimentos 3 com enes que 
tinha fe partio pêra Çocotorá 5 e dahi pêra 
Ormuz , por lhe parecer mais ferviço d 5 El- 
Pvey não deííftir daquella émprcza 3 que an- 
dar na boca do eftreito do mar Roxo á en- 
trada , e fahida das náos. E pofto que com 
aquellcs dous navios mais que lhe vieram , 
e huma fuíta que novamente fez em Çoco- 
torá , que deo a Nuno Vaz , a elle lhe pa- 
re- 



236 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

recia não fer poder pêra entrar a Cidade: 
cá levava fomente té trezentos homens , e 
os Mouros eftavam já defenganados da pou- 
ca gente que trazia ; ao menos per via de 
cerco 5 como tinha feito , efperava de os po- 
der obrigar pagarem as páreas , e virem ao 
que com elles tinha aífentado. Seguindo com 
efte propofito fua viagem , ante que che- 
galTe ao cabo Rofalgate , teve confelho com 
os Capitães , e aííentou de dar em a Villa 
de Calayate , afli pelas injúrias , c vitupérios 
que fizeram a João Machado íeu pajem , e 
a João Neílão Efcrivão da fua náo , e Gaf- 
par Rodrigues língua , quando os deo em 
reféns ao tempo que lhe deram os manti- 
mentos , ( do qual máo tratamento elle de- 
pois em Ormuz ibube per elles , ) como 
tambçm porque todolos lugares daquella cof- 
ta tinha tomado per armas , e efte ficara fem 
as experimentar , mais por cautela de não 
receberem damno , que defejo de noífa paz , 
a qual já não mereciam por caufa da guer- 
ra que tinha em aberto com EIRey de Or- 
muz , cujo efte lugar era. O qual lugar , fe- 
gundo atrás diffemos , parecia que em ou- 
tro tempo fora a mais illuftre povoação da- 
quella cofia , e aquelle a que Ptolomeu 
chama Metacum , fituada além do Cabo Sia- 
gro ? que he o de Rofalgate contra o ef- 
treito Paríeo : peró que elle a ponha em 

maior 



Década II. Liv. III. Cap. II. 237 

maior diíiancia , do que cila eftá do Cabo , 
que fera de té oito léguas. Per detrás da 
qual ao longo da coita vai correndo huma 
corda de ferrania , que quafi parece que quer 
impedir que os moradores ao longo do mar 
fe não communiquem com os do fertao ; 
fomente per humas abertas , que em algu- 
mas partes eíta ferrania faz , per onde fe 
fervem ao modo dos noíTos Alpes. Huma 
das quaes abertas , ou paffòs eftá na fronta- 
ria defta Villa Calayate por onde fe ferve 
do mar a maior parte da região , a que 
os Arábios chamam Aman , que fegundo 
elles dizem houve efte nome de hum neto 
de Loth aííi chamado primeiro povoador dei- 
la , que defcende deite nome Name, que 
quer dizer entre elles abaftança , e fartura. 
A qual abaftança a mefma terra tem em 11 , 
principalmente em huma Comarca , que fe- 
ra em torno de quarenta léguas, por razão 
da qual fertilidade he a mais povoada ter- 
ra de Arábia , porque nella ha eftas Cida- 
des , Maná , Nazuá , Baylá , todas cercadas 
de muro de taipa mui forte ; e os termos 
delias tão povoadas, que em humas fe ou- 
vem as outras j e ha lugar deftes tão gran- 
de , que contém, dez mil vizinhos, affi co- 
mo Zaqui , e outros. Eftas três Cidades no- 
táveis , (fegundo dizem os Mouros ? ) cada 
huma teve já Rey per fi , e por caufa das 



2$$ ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

tyrannias delles os povos fe levantaram , e 
ora fe governam per os mais velhos em mo- 
do de republica ; porém entre elías ha fcm- 
pre divisão fobre quem fera a metropoli de 
toda a Comarca , principalmente Baylá com 
as outras que as quer fenhorear, por nella 
eílar hum dos principaes religiofos da fia 
feéta , a que elies chamam Ymamo , a cu- 
jo juizo , e jurifdicção concorrem todalas 
demandas , e contendas que ha em toda 
aquella região Aman , ao qual clles pagão 
o dizimo de quanto lhes Deos dá , té das 
jóias que o marido cada anno da a lua mu- 
lher 3 e as públicas do que ganham per feus 
corpos ; c parece que aqui ajuntou Maha- 
med toda a fua efcola pola grande cópia 
que ha de Letrados no teu Alcorão. E o 
que faz a eftas Cidades ás vezes conforma- 
rem-fe em paz 5 he ferem commettidos per 
humas cabildas de Alarves da linhagem a 
que elles chamam Bengebra , que he das 
mais poderoías de toda a terra de Arábia, 
porque conquifta perto de trezentas léguas 
em redondo. Os quaes Alarves no tempo da 
novidade das tâmaras , e dos outros manti- 
mentos da terra, os vem inquietar ; e por 
não receberem tal opprefsão , efte feu Yma- 
mo dos dízimos que ha , por concerto , pa- 
ga a efte Bengebra hum tanto por anno- E 
por razão da vizinhança que Calayate tem 

com 



Década II. Liv. III. Cap. II. 239 

com efta Comarca , que diftará delia obra 
de feflenta léguas dentro pelo fertão , ante 
da nofla entrada na índia , era hum dos 
mais nobres , e ricos lugares per commer- 
cio de toda aquella cofta , e o mais princi- 
pal do Reyno de Ormuz , como ainda ago- 
ra he. Porque aqui concorriam todolos ca- 
valios , não fomente da fralda da ferra que 
diflemos , mas ainda da Cidade Láhaçah , 
que vai vizinhar com Catife , porto do mar 
Perfio defronte da Ilha Baharem , que são 
os melhores de toda Arábia. Os quaes con- 
corriam a efta Comarca Aman por fer a eí- 
la vizinha , e onde fe ajuntam como em 
feira todalas mercadorias , afli as da fahida , 
como da entrada em Arábia ; e a maior par- 
te delias vinham ter a efte Calayate , onde 
era a carregação pêra a índia. E poílo que 
Aífonfo d'Alboquerque naquelle tempo não 
foube tão particularmente da grofíura do 
trato defte lugar Calayate, como ora fabe- 
mos por eftar de baixo da noífa obediência , 
todavia per Mouros tinha fabido fer lugar 
bem povoado de muita gente nobre, e que 
havia de fer coufa trabalhofa commetteilo 
por a pouca gente que levava, o que tam- 
bém poz dúvida aos Capitães. Com tudo 
por não moftrar fraqueza aos Mouros , áf- 
fentou com os Capitães de commetter o lu- 
gar por as razoes que diflemos ? e ifto per 

mo- 



240 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

modo de ardil, e depois o negocio moftra- 
ria caminho pêra o. mais; e o ardil foi ef» 
te. Em as náos defcubrindo o cabo Ro- 
falgate , mandou que foffem hum pouco 
manquejando com huma vela tomada , como 
que efperavam humas pelas outras , e que 
detrás vinha ainda mais frota com que fe 
queriam ajuntar ; e D. António de Noro- 
nha fed fobrinho , que hia diante na fufta 
de Nuno Vaz , como quem queria tomar 
falia , tanto que folTe junto da Villa , de- 
mandaífe o porto , vindo as náos hum pou- 
co afaftadas delle , e aííi fe fez. Os Mou- 
ros tanto que viram que afuíla encaminha- 
va ao porto , como que queria dar algum 
recado , por não ter azo de vir á ribeira , 
mandaram hum Mouro honrado em hum 
barco a cila , o qual chegando a D. Antó- 
nio ? perguntou que frota era aquella ; e foi- 
lhe refpondido ter d'ElRey de Portugal , 
que vinha em bufca de outra Armada lua , 
que andava per aquella coita , de que era 
Capitão Affonfo d'Alboquerque , do qual 
acharam nova em Çocotorá que eílava fa- 
zendo huma fortaleza em Ormuz. E por 
quanto o Capitão daquella frota não levava 
Piloto , que íbubeffe da navegação daquelle 
eílreito , o mandava em terra a faber do Se- 
nhor , ou Governador delia fe lhe dariam 
alli algum Piloto por feus dinheiros > que os 

qui- 



Década II. Liv. III. Cap. II. 141 

quizeífe metter cm Ormuz onde eftava ò 
Capitão que bufcavam. O Mouro , pofto que 
quando chegou á fufta , vinha com pre- 
fumpçao que aquelle era AíFonfo d'Albo- 
querque , porque odiad'antes fora vifto do 
Cabo Rofalgare , com que a Villa começou 
de fe defpejar de alguma gente miúda : com 
eftas perguntas ficou embaraçado , ainda que 
contente, e pelo recado que trazia dos da 
Villa i diíTe que o levava á náo ao Capitão 
mor , e que lá daria razão do que lhe per- 
guntavam , porque também levava alli hum 
preíente , que lhe o Governador da Cidade 
mandava , por íuípeitar na feição das náos ; 
que devia ler Capitão d'ElRey de Portugal. 
Eíle preíente tão preftes que o Mouro offe- 
receo , tudo era artificio pêra com elle en- 
trar em a náo , .e ver a fomma da gente, 
e como vinham providos , porque per dito 
dos Mouros de Ormuz tinham fabido que 
Aftonfo d'Alboquerque em as náos , com 
que chegou ao feu porto , levava pouco 
mais de quinhentos homens ; quanto menos 
feriam em duas náos , e dous navios que 
então levava , fe aquelle foífe ? Levado eíle 
Mouro á náo , entrando dentro ? vio toda a 
gente pofta em armas , e hum homem af- 
fentado em huma cadeira de efpaldas pofta 
fobre huma alcatifa com grande apparato , 
«rodeado de gente luzida ; como queaquel- 
r&om.ILP.L CL le 



242 ÁSIA de J0X0 de Barros 

Je era o Capitão mor da frota , de que fi- 
cou mui efpantado , quando vio eíte Capi- 
tão que era homem mancebo, eelle levava 
os olhos cheios da prefença de Affoníb d 5 Al- 
boquerque , que vira quando per alli paf- 
fou ; que além da lua idade lhe dar gravi- 
dade com a alvura de fuás cans , coftumava 
elle trazella mui comprida , e parecia-lhe ao 
Mouro que todolos Capitães haviam de fer 
daquella prefença. Francifco de Távora , 
que era o aíTentado naquella cadeira repre- 
fentador daquelle artificio de AíFonfo d'Al- 
boquerque , tanto que o Mouro foi tra- 
zido ante -elle , começou de lhe perguntar 
como fe chamava aquella Villa , e cuja era , 
e fe tinha nova de hum Capitão d'ElRey 
de Portugal , que andava per aquella coita , 
e outras coufas , em que o foi entretendo , 
té que Affonfo d'Alboquerque fahio de den- 
tro da camará da náo > vertido hum pelote 
curto de feda de cor , e humas calças de 
efcarlata com çapatos redondos baixos , met- 
tidos os pés em huns pantufos de veludo , 
e fobre fi huma capa lombarda de fetim ala- 
ranjado forrada de outro pardo, ena cabe- 
ça huma coifa de ouro , e em ííma huma; 
gorra de veludo preto com huma eftampa, 
ehum eftoque guarnecido de ouro cingido., 
O Mouro quando fendo o aíFaftar da gen- 
te P e vio que era a peíFoa de AíFonfo d'AlJ/ 

ha- 



Década II. Liv. III. Cap. II. 243 

boquerque , e conheceo fer aquelle o ver- 
dadeiro Capitão , e que o outro era eftatua , 
que lhe moítráram 5 remetteo a elle lançan- 
do-fe aos feas pés. AíFoníb d'Alboquerque , 
peró que negava fer aquelle , tornou beni- 
gnamente com palavras a lhe perguntar po- 
la Villa , e eftado delia ; e apartando-fe com 
elle 5 miudamente foube o que queria pêra 
fe ordenar na fahida , e fobre iílb confolou 
o Mouro 5 dizendo , que elle , e fua cafa 
não haviam de receber damno , e que pêra 
iffo puzefle huma bandeira branca á fua por- 
ta 5 e porém que elle havia de ir na legun- 
da batelada da gente , e aífi fe fez. E co- 
mo o ardil todo eílava em a primeira vifta 
' que déífem fer com a eípada na mão fem 
mais prática , por já ter íabido pelo Mouro 
quão apercebida a Villa eílava , ainda as 
náos não eram de todo ancoradas , quando 
a gente de armas era mettida nos bateis, e 
foi a coufa tão defpachadamente feita, que 
poendo os pés em terra foram fenhores da 
Villa. Porque com aquelle fobrefalto fica- 
ram os Mouros tão travados , que o pri- 
meiro confelho que tiveram , ante quefentil- 
fem o ferro em fuás carnes , foi defpejalla , 
e alguns que lá per dentro das ruas quizef- 
fem fazer rofto aos noíTos , á eufta de feu 
damno levaram o caminho dos outros a e 
parte delles ficaram eftirados iiq lugar que 

QJi qui- 



-244 ÁSIA de João de Barros 
quizeram defender. Finalmente fem muito 
trabalho os noílbs ficaram fenhores da Vil- 
]a , onde acharam muitos mantimentos , que 
pêra a fome que todos levaram foi o me- 
lhor defpojo que podiam haver , e mais de- 
fejado delles : cá o outro de alfaias , e mer- 
cadoria de preço , os Mouros em os dous 
dias que houveram vifta das náos , as tinham 
poílo em íalvo. Affonfo d 5 Alboquerque por 
dar efpaço a fe recolherem os mantimentos , 
leixou-fe eílar na Villa três dias j e como 
vinha a noite , porque os Mouros da ban- 
da da terra firme per onde o muro era que- 
brado vinham dar rebate em os noíTòs , ti- 
nha repartido a vigia daquella parte em or- 
dem , que a fua vinda fazia pouco damno , 
e com tudo huma ante manhã mettêram os 
noíTos em mui grande trabalho , porque obra 
de mil delles de noite fe mettêram dentro 
na Cidade per aquellas quebradas do muro , 
e vieram-fe lançar em a cilada dentro eml 
humas cafas. E ante manhã, que viram aj 
noífa gente defeuidada da vigia da noite J 
deram fobre ella na parte da capitania dei 
Martim Coelho, e de Diogo de Mello 
aífi os mettêram em revolta , que começa- 
ram a receber muito damno ; porque AfFon- 
fo d'Alboquerque como fe agazalhava de 
noite em huma mefquita , e vindo a luz da 
manha , acudia logo a baixo á ribeira , 

ef- 



Década II. Liv. III. Cap. II. 245* 

cfte rebate era no cabo da Cidade mui lon- 
ge delle , traziam os Mouros mui apreífa- 
dos a eítes dous Capitães ; porque como a 
gente eftava quebrantada da vigia 5 em quan- 
to a fúria os não accendeo , andavam frios 
na defensão , té que com a vinda de Dom 
António de Noronha , D. Jeronymo de Li- 
ma , Manuel de la Cerda , Jorge da Silvei- 
ra , e de outros Fidalgos , e Cavalleiros , 
que fe acharam mais perto deitas duas eílar,- 
cias , os Mouros receberam tanto dam no , 
que começaram de fe ir retraendo pelos li- 
gares per onde vieram ; no fim do qual fei- 
to acudio Affoníò d'Alboquerque , que acs- 
bou de rematar a viâoria. A qual foi tão 
honrada com morte de muitos Mouros , que 
cila pode ficar em lugar da fúria , que hou- 
vera de haver na entrada da Villa 5 fe elles 
pelejaram tão valentemente pola defender, 
como fizeram no commetter eíle ardil. E 
porque muitos dos noííos fizeram alli hon- 
radamente de fua peífoa , deteve-fe Aífonfo 
d'Aiboquerque em os armar Cavalleiros 
aquella manha ; e quando veio a outro dia , 
eftava já a Villa tão efeorchada dos manti- 
mentos , que não houve mais que fazer neU 
la , que poer-lhe o fogo i principalmente a 
mefquita , onde Affonfo dVilboquerque fe 
agazalhou o tempo que alli efteve. Andan- 
do o fogo na qual per huma parte > e cer- 
tos 



246 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

tos bombardeiros decepando huns eíleios 
de madeira per outra , parece que o fogo 
lavrou mais preftes na fua parte , que o ma- 
chado dos bombardeiros , com que o edifí- 
cio carregou todo fobre o que elles tinharrt 
decepado , e fe veio abaixo 5 ficando três 
delles mettidos em parte que não receberam 
nenhum damno. Acabado eíle feito ? que 
foi a vinte e cinco d'Agofto $ partio-fe Af- 
fonfo d'Alboquerque com propoíito de ir 
fazer aguada a hum lugar pequeno dalli 
perto chamado Teuhij , por ter melhores 
aguas que Calayate : pêro quando chegou 
a elle pêra tomar efta agua , eram já alli 
vindos tantos Mouros de Calayate a lha de- 
fender , que cuftou fangue de alguns dos 
noffos , e com tudo com maior damno de 
Mouros a aguada foi feita. Partido daqui 
Affonfo d ? Alboquerque , fem fazer demora 
em outra parte , chegou a Ormuz a treze 
de Setembro , mandando logo recado a EI- 
Rey , e a Coge Atar , que elle era tornado 
áquella Cidade a duas coufas : a primeira 
faber fe eftavam pelo contrato que tinham 
feito ; e a fegunda a fazer a cafa da forta- 
leza , que leixára começada. Ao que EIRey 
refpondeo 5 que quanto aos quinze mil xara-| 
fijs , que eíle ficara de pagar a EIRey dei 
Portugal, como tributário que era , que dei 
mui boa vontade os pagaria , e que fem elk\ 

Ca- 



Década II. Liv. III. Cap. II. 247 

Capitão mor vir a iíTo , per qualquer pe- 
queno navio que mandaífe , elle os manda- 
ria ; porém fazer fortaleza , nem cafa , iíto 
não havia de confentir. Porque fe com as 
primeiras pedras que nella puzeram houve 
logo entre elles diícordia , que cuftou vida 
de tanta gente por caufa de três , ou quatro 
homens vis , que fugiram delles , que feria 
eílando alli cafa com Portuguezes ? que com 
o primeiro nojo que houveííem do Capi- 
tão , ou traveflura que fizeflem a feu com- 
panheiro 5 haviam de querer fugir pêra os 
Mouros , donde podia fucceder outro tal 
trabalho. Aífonfo d 5 Alboquerque, peróque 
refpondeo a efte recado d ? ElRey como con- 
vinha , infíftíram ambos tanto nefle ponto 
da fortaleza , que tornaram a fc defavír , e 
ficar no eílado da guerra em que antes e£- 
tavam 3 com que Áffonfo d 5 Alboquerque 
mandou logo a Martim Coelho , que com 
o feu navio fe puzeíle na ponta da Ilha cha- 
mada Turumbaca , onde eílavam os poços ? 
e a Diogo de Mello na outra ponta , que 
efta contfa a Ilha Queixome , e elle com 
Francifco de Távora ficou diante da Cida- 
de hum pouco largo delia. Porque como 
CogeAtar eíperava efta tornada deAíFonlb 
(fAlboquerque , em quanto elle invernou em 
Çocotorá , mandou acabar a torre que ti- 
nha começada 5 e polia em dous fobrados , 

e to- 



^48 ÁSIA de João de Barros [ 

e todalas ruas que vinham abocar na ribeí* 
ra rapar de maneira , que per eíta parte 
ficou a Cidade quaíi cercada de muro ; e 
aJém defta fortaleza fez também per toda 
aquella frontaria huma tranqueira de madei- 
ra entulhada per dentro , e nos lugares de 
íufpeita muitas peças de artílheria , algumas 
das quaes fundiram os arrenegados , lobre 
que foi o rompimento. Affonfo d'Alboquer- 
que vifta a fortaleza da Cidade , bem lhe 
pareceo que não podia fazer mais damno , 
que tolher não lhe virem mantimentos , e 
(como dillemos) ordenou os Capitães dos 
navios a eíle fim , e aíTi outros quatro em 
bateis 5 que eram: D. Jeronymo de Lima, 
Manuel de la Cerda , Jorge da Silveira , e 
António de Sá , no qual modo de guerra 
eiles tinham mais trabalho do que o davam 
á Cidade , por elía eflar mui provida de to- 
dalas coufas , como quem fabia queefieera 
o maior damno que lhe podiam fazer. E 
além deite provimento , per todalas Ilhas , 
e lugares de ambas aquellas coitas de feu 
eftado , tinha Coge Atar ordenado hunsbar- 
cos pequenos chamados ferradas repartidas 
em tal ordem , que de cada lugar feu dia 
trouxe flem agua , e mantimentos pêra a Ci- 
dade. Os quaes eram barcos fubtis que com 
vela 3 e remo fe ajudavam quando era ne- 
ceíTario \ e poílo que os Capitães ás vezes 

os 



Década II. Liv. III. Cap. II. 249 

os viam tomar a Ilha , ora per huma parte , 
ora per outra , não lhe podiam fazer ^da- 
mno : cá lhe furtavam tantas voltas , que an- 
davam os marinheiros caníados de marear 
as velas , e remar os bateis. No qual tempo 
o mais damno que lhe fizeram foi tomar 
Jorge da Silveira huma terrada carregada 
com fruta ? e efteve alli a falia com hum 
dos arrenegados , que foram caufa de toda 
a defavença , e todas fuás palavras eram 
conformes á confciencia que elle então ti- 
nha. E Nuno Vaz de Cafíelío -branco, ef- 
tando em guarda dos poços , tomou tam- 
bém outras duas temidas com mantimento 
de tâmaras , e alguma gente que fe não po- 
de acolher , entre a qual tomou hum man- 
cebo dos nobres da terra , homem mui ac- 
ceito a EIRey. Havendo já hum mez que 
per éfte modo de cerco andavam os noííbs 
volta ao mar , e á terra da Ilha , determi- 
nou Affonfo cPAlboquerque ir á terra firme 
de Mogoftao a hum lugar chamado Na- 
bande , onde as terradas de Ormuz hiám fa- 
zer fua aguada, o qual clle tinha mandado 
efpiar perfeu fobrinho D, António , por lhe 
dizerem que eftava alli hum Capitão d'El- 
Rey de Ormuz com gente de guarnição. 
Partido a eíle negocio de noite , dk no bar- 
gantim , D. António de Noronha no batel 
da capitânia $ e os Capitães em os feus , em 

que . 



i$ó ÁSIA de JoÃo de Barros 

que levou cento e quarenta homens , che- 
gou lá ante manha ; e como os Mouros vi- 
giavam fua ida , vieram reccbellos junto de 
huma mefquita , onde tinham feito huns vai- 
los tão retorcidos , e cruzados huns per ou- 
tros , que parecia hum labyrintho de emba- 
raçar os noííbs , e fazerem íeus arremeços 
de cima dos vallos , como fizeram. Porque 
entrando Affonio d" Alboquerque per efte ca- 
minho hum pouco temporao lem efperar pe- 
los outros Capitães , íahíram a clle os Mou- 
ros detrás dos vallos , como quem jazia em 
cilada , e começaram de cima a frechar , e 
pregar zargunchos cm os nolTos que hiam 
em fio , com que logo na entrada ficaram 
dez , ou doze encravados , que os deteve 
hum pouco. E efte damno que receberam , 
logo na entrada lhe foi proveitofo , porque 
caufeu efperar pelos outros Capitães ; e fe 
fora mais adiante per aquelle labyrintho , 
perdêram-fe todos. Porém poftos em hum 
corpo com a luz da manha , que começava 
a dar claridade , viram que tal era o ca- 
minho com que chegaram a humas caias 
pegadas na mefquita , levando já os Mou- 
ros diante a pezar de íeu damno , té hum 
peitoril que fe fazia á maneira de terreiro 
íòberbo fobre a praia, onde acudiram tan- 
tos delles cruzados per entre aquellas cafis , 
emefquitas, que embaraçou os noíTos com 

mui- 






Década II. Liv. III. Cap. II. i$t 

tnuita frechada , pedrada , e zargunchos , de 
que fe não podiam valer. Onde foi a peleja 
tão travada, que fe chegou hum Mouro a 
AíFonfo d^Alboquerque , e deo-lhe per cima 
do capacete hum golpe tão pezado j que fi- 
cou ageolhado em terra meio atordoado, e 
a Nuno Vaz que andava junto deJle , que- 
braram dous dentes > e fegundo a gente dos 
Mouros era muita , e elles fabiam os paíTos 
da terra , e a luz do dia não era mui clara 
pêra que os nofíòs o viflem , e deícubriffem 
de todo , eíla ida houvera de cuftar a vida 
de muitos. Porque AíFonfo d'AIboquerque 
veio áquelle lugar com ter avifo per feu íb- 
brinho D. António do número da gente que 
alli eftava , e não fabia que aquelía tarde do 
dia paílado era chegado hum Capitão d 5 El- 
Rey de Lara com trezentos frecheiros, que 
caufou ferem os noííos mettidos em tanto 
perigo. Mas como os da morte eníinam a 
defender a vida , Affonfo d'Alboquerque no 
em que eftava quando ageolhou , foi foc- 
corrido com ajuda de outra gente noíTa , 
que ainda não era vinda dos bateis , e aífi 
animofameníe fe mettêram cem os Mouros , 
que os fizeram traímontar , acollicndo-fe per 
entre as cafas do lugar , e per os vallos que 
tinham feito no lugar dos poços. Finalmen- 
te huns em huma parte, e outros per outra, 
pereceram debaixo do noíTo ferro £ e nefta 

pe- 



^2 ÁSIA de João de Barros 

peleja hum Lopo Alvares matou hum dos 
Capitães da gente d'EiRey de Lara , que 
alli era vindo , e outro morrco na mefqui- 
ía onde alguns fe acolheram , a qual per 
íirn da viótoria com o lugar foi mettida no 
poder do fogo. Porém primeiro que o lu- 
gar ardeífe , foi recolhido todo o manti- 
mento de huma cáfila , que o dia d'antes 
chegara alli para provisão de Ormuz , e 
deite lugar trouxe Aíronfo d'Alboquerque 
hum marido , e mulher, peífoas de muita 
idade , que quaíl fe offerecéram a elle vindo 
já de caminho, pelos quaes foube parte da 
gente cFEIRcy de Lara , e da cáfila , e per 
elles chegando a Ormuz mandou nova a 
EIRey do que leixava feito em Nabande. 
E de quanto prazer elle Arfonfo d'Alboquer- 
que houve com efta vidtoria , tanto íenti- 
mento teve com a morte de Diogo de Mel- 
lo Capitão do navio S.Joao, que os Mou- 
ros mataram com oito homens dahi a pou- 
cos dias em a Ilha de Lara, indo. a cila com 
hum batel pêra fazer hum falto; e a fufpei- 
ta de fua morte foi , que feria per alguns 
Mouros de quarenta terradas , que per alli 
andavam ás voltas , em favor de outras que 
traziam mantimentos a Ormuz , porque acha- 
ram os corpos dos oito homens mortos na 
praia de Lara , e não o de Diogo de Mel- 
lo. E havendo oito dias que iito paíTára , 

por- 






Década II. Liv. III. Cap. II. 15-3 

porque Affonfo d'Alboquerque foube que 
em Queixome era chegada huma frota de 
navios ? e terradas , foi em bufca delias , e 
como eram navios de vela , e remo , e em 
tudo precediam os noííòs \ não lhes podiam 
fazer damno , andando huns em caça de ou- 
tros , té que hum tempo fobreveio que apar- 
tou a todos , com que AíFonfo d'Alboquer- 
que arribou ao Cabo Moçandam - 9 e Fran- 
cifco de Távora ficou abrigado á Ilha de 
Ormuz. Abonançando o tempo , e parecen- 
do-Ihe que AíFonfo d 5 Alboquerque fahíra pe- 
la boca do eftreito , foi em bufca deile ao 
longo da cofia da Arábia ; porém tanto que 
«achou nova não fer paliado , andou- fe alli. 
•detendo té que lhe veio cahir na mão huma 
náo grolTa de Meca , que tomou de preza 
polo trabalho que alli levou , e com ella fe 
foi caminho da índia. AíFonfo d 5 Alboquer- 
que como fe vio fó , fez outro tanto , afli 
em fe partir 5 como em outra preza , a qual 
ainda que cm cafco era pequena , em preço 
foi maior ; porque abocando o eftreito pêra 
fora ao longo da terra da Períia , tomou 
hum navio pequeno , que vinha da Ilha Ba- 
ilarem , que não trazia outra mercadoria , 
fenao pérolas, e aljofre. E porque fez me- 
nos detença em andar pela cofia 5 como 
-Francifco de Távora andou \ foi primeiro 
á índia, eftando o Vifo-Rey D. Francifco 

. em 



25*4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

em Cananor, onde lhe fez os requerimen- 
tos da entrega da governança da índia , que 
nefte Capitulo precedente diffemos , e Fran- 
cifco de Távora foi depois dar com o Vifo- 
Rey á fahida de Cananor indo já via de 
Dio y como fe verá ncíte feguinte Capitulo. 

CAPITULO III. 

Como o Vifo-Rey D. Francifco d? Almeida, 
fartio de Cananor com toda fua Arma- 
da caminho de Dio contra os Ru- 
mes : e o que fez té chegar 
a DabuL 

O Vifo-Rey D. Francifco d' Almeida , de- 
pois que expedio Affonfo d'Alboquer- 
que pêra Cochij , e Fernão Soares , e Ruy 
cTAcunha com a carga da efpeciaria pêra 
eíte Reyno, onde elles não chegaram por 
fe perderem na viagem , defpachou tam- 
bém a Pêro Fernandes Tinoco pêra EIRey 
de Naríinga Gentio , em cuja companhia hia 
hum Religiofo per nome Fr. Luiz que já 
lá andara > e era aquelle que viera ter a Ca- 
nanor quando os Embaixadores deite Prín- 
cipe vieram a elle Vifo-Rey. Ao qual Pê- 
ro Fernandes elle mandava íòbre alguns re- 
querimentos de confederação de irmandade 
em armas , que eíte Pvey de Narfinga defe- 
java ter com EIRey D. Manuel pêra def- 

trui- 



Década II. Liv. III. Cap. III. %q 

truiçao dos Mouros 5 com quem ambos ti- 
nham guerra , e aífi Íobre lhe ofFerecer a 
Cidade Baticalá , e outros portos de mar 
vizinhos a ella que eram feus. E porque 
neíta ida Pêro Fernandes não fez couia de 
mais fubílancia que aíleníar chãmente pa- 
zes , e amizade com efte Rey , e adiante ha- 
vemos de tratar mais delle , pêra effe lugar 
leixamos a relação da grandeza de íèuRey- 
no , potencia , e riqueza de feu eííado. Aca- 
badas eftas coufas, e affi o provimento da 
guarda da coita , e fortaleza de Cananor, 
partio oViíb-Rey caminho deDio em buf- 
ca de Mir Hócem a doze de Dezembro do 
anno de quinhentos e oito. E pofio que á 
íahida delle nao foi com tantas velas , de- 
pois que com elíe fe ajuntou Pêro Barreto 
de Magalhães com Armada que trazia na 
cofta Malabar, eFrancifco de Távora, que 
o tomou no caminho vindo de Ormuz , fez 
elle Viio-Rey hum corpo de dezenove ve- 
las , de que féis eram náos groflas , e féis 
navios redondos , e linco caravelas latinas «, 
e duas galés , e hum bargantim. Da qual 
frota eram Capitães aílí na ordem das ve- 
las , Jorge de Mello Pereira 5 Pêro Barreto 
de Magalhães 5 Francifco de Távora , Gar- 
cia de Soufa , João da Nova 5 em cuja náo 
hia o Vifo-Rey , Manuel Telles Barreto , 
AíFonfo Lopes d' Acoita 7 António do Cam* 

P°; 



1^6 ÁSIA de João de Barros 

po , D. António de Noronha , Marrim Coe- 
lho , Pêro Cam , Filippe Rodrigues , Ruy 
Soares o Commendador de Rodes , Álva- 
ro Paçanha , Luiz Preto > Payo de Souia , 
Diogo Pires , e Simão Martiz. Ein a qual 
frota levava té mil e duzentos homens en- 
tre gente de armas , e do mar , e obra de 
quatrocentos Malabares 5 e efcravos deíla 
gente , que no tempo de aferrar miniftravam 
a feus fenhores com ajuda de alguma cou- 
fa , como fe coftuma naquellas partes. O 
Çamorij de Calecut em todo o tempo que 
o Vifo-Rey proveo no apparato deíla fro- 
ta , íempre em Cochij , e Cananor trouxe 
homens que o avifavam diflò ; e fegundo 
o que lábia > afli enviava per navios ligei- 
ros de remo recados a Mir Hócem , como 
a homem que era vindo a inítancia fua áquel- 
las partes pêra nos lançar da índia , e que 
tinha dado muita elperança de íi no feito 
de Chaul. Em ajuda do qual tinha manda- 
do aperceber navios de remo com gente fré- 
cheira 5 e alguma artilheria miúda , os quaes 
citavam mettidos per eíTes rios do feu Rey- 
no , efperando que paflaíTe o Vifo-Rey com 
fua • frota pêra os enviar nas cortas delle ; 
porque ante de fua paffagem > pofto que o 
quizera fazer 5 Pêro Barreto , que andava 
d 5 Armada naquella coita, lho impedia. Por- 
que também o Vifo-Rey era avifado deíla 

Ar- 



Década IL Liv. III. Cap. III. 257 

Armada do Çamorij ? c a fim de lha impe* 
dir que não láhiíTe com as mais caufas que 
atrás apontámos , tinha mandado a Pêro Bar- 
reto que andaíTe naquella paragem ; e ain- 
da tanto que oViíb-Rey palTou via de Dia 
por caufa defte impedimento , leixou alli 
três , ou quatro navios , Capitães Gonçalo 
de Caílro 3 Diogo Lobo , e outros , íem em- 
bargo dos quaes a Armada do Çamorij não 
leixou de ir dar fua ajuda , como veremos. 
Finalmente cada hum em feu modo tinha 
intelligencia , e vigia fobre feu imigo , das 
quaes coufas procedeo ferem Mir Hócem , 
e Melique Az avifados do número das náos , 
e gente que o Vifo-Rey levava j e eram 
I entre o Çamorij , e eftes dous Capitães os 
recados tão a miude per catures , e bargan- 
tins , que não dava elle Vifo-Rey paílò que 
elles não foubeííem , principalmente depois 
que partio de Cananor. E ainda era Meli- 
que Az tão cautelofo 3 e fagaz , que não 
fe contentando deites recados per novas de 
ouvida de terceiras peííoas , com íimulação 
de mandar viíitar o Vifo-Rey , e de lhe en- 
viar cartas dos cativos que lá eftavam , en- 
viou a elle hum Mouro honrado , e pru- 
dente , que íòubeífe notar as coufas do ap- 
parato que levava , o qual chegou a Anche- 
diva em hum zambuco a tempo que o Vi- 
fo-Rey eííava alli fazendo fua aguada. A 
Tom.ILP.L R fob- 



2^8 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

fubftancia do qual recado, e cartas era vi- 
íitação , e offertas pcra a liberdade dos ca- 
tivos ; e que por faber delles que defejavam 
efcrever a fua Senhoria , mandara aquelle 
zambuco , em que lhe podia vir a reípoíla 
que elles efperavam. E na carta dos cativos 
íe continha quão bom tratamento recebiam 
delle Melique Az , que lhe pediam aífentaf- 
fe o modo de fua íoltura ; cá elle moftra- 
va em palavra , e obras que levemente , e 
apouco cufto o faria , e que cm favor del- 
les acharam lá hum Mouro torto de hum 
olho per nome Cide Alie , natural de Baça 
no Reyno de Granada , donde tinha por ap- 
pellidoBacij , o qual dizia conhecer lua Se- 
nhoria do tempo que EIRey D. Fernando 
de Caftella fazia guerra aquelle Reyno de 
Granada. O qual Cide Alie , entre as práticas 
que tinha com os Mouros de Cambaya , 
louvava muito os Portuguezes ; porque no 
tempo em que elle vira fua Senhoria naquel- 
la guerra , andavam lá alguns , que eram 
mui eílimados por fua peííba ; e que com 
a gente Portuguez mais fe devia trabalhar 
de os ter contentes , que ofFendidos ; e aíli 
contava a guerra que tinham com os Mou-j 
ros de Africa , e os lugares que lhes tinha 
tomados. As quaes cartas parece ferem or- 
denadas per Deos virem naquelle tempo .1 
porque animaram tanto a gente, que defe-j 

í** 



Década II. Liv. III. Cap. III. 2^9 

javam todos de fe ver já com os Mouros 
pêra fazerem naquelle feito verdadeiro Ci- 
de Alie , o qual depois foi grande familiar 
noílb , íempre com cautelas de rnalicioíò que 
elle era. E a refpoila que efte meífageiro , 
ou mais verdadeiramente efpia de Melique 
Az houve , foi efcrever-lhe o Vifo-Rey agra- 
decimentos de ília viíítaçao, e de bom tra- 
tamento , que lhe os Portuguezes efcreviam 
receberem delle ; e porque elle efíava em 
caminho pêra de mais perto lhe dar as gra- 
ças de tudo , podia dar nova aos feus hos- 
pedes os Rumes deita fua ida , pêra fe aper- 
ceberem entre tanto pêra eftas viftas que to- 
dos haviam de ter , e então na envolta dos 
mortos podia entrar o concerto dos cativos , 
porque feria mais breve , e de mais certa 
conclusão 5 do que podiam ter per recados 
de longe. O Vifo-Rey , expedido o Mou- 
ro de Melique Az com efte recado , e mer- 
cê que lhe fez , vendo o contentamento que 
Itoda a gente tinha pela nova que os cati- 
vos efcreviam da opinião, em que os Por- 
jtuguezes eram tidos acerca dos Mouros , e 
I também por entender que todas aqueílas of- 
fertas de Melique Az eram finacs de temor 
ida hora , em que lhe havia de íer pedido 
conta daqueila hofpedaria de Mir Hócem, 
;apercebeo todolos Capitães , e gente nobre 
da frota, e foi-fe com elles ao tanque que 

R ii ti- 



i 



i6o ÁSIA de João de Barros 

tinha a Ilha de Anchediva , por fer lugar 
graciofo 5 e efpaçoíò pcra geralmente dar 
conta a todos da caula daquella ida liia, 
e propôr-lhes algumas coufas que convinham 
a ieu propoíito. Chegados ao qual lugar, 
e poftos em ordem que o podiam bem ou- 
vir , começou de lhe fazer eftc arrazoamen- 
to : Depois que approuve a N. Senhor levar 
cie fia vida a Z). Lourenço meu filho , duas 
coufas me perfeguem , que por parte da hu- 
manidade são commuas aos homens , que 
querem fazer razão , ejuftiça de fi : huma 
requer e a lei natural do amor paterno , que 
devo a meu filho , que he defejar de me 
ver com elle lá onde eftd ; e a outra pede 
o efpirito da honra , que per modo de juf 
ti ca defeja de fe refiituir na pojfe em que 
eftava. Ver meu filho , em caminho eftou \ 
que fe approuve a N. Senhor que o eu fi- 
ga no género de fua morte , grande gloria 
fera pêra mim morrermos ambos por nojfa 
lei , por nojfo Rey 5 e por nojfa grei , que 
são as mais jufias , e gloriofas coufas de 
morrer que alguém pôde defejar. Forque a 
lei da gloria de martyrio \ o Rey premio de 
honra , e galardão em fazenda dquelles , que 
nos fuc cedem na herança ; e a grei , que he 
a congregação dos noffos parentes , arniA 
gos , e compatriotas , a que chamamos re-w 
publica ; celebra no/fo nome de geração 



Década II. Liv. III. Cap. III. 261 

geração té fim do Mundo , onde a memoria 
de todalas coufas acaba. Refiituir-me eu 
em honra , de fia por minha própria , e parti- 
cular parte não tenho alguma perdida ; mas 
da muita que vos-outros , fenhores 5 paren- 
tes j e amigos nefias partes tendes ganhado 
com a efpada , ^w/z ^ /##f ^ , £ f0M ##/- 
m0 ? que he mais poderofo que todolos fer- 
ros , a mim por andar em vojfa companhia 
me cabe tanta , que a não mereço eu ante. 
Deos , pofio que per amor , farentefco , e 
obrigação do cargo que tenho a mereça a 
cada hum de vós. Porém , quanto d parte 
de tão devida , e alta honra , como Je de- 
ve as infignias que todos feguimos , e de- 
baixo do fiavor das quaes pelejamos , que 
são as bandeiras da milícia de Chrifio Nofi- 
fo Redemptor , e Reaes armas da Coroa de 
I Portugal 5 e/la me perfegue , #/?# ??/£ ^/w- 
i menta , <? 7//^ accufa dentro no meu peito 
j rw/ efiimulos dejufia vingança , ?/mfo 6"0?7z 
í quanta negligencia minha fe pajja o tempo 
\]em acudir a efia nova , e foberba gente 
\ dos Rumes , confiados na potencia do feu 
\ Soldao 5 e nas ofertas de quem os chama. 
í Os quaes em naíja face oufdram defpregar , 
, e efienãer fuás lunàs , e nome efcrita do 
feu anti-chrifto Mahamed em fuás handei- 
\ras , em defprezo da nojfa Religião Chrif- 
\ta , e do nome Por tuguez tão celebrado per 

to- 



2Ó2 ASIx\ DE JoÁO DE BARROS 

todo o Mundo 5 a quem Deos deo efile parti- 
cular dom fobre todalas outras nações , dc- 
fenfores da Fé , e leaes ao fervi ç o de feu 
Rey , as quaes partes nós proficfijamos nas 
duas infignias que feguimos. Por retribuição 
da qual obra em todalas idades , em todo- 
los tempos 5 e em todalas partes da Euro- 
pa , África ? e agora nejla de ÂJia , que 
deficubrimos , e conquiflamos , nos tem da- 
do mui illuftres viclorias defta barbara , e 
perfia gente. E pofto que ao prefente elles 
eftem gloriofios na morte de meu filho , e fi- 
ta ?iao fie deve a feu esfiorço 5 mas ao defi- 
afitre que todos fiabeis , ou {por melhor di- 
zer ) a meus peccados , e não ao desfialeci- 
viento do animo daquelks que o acompa- 
nharam naquelle perigo. E fie a culpa do 
meu peccado o matou , e a fina morte foi 
caufia de nós todos ajuntarmos pêra ir apa- 
gar efila fiaific a infiernal , que fie quer ascen- 
der ne.fi a terra per 7tós ganhada , bem aven- 
turada fieja a minha culpa , que mereceo tal 
ajuntamento , tal vontade , tal amor 5 e tal 
fervor de vingança , como vejo em todos , 
pêra ir pugnar pela honra de feu Deos , de 
feu Rey , e de feu nome , e finalmente pê- 
ra ir derramar ofiangue daquelles que der- 
ramaram o vojfio , e dos vofjos per paren- 
tejuco , per natureza 5 e per congregação de 
Fé. ■ E hç verdade > e Decs he tefiemunha 

dei 



Década II. Liv. III. Caí. III. 263 

delia , que fe no inftante em que foube fer 
efta gente entrada , logo não acudi com a 
efpada na mão do zelo que fe deve d hon- 
ra de Deos , eu leixei de o fazer , temen- 
do que fe diffejfe que obrava mais em mim 
a dor de minha própria chaga , que as aber- 
tas , e por curar daquelles qm naquelle con- 
flito , e trabalho por fua cavalleria , e de- 
fensão de fua caufa as receberam : e que 
feni ter confideração dos apercebimentos , e 
tempo que fe requer e pêra eftas coufas , (a 
qual convém aos homens que tem efe meu 
cargo 9 ) fomente com o Ímpeto da primei- 
ra dor da nova que houve da morte de meu 
filho , vos queria ir oferecer ito lugar do 
feu facrifcio. Ajji que fugindo infâmia de 
piedofo pai acerca dos homens , ante Deos 
tenho incorrido em culpa de negligente , pois 
nas coufas de fua honra quiz tomar caute- 
la de efperar faude de gente , cópia de ar- 
mas , de nãos , e munições , fendo o feu fa- 
vor todalas coufas àquelles que por elle mi- 
litam. Fero como nó 's- outros os homens ? 
que fomos fracos , acerca da hGnra teme- 
mos mais a língua do Mundo , que a mão 
de Deos , que he piedofa nos taes ca figos , 
dijfhnulei té ora efta obra que imos fazer , 
em que , louvado elle *, além de o termos , 
temos já nãos , temos armas , grande cópia 
de munições , e fobre tudo te?nos por com- 

pa- 



a^4 ÁSIA de João de Barros 

panhia efta fidalguia , e nobreza de gen- 
te , que ora vem frefea do Reyno \ e o que 
eu mais e/limo he , que cada hum tem afi 
mefnto com vivo defejo pêra totalmente 
apagar efie nome de Rumes da boca dos 
Mouros , e Gentios da índia , com que nos 
querem afronttir. Ajji que nejie cafo por par- 
te de favor de Deos ? e da gloria que a 
cada hum de nós compete no commettimen- 
to defie feito , eu não tenho mais que di- 
zer ; fomente que minha tenção he de ca- 
minho v (fe a todos bem parecer ,) dar hum 
almorço a ejia gente manceba que ora vem 
frefea do Reyno , pêra levarem fuás efpa- 
das cevadas do fungue deftes Mouros de 
Afia , pois em os de Africa que tem por 
vizinha , que he a efeola de fua efgrima , 
e leite de fua creaçao , fempre andam ceva- 
das. E efie almorço queria que fofje em a 
Cidade D ah til , que he do Sabayo Senhor 
de Goa , por elle mandar fobre a fortale- 
za , que tivemos nefia Ilha Anchediva , que 
por feu cafo fe desfez \ e também por elle 
fer hum daquelles , que chamaram os Ru- 
mes , e lhe dam acolheita em feus portos. 
E he verdade que eu nefia fua Cidade de 
Goa , que aqui temos por vizinha , quizera 
fahir y mas duas caufas me moveram a fer 
ante emDabul , que aqui : a primeira , por* 
que pela informação que tenho ^ a Cidade 






Década II. Liv. III. Cap. III. 265* 

eftá mettida muito dentro pelo rio , e elle 
não tem fundo pêra que nojfas nãos poffam 
fubir tanto ajjima : e a fegunda , porque 
Dabul não tem efte fitio tão trabalhofo de 
entrar , e mais hejd tão vizinha donde ef 
tam os Rumes , e de Melique Az feu hof 
pede , e Goa tão longe delles , que a viflo- 
ria que nos Deos déjje na tornada delia , 
não lhe quebraria tanto os corações 5 como 
fera d de Dabul , por fer na face delles. 
Depois que embora tornarmos com vicloria 
deftes eftrangeiros , que ora imos hufcar , 
então com ajuda de N. Senhor tempo nos 
fica pêra haver outras deftes naturaes que 
temos mais vizinhos. Acabando o Vifo-Rey 
de propor eftas couías , aíll como todos ef-. 
tavam em hum quieto fiíencio com a ten- 
ção de o ouvir , aííl foi celebrado o feu ar- 
razoamento em louvor daquelle feito , ac- 
crefcentando ainda muito mais coufas, aííí 
110 commetter os Rumes dentro em Dio ^ 
como em dar primeiro na Cidade Dabul , 
e no alvoroço que o Vifo-Rey vio que to- 
dos geralmente moíiravam , deo o feito por 
acabado. Alguns quizeram dizer depois que 
o Vifo-Rey fez efte arrazoamento áquelles 
Capitães, e notáveis peífoas da frota, que 
quanto ao negocio de Goa , em que elle 
apontou , lua tenção foi commettella per 
confelho de Timoja , com o qual dle fe 

vi- 



2,66 ÁSIA de João de Barros 

vira em Baticalá , paíTando per hi pêra re- 
colher mantimentos , e também a requeri- 
mento do meímo Timoja pêra o favorecer 
com o Senhor da terra por algumas pai- 
xões em que andava ; e que pêra fatisfaçao 
íua mandou dalli de Anchediva a Diogo Pi- 
res na fua galé a fondar a barra de Goa ; 
c pofto que achou poder entrar nella com 
toda a frota , encubrio a verdade, temen- 
do que eíle feito lhe impediíTe o dos Ru- 
mes , que era feu principal intento ; e poios 
aíTombrar , por o negocio fer feito quafi na 
face deiles , quiz dar de paliada em Dabul. 
AíTi que com eíle propoíito , tanto que fez 
fua aguada alli em Anchediva , partio fa- 
zendo leu caminho fempre ao longo da cof- 
ta., té chegar á barra de Dabul, onde fez 
o que neíle feguinte Capitulo veremos. 

CAPITULO IV. 

Em que fe defcreve o fitio da Cidade Da- 
bul : e como o Vifo-Rey deo nella , e to- 
talmente a dejlruio : e do que mais 
pajjou por não ter mantimentos 
pêra fua jornada. 

A Cidade Dabul , ao tempo que o Vi- 
fo-Rey D. Ffancifco d' Almeida che- 
gou a ella , era huma das mais populofas , 
e magnificas povoações marítimas daquellas 

par- 



Década II. Liv. III. Cap. IV. 267 

partes, aííi por razão da groflura do trato 
das mercadorias que aella concorriam, co- 
mo pola fua comarca , e lítio ; porque efta- 
va íituada per hum rio affima mui largo , 
c de boa navegação , obra de duas léguas 
da barra 3 toda de caías nobres , e edifícios 
os melhores da terra 3 na qual habitavam 
Gentios , e Mouros de todas nações , e a 
Comarca era mui vizinha ao Reyno De- 
can , ehuma das principaes efcalas das mer- 
cadorias que tinham fahida , e entrada para, 
elle. A qual Cidade naquelle tempo era do 
Sabayo , o principal Senhor deíle Reyno , 
onde tinha pofto hum Capitão com guarni- 
ção de gente , porque como andava temo- 
rizado de lhe íbbrevir efta neceífidade , além 
da grofíiira do povo , tinha com a nova da 
nofla Armada recolhido íeis mil homens de 
peleja , e ao longo da povoação feito hum 
repairo de mui groíla madeira entulhado per 
dentro da terra , que tirou de huma cava 
que hia da banda de fora , todo o compri- 
mento delle , coufa mais defenfavel contra 
a nofía artilheria , que muro de pedra , e 
caí. E da outra parte do rio , que era con- 
tra o Sul , (porque a Cidade ficava da ban- 
da do Norte , ) eílava hum baluarte em hum 
cotovelo que aterra fazia, do qual per for- 
ça os navios que entraflem haviam de fer 
íalvados com a artilheria que nelles eílava, 

E 



268 ÁSIA de JoÁo de Barros 

E porque as náos , que eftavam no porto 
defronte da Cidade , não pudeflem receber 
damno das noíTas , mandou o Capitão def- 
pejar aquella fronteria pêra a artilheria que 
eftava na tranqueira varejar bem a ribei- 
ra , e ellas que íicaflem da banda de cima ; 
e ainda quando foube que oViíb-Rey que- 
ria entrar no porto , mandou-as pocr enj or- 
dem tão pegadas com a barba em terra , po- 
lo lugar ler alli alcantilado, que de humas 
.fe podia ir ás outras á maneira de baluar- 
te , fazendo fundamento , que quando as 
noíTas paíTaffem a fúria de fua artilheria que 
eftava em fronteria da ribeira , teriam ain- 
da nellas outra força de não menos defen- 
são. Com as quaes forças , e boa ordem , 
em que tinha pofto a defensão da Cidade , 
eftava o Capitão delia tão confiado , que fk- 
bendo como alguns mercadores queriam poer 
fua fazenda em laivo , temendo a nova que 
tinha da no fia Armada , mandou lançar gran- 
des pregoes 7 que fob pena de perdimento 
delia ninguém fe moveífe , nem boliífe com 
os feus bagançaes , que são como logeas , ao 
longo da ribeira onde tinham recolhido 
fuás mercadorias. E ainda pêra maior fcgu- 
rança da gente , tendo fua mulher em Inima 
quinta , a mandou vir pêra a Cidade , e fez 
com alguns homens principaes que fizeiTcm 
outro tanto , dizendo , que as mandavam 

vir 



Década II. Liv. III. Cap. IV. 269 

vir pêra verem a Armada dos Frangues , 
(que aílí nos chamam elles . ) a qual havia 
de paffar per alli , de maneira que 5 como 
quem vinha a huma feita , eram vindas á 
Cidade muitas mulheres nobres , que eíta- 
vam em fuás quintas. O Vifo-Rey D. Fran- 
cifco , que deite apercebimento nao era fa- 
bedor, chegando á barra do rio huma feita 
feira vinte e nove dias de Dezembro 3 por 
fer já tarde nao entrou aqueile dia ; e quan- 
do veio ao outro com a viração ? e maré, 
mandou a Pêro Barreto que com os navios , 
que trouxera da Armada na coita , foííe di- 
ante , e tomaífe o poufo pegado com as 
náos , que eítavam no porto. Na eíteira do 
qual elle foi ? tendo aíTentado com os Ca- 
pitães y que poíla toda a frota ante a Cida- 
de , a obra de fegurar as náos ficaíle aos 
marinheiros com o mais que lhe era en- 
commendado , e elles com íua gente de ar- 
mas naquelle inítante puzeíTem o peito em 
terra ; e porém que todos tiveííem olho na 
bandeira real do feu batel pêra nenhum nao 
tomar terra fenao depois que a elle to- 
maífe : cá pela informação que tinha do lí- 
tio da Cidade , o lugar da ribeira onde elle 
havia de fahir era tão alcantilado 5 que fem 
muito trabalho , chegados os bateis a terra , a 
podiam tomar. Ao confelho do qual Deos 
quiz tanto favorecer } que paffado o baluar- 
te 



lyo ÁSIA de João de Barros 

te da entrada do rio com menos perigo do 
que fe efpcrava , ainda as náos não eram 
bem furtas ante 'a Cidade , quando os bateis 
eram cheios de gente apinhoada de alvoro- 
ço. Efem guardar muito a ordem que Jhes 
oVifo-Rey deo , movidos com aquclle fer- 
vor de quem levaria a honra de primeiro 
tomar terra , faltaram nclia huns abaixo 5 e 
outros affima , fegundo a forte que lhe cou- 
be ; e do batel do Vilb-Rcy os primeiros 
dous que a tomaram , foram : Fernão Pe- 
res d'Andrade , e João Gomes de alcunha 
Cheira-dinheiro. Tomada eíla terra, qucef- 
tavâ entre a tranqueira , e o mar , fem das 
noílas náos haver eftrondo de artilheria, 
porque havia de varejar per cima das cabe- 
ças dos noílbs , chegaram ás tranqueiras fem 
receber damno da artilheria , que tinham 
aífentado nellas ; porque como ficou hum 
pouco foberba fobre o entulho de terra , 
hia aífoviando per cima das cabeças dos nof- 
fos y e cahia entre as náos. Os Mouros co- 
rno viram que todolos noflbs fe enfiavam 
pêra três ferventias , que elles leixáram pêra 
a ribeira , repartíram-fe em três efquadrões , 
e vieram-os receber áquellas três portas da 
tranqueira ? onde fe começou huma perfia 
mortal , huns defendendo , e outros com- 
mettendo tão cruamente , que os corpos dos 
mortos faziam já mais pejo pêra entrar , 

que 






Década II. Liv. III. Cap. IV. 271 

que a madeira que tinha por defensão. E 
porque o lugar onde os noffos eílavam por 
razão da cava era mui eftreito , e todos que- 
riam ícr primeiros , que caufavam huns im- 
pedirem aos outros ; apartou o Viíb-Rey 
hum efquadrão daquella gente que pelejava , 
e mandou a Nuno Vaz Pereira , que com- 
metteíTe a entrada per outra parte ,- com que 
eile ficou mais defabafada da parte de fo- 
ra , mas não de dentro , porque cada vez 
recreícia mais pezo de gente. Pêro Barreto , 
pela parte que lhe coube em repartição de 
feu trabalho , também trazia fua gente mui 
fan grada , porque como andava no cabo da 
povoação , onde as náos dos Mouros eíla- 
vam furtas 3 ficou hum pouco defamparado 
da força da nofla gente , e mettido em hu- 
ma mui grande \ que os Mouros tinham 
poíla em guarda delias. Finalmente nefte 
primeiro commettimento dos noíTos , té che- 
garem á rotura dos Mouros, affi foi o ne- 
gocio tão cruamente ferido , té que o mui- 
to damno dos Mouros os metteo em fugi- 
da, caminho de huma grande mefquita 5 que 
eftava em meio da Cidade , cuidando lai- 
var as vidas \ onde tinham offerecido fuás al- 
mas per oração ao Demónio , fem darem 
por palavras do feu Capitão , que como Ca- 
valleiro os animava-, e ás vezes admoeftava, 
vendo o grande número delles ^ que tom- 

ban- 



2j2 ÁSIA de JoÃo de Barros 

bando liuns per cima dos outros , fugiam a 
dez homens dos nolTos. E ainda muitos def- 
tes que fe recolhiam a mefquita , affi como 
entravam per huma porta 5 vaiavam logo 
per outra, não fe havendo por muito fegu- 
ros naquelle lugar ■ e affi eítes , como os ou- 
tros , que osnoifos achavam per asmas da 
Cidade, as quaes já andavam cruzadas co- 
mo em coufa vencida , todo íèu intento dei- 
les era recolher- fe a hum monte , que cita- 
va íbbre a Cidade. Com tudo o maior ef- 
trago que houve delles , foi na mefquita , 
e á própria porta de cada hum defendendo 
filhos , e mulher, de cujos corpos as ruas 
ficaram juncadas , em que houve mais de 
mil e quinhentos , fegundo fe depois conta- 
ram , os mais delles moradores da Cidade ; 
porque dos foldados vindos pêra defensão 
delia, houve mui poucos, e eííes foram os 
primeiros que fe acolheram ao monte , e dos 
noííòs morreram dezefeis , e feridos duzen- 
tos e vinte. Havida a viótoria defta peleja , 
<jue durou das dez horas té as três depois 
do meio dia , em que a Cidade ficou em 
noífo poder , recolheo-fe o Vifo-Rey á gran- 
de mefquita , a qual fez cafa de oração ac- 
ceita a Deos no afto das graças , que lhe 
todos deram daquella vidtoria , e affi cafa 
de honra , com a que receberam aquelles , 
<jue a quiseram tomar da mão do Vifo-Rey 

em 



Década II. Liv. III. Cap. IV. 273 

em os armar Cavalleiros , por efte fer hum 
dos honrados feitos bem commettido , e 
pelejado , que té alli fe fez na índia : cá 
tudo foi roílo a roílo , lança por lança , eí* 
pada por efpada , fem liuns, nem outros fe 
íervirem muito da artilheria que tinham. E 
porque era já tarde , e ficaram tão canfa- 
dos , que o refto do dia lhe era neceíTarid 
pêra tomar repoufo , aíTentou o Vifo-Rey 
que o comer , e dormir aquella noite foífe 
naquelle lugar da viftoria , fem fe recolher 
ás náos por a mais folemnizar , e moftrar 
aos imigos , que eílavam recolhidos no mon- 
te , em quão pouca conta os tinha , e a ou- 
tro dia íoltar a Cidade á gente de armas 
pêra tomarem hum a cevadura no defpojo , 
pois já tinha a da efpada , como lhe elle dif- 
lèra na falia que fez em Anchediva. E por 
caufa dos rebates que aquella noite podiam 
ter dos Mouros recolhidos ao monte , re- 
partio a guarda, delia per os Capitães , os 
quaes tomaram as entradas das ruas , que 
trancaram com madeira, mandando alli tra- 
zer alguns berços da artilheria. Jorge de 
Mello Pereira Capitão da náo Belém , co- 
mo levava da mais efcolhida gente da fro- 
ta 3 mandou o Vifo-Rey que tomafíe a es- 
tancia , que ficava ao fobpé do monte on- 
de fe os Mouros recolheram , que lhe foi 
mui trabalhoíá de guardar ; poroue como 
Tom. II. P.L S mui- 



274 ÁSIA de João de Barbos 

muitos delles ., poucos- , e pouco commet- 
tiam aquella entrada , huns a bufcar mulhe- 
res , e filhos j que lhes ficavam efcondidos pe- 
las cafas, outros a falvar o que não pude- 
ram levar comíigo , e outros a roubar o 
alheio ; toda a noite a mais da fua gente 
efteve em pé com a eípada na mão , té que 
a manha os tirou deite trabalho , e o Vifo- 
Rey os metteo em outro , de que elles ti- 
veram mais fabor , dando-lhe licença pêra 
esbulhar a Cidade. Na qual obra , andando 
todos occupados , fe poz fogo em humas 
cafas no cabo da Cidade da banda de Lei- 
te: efoicoufa maravilhofa , porque aíli la- 
vrou em breve , que quando o Vifo-Rey fe 
tirou da mefquita , e fe veio pôr ao longo 
da ribeira , onde o lugar era mais defaba- 
fado , já nao podiam fofFrer a fumaça, e ar- 
dor do fogo ; porque como as mais das ca- 
fas eram cubertas de olla , qualquer faifca 
que faltava da fúria do eftralar da madei- 
ra , logo a cafa vizinha era pofta em laba- 
reda. Finalmente , quando veio ao meio 
dia , o fitio da Cidade nao era povoação , 
mas hum pouco de borralho , c cinza , on- 
de dizem que morreo grande número de 
gente : cá naquelle pouco que os noífos an- 
daram no roubo , achavam muita efcondida 
pelas caías; E foi tamanho o damno , que , 
per muito tempo os Mouros lamentaram i 

aquel- 



Década II. Liv. III. Cap. IV. 275- 

aquella deftruição ; porque como o Capitão 
da Cidade tinha pofio grandes penas ao 
defpojo delia , quando foi entrada , cada 
hum teve mais cuidado na falvação da pef- 
foa , que da fazenda. E fobre tudo o Vi- 
Íò-Rcy mandou de noite ter tal vigia , que 
aquelles , que de noite tornavam a fuás caias 
por falvar alguma coufa , encorriam em pe- 
rigo de morte, de maneira que elles perde- 
ram tudo ^ e os noffbs aproveitaram mui 
pouco ; fomente dos bagançáes que eftavam 
ao longo da agua , e das náos que tinham 
alguma fazenda , foi o mais que houveram 
daquelle defpojo , que dizem fer eíiimado 
em cento e íincoenta mil cruzados. Alguns 
quizeram dizer, que o author deílefogo foi 
o mefmo Vifo-Rey , mandando ao Com- 
mendador Ruy Soares que o puzeífe , te- 
mendo que com a detença , e defordem que 
os homens tem neftes adíos de faquear, fo- 
brevieflèm os Mouros do monte 5 que re- 
moveffem a viítoria , que tinham havida 
com algum defmancho. E pelo mefmo mo- 
do fe poz fogo ás náos , as quaes como ef- 
tavam encadeadas , em breve tomou poíTe 
delias , e com ajufante as noífas fe viram em 
perigo , e tanto , que maior foi o delias, 
que da gente em commetter a Cidade , e 
depois paííáram outro maior , que os poz 
xm condição de não paliarem a Dio , e foi 

S ii ne- 



17G ÁSIA de João de Barros 

neceílidade de mantimentos. Porque como 
o mais que defpende o Malabar, quaíi to- 
dos vinham , e fe levavam daquellas partes 
de Chaul , e Dabul, e o Vilb-Rey quando 
partio de Cochij foi com pouco , e fazia 
fundamento de o haver per aquella cofta ; 
com o alvoroço da vidtoria da tomada da 
Cidade , e cuidado de a roubar, efquecco 
aos Capitães , e defpcnfeiros de recolher o 
mantimento que nella eftava ; e quando o 
Vifo-Rey quiz faber fe tinham algum reco- 
lhido , era tudo queimado. Pêra fupprir a 
qual neceífidade , parccendo-lhe que per as 
povoações , que citavam pelo rio aífima , fe 
achariam alguns , mandou as galés , bargan- 
tim , e alguns bateis das náos com gente , 
que o foliem buícar , e quando o não pu- 
dcííem haver per dinheiro , que foífe á pon- 
ta da efpada. E em quanto eíles hiam , man- 
dou outros Capitães que deflem huma viíla 
ao monte , onde os povoadores da Cidade 
fe acolheram , também a fim de haver al- 
gum mantimento , fe o tinham ; mas eíles 
com a mefrna necellidadc delle eram já par- 
tidos dalli , porque naquella revolta de fua 
fugida não lhe lembrou falvar mais que as 
vidas. .Os Capitães que foram pelo rio afi- 
ííma , em todalas povoações onde chega- 
ram , com a nova da deftruição de Dabul , [ 
tudo acharam defpejado fem algum manti-i 

men- 



Década II. Liv. III. Cap. IV. 277 

mento ; e a caufa foi por aquelle anno ha- 
ver em todas aquellas partes eílerilidade , 
de huraa praga de gafanhotos , que fobre- 
veio aos agros 3 o qual cafo por alli acon- 
tecer poucas vezes , diziam os Mouros que 
fora prognoílico de outra praga , que éra- 
mos nós caufa de fua total deítruiçao. Dos 
quaes gafanhotos acharam os nofíbs per 
aquellas povoações muitas jarras , em que 
os tinham poítos em conferva , por acerca 
dos Mouros fer vianda eftimada , e correm 
por mercadoria do eftreito de Meca pêra 
fora 5 por naquella parte de Arábia haver 
grande arribação delles : e não fomente na 
tomada deita Cidade Dabui acharam os nof- 
fos cita mercadoria , mas ainda cm algumas 
náos de Mouros 5 que pelo tempo em dian- 
te tomaram , fouberam quão eftimada era 
acerca delles por acharem nellas muitas jar- 
ras deita conferva. Do qual mantimento ufam 
muito os Arábios , que habitam os defertos 
da Arábia , e affi os que habitam os de 
Africa , aos quaes elles chamam Çahará , 
que he huma faixa de terra , ou clima 5 que 
começa do Oceano Occidental daquelJa Co- 
marca do Cabo Bojador té a noífa fortaleza 
de Arguim , e vai em largura de fetenta e 
cem léguas , e mais em partes , té dar com- 
ílgo nas correntes do Nilo, (como já atrás 
diflemos > ) a qual terra ? (como veremos em 

nof~ 



278 ÁSIA de João de Barros 

nofla Geografia , ) he paílura de grande nú- 
mero de Alarves. E como com as trovoa- 
das de Guiné fe criam tão grande quanti- 
dade defta praga 5 que cobre a terra , e per 
onde paíTain como nuvens de fogo leixam 
efcaldado , e queimado toda planta , e her- 
va , ao tempo defta fua paíTagem , a qual 
conhecem es habitadores em verem primei- 
ro o Sol dous , e três dias amarello , por- 
que as nuvens deita praga que vem fe en- 
trepoc «entre o Sol , e clles ; apercebem-fe 
todos que em poufando na terra matam nel- 
les , e leccos ao Sol em grandes medãos os 
guardam pêra mantimento , porque naquel- 
Jes defeitos não chove outro manna áquella 
trifte , emaldiçoada gente. A qual praga he 
tão geral no interior de toda Africa por ra- 
zão da quentura da terra , que andando 
D. Rodrigo de Lima noífo Embaixador em 
a Corte do Rey dos Abexijs , a que com- 
mummente chamamos Prelte João , hum 
Francifco Alvares Sacerdote cm hum dif- 
curfo , que efereveo das coufas que vio nefta ?. 
viagem , em que elle foi com D. Rodrigo , 
conta que era tamanho o temor acerca dos j 
Abexijs da vinda deftes gafanhotos , a que j 
elles chamam Ambatas , que eftando em r 
hum lugar chamado Baruá , viram efie final , j 
o Sol amarello , e a terra toda affomhrsda 
deíla luz , com que a gente começou a ef- j 

mo- 1 



Década TL Liv. III. Cap. IV. 279 

morecer de temor , como que efperavam 
algum mal ; e quando veio ao outro dia , 
começaram apparecer hurnas nuvens deíla 
praga , que tomariam quaíi oito léguas 5 e 
cubríram todo efte efpaço da terra. No qual 
tempo agente do lugar fe foi a elle, como 
a Sacerdote, pedindo-lhe por amor de Deos 
que lhe deíTe algum remédio áquelle mal ; 
ao que elle reípondeo , que não fabia mais 
certo remédio , que pedirem devotamente a 
Deos que lhes lançaíTe aquella praga fora da 
terra. Com tudo fazendo ajuntar todolos 
Portuguezes que alJi eram , ordenaram hu- 
ma prociísão ao modo de quando çá per 
as Ladainhas vam fobre os agros , e com 
elles fe ajuntaram todolos Sacerdotes , e p.o- 
s vo da terra, e levando huma pedra de Ara 
ao feu modo como relíquia , e fua Cruz 
diante , faziam fuás precaçocs a Deos , e os 
naturaes refpondiam : Zio marena Chrif- 
tus , que em noífa lingua quer dizer : Se- 
nhor Chrijlo , amercea-te de nós. Com a 
qual precação , e clamor , indo per huma 
campina de agros de trigo obra de quarto 
de légua , foram ter a hum cabeço , que 
defeubria a multidão daquella praga , e to- 
mados huns poucos , lhes fez huma amoef- 
tação da parte de Deos , e de fi os excom- 
mungou , .que dentro de três horas elles pre- 
fentes , e todolos aufentes fe foflem ao mar 3 

ou 



280 ÁSIA de João de Barros 

ou a terra de Mouros infiéis 5 e leixaílem a 
terra dos Chriftãos. Soltos cftes fobre que 
íè fazia eíle exorcifmo, (foi coufa milagro- 
fa , ) porque voltando a gente pêra o lugar 
em fua procifsão contra o mar, que era o 
caminho que lhe amoedaram que elles to- 
maíTem , vinham tão tezos , que parecia á 
gente que os apedrejavam ; tão grandes eram 
as pancadas que com íeus voos davam nas 
coites. E quando chegou a procifsão ao 
lugar , eftava toda a gente pelos cabeços , 
e lugares altos vendo como os gafanhotos 
em nuvens hiam fugindo contra o mar. No 
qual tempo fe armou huma trovoada con- 
tra aquella parte do mar pêra que elles fu- 
giam , que durou três horas , e aífi fez ef- 
trago naquella praga , que quando acabaram 
de vafar as ribeiras , e regatos do enxurro 
da agua , que correo com aquella fubita tro- 
voada , ficaram cheios entre mortos 1 e vi- 
vos em altura de doze covados ; e quando 
veio ao outro dia pela manhã , não havia 
vivo hum fó, parecendo pela margem dos 
ribeiros a multidão delles huma folhada de 
enxurro. Com a qual coufa a gente da ter- 
ra ficou tão efpantada , que diziam que os 
noíTos eram homens fanótos , pois em virtu- 
de daquella obra que fizeram , Deos obrara 
tal milagre ; e como efta nova correo , vi- 
nham de todalas partes bufcar os noífos, 

pe- 



Década II. Liv. III. Cap. IV. 281 

pedindo-lhes porDeos que lhes foflem lan- 
çar os embatas fora dos agros , que lhos 
deítruiam. Fizemos eíta digreísão deites ga- 
fanhotos , e do ufo que a gente Arábia , e 
os Mouros de Africa tem delles em com- 
mum mantimento , por caufa da expoíícão 
de alguns Theologos fobre as locuftas , que 
S. João comia no deíèrto , porque faibam 
não ferem hervas , nem aves , como eu ou- 
vi em alguns púlpitos , por não faberem 
quão ufado mantimento acerca dos Mou- 
ros são eíles gafanhotos , e ainda os que 
põe em conferva , como aquelles que acha- 
ram em jarras os Capitães que o Vifo-Rey 
mandou , acerca delles são eftimados , como 
coufa de fua golodice. E alguns dos nof- 
fos , que já comeram delles, dizem que tem 
mui bom fabor , e que a carne delles he 
tão alva , como o peixe dos camarões , ma- 
riíco do mar ? que em parecer são gafanho- 
tos da agua , como os outros camarões da 
terra. 



CA- 



282 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO V. 

Do que pafjbu o Vifo~Rey té chegar a Dio : 

e como ordenou fua Armada pêra pelejar 

com Mir Hocem Capitão do Soldao > 

que allt ejlava recolhido. 

OVifo-Rey , depois que com as diligen- 
cias que mandou fazer fobre os man- 
timentos , vio que alli não fe podia prover 
dellcs por razão da praga que diíTemos , fa- 
hio-íe de Dabul com toda a frota , levan- 
do em propolito dar em hum lugar chama- 
do Baçaim , onde ora temos huma fortale- 
za , por faber que era terra abaftada delles , 
e iíto quando por dinheiro lhos não qui- 
zeffem vender. Porque como cftc lugar ef- 
tava já na enfeada de Cambaya , e era d'El- 
Rey deite Revno , a quem elle não queria 
fazer guerra , primeiro que per ella commet- 
teífe haver mantimento , havia de experimen- 
tar todolos meios da paz. E feguindo fua 
viagem fempre ao longo da coita , como 
Payo de Soufa Capitão da galé pequena hia 
cofeito com terra defcubrindo , acertou de 
entrar na boca de hum rio , ao longo do 
qual vio andar paliando algum gado ; e pe- 
la neceflidade que todos levavam de man- 
timento , fahio com alguns a tomar delle. 
Sobre os quaes deram os da terra ; e foi o 

ne- 



Década II. Liv. III. Cap. V. 283 

negocio tão fubito em modo da cilada , que 
fe tornaram a recolher vindo já muitos fe- 
ridos , entre os quaes era Jorge Paçanha , 
e Ambroíio Paçanha filhos de Manuel Pa- 
çanha. E querendo Payo de Souía acudir a 
Jorge Guedes que o matavam , ficaram am- 
bos alli pêra fempre ; e efte foi o preço que 
cuftou o defejo de querer comer carne frefe 
ca. Do qual cafo 3 quando o Vifo-Rey fou- 
be parte 3 ficou muito dei contente por fer 
defaftrc , e em tempo que elíe tinha necef- 
fidade dos taes homens ; e mais fendo fem 
fua licença , porque neítes negócios fempre 
dava refguardo a não poderem os homens 
commetter coufás per modo de defmando. 
Peró logo adiante fuccedeo outro cafo , que 
desfez a má fortuna deite namefma galé de 
Payo de Soufa , cá levando diante por def- 
cubridcr das pontas , que a terra fazia a 
Diogo Mendes a quem elle deo eíla galé, 
huma ante manha veio dar quaíi de fubito 
com elle Diogo Mendes , que já hia hum 
bom pedaço da frota 5 huma fuíla que atra- 
veífava de Dio pêra Dabul , bem eíquipa- 
da de remeiros , e acompanhada de outra 
gente , na qual hia hum Turco homem no- 
bre ; e fcgund o fe depois foube , era paren- 
te do Sabayo , e hia-fe pêra elle ouvindo 
as boas fortunas de feu eftado. O qual Tur- 
co fora ter a Dio em huma náo de Meca 

bem 



284 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

bem acompanhado de té vinte e finco Tur- 
cos , todos homens de fua peííba , que hiam 
com elle nafufta, que lhe Melique Az man- 
dou dar té o poer em Dabul, ou onde el- 
le quizefle ; e como era homem de guerra , 
quando deícubria huma ponta, e de fubito 
deo com Diogo Mendes , vendo que não 
podia leixar de pelejar com elle , mandou 
abater todolos feus , porque os noífos não 
viííem mais que os remeiros. Diogo Men- 
des fazendo delia pouca conta , veio-a de- 
mandar té poer o efporão da fua fobre el- 
la fem faber o ardil delles ; os quaes tanto 
que ofentíram fobre fi , fahíram com huma 
grita , e ás frechadas , e cutiladas mettéram- 
fe tão rijo com os noífos , que lhe entraram 
a galé j e os levaram té o maíto , e quaíi 
houveram de ficar de poííe delia. Porque 
como os noífos hiam defeuidados , naquel- 
le primeiro impeto dos Turcos aífi ficaram 
embaraçados de mal apercebidos, que não 
tornaram fobre íí, fenão depois que o fer- 
ro dos imigos os começou a fangrar, que 
lhes deo fúria com que defpejáram a fua ga- 
lé , e entraram na dos Turcos , onde fe vin- 
garam tanto delles , que a nenhum deram 
vida. E pêra que a viéloria foífe mais ce- 
lebrada , peró que os mais dos noífos fica- 
ram bem alfinados do ferro dos Turcos , 
Jião faleceo algum delles > e alli quebraram 

com 



Década II. Liv. III. Cap. V. 285- 

comhuma frecha hum olho a Sylveftre Cor- 
ço , que era comitre da galé , homem que 
naquelle tempo foi mui eftimado nèíle Rey- 
no 5 depois que veio da índia , por official 
de feu officio , principalmente em fazer na- 
vios de remo , e galeões por ler Levantifco 
natural de Coríica. Na qual galé a maior, 
e mais preciofa preza que fe tomou , foi 
liurna moça Ungara de nação , mui gentil 
mulher 5 a qual fendo aprefentada ao Viíb- 
Rey , elle a nao quiz acceitar pêra íi , e a 
deo a Gafpar da índia , e depois a houve 
Diogo Pereira o de Cochij , que por razão 
de haver filhos delia , e de fua prudência , 
e virtude , a recebeo por mulher. Da qual 
feus filhos fe devem prezar pòr ella fer per 
natureza de fangue Catholico , e nobre , e 
nao he labéo nella cativeiro , cá eíte he ca- 
fo de fortuna, enão defeito natural, a qual 
fortuna neíla parte tem poder fobre todolos 
eílados , como fe verá no livro de noíío Com- 
mercio no titulo dos fervos , onde fe prova 
que os Nobres per entendimento, e fangue, 
ainda que fejam cativos , nem por iíío pro- 
priamente fe podem chamar efcravos. Tor- 
nando ao caminho que o Viíò-Rey fazia , 
porque os ventos lhe nao ferviam bem , foi 
ter fobre hum rio chamado Bombaim por 
razão de hum lugar defte jiome , que eííá 
fituado ao longo delle , pouco mais de do- 
ze 



a86 ÁSIA de João de Barros 

ze léguas ante de Baçaim , onde era feu in- 
tento prover-fe de rhantimentos : na boca do 
qual Bombaim os noííos tomaram hum bar- 
co com vinte e quatro Mouros Guzarates ? 
per induftria dos quaes o Vifo-Rey mandou 
ao Regedor do lugar , pedindo-lhe que o 
quizcííe prover de mantimentos por feu di- 
nheiro. E porque temeo que o rogo havia 
de obrar nelle mui pouco , mandou logo 
nas coitas do recado três Capitães em íeus 
bateis , que clefiem em algum lugar , fem lhe 
fazer damno , por ferem terras d'ElRey de 
Cambaya. Mas como toda aquella coita ef- 
tava vigiada da fua vinda , acharam o lu- 
gar deípejado, fem nelle haver coufa de que 
lançar mão , fomente á tornada pêra as náos 
viram andar paítando hum pouco de gado , 
do qual trouxeram vinte e quatro cabeças ; 
e não feriam dentro em as náos , quando 
chegou hum recado do Regedor da terra , 
que eítava em outro lugar a que fe recolheo ; 
e moítrando que lá foubera como aquella 
Armada d 5 ElRey de Portugal viera alli ter 
com neceflidade de mantimento , mandou 
ao Vifo-Rey doze fardos de arroz , e ou- 
tros tantos carneiros , dando por defculpa 
quão neceífitada a terra eítava de mantimen- 
tos por caufa da grande praga dos gafanho- 
tos , e que aquella pouquidade lhe manda- 
va do que tinha pêra fua provisão. O Vi- 

fo- 



Década II. Liv. III. Cap. V. 287 

fo-Rey recebida fua deículpa , e o prefente , 
lho agradecco com fazer mercê ao meíla- 
geiro ; partido o qual , e elle recolhido a 
fua camará , ficaram efíes Capitães, e Fi- 
dalgos j que alli eram juntos , praticando 
fobre aquelías fahidas de gente em terra. E 
porque fobre fahirem em Baçaim , que o 
Vifo-Rey aííentára comeiles, alguns tinham 
votado por lhe comprazer , vendo-o mui 
movido , e indignado a iíío nas razoes que 
deo contra Nuno Vaz Pereira , que contra- 
dizia atai fahida , começaram alguns dizer, 
que o Viíb-Rey nefte negocio de votarem 
os homens era muito mais fujeito ao feu 
parecer 3 que ao de muitos , e que os ho- 
mens por efta razão não eram livres em acon- 
felhar 3 temendo de o anojar. O Viíb-Rey , 
porque a prática era hum pouco alta , ou 
que elle a ouviíle , ou que alguém lho foi 
dizer , fahio de dentro , e aífentando-fe en- 
tre elles , começou a praticar docemente em 
coufas 5 com que veio enfiar o que fe trata- 
va na matéria em que elles eftavam , por 
não parecer que vinha áquelle effèito : en- 
tre as quaes palavras difle , que hum dos 
maiores peccados que os homens podiam 
commetter ante Deos , e ante feu Rey , era 
em cafos de confelho votarem o contrario 
do que entendiam pêra bem do cafo a que 
eram chamados ; porque acerca de Deos ne- 
ga- 



288 ÁSIA de João de Barbo? 

gavam o entendimento que nelles poz , que 
era peccado contra o Efpirito Sandto , e 
contra feu Rey commeítiam huma efpecie 
de trairão. E que como o entendimento hu- 
mano mais vezes peccava per malícia , que 
per ignorância , geralmente todolos confc- 
lhos que hiam puros, fegundo osDeos ins- 
pirava , eram mais firmes , e cerros nas 
obras , que os movidos per alguma deftas 
quatro paixões , ódio , amor , temor , ou 
cfperança , por ferem partes mui prejudiciaes 
em qualquer juizo. Donde vinha que por 
efte oíFicio de aconfelhar fer tão excellente , 
os Príncipes que bem queriam reger, e go- 
vernar , para cllc de muitos homens eíco- 
Ihiam poucos , e pêra pelejar não engeita- 
vam algum ; e aquelles a que Deos fizera 
tanto bem , que podiam fervir em confelho , 
e com armas , não menos galardão mereciam 
em huma coufa que com outra. E porque 
os mais que alli eram prefentes ambas eftas 
coufas exercitavam , e todos citavam em 
tempo pêra ainda votarem de novo nas cou- 
fas fobre que praticaram , fe depois tinham 
vifto algum inconveniente ao que levavam 
ordenado fazer naquella viagem , lhe reque- 
ria de parte de Deos , e d'ElRey , que li- j 
vremente cada hum diíTeíTe o que entendia 
que fe devia fazer. Que não tomaíTem por' 
achaque cuidarem que elle poderia receber (■ : 



el- 



! 



Década II. Liv. III. Cap. V. 289 

cfcandalo de ir em contra o que lhe a el- 
les parecia ; porque contrariar eile razões 
alheias , não era por lhe parecerem mal as 
boas , fe eram melhores que as fuás , fomen- 
te porque defejava ouvir da parte as cau- 
fas , e razões que o moviam a fe determi- 
nar no parecer ; e que não dizia elle de 
peflbas de tantas qualidades como elíes eram > 
mas do mais pequeno da frota , quando o 
confelho bom foífe , confeíTaria que delle o 
recebera. Porque como o puro confelho mais 
procedia da alma , que do fangue , não os 
que muito valem , e podem , mas aquelles 
onde o efpirito de Deos efpira 3 eftes eram 
os que fabiam eleger a melhor parte que 
os negócios tinham pêra virem a bom effei- 
to : donde procedia haver muitos bem afor- 
tunados , e poucos acabarem em eílado de 
bom confelho. Finalmente per eíles termos 
o Vifo-Rey procedeo na prática té que per 
derradeiro com eíles Fidalgos , que eram 
prefentes , removeo a confelho de fahirem 
em Baçaim , e aífentou que foífe em Maim 
por fer mais perto da barra , e ter menos 
inconvenientes, Mas todo feu trabalho foi 
de balde ; porque como toda aquella cofta 
andava alevantada com temor da noíía fro- 
ta , defpejavam os lugares vizinhos domar', 
recolhendo-fe pêra dentro , e aífi acharam 
a fortaleza de Maim, a qual era de tijolo. 
Tom. II. P.L T fem 



iço ÁSIA de João de Barros 

lèm peííoa viva 3 fomente hum pouco de 
arroz na caíca , e por alimpar, o qual os 
Mouros tinham efcondido em covas , e eí- 
tc repartio pelas nãos. Com a qual neceífi- 
dade de buícar mantimentos , e aíli por lhe 
o tempo não fervir , e também por os noííos 
Pilotos ainda não terem navegado peraquel- 
la coita , deteve-fe o Vifo-Rey treze dias 
de Dabul té chegar a Dio , que foi a dous 
de Fevereiro dia de N. Senhora , onde fur- 
gio huma manhã de névoa , por caufa da 
qual não ie chegou muito ao porto. Mas 
como ella com a vinda do Sol foi desfeita , 
que a Cidade ficou defeuberra , a qual efta- 
va aflentada em hum lugar foberbo fobre 
ornar, que os no (Tos viram os muros, tor- 
res , e a policia dô feus edifícios ao modo 
de Hefpanha , coufa que elles não tinham 
vifto na terra do Malabar, entre a faudade 
da pátria , que pela femelhança dos edifícios 
da Cidade lhe lembrou , a huns fobreveio 
o temor , vendo que detrás daquelles mu- 
ros a morte os podia fobrefaltar ; e a ou- 
tros , cujo animo em os grandes perigos ef- 
tava pofto na efperança da gloria que as 
armas tem , mais os animava a vifta deíla 
primeira moftra da Cidade , defejando de 
fe ver dentro , do que a temiam de fora. 
A eíle tempo que o Vifo-Rey furgio antei 
a Cidade Dio , Melique Az Senhor delia | 



nao 



Década II. Liv. III. Cap. V. 291 

«ião era prefente , por andar oceupado em 
huma guerra que tinha com os Resbutos 
feus vizinhos obra de vinte léguas. Porém 
lá onde eítava , depois que o Viío-Rey pai- 
tio de Dabul i fernpre andaram meia dúzia 
de atalaias , que são barcos de remo , em 
atalaia delle , contando-lhe os paflbs , e vol- 
tas que dava , de maneira que eftas per mar , 
«e paradas per terra, todolos dias haviam de 
levar nova a Meiique Az da nofía Arma- 
da ; do qual avifo procedeo , que naquelle 
dia que o Viíb-Rey chegou , entrou elle na 
Cidade com leixar mortos dous dos cavai- 
los dos que tinhs^poftos em parada. Que- 
rem alguns dizer que a oceupação da guer- 
ra dos Resbutos 3 que elle tinha, não lhe 
importava tanto pêra naquelle tempo le au- 
íentar da Cidade , mas que o fez de indus- 
tria \ porque como era homem fagaz , e de 
grandes cautelas , naquelle tempo le fez cha- 
mado pêra acudir áquella guerra dos Res- 
butos na fronteria que tinha polia contra 
elles ; porque com fua aufencia , fe Mir Hó- 
cem quizeífe fazer alguma coufa de íi , te- 
mendo a noíTa Armada , o pudeíTe fazer. E 
donde Meiique Az tomou fufpeita que el- 
le Mir Hócem podia fugir á noíía Armada, 
foi de huma prática que ambos tiveram acer- 
ca da ordenança de como haviam de pele- 
; iiar comnofeo , dizendo elle Mir Hócem que 

X 11 • nao 



lyi ÁSIA de João de Barros 

não havia de efperar a noíTa frota dentro 
no porto , mas no mar largo , onde efpera- 
va de fe poder melhor ajudar de nós : cá 
lhe ferviam todalas velas , aíli a fuftalha del- 
le Melique Az , como os paráos d'ElRey 
de Calecut que efperava. Os quaes por fe- 
rem navios de remo , e fubtis , que nós não 
tínhamos , de huma chegada fua ás ncíTas 
náos encravavam muita gente com os exa- 
mes de frechas que lançavam dentro , por- 
que ido experimentou eile na vidloria que 
houve emChaul: A qual fahida do porto, 
peró que Melique Az lha contrariou com 
algumas razões apparentes , não iníiftio mui- 
to niííb, porque defejava que tomaífe elle 
efta licença de fe ir. Com a qual fufpeita 
tinha mandado fecretamente que fe elle fe 
fahiífe do poufo donde eítava , que nenhum 
feu navio o feguiífe ; porque como já tinha 
incorrido em culpa contra o Vifo-Rey em 
ir a Chaul em favor delle Mir Hócem , não) 
queria cahir na fegunda , temendo que lhe J 
ficaífe em cafa. Outros dizem que verdadei- 
ramente Melique Az lhe contrariou a fahi- 
da do porto também por cautela de feu pro- 1 
prio , e particular proveito , temendo que 
fugido Mir Hócem , o Vifo-Rey defcarre- 
gzíTe a fúria , e impeto que levava em def-i 
truiçao da Cidade : e ora foífe per huma' 
caufa ., ora per outra 5 como Melique Az 

ti- 



Década II. Liv. III. Cap. V. 293 

tinha malicia pêra tudo ;, tudo acabava em 
fegurar fuás coufas. Porém com todas eftas 
fuás cautelas , quando chegou a Dio acu- 
dir á vinda do Vifo-Rey , achou Mir Hó- 
cem occupado em lançar huma náo mui grof- 
fa , que feria de fetecentos toneis , fora de 
hum banco que a entrada do porto tem , 
a qual era delle Melique Az , e com ella 
outras náos da terra , pêra que os feus ga- 
leões , e galés , com toda a fuftalha 5 e pa- 
ráos d'ElRey de Calecut , que eram vindos 
em fua ajuda, ficaífem amparados com eftas 
náos de Melique Az , que por ferem gran- 
des occupavam a entrada do porto , e po- 
deriam ficar em lugar de baluarte. Porque 
além defta náo fer mui poderofa , Melique 
Az a tinha mui artilhada , e cheia de mui- 
tos frecheiros em ordenança de capitanias per 
popa , e proa 5 e entre dons frecheiros hum 
fardo de frechas pêra fua defpeza , e ella 
com fuás arrombadas com ponte , e redes , 
e per muitas partes cuberta de couros de va- 
ca cru molhados pêra defensão do fogo , fe 
lho lançaffe com algum artificio. Per o qual 
modo todalas outras náos, e galeões de Mir 

I Hócem , e aíli as da terra eftavam aperce- 
! bidos ; e que parecia coufa impoffivei podc- 
, rem receber damno , porque Mir Hocem era 

I I homem de fua peífoa, emui induftriofo nef- 
tas coufas da guerra ? e Melique Az mui 

abaf- 



2c>4 ÁSIA de JoÃo de Barros 

abaftado delias de maneira , que quanto fe 
podia defejar pêra a defensão que a frota , 
e Cidade haviam mifter , fe achava em am- 
bos eíles Capitães. Mcliqiie Az quando 
achou Mir Hócem em trabalho de ordenar 
a frota per efte modo , foi-lhe á mão , di- 
zendo que não havia neceílidade de poer a 
íua náo , e as outras da terra na entrada do 
banco , porque as noffas náos eram gran- 
des , e de quilha , e mais não tínhamos Pi- 
loto do porto , pola qual razão não pode- 
riam entrar nelle , e que efte avifo tinha dos 
cativos Portuguczes que elle tomara. Mas 
tudo ifto era mais cautela de Melique Az, 
que verdade , porque elíe não queria que a 
ília náo fofle a primeira que os noflcs achaf- 
fern por defensão á entrada do rio • e fez 
crer a Mir Hócerr) que mais lhe convinha 
terem o pofto da terra pêra fe favorecerem. 
com a artilheriá groíTa, que tinha pofta fo- 
bre aquelle abrigo das náos , que em outra 
parte alguma. E moftrando íer efte melhor 
confelho , mudou as náos ao lugar que di- 
zia , e á ilharga de cada huma poz hum na- 
vio , e huma galé , e da lua fuftalha fez hu- 
ma capitania , e dos pardos d'E!Rey de Ca- 
lecut outra ? os qua^s a modo de genctes 
haviam de andar iuueando toda anoíía fro- 
ta quando entrafle do banco pêra dentro , 
que he huma lagea j porque como neftes 

na- 



Década II. Liv. III. Cap. V. 295* 

navios de remo havia mais de três mil fre- 
cheiros , cada vez que embebiam as frechas 
em feus arcos , coalhavam o ar com o exa- 
me de aguiihões de morte. O Vifo-Rey, 
poílo que per informação de Mouros tra- 
zia na fantafia figurado o fitio da Cidade , 
e entrada do rio , e fobre eíla fua imagina- 
ção tinha aflentado o modo de commetter 
os imigos , depois que per fua própria viíla 
vio tudo , emendou muitas coufas 5 affi por 
razão do fitio da Cidade , como pela entra- 
da do rio. A qual , poílo que naquelle tem- 
po não tiveífe as forças de baluartes , e mu- 
ros que lhe Melique Az , e os que lhe fuc- 
cedêram , fizeram 5 como veremos , fomente 
o natural lítio com os prefentes artifícios > 
e ordenança , que fe puzeram em defensão y 
bailava pêra não efperar daquelle commet- 
timento viftoria alguma. Porque o rio , que 
torneava aquelle pedaço de terra 5 em que 
a Cidade eílava aflentada , tinha na entrada 
huma lagea a maneira de banco , com que 
fazia dous canaes : O que era da parte do 
Norte , e corria ao longo da povoação , per 
onde commummente as nãos de grande por- 
te entravam por ter fundo pêra iflb , eíle 
era mais perigofo : cá ficava a Cidade mui 
foberba fobre elle por eílar íituada fobre hum 
morro alto de pedra viva ao longo do mar : 
Da outra parte do Sul per entre a lagea, 

e a 



2<?6 ÁSIA de João de Barros 

e a terra quaíl tudo era parcel de aréa de 
maneira , que não tinha ferventia pêra mais > 
que barcos de remo : e neíta parte , porque 
Mclique Az lenão fiava muito dos Rumes, 
os mandou agazalhar, não confentindo que 
poufalíem dentro na Cidade ; da eftancia dos 
quaes ficou aili hum a povoação , a que ago- 
ra os noflbs chamam a Villa dos Rumes. 
O Viíb-Rey , depois que notou a entrada 
do rio j fitio da Cidade , e o modo de que 
eftes dous Capitães o cfperavam com íua Ar- 
mada , que feriam mais de duzentas velas 
entre náos , galeões , navios , galés , fuflas , 
e paráos , em que entravam cento , que El- 
Rey de Calecut tinha enviado 3 porto que 
já tiveíle repartido as capitanias , e o modo 
da entrada , aquella tarde chamou a confe- 
lho 5 onde fe praticaram muitas coufas , en- 
tre as quaes foi tirarem ao Viíb-Rey de hu- 
ma em que eílava poílo , que era fer elle 
o primeiro , queentrafle com afua não Flor 
de la mar, como quem queria tomar a fal- 
va do primeiro commettimento. Finalmen- 
te tirado elle deíle propoííto , a ordem com 
que aíientou que ao outro dia haviam de 
commetter os imigos , foi efta. Deo a dian- 
teira a Nuno Vaz Pereira Capitão da não 
SanClo Efpirito , que era de trezentos to- 
neis , o qual levava cento e vinte homens 
de peleia ^ toda gente fidalga , e nobre , e 

dei- 



Década II. Liv. III. Cap. V. n^y 

deftra pêra o tal miíler , de que os princi-' 
pães eram D. Jeronymo de Lima , João Ro- 
drigues Pereira , Álvaro Façanha 3 Ambroíio 
Paçanha feu irmão 3 Triftáo de Miranda, 
António de Soufa de Santarém , Ruy Pe- 
reira , João Gonçalves de Caílello-branco > 
Pêro Teixeira , Ruy Nabayaes , Simão 
Velho de Soure , Francifco Lamprea , João 
Gomes Cheira-dinheiro , Francifco de Ma- 
dureira 3 e Diogo Pires Capitão da galé com 
quarenta homens o havia de atoar té o paf- 
far além do banco. Trás elle Nuno Vaz 
havia de feguir Jorge de Mello em a fua 
náo Belém com cento e vinte homens , de 
que os principaes eram D. João de Lima , 
Jorge cia Silveira , Fernão Peres d' Andrade , 
António Rapofo , e outros , cujos nomes 
não vieram á noíía noticia ; e na efteira de 
Jorge de Meíio havia de ir Pêro Barreto 
de Magalhães na Taforea grande, e depois 
Francifco de Távora em a náo Rey gran- 
de , e trás elle Garcia de Soufa na Taforea 
pequena 5 e todolos outros Capitães , de que 
•atrás fizemos menção á partida de Cananor. 
E tirando eiras principaes , e primeiras náos 
que nomeamos , todalas outras velas leva- 
vam a oitenta , feílenta , quarenta \ trinta , e 
a vinte e íinco homens de peleja , fegundo 
o porte de cada vaíilha. Cada hum dos quaes 
Capitães ordenou a fua gente na ordem que 

af- 



298 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

aflentáram , de que fomente diremos a que 
Nuno Vaz levava , por fer o primeiro ncfte 
commettimento por honra do feu nome , pois 
acabou nefta empreza como Capitão, e ca- 
valleiro. A fua náo de hum caftello ao ou- 
tro levava íòbre a ponte tecida hum a rede 
de Cairo mui miúda , e do caftello de proa 
fez Capitão Pêro Teixeira , e do capiteo de 
popa aTriftao de Miranda , e na tolda João 
Rodrigues Pereira feu fobrinho , e no con- 
vés António de Soufa , todos acompanha- 
dos de gente de armas , efpingardeiros , e 
béfteiros , fegundo o lugar que tinham , e . 
elle ficou com outra gente lòbrecellente 
pêra acudir ao lugar mais neceífario. E co- 
mo a principal parte defta entrada do rio 
eftava em bom Piloto, entregou oVifo-Rcy 
a elle Nuno Vaz hum Mouro Guzarate , que 
a fabia mui bem , com grandes promefías de 
mercê 5 e liberdade de fua peflòa , fe met- 
teílQ aquella náo dentro no banco , na ef- 
teira da qual as outras haviam de ir enfia- 
das. E porque naquelle primeiro dia , que 
era de NoíTa Senhora da Purificação , em que 
o Vifo-Rey quizera commetter aquelle fei- 
to , ao alevantar das náos pêra tomar outro 
poufo , eilas fe embaraçaram hum pouco de 
maneira , que não hiam na ordem que ti- 
nha dado ; furgio já pegado com a entrada 
do rio y por lhe ficar dalli opofio mais cur- 
to, 



Dec. II. Liv. III. Cap. V. e VI. 299 

to , e melhor , onde foi recebido de alguma 
artilheria dos imigos , que houveram rei- 
pofta da noíTa. Mas como veio a noite , pê- 
ro que ella ceffou , poucos houve que a dor- 
miflem com repoufo , e quaíi foi toda vi- 
giada , huns concertando luas armas , e ou- 
tros a confciencia ; porque o officio do dia 
feguinte requeria que ambas eftas coufas ef- 
tiveíTem taes , que os imigos do corpo , e 
da alma não tivefíem jurdição fobre fuás 
peííbas. 

CAPITULO VI. 

Como o Vifo-Rey commetieo a Armada de 
Mir íláceni , e a vences 5 e total- 
mente dejiruio. 

Uando veio ao dia feguinte ? que era 
de S. Braz , entre as nove , e as dez 
horas , que a maré trouxe a viração 5 
com que haviam de entrar , affi eftavam as 
náos a pique , que feito final em a capita- 
nia 3 a hum ponto todas desferiram traque- 
te , e mezena , e os homens toda a voz que 
tinham em grita de envolta com as trombe- 
tas , tambores , e outros inftrumentos que 
expertam a guerra , que parecia abrir-íe o 
Ceo , e o animo de todos em efpirito de 
fúria contra aquella pérfida gente imiga do 
nome Portuguez. Ao qual termo também 



3oo ÁSIA de João de Barros 

a fuítalha de Melique Az com os cem pa- 
ráos de Calecut , remo em punho relpon- 
dêram aos noííos com grande alarido , e 
grita , partindo do poílo como genetes a re- 
ceber Nuno Vaz , que hia na dianteira com 
determinação de a entreter , e embaraçar na 
entrada do banco. E a primeira falva que 
lhe deram , foi de muita artilheria miúda , 
que afuzilava per huma parte , c as frechas 
ferviam per outra , com que logo encrava- 
ram muita gente , e mataram a Diogo Pires 
na galé dez homens , e outros ficaram taes , 
que não pode mais rebocar a náo. Mas Nu- 
no Vaz , por muito que lhe ladrava , e mor- 
dia efta cachorrada de navios pequenos , não 
fazia conta delles , porque levava o roílo 
pofto em a náo grafia de Mir Hócem , que 
elles tinham em lugar de baluartes com a 
outra de Melique Az. E tanto que começou 
entrar per meio das náos groffas , de paf- 
fada faívou huma com hum tiro deefpera, 
e aprouve a N. Senhor que cm final de vi- 
storia ficou logo efta mettida no fundo , 
porque os imigos com alvoroço , e fúria da 
ília artilheria não fentíram o noífo tiro ao 
lume da agua , fenão depois que dentro em 
a náo já andavam nadando nella. Jorge de 
Mello , que hia na efteira de Nuno Vaz 5 ' 
por culpa de feu meítre que lhe mareou mal 
l veia ; ficou detrás de Fero Barreto y o qual 

por 



Década II. Liv. III. Cap. VI. 301 

por ter efta vantage chegou primeiro a Nu- 
no Vaz a tempo i que o achou já entre a 
capitânia , e outras duas náos dos Pvumes > 
que a quizeram acolher em meio ; porque 
além dos arpéos , tinham os Rumes dadas 
raj eiras per baixo pêra fe alarem humas ás 
outras 5 e fecharem entre íl , as quaes affi ti- 
nham afferrado Nuno Vaz , e elle a ellas , 
que querendo Pêro Barreto empolgar huma 
deífes três , per difcuido , ou defacordo do 
feu meftre ? ficou per popa da náo de Nuno 
Vaz hum pedaço , porque os Rumes quan- 
do fe elle com elíes igou , tanto que íentí- 
ram o feu arpéo , lançára-o de íí , com que 
elle fe achou em vão. Jorge de Mello co- 
mo fe defembaraçou ? foi afferrar huma das 
principaes. náos , que eftavam per popa de 
Nuno Vaz j e como levava corola do que 
lhe fizera o feu meftre , metteo tanta vela , 
que da pancada que deo em a náo dos Ru- 
mes , a lançou fobre Nuno Vaz 3 com que 
foi cruzar o feu goroupés com o maftro 
de contramezena delle. Baftiao de Miran- 
da , que tinha a capitânia daquella parte 5 
como lhe cahio debaixo da lança 3 mandou 
mui bem arreatar a náo de maneira , que 
elle com os de fua capitânia per efte go- 
roupés entraram nella , entre os quaes eram : 
D. Jeronymo de Lima , Ruy Pereira , Aí- 
yaro Paçanha ; e Ambrolio Pacanha ku ir- 
mão , 



g02 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

mão , com as feridas ainda frcícas do que 
paíTou em a fuíla de Payo de Soufa. Quan- 
do Jorge de Mello vio que náo tinha mais 
feito 5 que entregar aquella náo debaixo de 
outra lança ? e não da fua , com melhor 
preza afferrou outra náo , e os outros Ca- 
pitães que o feguiam na ordem que leva- 
vam , enfiados hum no outro , cada hum to- 
mou a forte que lhe coube dos imigos. O 
Vifo-Rey , pofto que não foi aíferrar náo 
alguma , como quem queria fazer o campo 
feguro aos feus que eílavam aíferrados , met- 
teo-fe entre os imigos , e a fuíhlha de Me- 
lique Az , que já a elte tempo eftava abri- 
gada á terra , porque da entrada das nofias 
náos algumas foram mettidas no fundo. A 
qual fuílalha daquelle abrigo com artilheria 
miúda , e frechas , cubriam a náo do Vifo- 
Rey , que eftava quafi como barreira delias 
pêra efcudar os feus , e defendendo que ef- 
tes navios pequenos não foíTem impedir a 
preza que os noífos tinham , e aífi os entre- 
teve com a artilheria , que de quando em 
quando mettia alguns de baixo da agua , 
com que os outros não oufavam de fahir 
ao campo. Porém ifto que o Vifo-Rey fez , 
foi á cufta da gente de ília náo 3 porque lhe 
derribavam muita , entre os quaes foi Fer- 
não Soares filho de Álvaro Carvalho. Os 
paráos de Calecut, como viram que o feito 

dos 



Década II. Liv. III. Cap. VI. 303 

dos Rumes hia pêra mal , não querendo es- 
perar o remate delle , mettêram-fe pelo rio 
dentro , e torneando a Ilha, vieram fahir 
á outra boca , que diflemos eftar da parte de 
cima , não oufando paíTar pela face das nof- 
fas náos , que eram corifco de fogo mor- 
tal , de que elles já tinham experiência ; e 
fahindo ao mar largo , fizeram-íè á vela ca- 
minho de Calecut , dando nova per toda a 
coita , que a noíía Armada era mettida no 
fundo pelos Rumes , e que elles foram na 
vidloria. Mir Hócem vendo-lè entrado per 
tantas partes , e que Melique Az eftava de 
fora olhando o jogo fem metter a peííoa, 
pofto que tinha mettido cabedal de fuílas , 
as quaes eftavam como retrahidas , quequaíl 
o defamparavam , e elle eftava ferido , e com 
muita gente morta , e ferida ; Secretamente 
callou-íe pela almeida da náo abaixo em 
hum bargantim , que alli tinha pofto de res- 
guardo pêra efte tempo , e como hum a fetta 
defconhecido fe paflbu da banda da povoa- 
ção onde eftava apolentado , e alli tomou 
hum cavallo , em que foi té chegar a El- 
Rey de Cambaya , temendo tanto a Meli- 
que Az por fe não fiar delle , como aos 
noíTos , de que hiam bem fangrados. E pof- 
to que per efte modo leixou afua náo, elle 
fe defendia de maneira , que fe não leixava 
entrar , té que veio Francifco de Távora 

em 



304 ÁSIA de J0X0 de Barros 

em a íua Rey grande , e Garcia de Soufa 
na Taforea pequena ? que a entraram - y e 
como a entrada delle foi com golpe de gen- 
te, e fúria, foi-le a rede da ponte com el- 
les abaixo , onde correram muito rifco , 
porque foram dar com hum golpe de Ru- 
mes que citavam debaixo , os quacs eram 
tão valentes homens , que a pé quedo mor- 
reram todos fem fe quererem entregar. Mar- 
tim Coelho por duas vezes quiz aíterrar a 
náo de Melique Az ; mas como era huma 
torre cm reipeito do feu navio , íahio de- 
baixo delia tão elcalavrado , como os ou- 
tros que a commettêram , porque tinha cm 
li tanta gente , tanta frecha , e tanto artifi- 
cio de fogo , que fazia arredar a todos. E 
vendo que fe não podia abalroar por fua 
grandeza , convertêram-fe eftes queimados 
delia em ametter no fundo com artilheria , 
e ninguém continuou mais efte officio , que 
Garcia de Soufa. Porque tanto que os pa- 
raos de Calecut defapreíTáram a náo Flor 
de la mar , em que eflava o Vifo-Rey , elle 
fe foi a ella , e gaitou no feu coftado quan- 
ta pólvora tinha de maneira , que da fer- 
rugem da artilheria que lhe faltava nos 
olhos , ficou cego , e por não ficar fem fru- 
to daquelle trabalho , com hum camello 
acertou de tomar a náo per parte que pou- 
co , e pouco fe foi aflentando no fundo. 

An- 






Década II. Liv. III. Cap, VI. 30? 

António do Campo com hum galeão que 
lhe coube em forte , foi tão ditofo , que o 
entrou fem receber mais damno , que feri- 
rem-lhe finco homens. Ruy Soares , porque 
era dos derradeiros na ordem da entrada, 
depois que paífou o banco , quiz fer o mais 
dianteiro , paliando per todalas náos té che- 
gar defronte da Cidade tão confiadamente, 
que louvando o Vifo-Rey eíte modo , dif- 
fe : Quem he aquelle , que faz tanta ven* 
tage ? quem me dera fer elle , porque de 
duas guinadas que deo fohre duas galés 
das que fugiam pêra dentro do rio , ambas 
fe defpejdram leixando os cafcos vajios > 
as quaes elle tomou. Finalmente todolos Ca- 
pitães cada hum per feu modo tiveram tan- 
to que fazer , quanto fe moftrou no feito 
que acabaram , e no preço que cuílou a vi- 
storia delle. O Vifo-Rey como vio com 
quanto favor ella já era da fua parte , por- 
que no mar havia pouco que fazer , e da 
terra recebia muito damno naquelle lugar 
onde eílava , com artilheria que lhe tinha 
morto alguns homens , e ferido a maior par- 
te delíes , fem a fua eítada fer já neceílaria 
naquelle poufo , veio-fe pêra onde eftavam 
as fuás náos. Derredor das quaes andavam 
as galés , e os outros navios de remo com 
os bateis matando ás lançadas, e eftocadas 
os Mouros que fe lançaram ao mar por fe 
Tom. II. P.L V fal- 



3o6 ÁSIA de João de Barros 

falvar em terra ; e eram tantos os que an- 
davam fangrados , que do bufar do fangue 
ficou o rio tao tinto , que viam os nolTbs 
manifeítamente quanto damno tinham feito 
nelles. Porém efta viétoria que lhe N. Se- 
nhor deo , também lhe cuítou afTás do feu 
fangue , ainda que fe não derramaíTe per 
aquellas aguas : cá de mortos houve mais 
de trinta e tantos , de que os principaes foi 
Nuno Vaz Pereira , peró que logo alli não 
FaleceíTe , e duraííe quatro dias com muitas 
feridas ? de que fomente huma frechada , que 
lhe atraveflava a garganta , lhe tirou a vi- 
da. Mas não lhe pode tirar a honra que 
nefte feito ganhou ; porque o modo de com- 
metter refpondeo á induftria , e governo de 
Capitão , e de pelejar de Cavalleiro , como 
elle fempre moftrou naquellas partes , don- 
de o Vifo-Rey fempre o trouxe pofto nos 
olhos per amor , e neíles lugares de honra 
por confiança ; por galardão dos quads fei- 
tos nefte lugar acerca dos homens terá no- 
me , e ante Deos a gloria que dá áquelles 
que vertem feu fangue , e vida pola Fé. E 
aílí morreo Pêro Cam Capitão de huma das 
caravellas , o qual trabalhando por entrar 
em huma náo que abalroou , foi de cima 
delia tomado com huns ganchos de ferro, 
e quaíí no ar foi morto ; e Francifco de Na- 
baes hum Cavalleiro de Monte-mor o ve- 
lho 



Década II. Liv. III. Cap. VI. 307 

lho huma bombardada , ficando o corpo em 
pé , lhe levou a cabeça ; e o primeiro que 
mataram na entrada da náo de Mir Hó- 
cem , foi Henrique Machado hum Caval- 
leiro de Africa ; e affi mataram os dous fi- 
lhos de Manuel Paçanha , e outras peílbas 
nobres , a maior parte dos quaes eram da 
náo de Nuno Vaz. Na qual aconteceo hum 
cafo digno de fer havido por milagre ; por- 
que fendo ella muito velha , e que não paf- 
fava huma hora fem darem a duas bombas 
pola muita agua que fazia , em quanto du- 
rou a peleja , que começou das onze ho- 
ras té duas da noite que fe fahíram pêra fo- 
ra do rio , nunca fez agua , e dahi por dian- 
te a fez dobrada , porque além da velhice 
que tinha , houve duas bombardadas , per 
que lhe entrava muita. E entre trezentos e 
tantos homens que alli foram feridos , eítes 
eram os principaes : Jorge de Mello Pereira 
Capitão da náo Belém per hum braço di- 
reito 5 que lhe atraveífáram com huma fre- 
cha y e andavam os Capitães naquelle tem- 
po tão mal providos das policias , e coufas 
que agora de cá levam pêra regalo das pef- 
foas, que não fe achou em toda a fua náo 
hum panno de linho pêra o curarem , por 
todos veílirem algodão, de maneira que o 
Vifo-Rey lhe mandou huma camila velha 
pêra os pannos da cura. E os outros feridos 

V ii fo- 



308 ÁSIA de João de Barros 

foram : Garcia de Soufa de duas frechadas , 
D. António de Noronha de hum zarguncho 
•per hum hombro , Fernão Peres d' Andrade, 
Simão d'Andrade feu irmão , D. Jeronymo 
de Lima , Garcia de Souía , João Gomes , 
de alcunha Cheira-dinheiro com vinte e duas 
feridas , e outros que não vieram á noticia 
noíTa. No qual feito o que fe mais deve 
notar 5 he 3 que quafi todolos mortos , e fe- 
ridos da noíTa parte , não o foram com ar- 
mas, a mão tenente , porque não oufavam 
os imigos de elgrimir com elles , fenão de 
tiros de arremellb , afli como zargunchos , 
frechas , efpingardas , e outras armas miffí- 
vas , e principalmente com artilheria ; por- 
que as rachas que ella fazia na madeira das j 
náos , bailava pêra matar , e ferir muita gen- 
te, quanto mais a fúria dos pelouros. Aífi 
que fegundo os perigos per que os nofíbs 
paífáram , e o cafo foi pelejado , houve dei- 
xes poucos mortos , e feridos em compara- 
ção dos Mouros : cá , fegundo fe depois fou« 
be , paífáram de mil e quinhentos , em que 
entraram quatrocentos e quarenta Mamalu- 
cos da Armada de Mir Hócem , e de ou- 
tros que vinham ter a Dio , e os mais fo- 
ram naturaes da terra , poílo que alguns fa- 
zem muito maior número delíes. E porque* 
tudo não foífe vidtoria de fangue , e os nof-j 
fos além da honra levaíTem, algum fabor dd . 

fa- 



Década II. Liv. III. Cap. VI. 309 

fazenda , deo o Vifo-Rey azo á gente a ef- 
corcharem eíTas náos , que eíiavam no por- 
to , onde fe achou muita fazenda , aíli da 
que os Rumes traziam pêra feu ufo , como 
de mercadoria de náos de mercadores ; e de 
todas elTas náos mandou o Vifo-Rey reco- 
lher quatro, e as duas galés que tomou Ruy 
Soares , e as outras foram queimadas. Entre 
o qual esbulho foram achados alguns livros 
de Latim , e em Italiano , huns de rezar , 
e outros de hiítoria, té livro de orações em 
língua Portuguez; tanta era a variedade de 
gente que andava naquelle arraial do De- 
mónio. E o que o Vifo-Rey mais eftimou 
defte defpojo , foram as bandeiras do.Sol- 
dao , e as que Mir Hócem trazia de fua di- 
vifa 3 as quaes vieram a efte Reyno , e fo- 
ram poílas no Convento daVilla de Thc- 
mar da Ordem da Cavalleria de N. Senhor 
Jefus Chrifto ; porque como debaixo da fua 
bandeira fe houve efta vidlcria , de que 
aquella Cafa he a cabeça de tão fanta , e 
neceífaria Ordem , a cila fe deviam oílere- 
cer os triunfos das infiéis vidorias , as quaes 
acerca das gentes a decoram mais em lou- 
vor , e gloria de Deos , e são teftemunho 
que dilatam a noífa Fé mais , que o ouro 
que fe nella pode aífentar por ornamento 
das materiaes paredes. O Vifo-Rey além de 
em geral, e particularmente em palavras de 

lou- 



3iq ÁSIA de João de Barros 

louvor a todos moftrar o contentamento que 
tinha defta vi&oria que lhe Deos deo, de 
quem confeíTava receber efta mercê pêra 
paz , e quietação de fua alma pela morte 
de leu filho , e feguridade da índia , como 
elle dizia , quando referia eílas coufas a Deos , 
foi fazer a barba , e veítir-fe de feita com 
todalas outras moítras de prazer , que deo 
caufa a que todos aíli feridos , como sãos fi- 
zeífem outro tanto. E aquelle fe havia por 
mais loução , que mais voltas de touca tra- 
zia na cabeça por guarda das feridas delia , 
ou o braço no peito , ou a efpada ás véf- 
fas , e aíli outro qualquer final 5 que mos- 
trava não ficar mui inteiro daquelle feito ; 
pofto que todos ainda que per eílcs finaes 
de ferro alheio não andaflem notados , o 
feu foi empregado em lugares que não ti- 
nham inveja a outro braço , porque as obras 
do feu o teíiemunhava. 



CA- 



Década II. Livro III. 311 

CAPITULO VIL 

Como Melique Az mandou vijltar o Vi- 
fo-Rey da viãoria que houve de Mir Hó- 
cem , e depois lhe enviou os cativos que ti- 
nha , que foram tomados com D. Lourenço ; 
e expedido o Vijo-Rey delle , partio-fe pêra 
Cochij. 

EliqueAz como vio adeftruição dos 
feus hofpedes , temendo que o Vifo- 
Rey com o favor da viítoria quizeíTe en- 
tender na Cidade , por elle íer a principal 
caufa da morte de feu filho ; dcfejando def- 
cubrir fua tenção , tanto que amanheceo , 
mandou a elle Cide Alie o Mouro Grana- 
dil , ( de que atrás fizemos menção 3 ) dan- 
do-lhe a prolfaça da victoria , e offerecen- 
do-fe a todo ferviço que houvefíe mifter 
daquelia Cidade. Era fama entre os noííos , 
que muita gente da que eílava dentro , ven- 
do a vidloria que houvéramos , fe fahíra 
aquella noite por muito refguardo , e vigia 
que Melique Az niííb teve > a qual coufa 
o fez mais deíconfiado da defensão da Ci- 
I dade ; e tinha-íe por coufa mui leve no pa- 
I recer de muitos , que fe o Vifo-Rey quizef- 
1 fe pôr o peito em terra , que não havia de 
achar muita reílílencia , ou ao menos que 
I Melique Az fe fobmetteria á fua obediên- 
cia 



itt ASIAoe JoÃo de Bakros 

cia com qualquer lei de jugo que lhe pu- 
zeíTe. A qual prática logo foi ter ao Vifo- 
Rey j quaíi em modo que alguns Capitães 5 
e Fidalgos não recebiam bem dilatar-fe efte 
commettimento. E porque elle não citava 
em tempo pêra que alguém tiveíTe algum 
defcontentamento de fuás obras , ante que 
ifto mais procedeíTe , ajuntou os Capitães , 
c peífoas notáveis , não em modo de íè , des- 
culpar , mas de aconfelhar fobre o mais que 
deviam fazer ; porque bem entendia que ef- 
te parecer de alguns mais procedia por ha- 
verem efcala franca na Cidade , que por fa- 
2erem outro difcurfo do que convinha ao 
eftado da índia , e outras coufas que elle 
propoz a todos , entre as quaes foram eftas. 
Que em nenhum modo convinha naquelle 
tempo commetter a Cidade , porque elles 
não contendiam nilTò com Melique Az, que 
era hum eftalajadeiro , que dava gazalhado 
a quem lhe pagava bem \ mas com EIRey 
de Cambaya , cuja elia era , o qual como 
Senhor logo havia de acudir fobre quem 
a quizeífe fufter ; e que de mil e duzentos 
homens que vieram naquella Armada , de 
mais de quatrocentos fe não podia fazer con- 
ta , e que feiscentos não era força pêra com- 
metter gente mettida detrás de muros mui 
fortes , e altos , que fomente ás pedradas 
defenderiam a fubida , quanto mais com tão 

boa 



Década II. Liv. III. Qap. VIL 313 

boa artilheria , como a que elles haviam de 
leixar em as náos , fem delia fe poderem 
ièrvir naquelle miíter. E ainda que pudefíem 
de hum impeto levar a Cidade na mão > 
quem havia de ficar nella ? e fe flcaíjfe , que 
ferviço recebia EIRey ter huma fortaleza 
tão longe de Cochij , tendo hum tão íuád 
vizinho aporta, como era d'ElRey de Ca- 
lecut , a cuja inftancia Mir Hócem viera 
áquelias partes ? O qual ainda que Gentio 
foííe , era mais de temer pêra a fegurança 
do eftado da índia , que todolos Mouros 
delia 5 por razão deita vizinhança de Cochij y 
e fer Senhor de toda a pimenta ; os quaes 
inconvenientes, (ainda que Mouro foííe ,ç) 
não havia em EIRey de Cambaya , do qual 
té aquelle tempo não tinham recebido dam- 
bo , ante moftrava defejar noíía amizade , a 
qual fe devia procurar haver delle per boas 
obras , e não tomar-lhe huma Cidade fua. 
Que Melique Az fe particularmente tinha 
ordido ruins tcas , tempo tinha pêra o to- 
mar nelías ; porque como era homem , que 
feus negócios eram tratar, e trazer náos pe- 
lo mar , nifto fe podia delle tomar toda emen- 
da com noíTas Armadas , e todo o mais era 
oíFender a EIRey de Cambaya, com o qual 
fe não devia bulir 3 por fer hum Príncipe 
mui poderoíò , e não hum moço de doze 
annos mettido em huma gaiola 3 como era 

a Ilha 



214 ÁSIA de JoÃo de Barros 

a Ilha de Ormuz , que com a primeira ne- 
ceflidade lheconveioíbbmetter-fe á obediên- 
cia noíTa ; e como pode tirar o laço do pef- 
coço , fez mui pouca conta de Affonfo d'Al- 
boquerque , como elles fabiam ; e fe efte 
cada vez que lhe tiraíTem a efpada da gar- 
ganta , fe havia de rebelar , que faria aquel- 
la Cidade Dio , tendo coitas na potencia de 
feu Rey ? Aíli que conferidas eftas , e outras 
coufas , feu voto era diífimular com as cou- 
fas de Meliquc Az ; porque com as taes pef- 
foas a elle lhe parecia fer maior injuria fof- 
frer huma mentira , que diílimular hum da- 
mno. Finalmente eílas , e outras taes razoes 
a todos foram acceitas , e houveram ferem 
mais proveitofas ao ferviço d'ElRey , e fe- 
gurança do eftado da índia , que outras que 
per alguns foram apontadas neíta prática ; e 
ficou aflentado que os recados de Melique 
Az foíTem recebidos com gazalhado , como 
fe fez , fazendo muita honra a Cide Alie 
quando elle chegou ao Vifo-Rey , dizendo- 
lhe que folgava muito de o conhecer , por 
fer homem daquelle bom tempo da guerra 
de Granada , e outras palavras de boa graça , 
e gazalhado 3 que o Vifo-Rey mui bem fa- 
bia fazer. E refpondeo-ihe quanto ao reca- 
do de Melique Az , que lhe agradecia mui- 
to fua vifitaçao , e que fomente duas cou- 
fas o trouxeram áquelle porto > das quaes 

ti- 



Década II. Liv. III. Cap. VIL 31? 

tinha já huma , que era a vi&oria dos Ru- 
mes ; e a outra que eram os cativos , que 
foram tomados com morte de feu filho , por- 
que eíles lhe ficavam em lugar delle , eíta 
tinha ainda pêra fazer ; e pois , fegundo el- 
le Melique Az lhe tinha efcrito 5 eítavam 
em feu poder , e bem tratados > como os 
mefmos cativos lhe efcrevêram , lhe pedia 
muito que lhos mandaííe logo dar; e tam- 
bém lhe mandaífe entregar toda a munição > 
e artilheria dos Rumes dos navios que en- 
calharam em terra , e os cafcos foiTem logo 
queimados , por aili não ficar memoria de 
coufa fua. Que não lhe pedia as peíToas > 
porque entre os homens nobres fempre fe 
coílumou amparar aquelles , que os bufca- 
vam por falvaçao de fua vida : fomente lhe 
pedia 3 que não foiTem recolhidos em outro 
tempo naqueile feu porto , vindo com mão 
Armada ; porque os Portuguezes acerca dos 
vencidos eram piedoíbs 5 e contra os fober- 
bos mui indignados , principalmente quan- 
do incorriam em fegunda culpa ; e que el- 
le o amceftava como amigo 3 que a não qui- 
zeífe tomar fobre íi, por não ficar obriga- 
do ás cultas delia. E quanto ás oíFertas , 
que lhe mandava com eíta fatisfaçao , as 
havia por recebidas , pêra ficarem em paz , 
e amizade , aífi por fua particular peiToa , 
como por fer vaflallo d'ElRey de Cambava 



y 

com 



316 ÁSIA de JoXo de Barros 

com quem EIRey de Portugal feu Senhor 
mandava que elle fizefTe rodo cumprimento 
de amizade por a vizinhança que ambos 
per muitos annos haviam de ter : e também 
lhe agradeceria muito provellos de manti- 
mento por feus dinheiros 5 por quanto os 
Feitores das náos lhe vieram dizer , que ha- 
via neceíTidade dclles pêra fe tornarem a 
Cochij. Melique Az , auando Cide Alie lhe 
levou tão diíferente reípofta do que elle ef- 
perava , ficou defaflbmbrado , e por Fe ver 
de todo com a partida do Viíb-Rey , á grão 
prefla per elle Cide Alie lhe mandou mui- 
tas barcas de mantimento , e refrefco pêra 
todalas náos : e aífi lhe mandou todolos ca- 
tivos mui bem tratados , e vertidos ; porque 
como fempre temco que lhe havia de fer 
pedido conta do feito de Chaul , tinha-os 
mui mimofos pêra pagar com elles as cuf- 
tas daquelle damno. Ao qual Cide Alie o 
Viíb-Rey mandou dar quatrocentos cruza- 
dos , e algumas peças , aíli por trazer os 
cativos , como por elles dizerem que elle 
fora a principal caufa de lhe Melique Az 
fazer tão bom tratamento. E ainda por com- 
prazer ao Vifo-Rey , mandou Melique Az 
lançar grandes pregões , que dentro de dous 
dias fe foífe qualquer homem de armas ef- 
trangeiro que eftivcffe naquclla Cidade , fob 
pena de morte fendo achado depois , cum- 

prin- 



Década II. Liv. III. Ca*. VIL 317 

prindo todo o mais que lhe o Vifo-Rey 
mandou , com que lhe concedeo paz pêra 
as fuás náos poderem navegar , recebendo-o 
em fua amizade. Finalmente Melique Az 
ficou tão afíbmbrado daquelle feito , e fob- 
metteo-fe tanto á obediência do Vifo-Rey , 
que obrigou a leixar alli Triftão de Gaa , 
hum dos que foram cativos 5 pêra carregar 
hum par de náos de algumas coufas necef- 
íarias ás feitorias de Cochij , e Cananor. E 
também com o mantimento que Melique 
Az deo, e alguma roupa da que fe houve 
na tomada das náos , que eítavam naquelle 
porto , deípachou D. António de Noronlia 
com o feu navio pêra ir acudir a feu irmão 
D. Affonfo , e gente que com elle eftava 
na fortaleza S. Miguel da Ilha Çocotorá. 
Acabadas as quaes coufas , partio-fe o Vi- 
fo-Rey a dez de Fevereiro caminho de Co- 
chij , e o primeiro lugar que tomou foi 
Chaul , onde o receberam com feita , poíto 
que não foi de tanto prazer no coração dos 
Mouros , como foi a nova que os paraos 
de Calecut , que per alli paífáram , deram , 
dizendo fer toda a noíTa Armada deítruida , 
tudo a fim de alvoraçar contra nós toda aquel- 
la coita , onde tínhamos alguns amigos , cor- 
rendo com eíta nova a Cananor, e a Co- 
chij , pêra que os naturaes commetteííem al- 
gum alevantamento contra os que eítavam 

em 



318 ÁSIA de JoÂo de Barros 

em as noíTas fortalezas , que alli tínhamos. 
E pofto que o Nizamaluco Senhor daquel- 
la Cidade Chaul té então recebia noíTas náos 
como amigo , e moftrava querer-fe fobmet- 
ter á obediência d'ElRey D. Manuel, co- 
mo era cautelofo , não o pode o Vifo-Rey 
chegar apagar algumas parcas em final del- 
ta obediência fenão depois que chegou com 
efta viftoria , que aflbmbrou a elle , e a to- 
dolos Mouros daquella cofta da índia , cá 
tinham pofto grande efperança em aquella 
Armada do Soldao. Partido o Vifo-Rey del- 
ta Cidade Chaul , e fendo tanto avante co- 
mo Onor , fahio a elle Timoja , o qual vi- 
nha fugindo d^ElRey deNaríinga, que ef- 
tava dalli huma jornada em hum pagode , 
onde era vindo a romaria a fe pezar a ou- 
ro , e prata por razão de huma enfermida- 
de que tivera. A caufa da qual fugida del- 
le Timoja era por fer avifado per feus ami- 
gos que EIRey o mandava prender , por 
queixumes que tinha delle andar feito cof- 
fairo per aquella cofta ; e por efte Timoja 
acerca de nós fer recebido por amigo , man- 
dou o Vifo-Rey pedir a elle de Narfínga 
que lhe perdoaíTe , o que elle fez de boa 
vontade polo defejo que tinha denoífa ami- 
zade , fobre a qual , como atrás efcrevemos > 
era lá ido Pêro Fernandes Tinoco. Seguin- 
do o Vifo-Rey feu caminho, chegou a Ca- 
na- 



Década II. Liv. III. Cap. VIL 319 

nanor , onde foi recebido com grande triun- 
fo , e em três dias que fe alli deteve , tudo 
foi prazer , e fefta , e huma delias foi a dos 
efcravos dos noíTòs , e moços da terra , a 
que o Vilb-Rey mandou entregar doze Ma- 
melucos dos que foram tomados da Arma- 
da de Mir Hócem , os quaes aííi ficaram 
das pedradas , e traveflura deite povo , que 
quando foram poílos na forca por efpecta- 
culo pêra os Mouros da terra , hiam já fei- 
tos em pedaços. Paliados aquelles dias de 
fefta , leixou alli Pêro Barreto com os na- 
vios pequenos pêra guarda da coita , e eíle 
Vifo-Rey partio-fe pêra Cochij , onde foi 
recebido com grão folemnidade de procif- 
■ são. de toda aClerizia, e Cruzes da Igreja. 
Tornando. delia de dar graças pela mercê que 
tinha recebida de Deosnaquella jornada com 
aquella pompa de toda a gente que o acom- 
panhava , poíta em ordem cada hum com as 
iníignias da vidtoria que trazia , geralmen- 
te veítidos de feftas , e elle Vifo-Rey corn 
huma opa de brocado , e diante fuás ma- 
ças , e trombetas , atabaíes i que denuncia- 
vam o triunfo de fua viítoria , quando che- 
gou á porta da fortaleza , que Jorge Barre- 
to Capitão delia lhe quiz entregar as cha- 
ves , fegundo feu ufo , começou AiFonfo 
d'Alboquerque , que o acompanhou té alli 5 
de requerer a elle Vifo-Rey > que lhe entre- 
gai 



320 ÁSIA de JoXo de Barros 

gaíTe a governança da índia , como lhe EI- 
Rey mandava , quaíi em modo que fe não 
foíle apoufentar na fortaleza , pois era fua 
per as Patentes d'E!Rey , que levava na mão. 
Ao que o Vifo-Rey refpondeo , que lhe lei- 
xaile tirar dos hombros aquella capa tão pe- 
zada que trazia , e lhe dera o caminho don- 
de vinha , e que depois t,udo fe faria como 
foíle ferviço d'ElRey feu Senhor. E porque 
AlFonfo d'Aiboquerque chamou per Janef- 
tão Efcrivao da fua náo Cirne, que levava 
pêra cite eíreito , dizendo que lhe déífe hum 
eftromento daquelle requerimento que fazia y 
o Vifo-Rey lhe não refpondeo coufa algu- 
ma , e deo a andar , recolhendo-fe pêra den- 
tro da fortaleza em modo que o não que- 
ria ouvir ; com que elle Affonfo d'Alboquer- 
que ficou mui confufo , etornou-fe pêra on- 
de poufàva , acompanhado de alguns pou- 
cos que já o feguiam , como fucceíTor da 
governança da índia. Entre os quaes era Ruy 
d 5 Araújo Thefoureiro , e Gafpar Pereira Se- 
cretario do Vifo-Rey, que não foi com el- 
le por doente ; e outros quizeram dizer não 
fer aíli , mas que bufcou efte modo pêra 
tecer contra o Vifo-Rey o que entre elle, 
e Affonfo d'Alboquerque fe paífou , porque 
também havia de ficar fer vindo com elle de 
Secretario , e mais elle era homem pêra re- 
volver huma paz de ânimos entre as taes 

pef- 



Deg.IÍ. Lív.III. Cap.VII. e VIII. 321 

peíToas ; e peró que ao prefentc AíFonfo d'Al- 
boquerque recebia feus confeihos por favo- 
recerem o feu negocio , depois que gover-* 
nou a índia , elle o conheceo bem , e fe 
queixava dos artifícios defua vida, e da fua 
lingua , e penna. O Vifo-Rey recolhido na 
fortaleza , naquelle dia , e nos dous feguin- 
tes nao entendeo em outra couía fenão em 
feitas, e prazer, fendo viíitado d'ElRey de 
Cochij , que lhe veio dar a prolfaça daquel- 
la vidoria. 

CAPITULO VIII. 

De algumas diferenças , que pajfdram 
entre Ajfonfo d? Alboquerque , e o Vifo-Rey 
fobre a entrega da governança da índia > 
donde procedeo fer Ajfonfo d* Albuquerque 
levado de Cochij a Cananor , e foi entre- 
gue a Lourenço de Brito , que o teve té 
a chegada do Marichal. 

PAíTados os primeiros dias da chegada 
do Vifo-Rey , começaram os Capitães , 
que fe vieram de AíFonfo d'Alboquerque 7 
e outros Fidalgos , e peíToas que niíTo lhe 
parecia comprazerem ao Vifo-Rey , de lhe 
aconfelhar, que em nenhum modo entregai- 
fe a índia a AíFonfo d'Alboquerque , aflen- 
tando que era homem de pouco foíFrimen-* 
to pêra mandar gente , e de tão máo go- 
tom.lL P.L X ver- 



322 ÁSIA de João de Barros 

veríio, que lançaria a índia a perder; epof- 
to que lhe EIRey mandaíle Provisões pêra 
o íucceder nella , feria por não ter fabido 
as coufas que fez em Ormuz, caufa de fe 
perder. O Vifo-Rey pofto que déífe orelhas 
a iíTo , fua refpofta era , que quando foííe 
tempo elíe lhe havia de entregar a índia, 
pois EIRey feu Senhor o mandava , e quan- 
do a JançalTe a perder , a culpa não feria 
fua. Finalmente o negocio chegou a tanto 
por eftas coufas , que o Vifo-Rey dizia , que 
lè ajuntaram alguns Fidalgos , e per eferi- 
to aífignado per todos em modo de reque- 
rimento, mandaram eíle papel ao Vifo-Rey 
per Manuel Paçanha , aprefentando algumas 
coufas per que convinha a ferviço d'ElRey 
não fer AíFonfo d'Alboquerque mettido de 
poífe da governança da índia , té fua Al- 
teza fer fabedor delias. E porque noíTa ten- 
ção he em todo o decurfo deita noífa Afia 
eferever fomente a guerra que os Portugue- 
zes fizeram aos infiéis , e não a que tiveram 
entre íí , não efperem alguém que deitas dif- 
ferenças do Vifo-Rey , e AíFonfo d'Albo- 
querque , e afli de outras que ao diante paf- 
fáram , fe haja de eferever mais , que o necef- 
fario pêra entendimento da hiftoria , por não 
macular huma eferitura de tão illuílres fei- 
tos com ódios , invejas , cubicas , e outras 
coufas de tão máo nome ? de que aíli os 

ven- 



Dec. II. Liv. III. Cap. VIII. 323 

vencedores , como os vencidos podiam per- 
der muita parte de feus méritos. Porque 
acerca dos barões de prudência , quando hão 
de julgar méritos de vida alheia , mais olho 
tem ao difcurfo de como fe houve em os 
negócios entre os amigos 5 que ao pelejar 
com os imigos , porque neíla parte fe vê a 
fortuna de cada hum , e na primeira a vir- 
tude. Pola qual razão leixadas muitas par- 
ticularidades , que per meio de máos ho- 
mens fe teceram de numa 5 e de outra par- 
te , veio o negocio a tal eftado , que o Vi- 
fo-Rey cahio em culpa por muito confiar 
de íi , e AfFonfo d'Alboquerque por defcon- 
fiado. Da qual divisão que entre elles hou- 
ve , os principaes revolvedores , foram : 
Gafpar Pereira , e Ruy d' Araújo , por par- 
te de AfFonfo d'Alboquerque j e pola do 
Vifo-Rey , António de Sintra , que fervia 
com elle de Secretario , e André Dias , que 
era Feitor , o qual depois foi Alcaide de 
Lisboa. Per meio dos quaes não fomente 
fe bufcou favor entre os Capitães pêra ca- 
da huma deitas duas partes , mas ainda acer- 
ca d'ElRey de Cochij , porque lhe dizia An- 
dré Dias , e António de Sintra , que no Vi- 
fo-Rey eítava entregar a índia a AfFonfo 
d'Aíboquerque , quando elle quizeíTe , por 
quanto EIRey lhe mandava que eíla entre- 
ga foííe ao tempo que fe houveífe de em- 

X ii bar- 



324 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

barcar pêra eíle Reyno. Gafpar Pereira , e 
Ruy d 5 Araújo por parte de Affoiífo d'Al- 
boquerque desfaziam ifto com outras ra- 
zoes de maneira , que íufpcndêram a EI- 
Rey pêra entreter a pimenta , que o Vifo- 
Rey mandava recolher pêra o tempo da che- 
gada das náos , que aquellc anno partiram 
deite Reyno , acharem a carga preítes. O 
Vifo-Rey fentindo donde procedia não acu- 
dir a pimenta , mandou fobre ifíb alguns 
recados a EIRey , o qual por fatisfazer a 
elles , enviou Candagóra hum Veador da 
fua fazenda , e Farengóra feu Efcrivão , hu- 
ma feita feira fete de Setembro , per os quaes 
jhe mandou moftrar huma carta , per que 
EIRey D. Manuel lhe fazia faber como o 
mandava vir pêra o Reyno , e que Affonfo 
d'Alboquerque ficafle por Capitão geral, e 
Governador da índia. E por quanto elle 
per aquella carta eftava certo da vontade 
d'E!Rey , como feu irmão , e fervidor que 
era , em nenhum modo havia de mandar 
acudir com a pimenta , fenão á peífoa que 
elle mandava que governaíTe a índia ; que 
a entregaíTe elle como lhe EIRey manda- 
va 5 fegundo tinha vifto per aquella carta , j 
e per as patentes que Affonfo d'Alboquer- 
que lhe mandara moftrar , então elle man- 
daria que a pimenta correífe ao pezo. 
Vifo-Rey vendo que eíle negocio podia che 

gar 



Dêc. II. Liv. III. Cap. VIII. 325- 

gar a mais damno pelos recados que fobre 
iílo foram , e vieram d'ElRey , fem fe que- 
rer mudar deite propoíito , mandou chamar 
todolos Capitães , Fidalgos , e Officiaes da 
Feitoria , aos quaes propoz os termos em 
que eftava com EiRey de Cochij íbbre a 
carga da pimenta 3 em o qual ajuntamento 
houve dous votos : hum foi , que em nenhu- 
ma maneira AíFonfo d'Alboquerque foíTe en- 
tregue da índia , ante merecia prezo , e en- 
viado ao Reyno com os autos de fuás cul- 
pas ; e o outro , que a governança fe lhe 
devia entregar á chegada das nács , c que 
fe algumas culpas tinha , que prccedeíTe elle 
Vifo-Rey judicialmente nellas , e o fenten- 
ceaííe. Finalmente debatido efte cafo , per 
darradeiro fe aíTentou , que em quanto não 
hiam as náos que fe defle Reyno efperáram 
aquelle anno 3 em as quaes elle Vifo-Rey 
aííentava que fe havia devir, AíFonfo d'Al- 
boquerque náo devia eftar em Cochij; eque 
convinha muito ao ferviço d'ElRey fer le- 
vado a Cananor , e fe entrcgaííe a Louren- 
ço de Brito , que em modo de cuílodia o 
tiveífe té a vinda das náos , pêra que Ei- 
Rey de Cochij mandaííe dar a carga da pi- 
menta , e Gafpar Pereira , c Ruy d'Afaujo , 
como authores de toda efta difcordia , e fer- 
viço d'E!Rey 3 foíTem prezos , e enviados 
ao Reyno , e aíli outros que com eiles ur- 
diam 



326 ÁSIA de João de Barros 

diam eílas differenças. AíTentada eíta deter- 
minação , mandou logo o Vifo-Rey dalli a 
António de Sintra como Secretario , e a An- 
dré Dias Feitor , e a Diogo Pereira , e Pe- 
dro Homem Efcrivães da Feitoria ? que fe 
foflem a cafa de Aífonfo d'Alboquerque , 
e notificando-lhe aquelle acordo , o levaffem 
ante li da parte deile Vifo-Rey , e o met- 
teíTem em a náo Saníto Efpirito , Capitão 
Martim Coelho , que por citar naquella con- 
fulta , fabia já o que havia de fazer dellc. 
Chegados eftes quatro Officiaes a cafa de 
AfFonfo d'Alboquerque , fendo-lhe notifica- 
do o mandado que levavam , pedio eítro- 
mento daquella íua prizão , dizendo que de- 
claraíTem no auto delia como o prendiam , 
tendo na mão as Patentes per que EIRey 
lhe mandava entregar a governança da ín- 
dia. Levado per elíes a Martim Coelho , 
que o foi entregar a Lourenço de Brito , 
ainda aqui em Cananor alguns homens , mof- 
trando que lhe faziam niílb amizade , lhe 
caufavam defafocego com cartas , e juizes 
da prizão ; e chegaram a tanto , que lhe 
mandaram huma carta a grão preflà per Pa- 
tamares per terra poucos dias ante que as 
náos deite Reyno lá chegaílcm , dizendo que 
fe puzeíTe em falvo , por quanto o Vifo- 
Rey mandava Fernão Peres d' Andrade em 
huma caravella pêra o levar dalli a alguma 

ou- 



Dec. II. Liy. III. Cap. VIII. 327 

outra parte de mais afpera prizao. As quaes 
cartas aífí o temorizáram , que hum , ou 
dous dias ante que Fernão Peres chegaíTe a 
Cananor com recado que lhe o Vilò-Rey 
mandava , elle Affonfo d'Alboquerque pe- 
dio licença a Lourenço de Brito , que o ki- 
xaile ir a N. Senhora da Vidloria , huma 
Ermida que eftá na ponta de Cananor , que , 
(como atrás diífemos , ) mandou fazer Dom 
Lourenço. E tornado da Ermida , eílando 
á porta da fortaleza por cumprir íua pala- 
vra de fe tornar alli , começou bradar peias 
feus que o livraflem da prizão , os quaes 
como eílavam já preíles pêra aquelle effeito , 
o tomaram , e tornaram á Igreja , fem Lou- 
renço de Brito querer acudir a iííp d i Alum- 
iando o cafo ; porque quando Fernão Pe- 
res chegaíTe , não o pudelTem levar pêra o 
lugar onde eílava. Porém elle o tirou daíli 
per modo mais differente do que Áffoníb 
d'Alboquerque cuidava por razão das car- 
tas , que lhe de Cochij tinham eícrito , por 
outras que levava do Viíb-Rey a Louren- 
ço de Brito , tudo febre elle AíFonfo d'Al- 
boquerque, em que lhe pedia muito que o 
tiraííe de alguma paixão fe a tinha , e foife 
tratado como quem havia de governar a 
índia , a qual elle efperava em Deos de lhe 
entregar tanto que as náos do Reyno em 
boa ora chegaíTem. E affi deo outra carta 

a Af- 



328 ÁSIA de JoXo de Barros 

a AíFonfo cPAlboquerque efcrita per efte mo- 
do de maneira , que ficou aiíocegado dos 
fobrelaltos que cada dia tinha. E diílimu- 
lando o psflado , c a cauía de ambas eítas 
mudanças , fe tornou á fortaleza , fem Lou- 
renço de Brito lhe poer taixa no andar per 
dentro , ou per fora , ante o tratou fegundo 
os merecimentos de fua peflba , té que o 
Marichaí chegou alli , o qual partio defte 
Reyno , como fe verá nefte feguintc Capitulo. 

CAPITULO IX. 

Da Armada , que E/Rey D. Manuel 
mandou d índia o anno de quinhentos e 
nove , de que foi por Capitão mor o Mari- 
chaí D. Fernando Coutinho , o qual chega- 
do a Cananor levou comjigo a Ajfonfo d AU 
boquerque a Cochij , onde foi mettido d.e pof 
fe da governança da índia : e partido o 
Vifo-Rey pêra ejte Reyno per hum trifle ca- 
fo veio morrer na Aguada de Saldanha 
com a flor da gente que trazia. 

ELRey D. Manuel como tinha fabido 
da grande Armada que o Soldão do 
Cairo fazia em Suez per Fr. Diogo do Ama- 
ral ? que lhe deílruio muita parte das náos 
da madeira , fegundo diíTemos , tanto que 
foube fèr eíla Armada partida daquelle por- 
to de Suez , e do apparato > e gente que 

le- 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 329 

levava , poílo que neíle anno de quinhen- 
tos e nove ainda não era vindo nova do 
feito que ella na índia fez , na morte de 
D. Lourenço , nem da neceíTidade em que 
eftava pofta , fomente com as cartas que lhe 
o Vifo-Rey efcreveo , quando o Çamorij de 
Calecut trabalhava com ajuda de todolo.s 
Mouros da índia de nos lançar delia ; or- 
denou de mandar efte anno de nove huma 
groíTa Armada , aífi em número de gente , 
como de náos ? e munições , a capitania mor 
da qual deo aoMarichal D. Fernando Cou- 
tinho filho de D. Álvaro Coutinho. Ao qual 
EIRey nefta ida deo grandes poderes , e o 
fez izento de Capitão mor da índia ; e fe- 
gundo as provisões públicas , e fecretas que 
levava , parece que EIRey foi avifado que 
entre Aítonfo d'Alboquerque , e o Vifo-Rey 
fe efperava alguma divisão fobre a entrega 
da governança da índia , do qual avifo al- 
guns quizeram dizer que o author fora Gaf- 
par Pereira Secretario do Vifo-Rey , que ? 
como aííima diflemos , era homem que tu- 
do fabia fer s author , juiz , e réo. E não 
fomente hia o Marichal provido pêra efte 
cafo , mas ainda levava na frota três mil 
homens pêra dar na Cidade Calecut , que 
naquelle tempo era a maior competidor que 
íinhamos. A qual Armada era de quinze ve- 
las , cujos Capitães eram elle Marichal Dom 

Fer- 



330 ÁSIA de JoÃo de Barros 

Fernando , Francifco de Sá Veador da fa- 
zenda do Porto 5 filho de João Rodrigues de 
Sá , Baíliao de Soufa d'Elvas , Lionel Cou- 
tinlio filho de Vafco Fernandes Coutinho , 
Ruy Freire filho de Nuno Fernandes Frei- 
re , Jorge da Cunha , Francifco de Soufa de 
alcunha Maneias , Rodrigo Rabello de Caf- 
tello-branco , Braz Teixeira , Francifco Ma- 
recos 3 Álvaro Fernandes Cavalleiro da cafa 
d'ElRey , e Jorge Lopes de alcunha Bixor- 
da 5 e Francifco Corvinel , que eram arma- 
dores das náos em que Jiiam. E em o nu- 
mero de todos homens deita frota , entra- 
vam muitos Fidalgos Cavalleiros , c mora- 
dores da cafa d'ElRey , e outra gente lim- 
pa , porque fe começavam as couías da ín- 
dia moílrar ferem maiores do que té li tí- 
nhamos fabido 5 e pêra que convinha maior 
força ^ e número de gente da que coíluma- 
va ir ; pola qual caufa foi efta huma das 
principaes Armadas que deíle Reyno parti- 
ram pêra aquella parte 5 e foi a doze de 
Março de quinhentos e nove. A qual com 
tempos contrários que teve , peró que che- 
gou inteira a Moçambique ? foi já em vinte 
e féis d'Agoíto; e fomente delia não paífou 
Francifco Marecos 5 e de duas náos que alli 
invernáram vindo da índia ? de que eram 
Capitães Álvaro Barreto 5 e Triftão da Sil- 
va , foube o Marichal o apercebimento que 

o Vi- 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 331 

o Viíb-Rey fazia pêra ir fobre os Rumes, 
e o eílado em que a índia ficava. E por fer 
já tarde , não fe deteve em Moçambique 
mais que dous dias , onde leixou António 
de Saldanha com a gente que com elle ha- 
via de ficar em Çofala , de que hia provi- 
do por Capitão ; e expedido de Moçambi- 
que , foi fazer fua aguada em as Ilhas de 
Pemba , onde lhe houveram de enxovalhar 
huma pouca de gente ; porque defcuidan- 
do-fe dos Negros da terra por aili andar 
Gonçalo Vaz de Góes , e invernar João da 
Nova ? fem acharem a gente elquiva , haviam 
fer toda pacifica , e tratavel. Peró elles per 
qualquer caufa que foííe , em os noflbs fa- 
hindo a fazer fua aguada i fahíram a elles 
de huma cilada onde os efperavam de ma- 
neira , que com efte ímpeto os fizeram reco- 
lher hum pouco apreífadamente , vindo já 
alguns feridos de frechadas. O Marichal 
por a terra fer mui fragofa 3 e não mui def- 
cuberta d ? arvoredo , não quiz tomar emen- 
da delles , porque também queria aprovei- 
tar o tempo por fer tarde : partio-fe dalli 
atraveflando aquelle golfão , em meio do 
qual lhe deo hum tempo , que fez apartar*- 
fe delle Gomes Freire , o qual cuidando que 
levava o Marichal diante , rnetteo bem a 
vela , com que foi o primeiro que chegou á 
cofia da índia já em Oclubro. Do qual 

hou- 



332 ÁSIA de João de Barros 

houveram viíla Simão cT Andrade, e Jorge 
Fogaça , que andavam em dous navios na 
paragem de Baticalá em olho da vinda das 
náos , com defejo que o Vifo-Rey tinha da 
fua chegada. E tanto que Simão d'Andrade 
per Gomes Freire ibube quão poderofamen- 
te o Marichal hia , a grão preíTa foi dar 
eíla nova ao Vifo-Rey , e o mefmo Gomes 
Freire a levou a Cananor a Aífonfo d'Al- 
boquerque , onde quiz cfperar o* Marichal , 
e aíli hum como o outro ficaram confufos 
dos poderes , e potencia que o Marichal le- 
vava. Finalmente chegado elle a Cananor , 
ficaram fuás coufas públicas , porque logo 
dalli com acatamento de Governador da ín- 
dia , levou Aífonfo d' Alboquerque a Cochij , 
onde chegaram a dezoito de Oélubro. Peró 
ante que elle Marichal partiífe de Cananor , 
o Vifo-Rey lhe mandou quatro navios , e 
huma galé mui bem armados com a mais 
nobre gente que tinha comílgo ; e além do 
refrefeo , em huma carta que lhe efereveo 
com as palavras que fe requerem a tal che- 
gada , lhe dizia que por ter fabido , ( fe- 
gundo a nova que deo a náo de Gomes 
Freire , ) que fua mercê havia de dar em 
Calecut , e hão fabia fe havia de fer ante 
de fe verem ambos , lhe mandava aquelles 
navios pequenos , que ferviam pêra o tal lu- 
gar , e.que a gente que neilas hia, pedia 

fua 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 333 

fua mercê crer que o haviam de fervir mui- 
to bem naquelle feito por fer coftumada 
áquelles trabalhos ; e que fc a fua peííba 
aproveitafle pêra o ir ajudar, que clle o fa- 
ria de muito boa vontade. Ao que o Ma- 
nchai refpondeo com lhe beijar as mãos por 
aquella honra, e que fe elle alguma coufa 
houveíTe de fazer , em que efperaíTe de a 
ganhar , não havia de fer fenão com fua 
ajuda , e confelho. Peró eftas palavras náo 
refpondêram ao modo que fe depois teve 
com a embarcação do Vifo-Rey , de que 
elle não foi mui contente , e a primeira cou- 
fa que lhe fizeram , foi , que tendo elle con- 
certada a náo Flor de la mar pêra vir nel- 
la , tomáram-lha , e deram-lhe a náo Gar- 
ça , em que de cá foi Ruy Freire. E de- 
pois de embarcado per máo aviamento que 
lhe davam , efteve obra de vinte dias, em 
que recebeo muitos defgoftos ; e chegou efte 
ódio a tanto , que indo a terra hum pajé 
feu chamado Ruy Temudo , per homens 
defconhecidos foi tratado de maneira, que 
efteve alguns dias em cama ; e com eftas , 
e outras honras em galardão dos trabalhos 
que paífou na índia , ella o efpedio , e elle 
aleixou, partindo deCochij a dezenove de 
Novembro. Em companhia do qual veio 
Jorge de Mello em fua náo Belém , que 
de cá foi y e a náo Sandia Cruz , fenhorio 

Jor- 



334 ÁSIA de JoXo de Barros 

Jorge Lopes Bixorda , e nella por Capitão 
Lourenço de Brito , em as quaes vinham 
muitos Fidalgos , e Cavalleiros da Camará 
do tempo deile Vifo-Rey. O qual chegado 
a Moçambique deteve-fe alJi vinte e quatro 
dias , em quanto fe tomou huma aguada, 
que pela roda faziam a náo Belém ; e tor- 
nado afeu caminho, paíTou com bom tem- 
po o Cabo de Boa Eíperança , e como quem 
fe havia por navegado , diíTe : Jd agora , 
louvado Deos , as feiticeiras de Cochij fi- 
caram mentirofas ; e ifto era , porque na 
índia andava na boca d'alguns , que elle 
não o havia de pairar, o qual prognoftico 
diziam proceder das feiticeiras da terra* 
E como vinha neccflltado d'agua , e detrás 
do Cabo eftava aguada , a que chamam de 
Saldanha , (de que já efcrevemos , ) mandou 
aos Pilotos que a foíTem tomar , onde por 
fe os homens recrearem da trifteza do mar , 
deo licença que quando os bateis foflem em 
terra fazer aguada , fahiílem alguns homens 
a fazer refgate com os Negros , que logo 
acudiram á praia , como viram as náos fur- 
tas. Com a qual licença por os Negros an- 
darem com os noílbs mui familiares de da- 
rem gado a troco de pedaços de ferro , 
e pannos , que elles muito eftimam , toma- 
ram alguns outra licença de ir com elles ás 
fuás aldeãs 7 que era daili perto de huma 

le- 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 335- 

légua j nas quaes idas alguns perderam os 
punhaes que levavam por lhos elles toma- 
rem , e qualquer coufa que lhe bem pare- 
cia. Por fe vingar da qual força , hum Gon- 
çalo homem criado do Vifo-Rey , trouxe 
dous delles enganofamente carregados de 
certas coufas que lhe comprara ; e como os 
Negros de má vontade queriam chegar á 
praia fufpeitofos da malicia delle , e elíe 
hum pouco forçofamente os quizeíTe obri- 
gar, leixáram o que traziam, e affi o tra- 
taram , que fe veio elle aprefentar ante o 
Vifo-Rey com os fucinhos feitos em fan- 
gue , e alguns dentes quebrados. O qual 
cafo foi a tempo que eílavam com o Vifo- 
Rey algumas peíToas , cujos criados tinham 
recebido dos Negros outra tal companhia , 
principalmente hum Fernão Carrafco cria- 
do de Jorge de Mello ; e tanto fe indigna- 
ram todos dos Negros , que moveram ao 
Vifo-Rey a ir á aldeã dar-lhe hum caíligo , 
mais por comprazer aquelies Fidalgos que 
o incitavam , que a fua própria indignação , 
pofto que alguns delles foram contra iíTo, 
aífi como D. Lourenço de Brito , Jorge de 
Mello , e Martim Coelho. E porque as al- 
deãs eftavam hum pouco aífima do poufo 
das náos , por andarem menos caminho a 
pé 5 ao outro dia com obra de cento e fin- 
coenta homens y que era a flor de toda a 



336 ASIÀ de JoXo de Barros 

gente , em os bateis foi-fe ao longo da praia 
hum bom pedaço té as aldeãs lhe ficarem 
mais perto. E fahindo aqui em terra , man- 
dou a Diogo d'Qnhos meílre da fua náo 
que em os bateis ficava , que fe não movef- 
fe dalli : parece que o feu efpirito lhe dizia 
quanta neceflidade havia de ter delles ; e no 
pejo que levava naquella ida lhe prognofti- 
cava fua derradeira hora , porque depois que 
concedeo efta ida áquelles Fidalgos que o 
forçaram a iífo , fcmpre dilTe , e fez couías 
como quem denunciava fua morte. Entre 
as quaes ao fahir da náo entrando no ba- 
tel , como quem queria que foubeíTem que 
fazia aquelle caminho forçado , difle : On- 
de levam fejfenta annos ? Depois indo já 
pela praia , acertou de fe lhe metter huma 
pouca de arêa nos çapatos , e mandando a 
hum João Gonçalves , que fervia de cama- 
reiro , que lhos defcalçaífe , começou efte 
João Gonçalves bater hum no outro por fa- 
cudir a arêa. Ao que elle diífe : Quão fora 
eftava D. João de Menezes , fe aqui fora y 
e ouvira effe teu bater de çapatos , d.ar 
mais hum pajjò adiante , ainda que fora 
fera dar huma batalha de muito fua hon- 
ra \ mas como eu creio em Deos mais , que 
em abusões , não leixarei de feguir meu ca- 
minho. E o cafo que o Viio-Rey allegava 
de D.João de Menezes ; era por fer coufa 

mui 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 337 

mui fabida no Reyno , que tinha elle agouro 
em duas coufas ? nefte bater dos çapatos , 
e em terça feira ; a eaufa diíTo era , porque 
fendo elle Guarda-mór do Príncipe D. Af~ 
fonfo, ao tempo que em Santarém cahio do 
cavallo de que morreo , hia correndo mão 
por mão com elle ao longo do Tejo em 
Alfange , na qual hora hum moço , que fahia 
de nadar do Tejo , cpmeçou de bater os ça- 
patos da arêa que ao calçar achou dentro. 
E porque nefte inftante de bater cahio o 
Príncipe , e mais foi em terça feira , teve 
D. João por aquelle defaftrado cafo agouro 
naquellas duas coufas ; e eram ellas tão no- 
tórias no Reyno , que em quanto efteve em 
■Arzilla por Capitão, e depois emAzamor, 
já os moradores tinham por certo que não 
havia de commetter algum feito em terça 
feira , ou o dia que ouviíTe bater com hum 
capa to no outro. E de terem ifto por mui- 
to certo , querendo D.João , eftando em Ar- 
zilla ? fazer huma entrada em humas aldeãs y 
que foi hum dos honrados feitos , que elle 
fez , ( como fe verá em a noífa Africa 5 ) 
porque era no inverno , e dia mui afpero de 
chuva, por razão do qual tempo os frontei- 
ros , e moradores hiam de má vontade áquel- 
la entrada , ordenaram três , ou quatro por 
agourar a D. João , e lhe impedir a ida j man- 
dar-lhe bater hum capato per hum moço á 
Tom. II. P.I. Y por- 



338 ÁSIA de João de Barros 

porra da Villa em ellc paíTando. Però como 
D. João entendeo o artificio , e conhccco que 
o moço era de hum homem , que ás vezes 
nas aífrontas íe aproveitava dos pés , difíe 
ao moço : Dirás a teu Senhor , que em pe- 
nitencia do que merece , por ijjò que tu fa- 
zes , nao lhe quero dar maior pena que 
a que elle leva por ir nefta jornada , onde 
eu fei que fe ha elle de aproveitar mais 
dos feus pés y que dos teus çapatos. Ditas 
as quacs palavras, com muito alvoroço lan- 
çou o cavallo , tomando aquella travefíura 
por prognoftico da victoria , que houve : O 
que no Vifo-Rey foi ao contrario , que el- 
le zombou do bater ? que acontecco acafo , 
e commettia aquelle caminho trifte , e peza- 
damente ; e D. João zombou do artificio , 
e por iílb feguio feu caminho alegre , e com 
efperança da vi6toria 5 que lheDeos deo. E 
delia tal trifteza , ou alegria , com que os 
homens vam ás coulas , vieram alguns di- 
zer , que o animo humano era profeta de to- 
dolos feus acontecimentos , o qual cafo nao 
tardou meia hora que o Vifo-Rey notou no 
primeiro toque da fua chegada á aldeã dos 
Negros. Porque entrada elk dos noífos , ma- 
taram Fernão Pereira filho de Reimão Pe- 
reira; e alguns querem dizer que foi deíaf- 
tre , que andando elle per dentro das caías 
palhaças > que de fora hum dos noííos cor- 

reo 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 339 

reo a lança , quando dentro fentio arrama- 
lhar , cuidando fer Negro , com que o pafíbu 
da outra parte. Chegando a qual nova ao 
Vifo-Rey, diíTe : Pois eu fou encetado em 
Fernão Pereira , em mais hei de acabar \ 
e a grande prcíía mandou recolher a gen- 
te. E vindo já bom pedaço de aldeã trazen- 
do o rolo da gente , algumas vacas , e crian- 
ças que acharam pelas caías , começaram 
defcer do^lugar donde os Negros fe acolhe- 
ram com o primeiro temor 9 té oitenta del- 
les , como gente que fe vinha offerecer á 
morte porfalvar os filhos. Lourenço de Bri- 
to , quando vio o ímpeto com que vinham , 
entendendo a caufa delle , diíTe contra aquel- 
les que traziam as crianças : Leixai vós-ou- 
tros ejjes bezerros , que aquellas vacas não 
vem mugindo , mas bramando trãs elleSy 
mas os Negros ainda que alguns dos noífos 
começaram alijar as crianças , e alguma mi- 
feria do que traziam da aldeã , vinham já 
tão furiofos , que paliando per tudo , deram 
no corpo da noíía gente, tomando por in- 
■duftria cariar o feu gado. O qual como tem 
acoftumado pêra aquelle mifter da peleja , 
começaram de lhe aíToviar , e fazer outras 
noticias per que o mandavam de maneira, 
que inettidos entre elie como emefquadrao 
de feu amparo , dalli era tanto o páo tofía- 
\do fobre os noífos que começaram logo 

Y ii de 



34° ÁSIA de João de Barros 

de cahir alguns feridos , e trilhados do ga- 
do. E como os mais delles não traziam ar- 
mas defenfívas , c as offenílvas era huma 
lança , e huma efpada , naquelle modo de 
pelejar não podiam fazer muito damno aos 
Negros , e elles de dentro do gado faziam 
remeííos, que derribavam logo hum homem* 
No qual modo de peleja vindo os noflòs 
bem canfados , e*pera tomar hum fôlego, 
onde o Vifo-Rey mandou a Diogo d'Unhos 
que efperaffe com os bateis , não os acha- 
ram 3 por fazer alli grande marejada com 
tempo que fobreveio , que caufou levar dal- 
li os bateis pêra junto das náos de manei- 
ra , que onde elles efperavam achar algum 
refugio , acharam a morte. Porque come- 
çando de entrar na arêa da praia , ficaram 
de todo decepados fem poderem dar paflb , 
e os Negros andavam fobre elles tão leves , 
e foltos , que pareciam aves , ou , ( por me- 
lhor dizer , ) algozes do demónio , que vinha 
derribando na gente nobre , que por amor 
do Vifo-Rey fe vinha entretendo , que a 
outra commum com a primeira preá que 
houveram fe puzeram na dianteira. E o mais 
piedofo deite cafo era , que alguns homens 
já mui feridos , que de não poderem pela 
arêa folta dar hum paífo , mettiam-fe pela 
agua por achar o chão mais tefo , tingindo 
o mar com o fangue que vafava delles. No 

qual 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 341 

qual trabalho, onde huns não eram por ou- 
tros , veio Jorge de Mello dar com o Vií 
So-Rey ; e vendo que vinha hum pouco des- 
amparado da gente , por cada hum ter bem 
que fazer em Si , como elle Jorge de Mello 
fobre as coufas d'antre Affonfo d'Alboquer- 
que , e elle Viíb-Rey vinha hum pouco des- 
contente delle, diíle-lhe: Aqui quizera eu , 
Senhor , ver derredor de vós aquelles , a 
que vós fizefies honra , forque efie he o 
tempo , em que fe pagam as boas obras. 
Ao que refpondeo o Vifo-Rey : Senhor Jor- 
ge de Mello , os que me deviam alguma 
coufa 5 já ficam detrás de mim , não he 
tempo pêra ejjas lembranças , fenao pêra 
vos lembrar vo/Ja fidalguia : epeço-vos por 
mercê que acompanheis , e falveis aquel- 
la bandeira d^ElRey Nqffò Senhor ^ que vai 
maltratada , que eu idade , epeccados tenho 
pêra acabar aqui 5 pois a N. Senhor apraz. 
No qual tempo eram já derribados Pêro 
Barreto de Magalhães , Lourenço de Brito, 
Manuel Telles , Martim Coelho , António 
do Campo , Francifco Coutinho 5 Pêro Tei- 
xeira , Gafpar d 5 Almeida , e outros. Jorge 
de Mello , em quanto pode , aíTi a bandei- 
ra 5 como a peílba do Viíb-Rey Sempre 
acompanhou , té que a morte o derribou de 
todo com huma lança de arremeíío 5 que lhe 
atraveflbu a garganta , vindo já bem ferido 

de 



342 ÁSIA de João de Barros 

de pedradas , e páos toftados. E ouvindo 
Diogo Pires ayo de D. Lourenço dizer , que 
o Viíb-Rey ficava derribado , voltou atrás , 
dizendo : Nunca Deos queira que eu fique 
vivo , leixando cá o filho , e o pai ; e tor- 
nou íobre elle , onde também ficou pêra fem- 
pre. Finalmente efte foi o mais defaftrado 
cafo que neíle Reyno aconteceo j porque os 
Negros feriam té cento e fetenta , e os noííòs 
cento e fincoenta , da mais limpa gente que 
vinha em as náos. Dos quaes paífante de 
fincoenta j em que entravam doze Capitães , 
vieram acabar naquella praia a poder de 
páos, e pedras , fahidas não da mão de gi- 
gantes , ou de alguns homens armados , mas 
de Negros beíliaes dos mais brutos de toda 
aquella cofta , fem aproveitar a eíles mor- 
tos , e feridos a grandeza do feu animo , 
nem a induftria de fua prudência executada 
per tantos tempos em tao illuftres feitos , 
como tinham acabado na índia , e em ou- 
tras muitas partes, militando por feu Deos, 
e por feu Rey, Somente hum pequeno ca- 
minho , e huma pouca de arêa aíTi os de- 
cepou em fraqueza , que com verdade fe 
pode dizer eftas duas coufas ferem a princi- 
pal caufa de fua morte ; porque muitos ho- 
mens affi traziam a força dos nervos tão re- 
laxada j que fe leixavam cahir , e á mão te- 
nente fem refiftejicia os Negros lhes macho- 

ca- 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 343 

cavam as cabeças com grandes feixos da 
praia. Certo quem coníiderar no diícuríb 
dos feitos doVifo-Rey, Capitães, e Fidal- 
gos, que com elle pereceram, e vir onde, 
como, e per que caufa aili vieram acabar, 
poílo que não entenda os juizos de Deos , 
entenderá tudo fer feito pêra exemplo nof- 
fo ; e que ninguém , em quanto vive , fe 
pode chamar bem affortunado , fenão quan- 
do os.cafos da fortuna nelle não tem po- 
der, que he depois da morte. E os que fi- 
caram livres de ter a fepultura naquella praia , 
quaíi todos foram feridos daquellas armas 
rufticas ; e entre muitas feridas a mais no- 
tável foi de Jorge Lopes Bixorda armador 
da náo Sandia Cruz , o qual de huma pe- 
drada ficou com o cafco mettido per den- 
tro de maneira , que na comiflura poderiam 
metter hum ovo ; e tirado aquelle cafco que- 
brado , eítavam-lhe palpitando os miolos 
de baixo , e não havendo com que o curar 
em a náo , acertou de pôr huma gallinha 
fua hum ovo , e huma Negra pario , com o 
leite da qual , e ovos , que a gallinha poz , 
em quanto houve neceffidade ? foi curado. 
Jorge de Mello , a quem ficou o cuidado 
das relíquias, que ficaram da mão dos Ne- 
gros , depois que fe elles recolheram á fua 
aldeã , recoíheo ás náos os feridos , e tor- 
nou buícar os mortos á praia pêra lhes dar 

fe- 



344 ÁSIA de João de Barros 

fepultura nella ; e quando chegou , onde o 
corpo do Vifo-Rey jazia defpojado de quan- 
to levava veftido , e que fem lençol ainda 
o Mundo queria que íè partiífe delle , foi 
tamanha a dor de o verem jazer em tão vil 
eílado , que quantos fe alli acharam , ante 
mortos o quizeram acompanhar , que terem 
vida pêra verem aquelle miferavel efpeéta- 
culo de tão reverenda , e illuftre peííoa. Fi- 
nalmente dado fepultura a elle , e aps ou- 
tros naquelle bárbaro lugar , tornou-fe Jor- 
ge de Mello ás náos , e feito a vela , fez fua 
viagem pêra efte Reyno , onde chegou , o 
qual foi todo pofto em vafo , e dó por tão 
defaftrado cafo. E tirando o particular fen- 
timento que cada hum tinha pela parte que 
lhe tocava de algum parente , ou amigo , 
a morte do Vifo-Rey D. Francifco geral- 
mente foi mui fentida 3 por no fim de tan- 
tos trabalhos , e de tão gloriofas vi&orias , 
como lhe N. Senhor tinha dado , por cu- 
jos méritos fe efperava que EIRey , e o Rey- 
no lhe déíTe igual galardão , veio acabar 
per tão grande defaftre , com que todolos 
léus ferviços ficaram fepultados com o feu 
corpo. Foi D. Francifco d 5 Almeida filho 
fetimo de D. Lopo d' Almeida primeiro Con- 
de de Abrantes , e de D. Beatriz da Silva 
fua mulher , filha de Pêro Gonçalves Ma- 
lafaya Veador da fazenda d'ElRey D. Af- 

£on- 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 345: 

fonfo o Quinto: foi cafado com D.Joanna 
Pereira filha de Vafco Martins Moniz Com- 
mcndador de Panoyas , e Carvão : Da qual 
houve D. Lourenço , que mataram os Ru- 
mes , como efcrevemos , fendo folteiro , e a 
D. Lianor , que foi cafada com Francifco 
de Mendonça filho herdeiro de Pêro de Men- 
donça Alcaide mor de Mourão ; e depois 
de viuva delle , cafou com D. Rodrigo de 
Mello Conde de Tentúgal , que depois foi 
Marquez de Ferreira. Era D. Francifco ho- 
mem de honrada prefença , cavalleiro, de 
Confelho , e de Corte \ e por efta , e outras 
qualidades de fua peííoa mui eftimado ; e 
tanto , que fem fer Senhor de terras , nem 
ter officio 5 fomente com fua moradia , e a 
Igreja do Sardoal em Commenda com o 
Habito de Sant-Iago , era tão eftimado , que 
eftando EIRey D. João o Segundo em Be- 
navente aos montes , pondo-fe hum dia á 
meza a jantar hum pouco cedo pêra fe lo- 
go poer a cavallo , e ir ao monte . fendo 
D. Francifco prefente á meza com outros 
muitos Fidalgos , perguntou-lhe ElPvey , fe 
havia de ir com elle ao monte; e refpon- 
dendo que íl , diiTe EIRey : Vós não tereis 
ainda jantado , ajjentai-vos aqui , comereis 
comigo ; e afli o fez, fervindo a D. Fran- 
cifco os próprios Officiaes d'E!Rey. Em 
quanto andou na índia , onde ha matéria 

de 



34Ó ÁSIA de JoÃo de Barros 

de muitos vicios , foi caftiífimo , e nunca 
lhe ninguém fentio cubica , fenão de hon- 
ra ; e de lá a Igreja do Sardoal , que ; co- 
mo diíTemos , tinha em Commenda , man- 
dou renunciar em o Prior delia , dizendo 
que a comia não com boa confciencia , e 
efta moftrou em todalas fuás obras. Era tão 
efcoimado em aótos de cubica 5 que quan- 
do vinha a toitiar numa peça , que lhe El- 
Rey dava de té quinhentos cruzados na to- 
mada de qualquer preza, tomava huma fet- 
ta , hum arco , ou qualquer outra coufa de 
tão pouco valor. Foi homem , que quanto 
fatisfez com eftas boas partes que tinha , tan- 
to veio a perder acerca de alguns por fcr 
mui confiado nellas ; porque geralmente os 
homens , a quem Deos dá tantas qualida- 
des 3 le tem efta confiança < são mui mal 
acceitos acerca de muitos , principalmente en- 
tre a nação Portuguez , que concede mui 
poucas copias a ninguém. E porque nas que 
tratavam acerca do galardão das partes , em 
quanto andou na índia , aífi como accref- 
centamento de ordenados , dada de officios , 
e mercês que deo em nome d 5 ElRey , deí- 
pendeo , e adminiftrou eftas coufas fegun- 
do a confiança defua peífoa , enifto fe mof- 
trou mais magnífico Capitão , que limitado 
difpenfeiro. Teve EIRey alguns deíconten- 
tamentos deite, leu modo , e muitos que an- 
da- 



Década II. Liv. III. Cap. IX. 347 

davam debaixo da fua bandeira muito maior , 
porque aos Portuguezes mais lhes doe , e fe 
indignam polo que dam a feu vizinho , que 
polo que elles não recebem. E fabendo el- 
le na índia que cá no Reyno fe não cum- 
priram alguns ordenados , e accrefcentamen- 
tos que deo aos que militavam naquelías 
partes, dizia publicamente : Eu irei ao Rey- 
no , e aprefentarei a ElRey meu Senhor o 
Regimento que me deo \ e fe trafpajfei feus 
mandados , dando fua fazenda , ahi eftá a 
minha ; e fe não abafar pêra pagar tanto 
damno , dir-lhe-hei que outra hora não met- 
ta a efpada na mão do finde o. E de fer 
máo de contentar das qualidades dos ho- 
mens \ dizia na índia algumas vezes , que 
nefte Reyno nunca fallára de cifo , fenao 
com D. Rodrigo de Caílro de alcunha de 
Monfanto Alcaide mor de Covilhã , filho 
baftardo de D. Álvaro de Caílro Conde de 
Monfanto ,. e com D. Diogo d' Almeida Prior 
do Crato feu irmão , e deíles ditos não ga- 
nhou acerca de muitos boa vontade. Tam- 
bém dizem que o primeiro queixume ante 
eile tinha mais força pêra fe indignar , que 
a defculpa do terceiro pêra confeguir per- 
dão, principalmente acerca dos vicios que 
elle aborrecia. Depois que houve eíla trif- 
te fepultura onde acabou , vindo o anno 
de doze Chriílovao de Brito com neceílida- 

de 



348 ÁSIA de João de Barkos 

de de agua, veio ter alli; e porque Diogo 
cTUnhos vinha por meftre da fua náo , o 
qual , como diffemos , fora alli com o Vi- 
ío-Rey , e o ajudara a enterrar , e a Lou- 
renço de Brito , quiz Chrifíovão de Brito 
ver a fepultura deftes corpos por reveren- 
cia de cujos eram ; e porque os achou fem 
final de quem alli jazia , mandou a cada 
hum em lugar de campa cubrir de muita 
pedra , e em cima huma grande Cruz de 
páo. E peró que os feus corpos tem por 
fepultura aquelle tão bárbaro íitio , fem as 
iníignias da nobreza de cada hum , e fóra 
dos lugares fagrados , que a Religião Chri- 
ftã concede aos que profefsão fua Fé , deve- 
mos crer que fuás almas terão na Gloria 
lugar de eternidade entre os eleòlos de Deos ; 
e que nefte Mundo , em quanto durar efta 
nofía efcritura , fera peraelles maior louvor, 
que huma magnífica campa aíTentada em mais 
célebre jazigo. O qual lugar , fe algum nome 
tem de nobreza , he o que lhe tem dado 
aquelles corpos que alli jazem. E mais apro- 
veita pêra memoria de feus trabalhos efte 
noífo cuidado, que quanto tiveram léus her- 
deiros de ■ mandar bulcar feus oífos , e os ti- 
rar daquelle tão trifte defterro. Mas parece 
que aííi o permitte Deos pêra exemplo dos 
que vivem , porque faibam que mais devem 
fazer conta de adquirir bom nome ; que fa- 

zcn- 



Década II. Liv. III. Cap. IX 349 

zenda ? porque o nome he propriedade eter- 
na -, e ainda què feja própria de quem o 
ganhou, todos tem parte nella pêra o lou- 
var 5 e vai-fe multiplicando com efte ufo ; e 
a fazenda he tão particular , que fomente 
íeus herdeiros levam , a qual em breve vam 
diminuindo com o abufo que tem delia , dos 
quaes exemplos o Mundo eftá cheio , e efte 
noíTo Reyno não tem poucos nos herdei- 
ros daquelles , que a ganharam naquellas par- 
tes do Oriente. 



DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO IV. 

Dos Feitos , que os Portugnezes fize- 
ram no defcnbrimento , e conquiíia 
das terras 5 e mares do Oriente : em 
que fe contem o que fe fez naquellas 
partes o primeiro anno que AíFonfo 
d'Alboquerque foi Capitão geral, e 
Governador da índia. 



CAPITULO I. 

Como Affonfo d?Alboquerque \ e o Ma- 
richal D. Fernando Coutinho foram fobre 
a Cidade Calecut , no qual feito depois de 
tomada , o Marichal foi morto com alguns 
Fidalgos , e pejjbas nobres. 

PArtido D. Francifco d' Almeida , co- 
mo o tempo era breve pêra quantas* 
náos ainda ficavam pêra tomar carga , 
a qual por cauía das diíFerenças paliadas 
não eílava mui preftes , e também por ra- 
zão do feito de Calecut, em que o Mari- 
chal havia de fer , deo AíFonfo d ? Alboquer- 
que grão preífa a todas eftas coufas. E pof- 
to que no tráfego de dar carga ás náos , 
elle quizera encubra^ e embeber o aperce- 
bi- 



Década II. Liv. IV. Cap. I. 35-1 

birnento das eoufas pêra dar em Calecut, 
porque o Çamorij não foiíe fabedor delias , 
não íe puderam fazer tão fecretamente , que 
logo não foífe avifado per mercadores Mou- 
ros , que viviam. em Cochij. Com a qual 
nova , e pelos avilbs que cada dia lhe da- 
vam , mandou elle aperceber todoios feus 
portos , principalmente o de Calecut , onde 
lhe pareceo que os noííòs podiam íãhir. O 
Marichai também vendo que íe gaitava mui- 
to tempo na carga das náos, ordenou com 
AíFonfo d 5 Aiboquerque , por quanto as de 
Francifco de Sá , Baftião de Soufa , e Go- 
mes Freire ainda não tinham tomado cou- 
ía alguma , que ficaíícm recebendo ília car- 
ga, em quanto elles liiam ao feito de Ca- 
lecut j e com as outras, que já eftavam pre fi- 
tes , aíli das que haviam de vir pêra o Rey- 
no , como da Armada da índia , que per 
todalas velas feriam té trinta , em que iriam 
té mil e oitocentos homens , partiram pêra 
Calecut. Os Capitães das quaes veias eram 
todoios que foram com o Marichai , de que 
atrás fizemos menção , e de AíFonfo d'Al- 
boquerque os mais delles eram novamente 
feitos , por razão de Í£ virem com o Vifo' 
Rey parte dos que andavam dom elle. E 
pafíando perCananor, levou AíFoníb d'Al- 
boquerque comíígo a Rodrigo Rabello , que 
fervia já naquella fortaleza de Capitão , o 

qual 



35^ ÁSIA de João de Barbos 

qual per feu mandado tinha feito grandes 
apercebimentos pêra aquella ida ; e também 
levou o Arei de Porca , que íè offereceo 
com alguns paráos , e gente Malabar pêra 
aquelle feito , poílo que eftes Malabares , 
ainda que fejam mui déftros na guerra que 
tem entre fi , em noíTa companhia he gen- 
te que melhor fe aproveita , e mais tento 
tem no roubo , que na peleja quando vem 
tempo. Porque como acerca dclles não he 
vergonha fugir , e hão fer induftria da guer- 
ra , elles são os primeiros ; e muitas vezes , 
quando em terra os noflbs andam pelejan- 
do , então carregam elles de fato pêra os 
feus paráos ; e por mor viítoria tem o ef- 
bulho dos imigos que levam pêra cafa , que 
de os leixar no campo mortos ; e a fora ef- 
tes de Porca , hiam também outros Mala- 
bares de Cochij com o defejo que tinham 
do roubo , e ódio aos de Calecut polas guer- 
ras paliadas. Chegada efta noíla frota ante 
o porto de Calecut humá tarde dous de Ja- 
neiro do anno de quinhentos e dez , como 
a Cidade eftá fituada em coita brava, e tem 
diante hum pequeno recife , onde quebra o 
'mar , e faz hum as calhetas pêra poderem 
defembarcar , andava naquella tarde tão em- 
polado o mar 5 e de ievadia , que foi ne- 
ceffario furgirem hum pouco longe da ter- 
ra y com determinação de fahirem ao fe- 

guin- 



Década II. Liv. IV. Cap. I. 35*3 

guinte dia ante manhã > por fer o tempo 
em que elle dava melhor jazecía. A qual 
couía metteo em grande confusão aos mais 
daquelles , que foram na Armada do Ma- 
nchai , por não ferem coítumados á fúria 
daquelles mares , e não viam mais que a ca- 
lheta cuberta da eícuma do quebrar do mar 
110 recife. E fobre elle em hum lugar tefo 
eftava huma cafa de madeira em modo de 
eirado, ondeElíley de Calecut, no tempo 
que eílava na Cidade , ás vezes vinha efpa- 
recer , e tomar as virações do mar. A qual 
cafa , ( a que elles chamam Cerame , ) neíle 
tempo eftava feita com outras forças de ma- 
deira , entulho , e artilheria hum baluarte 
mui temerofo : e abaixo , e acima deíla fa- 
hida tudo era coita , em que o mar quebra- 
va de longe mui acapellado , e a hum ca- 
bo eílava huma povoação de pefcadores. A 
vivenda d'ElRey neíle tempo era em huns 
paços fora da Cidade , pouco mais de meia 
légua , entre huns palmares , onde o Almi- 
rante D. Vafco da Gama lhe foi fallar , quan- 
do defcubrio a índia , como atrás efcreve- 
mos ; e fegundo a nova que AíFonfo d 5 Al- 
boqucrque tinha , elle eílava então recolhi- 
do nelles , fem fazer fundamento de em fua 
peífoa acudir á Cidade , fenão per léus Ca- 
pitães , e principalmente pelos Mouros , que 
tomaram a feu cargo defendelía. O cami- 
Tom.lLP.l Z jOw 



3^4 ÁSIA de JoÁo de Barros 

nho pêra os quaes paços era huma eftrada 
mui larga com vallos mui altos ? que fe fi- 
zeram da terra que fe tirou delia ? ao lon- 
go dos quaes tudo eram palmares ; e aíli ef- 
ta entrada grande , como outros caminhos 
eftreitos , que vinham dar nella , todos eram 
tão profundos , que as propriedades que íe 
per elles ferviam , ficavam Ibbrc as cabeças 
dos caminhantes , como que eíles caminhos 
foífem cavas pêra defensão delias. E poílo 
que a ferventia da Cidade pêra eíles paços 
aqui mais ferve pêra fe entender o que de- 
pois paíTou nelles , que pêra a determinação 
que AíFoníb d'Alboqucrque , e o Marichal 
tiveram para tomarem terra , bailou o íitio 
do porto pêra aílentarem o modo como fe- 
ria. O qual foi , que por evitar o perigo , 
que era entrar per aquellas calhetas não fa- 
bidas dos noflbs , que ante manha , tempo 
em que o mar daria melhor jazeda com o 
terrenho , commetteífem tomar a terra per 
duas partes ; elle AíFonfo d'Alboquerque 
mais chegado ás calhetas , e o Marichal com 
toda fua gente em outro corpo mais aílíma 
do Cerame ámão efquerda contra a povoa- 
ção dos pefeadores chamada Macuaria. E 
feito hum final ; que ambos tinham já to- 
mado terra , foífe cada hum com fua bata- 
lha cerrada ao longo da praia demandar o 
Cerame j e depois que tomaífem poífe dei- 



Década II. Liv. IV. Ca?. I. 35^ 

le , commetteíTem a Cidade per duas partes 5 
e que as galés, e bateis, que ferviflem em 
poiar a gente em terra , fe alargafiem hum 
pouco deiia. Dos da capitania de Affoníò 
cTAlboquerque havia de ficar por Capitão 
D. António de Noronha feu fobrinho ; e 
dos do Marichal , Rodrigo Rabello , o qual 
havia de ter cuidado de ir queimar humas 
poucas de náos , e navios , que abaixo don- 
de haviam de poiar em terra , eftavam met> 
tidos em hum efteiro ; e feito ifto , fe tor- 
nafle onde D. António eíliveífe , ambos com 
avifo que não leixafíem o lugar , pofto que 
alguma Armada de náos , e paráos vieífe 
fobre as noflas , por quanto ellas ficavam 
providas com gehte , e em capitanias , quan- 
do tal fobre vieffe. E porque fe temeram que 
alguns Fidalgos , e peífoas amigas de hon- 
ra quizeííem naqueíla fahida fazer ventage 
huns aos outros , de que fe podia feguir al- 
gum defmando , mandaram os Capitães mo- 
res poer efcritos ao pé do maílo de toda- 
las náos , que ninguém faltaííe em terra, 
fenão depois que feu Capitão a tomaífe , 
e que não fe apartaíTem da bandeira té fe- 
rem no Cerame. Aífentado efte modo de 
tomar a terra , como a gente era multa , e 
todos queriam fer os primeiros no tomar 
delia, tanto que foi noite , começaram defe 
armar ? e tomar lugar nos bateis j a qual 

Z ii ai- 



35*6 ÁSIA de Joio de Barros 

diligencia , e cubica de honra deo mui grão 
pena a todos , porque eftavam huns fobre 
os outros 3 ou , por dizer melhor , quaíi to- 
dos em pé armados toda a noite. De ma- 
neira , que quando veio a hora de irem com- 
metter a terra , eftavam tão quebrantados 
de eílar em pé , e não dormir , e refponde- 
rem com grita , c apupadas aos alaridos dos 
Mouros , que toda a noite andaram ao lon- 
go da praia , que não havia algum que de 
melhor vontade não tomaííe hum fomno , 
que commetter a fahida , por o trabalho lhe 
ter quebrado aquelle primeiro fervor de vef- 
tir as armas. Com tudo como as coufas da 
honra dam animo 5 dado o final da partida y 
que efperavam em que as trombetas , e ar- 
tilheria ao arrincar dos bateis cantaram o 
leu Armas , armas , com efte alvoroço tor- 
nou cada hum renovar parte das forças , e 
animo que tinha perdido. Seria o corpo da 
gente , que o Marichal levava , té oitocen- 
tos homens , em que entravam eftes Capitães , 
e principaes peflbas : PedraíFonfo d'Aguiar , 
Ruy Freire , Lionel Coutinho , Gomes Frei- 
re , Baftião de Soufa , Francifco de Sá, 
írancifco Mareos , Francifco Corvinel , Luiz 
Coutinho , Braz Teixeira. Per os quaes Ca- 
pitães o Marichal repartio huma fomma de 
pavezes ferrados pêra fazer embaftida , e de- 
trás delles tirarem alguns berços que hiam 

cm 



Década IL Liv. IV. Cap. L 357 

fcm companhia dos béíleiros , e efpingardeí- 
ros , vindo algum pezo de gente , pêra que 
foffe neceffario retraher-fe em corpo a efte 
amparo. AíFonfo d 5 Alboquerque também le- 
vava outro corpo de gente de oitocentos 
homens , além dos Malabares do Arei de 
Porca , e de Cochij , que feriam feiscentos > 
e os Capitães da fua bandeira eram Fran- 
cifco de Távora , Antão Nogueira , Diogo 
Corrêa , Fernão Peres d'Andrade , Simão 
d' Andrade feu irmão , Jorge da Cunha , 
Francifco de Soufa Maneias , Baftião de Mi- 
randa ■ Vafco da Silveira , António Pache- 
co , Manuel de Soufa , Manuel de la Cer- 
da, Filippe Rodrigues, Triftão de Miran- 
da , Duarte de Mello , D. António de No- 
ronha , Garcia de Soufa, Álvaro Façanha. 
Pondo eíles dons Capitães mores o peito em 
terra aquella manha de quinta feira , que 
eram três dias de Janeiro do anno de qui- 
nhentos e dez , cada hum per fua parte tra- 
balhou por fer o dianteiro \ e ora que elle 
foífe o que primeiro poz os pés na praia , 
ora algum outro , que não veio á noíta no- 
ticia , por em tão grande revolta fe não po- 
der notar os pados de cada hum , pofto que 
alguns querem dizer que foi António Pa- 
checo Capitão da caravella Flor da roía , 
que era ido nella diante dos bateis , e íur- 
gio quaíi no rolo do mar , ..fahemos que 

Jor- 



35*8 ÁSIA de JoXo de Barros 

Jorge da Cunha Capitão da náo Magdale- 
na , porque havia de ficar na índia , parecen- 
do-ihe que comprazia niíTo aAffonfo d'Al- 
boquerque , foi o primeiro , que fem guar- 
dar o que eítava mandado nos eferitos 5 que 
fe puzeram ao pé do mafto , junta fua gen- 
te com feu aguião , começou de encami- 
nhar pêra o Cerame , e trás elle Francifco 
de Soufa Maneias. Affonfo d'Alboquerque 
vendo o defmando deites dous Capitães , 
deo a andar rijo poios entreter , e nefte feu 
abalar de prella os que ficavam atrás , cui- 
dando que era por chegar ao Cerame , co- 
meçaram todos a quem fe poria diante , fem 
Affònfo d'Alboquerque os poder entreter 
por já ir tudo arrombado. Eítes que toma- 
ram a dianteira , como hiam mettidos já 
em corrida , vendo abalar os detrás , não pa- 
raram menos do Cerame , onde acharam té 
feiscentos Mouros, e Na ires , que os rece- 
beram como valentes homens , té que Af- 
fonfo d'Alboquerque chegou com o pezo 
da gente , que a ponta do ferro os fez lar- 
gar de todo ; no qual tempo mandou di- 
zer per Simão Rangel ao Marichal , que a 
fua gente fe defordenára .naquelle commet- 
timento , e que quaíí-hia meio desbaratado, 
fe gente groíTa acudifle ; que pedia a fua 
mercê que vieíTe em hum corpo com fua 
gente, porque elle era lua falvaçao. OMa- 

ri- 



Década II. Liv. IV. Cap. I. 35^ 

richal a efte tempo vinha ainda de vagar, 
porque foi tomar terra hum bom pedaço 
donde eftava Àffoníb d\Àlboquerque. E a 
caufa de ir tanto affima pegar na m acuaria 
dos pefcadores, foi por haver alli huns re- 
cifes em que o mar quebrava , e pêra íahir 
em terra , dava melhor jazeda aos bateis ; 
e com ifto , e a detença de tirar os berços 
encarretados , fez alguma demora. Mas dan- 
do-lhe o recado , leixada a gente miúda , que 
levava aqueila munição com a outra prin- 
cipal , tomou hum paflb mais comprido ; e 
vendo que a gente de Affonfo d 5 Alboquer- 
que eftava já fenhora do Cerame com pen- 
dões arvorados , e a fua bandeira pofta no 
mais alto lugar , pareceo-lhe que eíle def- 
mando era artificio , por levar aqueila hon- 
ra ; e em chegando a elie , difíe : Que c ' cu- 
ja he efta. , Senhor Affonfo d? Alhoquerque ? 
quizeftes que dijfejfem as regat eiras de Lis- 
boa , que vós tomajies primeiro terra nef 
te voffò Calecut , de que fazeis a EIRey 
Nofjò Senhor tantos efpantos ? Ora eu irei 
a Portugal , e direi a Sua Alteza ? que com 
efta cana de Bengala na mão , c com efte 
barrete 'vermelho que trago na cabeça , en- 
trei em Calecut \ epois não acho com quem 
pelejar , não me hei de contentar , fendo de 
ir ás cafas cP EIRey , e jantar hoje nellas. 
Em dizendo ifto , íeni querer ouvir a àcf- 

cul- 



%6o ÁSIA de JoÃo de Barbos 

culpa , que lhe Affonfo cPAlboquerque da- 
va , bradou por Gafpar da índia , que fer- 
via de lingua , e fabia bem a terra do tem- 
po que andou naquellas partes , e mandou- 
lhe que o encaminhaíTe ás cafas d^ElRey ; 
e fem fe querer deter na Cidade , nem achar 
quem o impedifíe , poz-fe na eftrada s que 
diflemps ir da Cidade pêra as cafas d ? El- 
Rey. A qual pofto que era mui larga , e 
chã por fer de arêa , e abafada dos palma- 
res , e vallos , e todos irem carregados de 
armas , e peias traveífas que vinham ter a 
cila , havia rebates dos índios que os vi- 
nham commetter ; quando chegaram a hum 
grande terreiro , que cílava ante os paços 
cPEiRey , que clle Marichal fempre levou 
na boca por fe não deter neíloutros recon- 
tros , foi vida a todos 5 porque naquelle ef- 
campado tomaram hum pequeno de ar. Ha- 
via por fortaleza no meio defte efeampado 
hum grande circuito de parede á maneira 
das que cercam os noílbs quintaes 5 dentro 
da qual eram os paços d 5 EÍRey , tudo ca- 
fas térreas • e ante que cntraflem a elías , 
havia huma porta grande delta cerca , per 
a qual o Çamorij ás vezes fahia pêra os pal- 
mares 5 fem fecommunicar agente que tinha 
no terreiro , que era a ferventia principal 
das cafas, em guarda das quaes eílavam três 
Capitães d'ElRey com muita gente de ar- 
mas., 



Década II. Liv. IV. Cap. L 361 

mas , ?ffi Mouros da terra , como dos Nai- 
res. Alguns quizeram dizer que EIRey te- 
mendo efte caio fe fora dalli pêra outros 
paços que tinha ao pé da ferra ; outros di- 
zem que nunca teve fufpeita que os noífos 
pudeífem ir tanto avante, que chegaífem ás 
iuas cafas \ porque fe aíli fora , não as acha- 
riam os noífos tão cheas de movei de feu 
ferviço , e de muita fazenda outra. O Ma- 
richal , depois que com fua gente tomou 
hum pouco de fôlego naquelle grande ef- 
campado, commetteo aporta da cerca 5 on- 
de achou os Caimaes Capitães que eílavam 
em guarda , que lha defenderam hum bom 
pedaço , como gente que não temia mor- 
rer , no qual tempo aííi pela porta , como 
per huma quebrada da parede foram entra- 
dos ; e com tudo no terreiro que eftava an- 
te as cafas , davam , e recebiam , retrahen- 
do-fe attentadamente para ellas , té que de 
todo foram recolhidos , ejá tão fangrados , 
que com o temor da morte começaram va- 
far pela outra porta , que diíTerçios ir dar 
no palmar. O qual modo de fe per alli re- 
colher , parece que foi mais ardil , que fra- 
queza delles polo que fuccedeo ; porque co- 
mo viram que os noífos fe . efpalhavam pe- 
las cafas , tornaram a entrar pela porta da 
cerca , fazendo nelíes grande damno por fa- 
berem as entradas > e fahidas, e os noífos 

ás 



362 ÁSIA de Joio de Barrou 

as vezes feirem embetefgar em lugares fem 
fahida , onde os j arretavam , por eítes Nai- 
res neíta arte . como diílemos , ferem mui 
dcílros. Vafco da Silveira como caliio na- 
quella parte , vendo o damno que faziam 
eítes que entravam de novo , remetteo com 
a gentG do feu navio , que trazia toda era 
hum corpo , e a pezar dos imigos fechou 
a porta ; e leixando alli alguns em guarda 
delia , foi-le cm bufca do Marichal , o qual 
achou aíTcntado com alguns Fidalgos em 
huma caía grande tomando fôlego de gran- 
de calma que fazia , e trabalho que tinha 
paliado em romper per meio das efpadas , 
e frechas dos imigos , que clle havia já per 
enxorados das calhs , e dava a coufa por 
acabada de maneira, que muitos dos noífos. 
vendo que nas caias havia mais que cubi- 
car , que ofFeuder , cada hum , fegundo fe 
atrevia , aíii tomava ás cofias o fardo de 
feda , de beirames , de patóllas té irem dar 
com a prata > e Cruz , que tomaram a Pe- 
dro Alvares , quando mataram Aires Corrêa. 
E parecendo-lhe que nao havia mais que 
carregar , e encaminhar pêra as náos , mui- 
tos delles levavam a morte ás coitas ; por- 
que como não fabiam bem os caminhos , 
fe acertavam de nao tomar a eftrada , vinham 
dar entreNçs imigos que os andavam efpe- 
rando 3 e de baixo do fardo os matavam, 

e ou- 



Década II. Liv. IV. Cap. L 363 

c outros dentro nas próprias cafas cPElRey 9 
de retretes , e buracos donde lhe fahíam. 
Além deites, que era gente commum, algu- 
mas peflbaS principaes dos noflbs , porque 
não haviam por vidloria fenao levando al- 
guma alfaia da cafa , também faziam pre- 
za ; e porque as armas lhe pezavam mais 
que a preá , leixavam as cem que mais ce- 
do fe entregavam na mão dos imigos. E 
tal houve hi , que não lhe lembrando a no* 
breza do feu fangue , foi morto com hum 
fardo de patollas ás coitas , e outro com 
huma cadeira do Çamorij guarnecida de 
prata , e ouro com alguma pedraria falfa, 
como fe iíto fofle peça , que podia aífentar 
no efeudo de fuás armas , e não podia fer 
havido por labéo de cubica. Os três Cai- 
maes Capitães do Çamorij , que eítavam 
em guarda deitas cafas , ora foífe pela obri- 
gação de feu officio , e religião de fua or- 
dem 3 morrer por defensão do que lhe era 
encommendado , ora por fer já o tempo 
de feu ardil , vendo como os noíibs anda- 
vam derramados , e fem ordem com a oc- 
cupação do roubo , caufa de todos defaf- 
tres , deram huma cuquiada, que entre el- 
les he appeiiidar a terra per huma denota- 
ção de voz. O qual modo he coufa mara- 
vilhofa ; porque no inftante que fe dá hu- 
ma y acodem de voz em voz em circuito 

de 



364 ÁSIA de J0X0 de Barros 

de huma , e duas léguas , fegundo a difpo- 
ííçao da terra ■ quanta gente nella habita ; 
de maneira , que em breve efpaço fe ajuntam 
mais de trinta mil homens , porque de ca- 
da pé de palmeira fahem três , e quatro tão 
vivos , e promptos pêra pelejar , que não 
temem coufa alguma : tanto lhe alvoroça o 
animo eíla ília convocação. Com a qual 
gente , que eílcs Capitães Caimaes ajuntaram 
per efte modo , e a mais que tinham com- 
íigo , commetteram a porta que Vafco da 
Silveira mandara fechar - y peró que elle Tris- 
tão da Veiga , António de Soufa , e outros 
acudiram logo , fabendo o concurfo da 
muita gente que a commettia , per muito 
que a defenderam ? eram tantos os imigos , 
e o repetir de fua cuquiada , que pareciam 
gralhas avoando mais que faltando per li- 
ma das paredes de grão cerca per huma 
quebrada que nella havia. Tanta era a fú- 
ria da fua determinação , e defejo de mor- 
rer por defensão da fazenda do feu Rey , 
por não ficarem perpetuamente maculados 
na honra ; principalmente os Capitães , e 
Naires obrigados a eíla lealdade por o íbl- 
do que delle tinham. No qual commetti- 
meiíto vindoi-fe metter nas lanças , e efpa- 
das dos noíTos , ficaram logo alli dous Cai- 
maes , e muitos Naires ; e outros a pezar 
de todos entraram as caías > e correndo per 



Década II. Liv. IV. Ca?. L 365 

cilas , achavam os noííos occupados na preá 
que dilTemos. AíFonfo d'Alboquerque , em 
quanto eftas couías paíTavam nas caías d'El- 
Rey j também tinha afias de occupaçao na 
Cidade , onde le leixou ficar, quando vio 
que o Manchai tomava efte caminho des- 
contente delle. E poílo que os Mouros , e 
Gentios trabalharam hum bom pedaço por 
defender fuás cafas , não podendo foíFrer o 
ferro dos noflbs , que lhe cortava a vida, 
defpejáram a Cidade , mettendo-fe per effes 
palmares. A qual Cidade foi logo per man- 
dado de AíFonfo d'Alboquerque pofta em 
poder do fogo , que em breve por a maior 
parte delia íèr de madeira , e cuberta de 
olla y tomou tanta poífe , que per muitas 
partes querendo paífar os noííos , não po- 
diam 3 lènao pondo adarga no rofto de cor- 
rida , como quem falta fogueira de S.João, 
(fegundo noíFo coftume de Hefpanha.) Af- 
foníò d'Alboquerque vendo que a Cidade 
ficava naquelles termos , porque não fabia 
os em que eílava o Marichal , começou fe- 
guir a eítrada , achando per ella alguns dos 
noífos , que vinham das cafas d 5 E!Rey com 
os fardos ás coitas ; e fabendo per elles co- 
mo já eílava dentro , alvoraçou-fe a gente 
que levava , e feguíram a eítrada hum pou- 
co mais de prefla té chegarem ao efcam- 
pado que diílemos eftar ante a cerca. No 

qual 



366 ÁSIA de J0X0 de Bakros 

qual lugar achou que começavam concor- 
rer os Gentios chamados da cuquiada , que- 
rendo vir impedir a fahida dos noííbs que 
eítavam dentro no curral; donde já fali iam 
alguns dos noííbs mais carregados de te- 
mor , que de fardos pela revolta que hia 
dentro rjas caías d'ElRey. E porque Affon- 
fo d'Alboquerquc , pelo que via na gente 
de fora , e os noííbs que vinham de den- 
tro , temeo que entrando elle ficariam to- 
dos encurrelados , mandou duas , ou três 
vezes dizer ao Manchai per Pedrafoníò 
cPAguiar que fe recolhefle , que elle o ef- 
"tava aguardando á porta , e defendendo que 
não entraííe per ella muita gente dos imi- 
gos , que appareciam naquelle efcampado. 
Ao que o Marichal refpondeo já na tercei- 
ra vez , que começaífe elle entretanto de fe 
poer em caminho , que elle logo vinha, 
como recolhefle alguns homens , que anda- 
vam per dentro das cafas ; e quando Pedra- 
fonfo tornou com efte recado, peróque em 
todos foi , e veio acompanhado da gente 
da fua náo , já efta foi com aííás de traba- 
lho. Com o qual recado Aífonfo d'Albo- 
querque começou de caminhar pela eítrada, 
recebendo nas coftas o impeto da gente que 
diffemos concorrer de todalas eftradas ao 
efcampado , fem fe poderem aproveitar de 
hum berço encarretado que Pedrafonfo le- 
va- 



Década II. Liv. IV. Cap. I. 367 

vava ; porque nos recados que foi ., e veio > 
pedio elle a Affonfo d'Alboquerque que o 
mandafle entregar a outrem , por íèr a re- 
volta já tamanha ? que não havia poder-fe 
carregar o berço , nem fazer obra com el- 
le. Começando entrar pela efírada , como 
a gente vinha defejofa de fe abrigar das fre- 
chadas , ficou tão apertada entre os valios , 
e foi logo tanto Naire fobre elles com zar- 
gunchos , e frechas i que começaram mui- 
tos dos noflòs acurvar 3 fem poderem fazer 
damno aos imigos , por os valios ferem 
tão altos , que mui pequena parte de lança 
ficava na mão a hum homem , fe lá queria 
chegar. Finalmente vinham os noflòs tão 
apinhoados , e era tamanho o pó do torpel 
delles , que por fe não poderem revolver 
huns com os outros , traziam arvoradas to- 
dalas lanças , fem lhes íèrvirem pêra offen- 
der com ellas a quem os matava , princi- 
palmente de cima dos valios , que eram cu- 
bertos daquelia praga. E pela eftrada vinham 
ladrando huns poucos de Naires , que mof- 
travam bem fua foltura na efgrima , por os 
noífos virem tão canfados , que quando que- 
riam dar huma , tinham já recebido duas ; 
e fe cuidavam que o levavam na ponta da 
lança em cócoras mettido debaixo das per- 
nas , o achavam trabalhando por lhas jar- 
retar. E cçmo os homens as traziam de ma- 
nei- 



368 ÁSIA de J0Ã0 de Barros?' 

neira que as não podiam arrojar de que- 
brantadas do caminho , e afrontamento da 
grande calma , fobre o trabalho da noite 
que vigiaram nos bateis 5 tinham eftes Nai- 
res lugar de os ferir mortalmente. Indo aífí 
todos nefte trabalho , veio huma voz dos 
trazeiros, que era hum Balthazar Gafco Fei- 
tor da náo Boaventura , dizendo : Que pref- 
fa he efta , fenhores ? volta , volta , que 
matam o MarichaL Quando efta voz foi 
ter a AíFonfo d'Alboquerque , que hia no 
meio do cardume da gente , voltou ; mas 
nunca pode romper pelos trazeiros por vi- 
rem tao atochados , e fobre tudo perfegui- 
dos dos imigos , que fe não podiam revol- 
ver. Finalmente como puderam em três , 
ou quatro voltas que deram , foi derribado 
ante os pés de AíFonfo d' Alboquerque Gon- 
çalo Queimado , que lhe trazia o feu guião, 
e hum leu pajé chamado António Borges , 
e elle houve huma zargunchada pela gar- 
ganta , e fobre iífo deram-lhe de cima dos 
vallos com hum canto per lima da cabeça , 
que o derribaram logo no chão , o qual 
meio morto fei pofto em hum pavês , e 
acompanhado de Diogo Fernandes de Be- 
ja ; e fem fer mais viílo com o torpel da 
gente , o puzeram na praia. No qual tempo 
fe acabou de confirmar a viótoria dos imi- 
gos y e fim de algumas vidas dos noííos, 

aíS 



Década II. Liv. IV. Cap. I. 369 

€ÍTi do Manchai , que perpetuamente com 
muitos que o acompanhavam ficou dentro 
da cerca das cafas d'ElRey , como dos que 
vinham entre aquelles vallos. E certo que 
era coufa digna de admiração , e pêra fe • 
muito condoer de tão trifte calo ; porque 
contemplando obra de feiscentos homens % 
que feriam os noíTos , entalados entre aquel- 
les vallos , tanto fobrelevava o fervor do 
Sol > e a poeira dos pés , e trabalho que 
a noite paliada té aquellas horas tinham ío- 
frido , fobre toda a força do feu animo > 
que não fe podiam defender de té oitenta 
Naires , que pela eílrada os perfeguiam der- 
ribando poucos , e poucos ; e o que era mais 
miferavel . fe de cima dos vallos lançavam 
naquelle cardume dos noíTos hum zargun- 
cho , huma fetta ? huma pedrada , nunca 
dava no chão ; e qualquer que acurvava , os 
pés de todos trilhando o acabavam de ma- 
tar. Finalmente aqui dous 5 aíli quatro > 
féis , oito , fempre foram cahindo té que 
fahíram daquella eílreiteza do vallo ao lar- 
go da Cidade , a qual ainda que ardia em 
fogo , menos fentíram o que nella andava > 
que aquelle forno de morte donde vinham 
afogados , e cegos de fede , e pó. E vendo 
nefte largo quão poucos eram os imigos que 
os perfeguiam , fizeram roílo a elles , com 
que converteram parte da foltura que tra- 
Tom.IL P.L Aa ziam, 



-$jo ASTA de João de Barros 

ziam , em fugir , e não em commetter co- 
mo cPante faziam. Ao qual tempo chegou 
Diogo Mendes de Valconcellos , Simão 
d' Andrade, e outros Fidalgos , a quem Af- 
fonfo d'Alboquerque, quando foi em buf- 
ca do Marichal , encommendou que ficaífem 
na Cidade com té duzentos homens , e a 
acabaífern de queimar 5 e aíTi huns pardos 
que eílavam namacuaria dos pefcadores. E 
ainda eíles Capitães acudiram a tempo , que 
deram outro fôlego aos noíTos que vinham 
naquelle trabalho ; porque como elles ti- 
nham feito fugir naquelle efcampado da Ci- 
dade aquelles poucos Naires que os perfe- 
guiam , vindo pela eftrada , foram dar eíles 
fugidos na multidão dos que ficavam nos 
vallos , os quaes eram já defcidos á eftrada , 
e vieram huns , e outros tão tefos fobre 
os noflbs , que , fc não acharam eíles Capi- 
tães , ainda tiveram outro novo trabalho. 
Mas como os Naires fentíram o ferro , co- 
meçaram a floxar , com que os noíTos fe vie- 
ram recolhendo de mais efpaço ao lugar 
da embarcação , onde também houveram 
de patTar mal ; porque como vinham der- 
ramados , fegundo cada hum podia efeapu- 
lir do trabalho que havia na Cidade, acha- 
vam os Mouros que fe vieram poer na 
praia a lhe impedir a embarcação. Peró co-> 
mo D. António ficava por guarda delia, 

e com 



! 



Década TL Liv. IV- Ca?. I. 371 

e com elle Rodrigo Rabello , que a eíle 
tempo era já vindo de queimar as náos que 
eftavam no efteiro , que lhe foi encommen- 
dado , fizeram a praia franca de maneira, 
que quando trouxeram Affonfo d'Alboquer- 
que atraveffado no- éfcudo , feu fobrinho 
D. António o recoíheo em a caravella de 
António Pacheco , que , como diflemos , ef- 
tava pegada com terra , e nella efteve Af- 
fonfo d\Alboquerque hum dia , ou dous, 
por eílar tão mal , que da primeira cura não 
oufáram de o mudar dalli pêra a fua náo. 
Quando veio per derradeiro, a fe todos re- 
colherem nos bateis , houve ainda maior 
trabalho fobre primores de cavalleria entre 
Rodrigo Rabello , e Jorge da Cunha , co- 
meçando haver perfia aquém ficaria perder-* 
radeiro , e ifto ainda com palavras de pai- 
xão , aos quaes Jorge Botelho de Pombal y 
em modo de zombaria , difle : Em quanto 
vós , fenhores , âperfiais , quero eu reco- 
lher , pois ejiou ouciojò , eftas armas , que 
eftam por e/la praia , per ventura lá lhe 
acharei dono por não ficarem em poder de 
Mouros. D. António vendo também os pon- 
tos deites clous Capitães , diíTe-lhes : Senho- 
res 5 ijjb já não he honra, mas contumá- 
cia : eu me embarco , cada hum fe embar- 
que , quando quizer , e com ifto fe embar- 
caram todos juntamente. Na qual embarca- 
Aa ii ção 



'372 ÁSIA de João de Barros 

çao foi coufa maravilhofa; porque eftando 
o dia pafíado o mar tao medonho naqueila 
coita , que nao oufavam os noíTos de poer 
os olhos nelle , lembrando-lhes que efte dia 
haviam de poiar em terra , áquella hora 
parecia hum rio muito maníb j e fe affi nao 
fora , ainda cfte trabalho houvera de verter 
mais fangue , e vidas do que nefta ida das 
cafas d'ElRey pereceram. O qual cafo em 
alguma maneira gente por gente , e lugar 
por lugar , parece que imitou ao do Viíò- 
Rey D. Francifco , e que N. Senhor per- 
mittio eílcs dous tão defaílrados cafos , e 
taes , que depois delles té hoje nao os te- 
mos vifto no decurfo deita conquifta. E 
peró que feja coufa mui atrevida , e teme- 
rária querer dar caufa aos feitos que Deos 
permitte , praza a elle que as mortes de 
peífoas tão notáveis nao procedeílcm das 
paixões , que fe caufáram das differenças 
d'entre oVifo-Rey, c Affonfo d'Alboquer~ 
que , porque com a morte de todos tudo 
ficou apagado , por não ficar author contra 
réo. Foi o numero dos feridos defte trifte 
dia paffante de trezentos , e mortos oitenta , 
em que entraram eílas peíToas notáveis : o 
Marichal D, Fernando Coutinho , que era 
filho de D. Álvaro Coutinho , que mata- 
ram na tomada de Baltanas em Caílella na 
guerra d'ElRey D. Affonfo o Quinto , e 



Década II. Liv. IV. Ca?. I. 373 

D. Beatriz de Mello filha do Chanceller 
mor Ruy Gomes d 5 Alvarenga. E com elle 
dentro nas cafas d'ElRey foi morto Ruy 
Freire filho de Nuno Fernandes Freire , e 
de D, Helena de Brito fua mulher 5 filha 
de Artur de Brito ; e aíli mataram dentro 
Vafco da Silveira d' Almeida filho de Mo- 
fem Vafco d 5 Almeida Alcaide mor de Li- 
nhares , e a porta do terreiro mataram Ma- 
nuel Paçanha filho de João Rodrigues Pa- 
çanha , e alguns Cavalleiros criados d'El- 
Rey. E nas voltas que Affonfo d\Alboquer- 
que fez , mataram Lionel Coutinho filho 
de Vafco Fernandes Coutinho , e de Dona 
Maria de Lima fua mulher filha de Dom 
Lionel de Lima primeiro Bifconde de Vil- 
la-nova da Cerveira, E a Fiíippe Rodri- 
gues hum cavalleiro da cafa d 5 ElRey Ca- 
pitão da carayella Efpera , e a Francilco 
de Miranda Capitão d'outra caraveíla , e a 
Fernão Vallarinho hum cavalleiro do Al- 
garve. Recolhidos os notTos deite trabalho , 
como Pedraffonfo d' Aguiar vinha por So- 
ta-capitao do Marichal , e três náos , a ca- 
pitania , a fua 5 e a de Braz Teixeira efta- 
vam de todo carregadas , logo daquelle 
porto de Calecut Affonfo d'Alboquerque 
o efpedio com ellas , e mandou a Pvodrigo 
Rabello Capitão de Cananor em fua com- 
panhia pêra lhe ir dar a carga de gengi- 

vre, 



374 ÁSIA de JoXo de Barros 

vre , que ainda lhe falecia , e partidas dal- 
li , chegaram a eftc Reyno a falvamento. 
E de Còchij efpedio a Gomes Freire , Fran- 
cifco de Sá , e Baftiao de Soufa , e deitas a 
de Gomes Freire invernou em Moçambi- 
que ; e as outras duas aífi como ambas par- 
tiram hum dia depois delle , affi juntamen- 
te fe foram perder huma noite em os Bai- 
xos de Pádua encalhando emarêa..As quaes 
por ficarem direitas concertaram os Capi- 
tães logo os bateis com humas poítiças , 
em que fe mettêram com a gente que cou- 
be , nos quaes atravefiaram a Cananor cm 
efpaço de oito dias , onde chegaram a tem- 
po que Affonfo d\Alboquerque paliava per 
alli com toda a frota , quando hia fazer o 
feito de Goa , como veremos. E daqui c£* 
pedio a António Pacheco com huma cara- 
vella , que com muita diligencia foífe reco- 
lher a mais gente , que ficava em as nács y 
o que clle fez , e tornou com ella a Goa , 
onde já achou AfFonfo d'Alboquerque , no 
qual negocio quanta honra António Pache- 
co ganhou no medo que teve de recolher 
efta gente por as differenças em que fe vio , 
por os homens quererem metter comíigo 
alguma fazenda , tanta ganhou Fernão de 
Magalhães no governo em que a teve ef- 
perarvlo té os virem bufear. E fe elle com 
feu Re/ , e fua pátria tivera tanta lealdade , 

quan- 



Década II. Liv. IV. Gap. I. 37^ 

quanta guardou a hum feu amigo , por cu- 
ja caufa não quiz ir em companhia deBaf- 
tião de Soufa y pois não recolhiam o ou- 
tro com elle por não fer homem de muita 
conta , per ventura não fe fora perder com 
nome de infâmia , como adiante fe verá. E 
nefte mefmo tempo efpedio Aífonfo d'Al- 
boquerque a náo Sandia Cruz, em que foi 
por Capitão Diogo Corrêa , e com elle An- 
tão Nogueira com cdgu^. mantimentos pê- 
ra a fortaleza de Çocotorá , onde citava 
feu fobrinho D. Aífonfo de Noronha , que 
elle mandava ir pêra Capitão de Cananor, 
e em feu lugar havia de ficar Pêro Ferrei- 
ra , que eíteve em Qiiiloa por Capitão. E 
não mandou em companhia deíla náo os 
navios que lhe Duarte de Lemos mandava 
pedir per Vafco da Silveira , como logo 
veremos , porque com eíle defafíre , em que 
elle morreo , ficou a índia hum pouco des- 
falecida de gente ; e eíla defculpa mandava 
a elle Aífonfo d'Alboquerque dar de fi a 
Duarte de Lemos , que andava de Armada 
na boca do eftreito do mar Roxo , como 
deíle Reyno foi ordenado , falecendo Jor- 
ge d 5 Aguiar feu tio. E porque depois que fe 
perdeo na Armada do anno de oito ? não te- 
mos dado razão do que elle Duarte de Le- 
mos fez , ante que procedamos em outra cou- 
fa , o queremos 'fazer neíle feguinte Capitulo. 



376 ÁSIA de Joio de Barros 

CAPITULO II. 

Das coufas , que Duarte de Lemos fc% 
em quanto andou de Armada na cofia da 
Arábia , té fe ir pêra a índia : e como 
D. Affonfo de Noronha- fe perdeo indo de 
Çocotord pêra fervir de Capitão de Cana- 
nor. 

A Trás efcrevemos como por algumas 
coufas que moveram a EIRey D. Ma- 
nuel ? o anno de quinhentos e oito mandou 
á índia três Armadas, huma.pera trazer a 
carga da pimenta , outra de quatro velas , 
Capitão mor Diogo Lopes de Sequeira , 
defcubrir a Ilha de S. Lourenço , e a Ci- 
dade Malaca ; e a outra de finco velas pêra 
andar de Armada na coita da Arábia , Ca- 
pitão mor Jorge d' Aguiar , o qual fe perdeo 
com hum temporal que teve junto das 
Ilhas , a que chamam de Trilião da Cunha. 
E como eíte temporal fez correr todalas 
outras velas da fua Armada a differentes 
partes , Duarte de Lemos que havia de fuo- 
ceder a capitania mor delia , foi ter aos Me- 
daos do ouro , que he aquém do Cabo das 
Correntes , onde Diogo Lopes de Sequeira 
veio ter com elle com o mefmo temporal , 
€ ambos eftiveram alli finco dias provendo-» 
fe do neceflario : no fim dos- quaes com ou- 
tro 



Década II. Liv. IV. Cap. II. 377 

tro novo tempo , que os fez alevantar , fo- 
ram ter á Ilha de S. Lourenço a huma en- 
feada , a que os noflbs chamam de S. Se- 
baílião , ficando nella Diogo Lopes , e Duar- 
te de Lemos feguio ília derrota té Moçam- 
bique 3 onde depois foram ter com elle os 
navios de fua Armada. Paliados alguns dias 
que fe alli detiveram , vendo que Jorge 
d' Aguiar não vinha , com a nova que deo 
Álvaro Barreto Capitão da náo Sandia Mar- 
tha , que era a ré delle , quando defappare- 
ceo tiveram que podia ler perdido; e o que 
lhe deo mais prefumpçao difíb foi conrar- 
lhe Francifco Pereira Peílana Capitão da 
náo Leonarda , que depois paliou pelas Ilhas 
de Trilião da Cunha , como viram no mar 
hum pedaço de náo , e algumas lanças , e 
outros íinaes , que pareciam de náo perdi- 
da naquella paragem. Com a qual fufpeita 
abertas as fuccefsoes , que elle Duarte de 
Lemos levava per fegunda via , acharam 
como EiRey D. Manuel o provia daquel- 
la capitania mor , de que logo alli come- 
çou uíar. E porque tinha duas velas fetn 
Capitães , deo a capitania delias a António 
Ferreira fobrinho de Pêro Ferreira Capitão 
de Quiloa , e a Francifco Pereira de Ber- 
redo ; e tanto que lhe o tempo fervio , to- 
mando pêra li a náo que Francifco Pereira 
Peílana levava por fer grande., mandou a 

An- 



378 ÁSIA de J0X0 de Barros 

António Ferreira , que em o navio que lhe 
deo o levafle a Quiloa , onde havia de fervir 
de Capitão , e feu tio Pêro Ferreira fe foííe 
com elle a Melinde , onde os efperava , 
porque alli havia de invernar , como fez. 
E porque naquelle tempo todalas Ilhas que 
eílavam na cofta de Quiloa té Melinde , aííi 
comoMonfia, Zenzibar, Pemba , e outras , 
depois que o Vifo-Rey D. Francifco pêra 
alli paliou , quando tomou a Cidade Qui- 
loa , nenhuma tinha pago o tributo que eram 
obrigadas a ella , como fenhora que fempre 
fora de todas , pelo Regimento que Duarte 
de Lemos levava , quiz de paliada dar vifta 
a algumas , com fundamento de levar del- 
ias alguma coufa pêra provisão da fortaleza 
Çocotorá , por faber eftar bem neceífitada. 
Monfia que foi a primeira , fem refeita pa- 
gou o que era obrigada em breu , por fer 
a novidade da terra , e que naquellas par- 
tes tem boa valia ; mas Zenzibar fez o con- 
trario , não querendo pagar coufa alguma 
por induzimento do Xeque , que era da li- 
nhagem dos Reys de Mombaça nolTos imi- 
gos , com que obrigou a Duarte de Lemos 
íahir em terra. Mas ifto lhe não foi tão le- 
ve como cuidava , porque nella havia mui- 
tos Mouros , a maior parte dos quaes eíla- 
vam affinados donoííb ferro, affi na toma- 
da de Mombaça , como de Quiloa ; e co- 
mo 



Década II. Liv. IV- Cap. II. 379 

mo gente offendida , em Duarte de Lemos 
chegando com os bateis a terra , oufada* 
mente lha defenderam em quanto puderam. 
Mas depois de bem esfarrapados na carne 
com a ponta da lança , e efpada dos nof- 
fos , recolhêram-fe pêra dentro da Ilha , e 
o Xeque caufa deíle damno , como homem 
defconfiado da vida fe o tomaíTem , não ou- 
fando parar na Ilha , fe palíou á terra firme 
de Mombaça em hum barco que pêra aquel- 
le rnifter tinha poílo em outro porto , onde 
embarcou. Deípejada a ribeira , recolhendo- 
fe os Mouros á brenha do mato , foram os 
noíTos ter pacificamente á fida povoação , 
onde acharam alguma fazenda conforme a 
pobreza da Ilha; e tornando-fe a recolher, 
foram ter á Ilha de Pemba , onde também 
o Xeque o quiz entreter com defculpas de 
não haver mantimentos na terra , allegando 
eílerilidade ; e porém vendo a determinação 
de Duarte de Lemos , temeo o caftigo de 
Zenzibar ? e pagou-lhe com defpejar a Ilha , 
paflando-fe de noite com quanta gente po- 
de á Cidade Mombaça. Quando os noíTos 
chegaram á fua povoação 5 acharam tudo 
tão defpejado , que té hum pouco de fogo 
pêra queimar aquellas cafas palhaças fe não 
achou , fomente andando pela Ilha em buf- 
ca de gado por acharem raflò deíle, foram 
dar com humas cafas fortes á maneira de 

for- 



380 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

fortaleza em hum lugar deícuidado , onde 
o Xeque tinha recolhido lua fazenda já 
como homem que por nofla caufa temia a 
vizinhança do mar ■ e parece que com a 
preífa não pode levar comíigo quanto aqui 
tinha , porque ainda a gente de armas , e 
marinheiros acharam coufas , que lhes pagou 
o trabalho do caminho. Recolhido Duarte 
de Lemos , fem fazer em outra parte demo- 
ra , tomou o porto de Melinde , onde af- 
fentou Feitoria pêra o trato de Çofala , por 
alli concorrerem algumas náos de Cambaya 
que traziam roupas , per as quaes refgatava 
ouro com os Cafres, E porque Sancho de 
Pedrofa , que hia por Feitor ordenado pêra 
alli, feperdeo com Jorge d' Aguiar , proveo 
Duarte de Lemos deite cargo a Duarte Tei- 
xeira com Efcrivães , e homens ordenados 
á Feitoria. AíTentadas as quaes coufas , tan- 
to que o tempo lhe deo lugar , paliado o 
inverno , partio dalli de Melinde no fim 
d 5 Agoíto do anno de quinhentos e nove , 
levando fete velas com a fua , de que eram 
Capitães Vafco da Silveira , Diogo Corrêa , 
Pêro Corrêa irmãos , que com elle partiram 
deite Reyno , e os dous que diífemos que 
novamente fez Capitães , e aííi Gregório da 
Quadra em hum bargantim. O qual eítando 
elle Duarte de Lemos fobre a Cidade Ma- 
gadaxò > por acerto lhe quebrou de noite 

o ca- 



Década II. Liv. IV. Cap. II. 381 

o cabo ; c como naquelle tempo as aguas 
correm muito pêra o Cabo Guardafu , e 
dahi pêra a boca do cftreito 5 como gente 
perdida foi ter á Cidade Zeiia , que eftá fo- 
ra das portas do eftreito , onde o Capitão, 
e os que com elle eram , foram cativos, 
dos quaes adiante daremos maior razão. 
Partido Duarte de Lemos da Cidade Ma- 
gadaxo , onde não fez coufa alguma por 
£çr mui duvidofo commettella , viílo feu íi- 
tio , e difpoíição , e alguns outros inconve- 
nientes , que foram apontados no confeiho 
que fobre iíío teve ; partio-fe via de Çoco- 
torá pêra metter por Capitão a Pêro Fer- 
reira , como EIRey mandava , e D. ÁíFonfo 
ir fervir de Capitão da fortaleza de Cana- 
nor. Mas quando atraveíTou do rofto do 
Cabo Guardafu , por razão das aguas , e 
hum tempo que lhe deo , não pode tomar 
a Ilha , e com aflas trabalho foi dar na coi- 
ta da Arábia entre as Ilhas de Cúria Mu- 
ria , onde furgio a três de Setembro j e por 
lhe logo fervir o tempo , paíTado o Cabo 
de Rofalgate , determinou de ir dar huma 
vifta a Ormuz , e ver fe podia haver as pá- 
reas que AíFonfo d'Alboquerque com elle 
aíTentára , peró que foubeíte quão quebrado 
ficara com EIRey. Por razão da qual que- 
bra, e todolos lugares daquella coíla efta- 
rem caítigados da mão delle AíFonfo d 5 AI- 

bo- 



382 ÁSIA de J0Ã0 de Bakkos 

boquerque , conformando-fe com o pouco 
poder que levava , em quanto lhe não vi- 
nham os navios, e gente, que lhe elle ha- 
via de enviar da índia , como EIRey lhe 
mandava , ordenou de ufar de huma caute- 
la por lhe os Mouros não perderem o aca- 
tamento , íe quizeífe poer o negocio a juizo 
das armas , íabendo quão apercebida já to- 
da aquella coita eílava. E logo em Calafa- 
te , que era o primeiro lugar d'EiRey de 
Ormuz mais vizinho ao Cabo Rofalgate , 
per a neceílidade que levava, de mantimen- 
to , começou ufar deita cautela ; e foi , que 
chegado ao lugar , e vendo que os Mou- 
ros o defpejavam , trabalhou brandamente 
por haver falia delles , reprendendo-os de 
fugirem de fuás cafas , por quanto elle era 
hum Capitão d^ElRey de Portugal amigo 
cPElRey de Ormuz , e que nenhuma coufa 
lhe mais encommendava , que o bom trata- 
mento de fuás ccufas ; que fua chegada 
áquelle porto mais era com neceíTidade de 
mantimentos , que com tenção de lhe fazer 
damno , que lhe pedia por feus dinheiros 
lhos quizeííem dar. Ao que os Mouros re- 
ipondéram, que a caufa do feu temor fora 
polo mal que tinham recebido d'outro Ca- 
pitão d'E!Rey de Portugal, o qual andara 
per toda aquella cofta com a mão furiofa 
deítruindo quantos lugares achava. Duarte 

de 



Década II. Liv. IV. Cap. II. 383 

de Lemos , porque efte era o artificio de 
que elle queria uíar, reípondeo que a prin- 
cipal cauíà por que vinha per aquella cofta , 
era pêra faber a verdade das coufas que 
efte Capitão tinha per ella feito, pêra o ef- 
crever a EIRey feu Senhor , por fer huma 
das coufas , que lhe mais encommendava ; 
e fendo ellas taes que mereceíTem caftigo , 
podiam crer que elle o haveria : Por quanto 
EIRey não lhe mandava fazer guerra aos 
lugares d'ElRey de Ormuz , ante era hum 
Príncipe , com quem defejava ter amizade y 
e communicação de trato : Que as fuás Ar- 
madas não eram fenao contra os Mouros 
do eftreito de Meca, e Mamelucos do Cai- 
ro , que tratavam na índia , polas diferen- 
ças que logo no principio 5 quando manda- 
va a ella , tiveram com os Portuguezes ; e 
que efta era acaufa porque mandava fazer 
fortaleza em Çocotorá , pêra alli reíidir hu- 
ma Armada , que defendeífe a entrada , e 
fahida do eftreito do mar Roxo a efta gen- 
te. Os Mouros ouvindo eftas razões de 
Duarte de Lemos , parecendo-lhe apparen- 
tes de verdade , depois que miudamente lhe 
contaram algumas das coufas , que Affonfò 
d'Alboquerque per alli fez , e outras que 
elles acerefeentáram em modo de queixu- 
me , vieram conceder a Duarte de Lemos 
os mantimentos que pedia. Os quaes paci- 

fr 



384 ÁSIA de J0X0 de Barkos 

ficamente recebidos 3 e ficando comelles em 
toda paz , foi feguindo a coíla , ufando eíte 
modo em todolos lugares em que lúrgia > 
té chegar a Ormuz já no fim de Setembro , 
íimuiando irfaber parte deites males deAf- 
fonfo d'Alboquerque , dos quacs EIRey era 
fabedor per cartas , que lhe o Vifo-Rey da 
índia tinha efcrito ; e que íegundo achava 
nova cm Moçambique , e Melinde per que 
pairara , o Vifo-Rey favorecera muito os 
Capitães que o leixáram , approvando a 
caufa de fua ida. E fervio tanto eíte modo 
de prudência , de que Duarte de Lemos ufou , 
culpando neftas , e em outras palavras o 
rompimento que teve em Ormuz , que af- 
fentou paz com EIRey , e Coge Atar : pê- 
ro não quiz mudar as condições delia em 
tirar o tributo dos quinze mil xarafijs , que 
elles requeriam. Dizendo elle Duarte de Le- 
mos que não vinha a desfazer contratos de 
paz 3 íenão a remover caufas de guerra , por- 
que a paz de Ormuz lhe mandava EIRey 
feu Senhor que aííentaíTe ; e que verdadei- 
ramente fe AfFonfo d'Alboquerque todalas 
outras coufas , quenaquellas partes fez, fo- 
ram taes como as que fe continham no af- 
fento da paz que alli aífentira , elle fora 
digno de lhe EIRey feu Senhor fazer mui- 
ta mercê. E haverem elles por coufa dura 
dar quinze mil xarafijs P eíta era a mais leve 

con- 



Década II. Liv. IV. Caí. II. 3 8? 

condição delia ; porque tanto que os Mou* 
ros de Meca íoubeílem a paz que elle Rey 
de Ormuz tinha feita com EiRey de Por- 
tugal 5 logo ficava por imigo delles , e ha- 
viam de trabalhar por roubar , e deílruir 
quantas náos foffem , e vieflem daquella Ci- 
dade fua. Da qual verdade tinha elle Duar- 
te de Lemos experiência em EíRey de Ca- 
lecut , e nos Mouros que viviam no feu 
Rey no , os quaes tratavam as náos deCou- 
lao , Cochij , e Cananor como fe foííem 
feus mortaes imigos 5 fomente por caufa da 
paz que tinham com os Portuguezes. Don- 
de foi neceíTario , pêra eíles lugares nave- 
garem fuás mercadorias , mandar o Vifo- 
Rey Armadas em refguardo das fuás náos 
na monção que partiram pêra fora 5 e que 
por razão de dar guarda a eftas náos lhe 
mataram feu filho em Chaul , como elles 
teriam fabido. E pois iílo eftava certo na- 
quellas partes , efte mefmo modo haviam 
de ufar os Mouros do eftreito do mar Ro- 
xo 3 donde convinha andar naqueíla cofía 
de contínuo huma Armada noífa ; e que a 
lhe confeífar verdade elle era alli vindo a 
efte negocio , e a fortaleza de Çocotorá 
com eííe fundamento a mandou EíRey feu 
Senhor fazer , pêra a Armada , que per alli 
andaffe , ir invernar a cila ; e ainda pêra el- 
le andar com maior força , EIRey manda- 
- x T4>m.ILP.L Bb va 



386 ÁSIA D E JOÃO DE BAHHOS 

va ao Capitão mor da índia que lhe en- 
viaíTe mais velas , e gente , e que pêra as 
fazer vir logo dalli , havia de eipedir hum 
navio. E f e a principal caufa deita Armada , 
que era huina grande deípeza , le fazia por 
fegurança das náos que hiam áquelle^ porto 
de Ormuz , de que na entrada , e fahida as 
rendas delle Rey eram tão grandes , que 
razão haveria pêra elle não contribuir na 
defpeza delia', não com quinze mil xarafijs , 
mas com o dobro ? Com as quaes razões , 
e outras práticas , que Duarte de Lemos te- 
ve com Raez Nordim , que era o principal 
medianeiro que andava nifTo , convenceo a 
EIRey , e a Cóge Atar darem os quinze 
mil xarafijs , com que entre elles ficou a paz 
aflentada neíla parte , fegundo as capitula- 
ções de AíFonfo d'Alboquerque. E os dias 
que alli efteve , que foram todo Oítubro , 
houve tanta fegurança de paz , que por fer 
neceííario , mandou Duarte de Lemos poer 
a monte de marés o navio Ajuda ; e por 
moílrar fer verdade o que dizia , que dalli 
havia de mandar hum navio á índia a tra- 
zer as outras velas que haviam de andar 
corn elle , efpedio pêra iíTo a Vafco da Sil- 
veira , (parece que o chamava a morte no 
cafo do Marichal , como efcrevemos , ) em-j 
companhia do qual foram, Diogo Corrêa J 
e Antão Nogueira pêra virem por Capitães) 

dos 



Década II. Liv. IV. Cap. II. 387 

dos navios que mandava pedir ■ por affi íer 
ordenado perElPvey. Partido Vaíco da Sil- 
veira , veio Duarte de Lemos ter a Coco- 
tora , a qual fortaleza entregou a Pêro Fer- 
reira , que andava com elle; e leixando a 
D. AíFonfo de Noronha hum navio dos 
que trazia comíigo pêra fe ir á índia , veio 
elle Duarte de Lemos dar huma viíta á coi- 
ta de Melindc pêra invernar ahi. D. AíFon- 
fo partido dle , querendo poer a monte o 
navio por andar desbaratado , alquebrou, 
e abrio de maneira , que ficou fem embar- 
cação , té que veio a náo Sandia Cruz > em 
que Vafco da Silveira tornou á índia, em 
que vinham Diogo Corrêa , e Antão No- 
gueira com os mantimentos que AíFonfo 
cPAlboquerq.ue mandou , como no prece- 
dente Capitulo efcrevemos. A qual náo Pê- 
ro Ferreira deo a D. AíFonfo pêra fe paífar 
á índia , e com elle fe tornaram Diogo 
Corrêa , e Antão Nogueira , por não terem 
navios em que fervir de Capitães , como 
EiRey mandava. E fendo D. AíFonfo no 
golfão daquella traveífa de Çocotorá pêra 
a índia , tomou huma náo de Mouros mui 
formofa , e rica , e indo com efta preza tan- 
to avante como os Baixos de Pádua, deo- 
Ihe hum temporal , que os fez correr té 
irem dar de fucinhos em terra entre Dabul , 
eGoa, onde foram tomados os que D. Af- 
Bb ii fon* 



388 ÁSIA de J0X0 de Barros 

fonfo nella tinha mettido , e logo levados? 
ao Hidalcao. E porque com efte temporal 
elle não pode com a íua feguir cila dos 
Mouros que tinha tomado , foi dar na en- 
feada de Cambaya junto da Cidade Çurate 
huma vefpera do Efpirito Saneio do anno 
de quinhentos e dez ; e querendo alguns fal- 
var-fe no batel com D, Affoníb , afíogáram- 
fe todos , em que entrou Antão Nogueira , 
e affi fe perderam todos aquelles que da náo 
fe lançaram ao mar confiados em faberem 
nadar. Somente efeapáram aquelles , que fe 
leixáram ficar nella cfpcrando a mifericor- 
dia de Deos , os quaes tanto que a maré va- 
iou , que a náo ficou de todo em fecco , 
foram cativos pelos Mouros , e levados a 
EIRey de Cambaya , que citava em huma 
Cidade chamada Champanel , entre os quaes 
foi Fernão Jacome cunhado de D. Aífon- 
fo , Diogo Corrêa , Payo Corrêa , Francif- 
co Pereira , e Fr. António Frade de S. Fran- 
cifeo , o que andou entre os Cocotorinos na I 
conversão delles 5 e outros , que per todos 
feriam té trinta peíToas , que depois fahíram 
de cativeiro , como fe verá em feu tempo. 
Tornando a Duarte de Lemos, depois quej 
fe Dartio de Çocotorá , andou no rofto dojj 
Cabo de Guardafu fem fazer coufa algu-j 
ma , té que o tempo o fez recolher a in- 
vernar a Melinde , junto do qual tomouj: 

hôí 



Década II. Liv. IV. Cap. II. 389 

huma náo mui rica, e o primeiro que aren- 
deo foi Jorge de Lemos feu irmão Capitão 
do navio Graça. Paliado o inverno , no qual 
tempo elle Duarte de Lemos proveo algu- 
mas coufas das feitorias daquella cofía té 
Cofala , que era de íúa jurdição , tornou-íè 
a Çocotorá , e de caminho esbombardeou 
a Cidade Magadaxo , porque como he cot- 
ta brava , e (íègundo diílemos ) da outra 
vez que paííbu per ella , leixou de a com- 
metter , também nefta psífagem não pode 
fazer mais que varejar a fua ribeira com ar- 
tilheria. Chegado a Çocotorá já no fim de 
Maio 5 achou que era vindo da índia Fran- 
cifco Pantoja com hnma náo de mantimen- 
tos j que AíFonfo d'Álboquerque mandava 
pêra provisão da fortaleza ; e foi tão dito- 
fo , que na travefla daquelle golfão tomou 
huma náo d'ElRey de Cambaya chamada 
Merij , que foi das ricas prezaá que naquel- 
las partes fizeram , e tal que importou mais 
que quantas Duarte de Lemos em todo feu 
tempo fez. A qual elle mandou repartir per 
todolos de fua Armada per iguaes partes, 
como fe foram na tomada delia , dizendo 
que lhe pertencia por fer tomada nos mares 
do limite de fua capitania. E porque aílí 
pelo recado , que elle Francifco Pantoja 
trouxe de AíFonfo d'Alboquerque , como 
por o que já trouxera Antão Nogueira , e 

Dio~ 



390 ÁSIA de João de Barros 

Diogo Corrêa acerca dos navios , e gente 
que lhe não mandava , dando muitas def- 
culpas , e caufas de o não poder fazer , e 
elle Duarte de Lemos andava mui pobre de 
gente por lhe ler morta de doença , e íin- 
gelo de navios , pêra o que requeria as 
obrigações de fua capitania, eeíTes que tra- 
zia taes , que fe não podiam ter fobre o 
mar , determinou de fe ir pêra a índia. E 
ante de fua partida , por ler falecido Pcro 
Ferreira Capitão da fortaleza , proveo del- 
ia a Fero Corrêa Capitão do navio Roíài- 
ro , que andava com elle , e o navio deo a 
Gafpar Cão , e com os outros que trazia , 
e a náo Merij , que tomou Francifco Pan- 
toja , fe poz na índia com afias trabalho. Af- 
fonfo d\AIbcquerque em fua chegada o que 
lhe não tinha feito cm mandar os navios , 
pagou-lhe em cortezia , e apparato de feu re- 
cebimento , dizendo que daquella maneira fe 
haviam de receber os Capitães , que vinham 
dos lugares de tanto ferviço , como elle tinha 
feito aEIRcy feu Senhor, enãocomooVi- 
fo-Rey D. Francifco recebera a eile. E por- 
que deite anno de oito , em que Duarte de 
Lemos partio deite Reyno , nos fica ainda 
Diogo Lopes de Sequeira , que fe achou com 
elle nos Medãos do ouro , nefie feguinte Ca- 
pitulo queremos dar razão do que paííou na 
viagem do defeubrimento que hia fazer. 

CA- 






Década II. Livro IV. 391 

CAPITULO III. 

Da viagem , que Diogo Lopes de Sequeira 

fez , depois que o anno de quinhentos 

e oito fe partio ãejle Reyno. 

COrno atrás temos eícrito , a caufa que 
moveo a Triftão da Cunha ir á Ilha 
de S. Lourenço , foi a moftra da prata ? e 
homens que Ruy Pereira Capitão da náo 
S. Vicente trouxe de Matatana porto da 
meíma Ilha , os quaes diziam haver nella 
cravo , e gengivre. E poíto que Triftão da 
Cunha deita viagem , que pêra lá fez , náo 
trouxe mais que o trabalho daquella viagem , 
todavia quando em Moçambique deípachou 
a António de Saldanha pêra efte Reyno 
com carga da náo Flor de la mar , elcre- 
veo elle a EIRey D. Manuel , dando-lhe 
conta deita lua viagem , e que per moítra 
mandava a Sua Alteza a prata que naquel- 
la Ilha havia , e dos homens , por ferem na- 
turaes da terra , podia fer informado do 
mais que lhe a elle differam. Com a qual 
nova António de Saldanha chegou a efte 
Reyno em Agofto do anno de íete , eftari- 
do EIRey em a Villa de Abrantes , que o 
recebeo com muito prazer por a novidade 
do defcubrimento que trazia. E praticando 
logo em o negocia., António de Saldanha 

lhe 



^p2 ÁSIA de João de Barros 

lhe pedio , que havendo Sua Alteza deman- 
dar a eíle defcubrimento , fe lembraíTe del- 
le , pois trouxera a nova , ao qual ElRcy 
logo contentou de palavra ; mas quando 
veio ao defpacho , deo eíta ida a Diogo 
Lopes de Sequeira , e a elle António de 
Saldanha a capitania de Çofala na vagante 
de Vafco Gomes de Abreu , que ainda cá 
no Reyno fe não fabia fer perdido. A cau- 
fa , por que elle Diogo Lopes de Sequei- 
ra houve o defcubrimento deita Ilha S. Lou- 
renço , foi por EIRey , ante da vinda de 
António de Saldanha , o ter ordenado pê- 
ra ir defcubrir Malaca ; e por não fazer 
defpeza em duas Armadas aífentou , que 
Diogo Lopes podia fazer cites deus deícu- 
brimentos ; e não havendo na Ilha S. Lou- 
renço o que fe dizia pêra poder carregar 
as náos que levava 5 então paíTaífe a Ma- 
laca.. Aííi que com eíte fundamento Diogo 
Lopes partio no feguinte anno a oito de 
Abril ; e a primeira terra que tomou ? de- 
pois que desferio do porto de Lisboa , foi 
o cabo Talhado , que he além do de Boa 
Efperança , donde tomada agua ? e lenha 
fe partio. E fendo tanto avante como os 
Medaos de ouro , veio ter cem elle Duar- 
te de Lemos , e ambos fe partiram daqui 
com hum temporal 5 que os fez correr a Ilha 
de S, Lourenço , onde a quatro de Agoílo 

to- 



Década II. Liv. IV. Cap. III. 393 

íomáram perto em huma enfeada 5 a que 
os noífos chamam de S. Sebaftião , com o 
qual temporal Jeronymo Teixeira fe apar- 
tou delles. No qual porto acharam dous 
grumetes , que fe perderam com João Go- 
mes de Abreu Capitão da náo Sandia Ma- 
ria da Luz : a hum chamavam André , que 
era Portuguez , e o outro Bartholomeu Ge- 
noez de nação. Partido daqui Duarte de Le- 
mos pêra Moçambique , como eícrevemos 
nefte precedente Capitulo , começou Diogo 
Lopes correr a cofta da Ilha té chegar a 
hum Reyno 5 a que os da terra chamam 
Turubaya , do nome de hum Capitão de 
huma náo de Guzarates 3 que fe alli perdeo. 
Da gente da qual náo, (legando eftava na 
memoria daquellcs homens , que Diogo Lo- 
pes alli achou , ) elles vinham todos ; e aqui 
eftava outro moço per nome António da 
mefma náo de João Gomes , per meio do 
qual 5 por jáfaber a língua da terra, oRey, 
que fe chamava Diamom , fe vio em os 
bateis com Diogo Lopes , e neíle não fe 
achou noticia alguma do que lhe pergunta- 
ram do cravo , gengivre , ou prata. Rece- 
bido delle muito mantimento do que havia 
na terra , partio-fe Diogo Lopes daquelle 
porto , e com eile Jeronymo Teixeira , que 
yeio alli ter; e em doze deAgoíío, dia de 
Saneia Clara , chegou a huma Ilha pegada 

na 



394 ÁSIA de João de Barros? 

na cofia, a que poz o nome deita Sandia, 
na qua] , por ler bem povoada , achou mui- 
tos mantimentos , de que fe proveo. Seguin- 
do adiante feu defcubrimento com refguar- 
do , por a cofta fer chea de ilhetas , e res- 
tingas , chegou ao Reyno de Matatana , 
onde efperava achar o crav r o , e gengivre 
pela informação que levava- porém clle não 
achou mais que o bom gazalhado , com que 
os da terra o receberam. Somente íbube 
que o cravo , que íe alli vira , fora de hum 
junco da Jauha , que com grande temporal 
eígarrou , e quafi perdido veio ter áquella 
Ilha em outro porto dalli perto ; e do cra- 
vo que efte junco trazia , fe efpalhou pela 
terra , c efte era o que enganou a Triftão 
da Cunha. Verdade he que depois per tem- 
po vendo a gente da terra que aquelle fru- 
sto era eftimado entre os Mouros , que tem 
communicação com elles , vieram a enten- 
der em humas certas arvores , que dam hum 
fruéto como baga de louro , que tem o 
mefmo fabor de cravo , e começaram de o 
trazer aos portos de mar a ver fe lhes da- 
vam por iíío alguma coufa. E no anno de 
vinte e fete em hum porto daquella Ilha , 
onde fe perderam Manuel de la Cerda , e 
Aleixo d'Abreu (Capitães de duas náos , que 
hiam pêra a índia, como veremos adiante, 
acharam eíle fruclo já como coufa eílima- 

da^ 



Década II. Liv. IV. Cap. III. 39? 

da , a moítra do qual veio ter a eíle Rey- 
no. Quanto ao gengivre , efle era verdade 
que a terra o dava , inas rjão quantidade 
pêra carregação , porque a gente não fe da- 
va ao diípôr, fomente orlavam algum por 
verem que os Mouros folgavam com elle. 
A prata também os Cafres de dentro do 
ferrão da Ilha traziam algumas manilhas 
delia , e era de mui baixa lei , fem os da- 
quelle porto de Matatana faberem donde 
a eiles haviam. Diogo Lopes vendo que 
todoios fundamentos de fua ida áqueíla Ilha 
acabavam em tão pouco frudlo , como lhe 
o tempo fervio , poz o rofto na índia 5 cor- 
rendo porém ao longo da cofia da Ilha por 
tomar algum porto , onde fe informaííe das 
coufas que havia na terra ; e porque ao tem- 
po que foi demandar a cofta da índia , não 
era o inverno delia expedido de todo , por 
fer a vinte de Abril do anno de quinhen- 
tos e nove , quando chegou a Cochij , vin- 
do do cabo Cornorij , que elle tomou com 
aííás de trabalho , foi recebido honradamen- 
te peio Vifo-Rey D. Francifco. E pofto 
que logo no mez de Maio eíle Diogo Lo- 
pes pudera fazer viagem pêra Malaca por 
fer na monção , a que elles chamam peque- 
na , em que os ventos não são tão geraes , 
e tendentes como no mez de Setembro , 
deteve-fe té vinte e oito de Agoílo pêra cor- 
re- 



396 ÁSIA de J0X0 de Bakros 

reger os navios que levava mal repairados» 
O Viíb-Rey , além dos que elle Diogo Lo- 
pes levava de cá do Reyno , lhe deo mais 
hum , de que foi por Capitão Garcia de Sou- 
íà com feuenta homens de armas , entre os 
quaes hia Francifco Serrão , e Fernão de 
Magalhães ; da ida dos quaes efta vez , e 
outra , que fizeram com Affbnfo d'Alboquer- 
que , quando tomou Malaca , fuecedeo mui- 
to damno a efte Reyno , como adiante ve- 
remos. E aífi lhe deo o Vifo-Rey que le- 
vaíTe , como degredados da índia , a Ruy 
de Araújo , que cm Cochij fervia de The- 
foureiro das mercadorias , e a Nuno Vaz 
de Caftello-branco , que andara em Ormuz 
comAfFonlb ^ 5 Aiboquerque ; c iflo porcau- 
ià das differénças que havia entre elle , e o 
Vifo-Rey. E alguns quizeram dizer que a 
razão , por que elle Vifo-Rey deo efte na- 
vio mais a Diogo Lopes , e o favoreceo 
tanto no bom aviamento que lhe mandou 
dar pêra aqtiella viagem , foi per elle Dio- 
go Lopes fer huma das principaes partes , 
que favoreceo as coufas dellc Vifo-Rey por 
fe achar aili : em tanto, que quando tor- 
nou de Malaca , porque temeo que por ef- 
ta razão Affbnfo d'AIboquerque lhe puzef- 
fe algum impedimento á fua vinda , por a ef- 
te tempo já fervir de Governador do cabo 
Comorij , onde veio ter bem desbaratado , 

ef- 



Década II. Liv. IV. Cap. III. 397 

cfpedio os navios que trazia comíigo , que 
fe vieflem pêra Cochij , e elíe rota-batida y 
fem tomar a coita da índia , fe veio a efte 
Reyno , como logo veremos no feguinte 
Capitulo. Partido Diogo Lopes de Cochij 
a oito de Setembro, foi tomar o porto da 
Cidade Pedir , que he cabeça do Reyno 
deite nome , hum dos muitos que a Ilha 
Çamatra tem , de que adiante faremos rela- 
ção. No qual porto achou cinco juncos , 
que são náos de grande porte , aos quaes 
por ferem de Bengala , e Pegu , deo duas 
bandeiras das Quinas Reaes deite Reyno 
em linal de paz pêra feguramente navega- 
rem , fem de noíías Armadas receberem dam- 
no. EIRey de Pedir fabendo de fua chega- 
da com refrefco o mandou vifitar, defcul- 
pando-fe de o não vir ver por eítar mal dif- 
poíto , com palavras em que moítrava ter 
muito contentamento de virem a feu porto 
coufas d'EiRey de Portugal, com quem el- 
le defejava ter paz , e amizade. Ao que 
Diogo Lopes refpondeo de maneira , que 
per aprazimento delle metteo aili hum pa- 
drão de pedra dos acoftumados em os taes 
defcubrimentos ; e per o mefmo modo foi 
recebido em o Reyno de Pacem , que he 
adiante pela coita da Ilha vinte léguas , on- 
de metteo outro , ficando eítes dous Reys 
£m noíTa amizade. E poíto que o de Pedir 

lhe 



308 ÁSIA de JoÃo de Barros 

lhe dava carga de pimenta de muita que fe 
alíi colhe , e carrega pêra muitas partes , 
elle a não quiz acceitar por ir avante , te- 
mendo que neíla detença de tomar alguma , 
vieíTem mais juncos dos que alli acliou , que 
o impediííem , ou foíTetn dar nova a Ma- 
laca de lua ida , por eíles dons portos de 
Pedir , e Pacem ferem frequentados de mui- 
tas náos , que alli vem carregar por eaufa 
das mercadorias que nelles ha , e aíli nos 
outros Reynos deíla Ilha Çamatra. Diogo 
Lopes , poílo que íò deo a grão preíía por 
elle fer o primeiro per quem Malaca íòu- 
beífe de fua ida 5 já quando chegou a ella , 
efperavam por elle. Da fundação , e fitio 
da qual ? e grandeza da Ilha Çamatra a ci- 
la fronteira com os Reynos que fe nella 
contém , adiante mui particularmente fare- 
mos menção \ aqui baile íaber que eíta Ci- 
dade eílá fituada no canal , que corre entre 
a terra firme do Norte , que lie da Afia , e 
a Ilha Çamatra da banda do Sul , a qual 
Malaca fica quafi no meio delle fituada em 
altura de dous gráos da parte do Norte, 
e o lançamento delia jaz ao longo do mar 
per diílancia de huma légua , e com hum 
rio que vem do fertão , fica cortada em duas 
partes 5 e ambas fe communicao per huma 
ponte. E poílo que todalas cafas eram de 
madeira > tirando a mefquita , e algumas 

do 



Década II. Liv. IV. Cap. III. 399 

do apofento d'ElRey , tinha a Cidade huma 
moftra de tanta mageftade , afli pola grande- 
za da povoação 5 e numero de náos , que 
eftavam cm feu porto , e trafego do con- 
curfo da gente do mar , e na terra 5 que 
houveram os noíTos íer maior coufa , do 
que fe dizia , e que nelia tinham defcuber- 
to mais riqueza 5 do que era a da índia. 
Os moradores delia também vendo as nof- 
fas náos , c o apparato das fuás bandei- 
ras 3 trombetas , e artilheria , que aflbmbrou 
aquellas praias , ficaram muito mais efpan- 
tados por verem mais em nós pêra temer, 
do que os noíTos viam nelles. Os morado- 
res da qual , chamados Malaios 5 poílo que 
eram Mouros , que geralmente aborrecem 
o nome Chriíião , eftes como ainda não ef- 
tavam aífinados do noíTo ferro , não nos ti- 
nham tamanho ódio , como a nação dos 
Arábios , Parfeos , e Guzarates , que alli 
havia eftantes , e navegavam na índia, por 
caufa de algum damno que tinham recebi- 
do de noífas Armadas. Os quaes com infâ- 
mias que punham em noíTos coftumes , e 
communicação , tinham indignado muito o 
povo Gentio que alli havia, affi como Ben- 
galas , Peguus , Syames , Jaós , Chijs , Lu- 
çoes , Lequios , e outras muitas gerações , 
que por razão de commercio concorriam 
ácpella Cidade. E como gente aíTombrada 

do 



4oo ÁSIA de JoXo de Barros 

donoífo nome, tanto que viram furgir Dio- 
go Lopes , todos em geral começaram acu- 
dir á ribeira ; e muitos bateis de ferviço do 
grande número de velas que alli eftavam 
furtas , ferviam de humas em outras 5 e do 
mar pêra a terra , como gente mais teme- 
rofa de nós , que efpantada da novidade 
das náos , e feição de trajo , que os noílbs 
levavam. Somente três náos , que alli efta- 
vam dos povos Chijs , gente que habita a 
mais Occidental terra que fabemos , que he 
a região do Synas , de que falláram os Geó- 
grafos 5 e delles tão mettidos de baixo do 
Norte ? que ufam veftir panno , e outras 
coufas a noflb modo : quando viram o tra- 
jo dos noííbs , peró que tinham noticia del- 
les pelos Mouros , como peíToas fufpeitas , 
logo conceberam o contrario do que lhe 
dilíeram. E a moftra que deram diflb , foi 
em feus bateis rodearem confiada , e fegu- 
ramente as noílas náos ; e fe leixáram de 
chegar muito a ellas , foi pola ordenança 
da terra , que té os Officiaes da Cidade as 
não irem defpachar 5 ninguém pode ir a el- 
las. Havendo já bom pedaço que Diogo 
Lopes era furto , quall em modo deite cof- 
tume chegou hum barco á fua náo , e per- 
guntou que gente era , e donde vinha , e 
que mercadoria traziam , e ifto da parte da 
JJendara Governador da Cidade* Ao que 

Dio- 



Década II. Lrv. IV. Cap. III. 401 

Diogo Lopes mandou reíponder , que era 
Capitão d'ElRey de Portugal enviado per 
elle ao Rey daquella Cidade com certas 
couías , que compriam a bem delia. O qual 
batel iem mais interrogações voltou logo , 
e dahi a pouco vieram dous bateis com 
gente mais limpa : hum era da parte d'El- 
Rey, e outro do Bendará feu Governador , 
em modo de viíitaçao , com palavras .bran-* 
das , e mais íimuladas , que verdadeiras : 
ao que Diogo Lopes reípondeo com o re- 
torno , que ellas requeriam. Paffado aquel- 
le dia , e o feguinte de fua chegada , que 
tudo foram vifitaçoes , ao terceiro per or- 
denança d'ElRey poílo elle em modo de 
receber a embaixada , que Diogo Lopes 
dizia que lhe levava , mandou em feu lu- 
gar Jeronymo Teixeira com nome de feu 
irmão , tomando por defculpa de não ir em 
peífoa por vir mal tratado , e também por 
aquelle feu irmão vir ordenado pêra aquel- 
le negocio , como elle pêra Capitão da fro- 
ta. Chegando a terra em dous , ou três ba- 
teis embandeirados com grande feíla de trom- 
betas , cheios da mais limpa gente da Ar- 
mada, que acompanhava Jeronymo Teixei- 
ra , foi recebido de muitos Mandarijs d'El- 
Rey , que he a mais nobre gente da Cida- 
de , e por lhe fazer mais honra , levado em 
hum Elefante muito arraiado , e todolos 
Tom. IL P. L Ce que 



402 ÁSIA de JoÂo de Barros 

que o acompanhavam a pé té chegarem ás 
cafas cPElRey. O qual no modo de feu tra- 
tamento mofírou eítimar muito lua ida , o 
que lhe diíTe da parte d'ElRey D, Manuel 5 
de quem levava huma carta de crença ef- 
crita em Arábigo : concluindo elle em íua 
refpofta, que efte feu recado feria hum nó 
de paz , e amizade , que nenhum tempo 
teria poder de o defatar ; e que em final 
diíío elle mandaria logo ao Bendará , que 
aquellas luas náos foflem em breve ? e mui 
bem defpachadas. Com as quaes palavras 
Jeronymo Teixeira , e os que o acompa- 
nhavam , vieram mui contentes por ferem 
acompanhadas de muita honra que lhe fi- 
zeram , e de algumas peças que lhe EIRey 
deo em retorno das que levavam. 

CAPITULO IV. 

Como per induzimento do Bendará Go- 
vernador de Malaca EIRey ordenou de ma- 
tar todolos nofjòs , e commettêram Diogo \ 
Lopes , eftando em afua não jogando o en- 
xadrez : e da invenção delle naquellas par- 
tes y e como Diogo Lopes fe falvou. 

HAvia naquella Cidade três homens fo- j 
bre quemeftava todo o confelho d*El- í 
Rey : o principal que era o Bendará por ; 
fer feu parente tinha a adminiftrajao dajuf-jii 

ti- 



Década II. Liv. IV. Cap. IV. 403 

liça , e quafi de todo governo do Reyno 5 
homem abfoluto em feu officio 3 e tyranno 
per condição , e acerca de nós mui odiofo 
por razão deita cubica , como logo vere- 
mos : O outro havia nome Lacfamava , que 
era Capitão geral do mar , ao modo que 
acerca de nós he o Almirante , officio trazi- 
do a nós do uíò dos Arábios , fe havemos 
de dar credito á etymoíogia do vocábulo : 
E o terceiro fe chamava Tamungo , a quem 
pertencia o negocio da fazenda. E como 
acerca dos que andam chegados aos Reys 
he enfermidade mui geral paixão de com- 
petência , por os feus ceurnes darem menos 
repoufo que os outros : eram eítes três ho- 
mens mui enfermos deita enrerm idade , cau- 
fa de todolos males que fobrevem aos Rey- 
nos onde ella reina mais que os próprios 
Reys , como aconteceo aeíte. Porém eftava 
o ódio affi regulado entre eJles , que do 
j grande que Lacfamava , e o Tamungo ti- 
nham ao Bendará por fer mais foberano > 
j vieram fazer concórdia entre ambos pêra 
jfempre o contrariarem. E porque com noífa 
S chegada EIRey teve logo alguns confelhos 
ífobre o defpacho de Diogo Lopes , e o Ben- 
Idará além do ódio de Mouro teve outra cou- 
Ifa mais principal pêra contrariar noífas cou- 
jfas , que foi ler mui bem peitado de todo- 
los mercadores Mouros alli refidentes ; em 
Ce ii cu- 



404 ÁSIA de JoÁo de Barros 

cujas mãos andava o commercio deita Cidade 
pêra a índia: como era homem que tinha 
ante EIRey muita audtoridade , fe os outros 
o não contrariavam , logo em Jeronymo 
Teixeira poendo os pés em terra í nelle , e 
nos de fua companhia quizera EIRey exe- 
cutar o feu conielho ? que era dar ordem 
como todos foíTcrn cativos , e mortos , c as 
náos mettidas no fundo. Mas quando vio 
que eftes dous contrários feus impediam 
com fuás razões o que eile amoeílava , e 
que niíto lhe hia muito interefle ; teve mo- 
do como EIRey ou vio fccrctamente alguns 
mercadores deites , per quem elle era roga- 
do. Finalmente huns , e outros induziam a 
EIRey que a eíteReyno não vieíTe alguma 
daquellas cinco velas , pêra a qual obra fe 
fazer a feu falvo ordenou EIRey de con- 
vidar a Diogo Lopes ; e porque temeo que 
elle não quizeíTe acceitar eíte banquete nas 
fuás cafas , por o mais fegurar , íimulou que 
por honra de Capitão de tal Rey , que de 
tão longe lhe enviava embaixada , queria ce- 
lebrar eíta fetta em huma praça vizinha ao 
mar em hum grande cadafalfo de madeira 
cuberto de muitos pannos de feda. O qual 
banouete acceitadp per Diogo Lopes á força 
de fenão poder efcufar fem manifeítamente 
moítrar defconfiança , foi logo avifado per 
meio de hum Jauha de cafa de hum Jaojj 

cha- 



Década II. Liv. IV. Cap. IV. 405* 

chamado Utimutiraja , o mais rico 5 e po- 
derofo de toda a Cidade , como fe verá 
adiante , quando AíFonlo d'Alboquerque nef- 
te próprio cadafalfo lhe mandou cortar a 
cabeça , como a hum dos mais principaes 
auítores deftes tratos , e d'outros peores de 
que elle ufou. Diogo Lopes tanto que' fou- 
be que as honras daquelie cadafalfo que fe 
começava armar , eram pêra matarem a el- 
le , e a quantos levafle comíígo , ante que 
vieífe o dia limitado , e a obra do cadafalfo 
foffe mais avante-, fingindo nova doença de 
hum . defaftre que o mancou de hum pé, 
mandou- fe defculpar a EIRey.' E ora que 
elle fentio o receio que Diogo Lopes ti- 
nha , ora per qualquer outra caufa , per in- 
duftria do Bendara /eonverteo efta obra a 
outro modo , convídallo a que mandafle re- 
ceber á Cidade huma fomma de cravo , e 
de outras drogas , e mercadorias , porque 
deftas lhe fentia mais fome por os requeri- 
mentos que cada dia tinha fobre iíío , di- 
zendo que por lhe dar bom aviamento as 
tomava a alguns mercadores que as tinham 
pêra carregar pêra a índia , e Bengala. Que 
mandaiTe quem havia de receber, e fofem 
homens ordenados pêra quatro partes por 
eftar em quatro mãos, moftrando fer necef- 
fario per eíle modo o feu dêípachò por fe 
receber tudo em hum dia , porque fendo 

per 



406 ÁSIA de João de Barros 

per muitos , efcandalizaria a alguns merca- 
dores eftantes alli , vendo (]ue fe negara a 
elles carregar primeiro , fendo dos primei- 
ros que eram alli apontados , fegundo a or- 
denança da Cidade , que quem primeiro che- 
ga , primeiro fe parte. Pêra o qual dia or- 
denou huma Armada de muitas lancharas, 
e calaluzes de remo , que eíliveflem detrás 
de hum cabo > a que os noífos ora chamam 
Rachado , que fera obra de três léguas da 
Cidade contra a índia , e a hum certo final 
vieífem fobre as noífas velas : em o qual 
tempo havia de eftar em a náo de Diogo 
Lopes hum filho de Utimutiraja com gente 
pêra o matar ás crifadas ao final ordenado. 
Tomando todolos Malayos per coílumc os 
dias ante deite , em que efperavam pôr em 
eíFeito efta traição , irem , c virem aos noí- 
fos navios a comprar , e vender coufas le- 
ves por nao haverem por cftranho quando 
foíTcm ao cafo. Dizendo todos aos noílos 
que por fer fóra da monção eftava a Cida- 
de pobre das mercadorias que elies que- 
riam , e também alguns dos noílos a quem 
Diogo Lopes dava licença , faziam outro 
tanto na Cidade ; e porém mais a fim de 
ver , e notar as coufas delia, que por ra- 
zão de compra. E fendo já paífados qua- 
renta dias , em que aífi da noiTa parte , co- 
mo da fua j havia eíla communicação > e com- 

mer- 



Década II. Liv. IV. Cap. IV. 407 

niercio , tendo o Bendará hum intento , e 
Diogo Lopes outro ; no dia ordenado deita 
traição , mandou Diogo Lopes té trinta pef- 
foas pelo modo que o Bendará ordenou , 
a receber o cravo com algumas mercadorias , 
que haviam de dar a troco delle. Idos eftes 
homens a Cidade , veio á náo de Diogo 
Lopes com alguma gente bem tratada em 
modo de folgar hum mancebo filho de 
Utimutiraja , a chegada do quai foi a tem- 
po que Diogo Lopes eftava jogando o en- 
xedrez ; e tanto que entrou em a náo , deo 
Diogo Lopes de mão ao enxedrez por o 
agazalhar. O Mouro como levava no peito 
fua maldade , por fegurãr mais a Diogo 
Lopes , e fe deter té que vieíTe o finai que 
efperava , pedio-lhe que tornaiTe ao jogo 
que o queria ver , e depois que o vio ar- 
mado , e o mudar das peças , entendeo o 
que era , e diífe que também entre elíes ha- 
via aquelle jogo , mas que não tinha tantas 
peças 5 e começou de vagar ir perguntando 
pelo nome delias , e o modo de leu andar , 
por dilatar o tempo té o final que efperava 
da terra , que havia de fer depois que def- 
fem nos que lá eram. E poíto que feja cor- 
tar o fio deite cafo cm que eftavamos , por- 
que acerca de nós he recebido, que eíte jo- 
go de enxadrez fe inventou entre os Ará- 
bios 3 por darmos mais hum auítor ao livro 

de 



408 ÁSIA de João de Barros 

de Polydoro Virgilio 5 que tratou dos in- 
ventores das couías 5 faremos huma pequena 
digrefsão , recitando o que ternos fabido da 
invenção delle per doutrina de hum livro 
efcrito em Paríeo chamado Tarigh , que 
trasladámos defta lingua , o qual he hum 
fummario de todolos Reys que foram na 
Perfia , té hum certo tempo que os Arábios 
com fua feita de Mafatnede a fobjugáram. 
A qual eícritura diz , que na Perfia reinou 
hum Príncipe Gentio chamado Nixirauhon, 
de alcunha per Parfeo antigo Quiílera , e 
per Arábigo Hádel , que quer dizer jufto , 
por fer homem neíta parte de juíliça tão in- 
teiro , que quando acerca dos Parfeos que- 
rem louvar hum homem defta virtude, di- 
zem : He hum Nixirauhon. E entre muitas 
coufas que fe delle efcrevem , he , que que- 
rendo fundar huns paços em huma aldeã , 
por fer lugar gracioíò de muitas aguas , e 
boa comarca , foi neceífario comprar muitas 
propriedades dos vizinhos do lugar 5 entre 
as quaes havia a cafa de huma velha , que 
per nenhum preço a quiz vender , e dava 
por refpofta a quantos partidos lhe ElRey 
mandava commetter, que elle Rey , e Se- 
nhor era da terra , e que bem lhe podia to- 
mar fua cafa , mas que per fua vontade nun- 
ca a leixaria ; porque como ella era o berço 
em que fe creára ., elia havia de fer o ataúde 

de 



Década II. Liv. IV. Cap. IV. 409 

de fua fcpultura , por quanto nella mandava 
que a enterraííem. Vendo-fe EIRey tão con- 
trariado nefte feu appetite daquelie edifício , 
porque fegundo a difpofiçao do íitio , e da 
traça , a cafa deita velha lhe ficava por em- 
bigo das fuás , e convinha damnar muitas 
por falvar a efta : todavia mandou fazer os 
paços , e que a cafa da velha ficaffe falva 
com fua íèrventia pêra fora , de maneira que 
llie não fizeíTem nojo. Os quaes paços , de- 
pois que foram acabados , como eram hu- 
ma das magnificas , e fumptuofas obras da- 
quelie tempo, tinham tanta fama , que qual- 
quer peífoa que vinha á Corte d'ElRey, 
os havia de ir ver , por eftarem perto da 
Cidade , onde elle mais refídia. E acertando 
dous Embaixadores , que eram vindos a elle 
d ? outro Rey feu vizinho , de irem ver efta 
obra , quando tornaram a EIRey Nixirau- 
hon , louváram-lhe muito a mageftade , e 
inftructura da obra ; e hum delles que era 
Filofofo per fim de todolos louvores , difle , 
que lhe parecia aquelía obra huma pedra 
preciofa , em que a natureza quiz moftrar 
quão perfeita era ; e que o cafo invejofo , 
e imigo de toda perfeição por macular tão 
perfeitiííima coufa , bufcára a mais vil que 
achou, e a poz no í meio delia , e efta fora 
a cafa daquella velha, que íè efpantava mui- 
to dellç , por fatisfazer a contumácia delia 

po- 



4io ÁSIA de João de Barros 

poder íbffrer aquelle grande defeito em tão 
perfeita coufa. Ao que EIRcy refpondeo, 
que mais fe efpantava delle , fendo homem 
Filofofo , não entender que a cafa daquella 
velha era a melhor peça que os paços ti- 
nham , e que lhe davam mais luftro , e de- 
coro , que quanto curo nelle eílava , porque 
naquella pobre cafa fe via ler elle jufto ás 
partes , e não fumptuoíidade da obra : fica- 
va infamado de vão, e pródigo em coufas 
materiaes como era a inflruítura delles. Po- 
rém por lhe não parecer que confentia na 
vontade da velha por gloria de fer havido 
por jufto , lhe queria dizer a caufa que o 
movera a não a efcandalizar , em que veria 
proceder mais de vicio que de virtude , por 
ter feu fundamento em temor de pena. En- 
tão começou a contar , que fendo elJe man- 
cebo , indo per huma rua , vira ir diante íl 
hum mancebo traveííò , que travava pelo 
caminho com todos r o qual vendo eftar 
hum cão a huma porta fem lhe ladrar , nem 
fazer coufa alguma , tirou-lhe cem huma pe- 
dra , e fez-lhe hum arremeífo que foi aíli 
certo 3 e de força , que lhe quebrou huma 
perna , e paliou adiante faltando , e glorian- 
do-fe de o cão ficar efganiçando-fe com a 
dor. E indo elle aífí nefte prazer , foi dar 
com hum homem que hia a cavallo : e pa- 
rece que o cavallo era maliciofo y porque 

íhn- 



Década II. Liv. IV. Ca*. IV. 411 

fentindo o outro detrás ., que vinha naquel- 
les faltos de prazer , tirou hum couce , com 
que lhe quebrou huma perna , e elle íicou 
doendo-fe da fua dor da maneira que fez o 
cão. O Senhor do cavaJlo fazendo pouca 
conta do mancebo ficar aííi, foi feu cami- 
nho , e acertou de eftar no meio da rua 
hum buraco de huma cova arminhada , da 
qual não fe efguardando , metteo o cavai- 
lo o pé , com que dera o couce , e o Se- 
nhor por fe tirar do perigo , deo-lhe rijo 
das efporas , com que o cavallo por fahir , 
cahio pêra huma ilharga , ficando-lhe a per- 
na quebrada pela cana. As quaes coufas neí- 
le Rey fizeram grande efpanto , donde ti- 
rou que os juizos de Deos eram mais pro- 
fundos do que os homens queriam enten- 
der ; e que pois eram tão particulares , que 
deciam aos brutos animaes , que fariam acer- 
ca dos homens , que tem plantada no animo 
eíta lei commum , que não devem fazer o 
que não queriam que lhe fofle feito ? Don- 
de quando a velha lhe negou aquella fua 
cafa , peró que elle lha pudera tomar ? te- 
meo muito o juizo de Deos , que alguém 
podia tomar a fua a elle , ou a feus filhos , 
do qual feito elle Filofofo podia crer que 
aquella juftiça , que elle Rey obrara com a 
velha , fora mais temor de pena . que amor 
de virtude. E como com efla , e outras obras 

de 



412 ÁSIA de João de Bakros 

de tanta juftiça , que efte Rey fazia em feu 
tempo, tinha grande fama per toda a Afia, 
e fobre a virtude natural tinha outra parte 
adquirida , que era dodtrina de letras , por 
razão das quaes amava os doítos nellas , 
concorriam a elle muitos Filofofos. Entre 
os quaes veio hum chamado Acuz Fárlu , 
que lhe trouxe o jogo do enxadrcz , não 
com tantas peças , como nós ufamos , fo- 
mente com aqucllas que convinham ao nú- 
mero dos Magiftrados , com que naquellas 
partes fe regem as Republicas , querendo el- 
le reprefentar neftas peças o governo de 
hum Reyno em modo politico , donde o 
jogo ficou em ufo , e o tempo foi depois 
accreícentando , e diminuindo peças, efque- 
cendo a theorica , que efte Filoibfo queria 
plantar no animo daqucllcs que governam. 
Em algumas peças de marfim , que nós hou- 
vemos da índia , o Rey eítá fobre hum 
Elefante, e o roque acavailo, ecada huma 
das peças com a diftinção do Officio que 
tem , e dos Parfeos paííou efte jogo aos Ará- 
bios ; os quaes são tão dados a iífo , e tão 
deftros nelle , que andando caminho , de 
cor fem haver peças o vam jogando , como 
fe tiveífem o tavoleiro diante. E o grão 
Tamor Lange , a que muitos corruptamen- 
te chamam Tamor Lam , cuja vida nós 
temos em Parfeo, e de que ao tempo que 

com- 



Década II. Liv, IV. Cap. IV. 413 

compúnhamos efta hiftoria , tínhamos tirado 
em nofía linguagem boa parte delia, fendo 
Pardio de nação , e Senhor de toda a Per- 
iia , acafo poz nome a hum filho de huma 
das peças do enxadrez ; e a caufa foi efta. 
Eftando com hum feu Capitão jogando ef- 
te jogo , ao tempo que elle com hum ro- 
que dava xaque mate , lhe deram nova que 
fua mulher Catalu Àgon parira hum filho ; 
e porque no jogo hia grande preço, tomou 
por bom prognoftico do filho íer-lhe dada 
a nova a tempo que o ganhou , dizendo 
fer final que havia de fer viéloriofo , e do 
cafo lhe poz o nome , chamando-lhe Xá- 
roc. Sobre o qual nafcimento fe tiraram 
grandes juízos ; e fegundo conta efta Chro- 
nica , elle nafceo na era de Mahamed de 
fetecentos e nove , e teve por aícendente 
Pifces , e eftava Júpiter , e Vénus em con- 
junção na cafa de Libra, e o Sol na deci- 
ma ; e per efte modo vai o hiftoriador di- 
zendo toda a fituação dos Planetas , como 
homem que fe quiz moftrar Aftrologo. E 
defta palavra Xároc podemos entender que 
acerca de nós anda corrupto efte modo de 
dizer xaque do roque , porque efta palavra 
Xároc Parfea he compofta de duas partes, 
Xá , e roc. Xá denotação da Real digni- 
dade , que fomente compete á peflba do 
Rey 5 donde ao que ora reina na Perfia, 

fen- 



414 ÁSIA de João de Barros 

fendo feu próprio nome Tamáz , antepõe 
efta parte Xá , dizendo Xatamáz , como fe 
diíTeííem o fenhorTamáz, ou como dizem 
a EIRey de França 5 Xira. Ao modo do 
qual Filofofo Acuz Farlu , não por imitar 
a elle , porque ainda eu não tinha viílo ef- 
ta hiítoria , mas porque em modo de arte 
memorativa a memoria pudeífe reter cfta 
dodrina moral , como ufou o Filofofo Ce- 
betes na pintura de íua taboa 5 que quiz in- 
troduzir a virtude , e reprovar os vicios : 
aíli per artificio de jogo de taboas reduzi 
toda a Etílica de Ariftoteles , cm que en- 
travam todalas virtudes , e vicios per ex- 
ceífo , e per defeito. O qual tratado dirigi 
á Infanta D. Maria , que depois foi Prin- 
ceza de Caítella filha cPEIRcy D. João o 
Terceiro NoíTo Senhor , com o qual ella 
jogava. E tendo eu propofito de poer a 
Económica também em jogo de cartas , e 
a Politica ncfta de enxedrez , por eftes três 
ferem os mais communs jogos , ao menos 
por nelles aprenderem os homens o nome 
da virtude, ecomo fe devem haver no ufo 
delia , já que não ha hi modo pêra leixa- 
rem de jogar , vi eu tão poucos devotos 
do primeiro , que não quiz trabalhar nos 
outros. Tornando á noífa hiítoria, em me- 
nos tempo do que gaitámos em fazer eíta 
digreísao 7 eram vindos da Cidade de Ma- 
la- 



Década II. Liv. IV. Cap. IV. 41? 

laca ás noíTas náos mais de vinte barcos , 
e de dous em dous fe punham a bordo , 
como que vinham fazer feira com os nof- 
fos de algumas coufas que traziam pêra os 
terem occupados niíib ; e o filho de Uti- 
mutiraja eftava fobre Diogo Lopes com o 
efpirito mais prompto , quando lhe feria 
feito o final pêra a obra a que vinha , que 
nas peças do enxedrez. O coração do qual 
como eílava determinado , não o leixava 
alTocegar; e de quando em quando alevan- 
tava-fe, e punha-fe em pé fobre Diogo Lo- 
pes , que eílava baixo prompto no tabolei- 
ro, e acudia com a mão a hum cris arma 
ao modo das noíTas adagas. A qual coufa 
de cima da gávea via hum grumete , que 
fervia de gajeiro , por eílar com o fentido 
nos Mouros , que rodeavam Diogo Lopes : 
não com fufpeita que delles tivefle , mas 
como Anjo, que Deos alli poz pêra vigiar 
as vidas daquella fua gente. Porque certo 
quem cuidar nefte perigo , e em outros mui- 
tos , que ante , e depois os noííos paíTáram , 
verá quanto N. Senhor quiz moftrar que o 
defcubrimento deftas partes procedeo mila- 
grofamente j porque onde desfalecia noífa 
prudência , alli acudia elle com fua miferi- 
cordia , como fe moftrou nefte grumete. O 
qual nefte inftante tirando os olhos dos Mou- 
ros 7 e olhando pêra a Cidade > como já 

os 



416 ÁSIA de JoXo de Barros? 

os Mouros andavam matando os noífos 9 
que eram receber o cravo , vio vir alguns 
correndo contra a praia , onde eílavam cer- 
tos marinheiros efperando em os bateis por 
elles. E nefte meímo tempo em huma das 
outras náos mui perto de Diogo Lopes , 
onde eílavam outros Mouros em os bar- 
cos , a quem era encommendado a entrada 
delia , Íobre o vender das coufas , que el- 
les traziam pêra diífimulaçao deíle feito , 
de alvoroçados , fem guardar o final que 
eíhva aífentado entre todos pêra darem a 
hum tempo , começaram de vir ás enfadas 
com os noífos de maneira , que juntamen- 
te aífi nefta náo , e em terra , como em hu- 
ma ilheta , onde outros marinheiros eíla- 
vam cozendo hum pouco de breu pêra brea- 
rem o feu batel , vio eíle grumete o rumor 
dos Mouros contra os noífos ; e movido 
mais per Deos , que fabendo o que dizia , 
começou a grandes vozes , dizendo a Diogo 
Lopes : Senhor 5 Senhor , traição , traição , 
matão os nojjòs. As quaes palavras Diogo Lo- 
pes fubitamente fe levantou rijo dando com 
o taboleiro em terra , com o qual íubito mo- 
vimento o filho deUtimutiraja, e os que ef- 
tavam com eíle, aífi ficaram cortados, pare- 
cendo-lhes ferem fentidos , e prezos por iffo > 
quehuns per hum bordo , c outros per outro 
fe lançaram todos aos bateis , em que vierarru 

Quau- 



Década IL Liv. IV. Cai>. IV. 417 

Quando Diogo Lopes vio efta revolta nos 
Mouros , e as outras da terra 5 e no mar , 
por cuja caufa o Grumete bradava , a grão 
prefía mandou bateis a terra acudir a Fran- 
cifco Serrão , que com três , ou quatro Gru- 
metes , que fugindo da Cidade efcapáram 
em hum batel , vinham muito apertados de 
alguns barcos dos imigos , que os tratavam 
mal , té que lhe valeo hum batel , em que 
hia Nuno Vaz de Caíleilo-branco , Fernão 
de Magalhães , Martim Guedes , que trou- 
xeram eíle batel entre as noflas velas pêra 
os defender com a artilheria. Nefte mefmo 
tempo também a Armada , que eílava detrás 
do Cabo Rachado 5 começou a fe defcu- 
brir, a qual coufa aífi metteo a Diogo Lo- 
pes em confusão , vendo o grande número 
das velas , e quão mal apercebido eílava pê- 
ra as efperar , que o mais preíles coníèlho 
que teve , foi dar á vela 2 e ante de fua che- 
gada picar as amarras, por não haver mais 
tempo , e foi efperar os imigos , que vinham 
mui foberbos com o grande numero de gen- 
te , e velas que traziam. Porém depois que 
experimentaram a noífa artilheria ? e ella co- 
meçou metter alguns no fundo , os mais que 
ficavam foram bufcar abrigada da Cidade, 
onde eílava aííeílada ao longo da ribeira 
hum comprido lanço de artilheria , que a 
cite fim de emparar eílas velas fe puzera 
Tom. II. P. L Dd dous 



418 ÁSIA de João de Barros 

dous dias havia. E poílo que Diogo Lopes 
logo lhe pudera fazer mais damno , reco- 
lheo-fe ao poufo onde eílava , té faber par- 
te da gente que tinha em terra 5 e achou 



que 



com cila lhe faleciam feíTenta homens 



cm que entravam alguns que mataram, vin- 
do-íe recolhendo aos bateis , quando Fran- 
cifeo Serrão eícapou , de que hum delks 
era o Piloto mor da Armada , e afli dez 
que eftavam na ilheta cozendo breu. Diogo 
Lopes paflado aquelle fubito accidente , . e 
íabendo per Francifco Serrão queRuy d'A- 
raujo com alguns que eftavam com elle em 
huma cafa , onde feitorizavam as coufas , a 
que eram idos , fe poz em defensão quan- 
do o commettêram , pareceo-lhe, que pois 
ficava vivo quando Francifco Serrão o lei- 
xou, que era neceílario eíperar té faber fe 
era morto elle , e os outros , e fobre iílò 
fe determinaria no que fariam. Porém em 
dous dias que fe alli deteve por caufa de 
os haver , r A os quaes foram , e vieram re- 
cados feus , e do Bendará , toda a conclu- 
são foi mandarem-lhe três Grumetes per ve- 
zes 5 e dous eram os moços que elle Dio- 
go Lopes achou na Ilha de S. Lourenço , 
e outro hum Negro , e com elles dezoito 
bahares de cravo , e ifto com artificio , efpe- 
rando de o ter com hum recado d'ElRey 
que foi o derradeiro 7 dando grandes deí- 

cul- 



Década II. Liv. IV. Cap. IV. 4x9 

culpas do cafo ; dizendo que ao tempo que 
fe fizera 3 elle era fóra em húma quinta , e 
que fegundo tinha fabido 3 o cafo procede- 
ra de Aí ouros que tratavam na índia , a 
quem os noíTos tinham tomado certas nãos , 
que em modo de reprezaria o commettêraiil. 
Diogo Lopes vendo que delie não podia 
haver mais dos que lá ficavam 3 os quaes fe- 
gundo diziam os moços , podiam fer té trin- 
ta e tantos , teve confelhos com os Capi- 
tães , eaíTentáram ler mais ferviço d 9 E!Key 
partir-fe , e trazer-llie nova deíle defcubri- 
mento, que tomar emenda delia traição. No 
.qual feito podiam receber maior damno , 
que dos cativos que ficavam , porque eíles 
mui breve remédio podiam ter per resgate, 
ou per qualquer outro modo , que bem pa- 
receíTe ao Capitão mor da índia ; e mais 
como a navegação daqueíia parte de Mala- 
ca fe navegava com vento geral , a que el- 
1 les chamam monção , fe perdeíTem oito dias 
£or eftar já no fim delia , era forçado efpe- 
I rarem ao menos três mezes pêra tornar 
aquelle tempo pêra fua navegação. Final- 
; mente vifto todolos inconvenientes , foi af- 
fentado que fe partiíTem , e por efpedida 
mandou Diogo Lopes tomar hum homem , 
e huma mulher, que tomaram nos barcos, 
^que eítavam vendendo a bordo das náos o 
dia do alevantamento , e mettendo a cada 
Dd ii hum 



420 ÁSIA de JoÁo de Barros 

hum huma fetta pelo cafco da cabeça , em 
hum barco dos feus foram poítos em terra , 
com recado a EIRey , que per aquelles dous 
vaflallos feus lhe mandava notificar , que a 
traição commettida cuílaria áquella faa Ci- 
dade ante de muito tempo fer per os Por- 
tuguezes mettida a fogo , e fangue ; fe lhe 
não valeflem os que lá ficavam , por iíTo 
que os tiveflem em boa guarda. Feito á 
vela do porto de Malaca, ante que tomaíTc 
a Ilha , a que os noífos chamam Polvorcira , 
que fera delia quarenta léguas , onde efpe- 
rava fazer aguada , tomou dous juncos , que 
hiam pera Malaca , o primeiro delles adi 
foi trabalhofo , que cuílou o defpojo delles 
fete , ou oito homens dos noífos 3 e o outro 
per hum defaftre houvera de cuílar a vida 
dejcronymo Teixeira , e de trinta homens , 
que Diogo Lopes mandou metter nelle de- 
pois de o ter rendido de noite Garcia de 
Soufa com o feu navio Taforea. O qual 
Jeronymo Teixeira não hia a mais , que pê- 
ra com os outros o terem aíli rendido per 
popa da náo capitânia , té que vieífe a ma-L 
nhã , e o defpejarem ; mas como os Jáos| 
são homens que ufam muito deite ardil , fa- 
zem logo os navios todos repartidos em ca- 
marás , a que elles chamam peitacas, peral/ 
efte ufo , que podem alagar a náo de agua, 
fem lhe entrar na mercadoria ? per o qua. 

ar- 






Década II. Liv. IV. Cap. IV. 421 

artificio , tanto que viram os nofíbs dentro , 
como era de noite , deram rombos nelle , 
e mettêram tanta agua que dava já pela per- 
na aos noífos. Os quaes vendo-fe naquelle 
perigo 5 recolhêram-iè aos "caftellos davante , 
e bradando pelo Capitão mor , em lugar 
de lhes valer 5 mandou dar hum pique ao 
cabo , per onde o tinha atoado , temendo 
I que indo-íe a náo ao fundo , íizeíle foço- 
í brar a elle , com que o junco ficou á von- 
I tade do mar , que o levou da companhia 
i das outras velas 5 indo Jeronymo Teixeira > 
\ e outros a Deos miíèricordia ; mas aprouve 
; a Deos que íe teve tento pêra que parte 
corria , ainda que era de noite , que foi ter 
com elles Garcia de Souík , que os íaivou. 
I Paffado eíte trabalho, leixandò o junco co- 
I mo perdido , veio íurgir á Ilha Polvoreira , 
! onde cíteve vinte e dous dias refazendo-fe 
; de algum corregimento que os navios ha- 
[ I viam mifter , e alli queimou o navio , Ca- 
J ; pitão Gonçalo de Souía , por não ter gente 
j do mar pêra marear , e em fe fazendo da- 
1 ; qui á vela , perdeo a náo Sanfta Ciara , 
1 Capitão Jeronymo Teixeira em hum bai- 
. ! xo , ao qual deo o navio de João Nunes , 
jpor elle Jeronymo Teixeira ir porScta-Ca- 
.j pitão mor. E dahi veio ter ao porto de Pe- 
J dir , e ante. de entrar nelle inetteo no fun- 

I 1 do hum junco de Malaca > que fahia de 
den- 



-4" ASIx\ de João de Barros 

dentro, do qual porto rota batida veio de- 
mandar a corta da índia , e o primeiro por- 
to que tomou deila , foi Travancor , que 
eílá junto do Cabo Comorij , onde tomou 
três juncos de Mouros , que vinham de 
Choromandel carregados de arroz , de que 
proveo afua não pcra fe vir fó a eíle Rey- 
no , e o mais deo ás outras duas náos de 
ília companhia , Capitães Jeronymo Tei- 
xeira , e Garcia de Soufa , mandando-Ihes 
que fe foffem aCochij pêra tomarem carga 
por não virem boiantes a cite Reyno. As 
quaes chegaram a Cochij", onde Affbnfo 
crAlboquerque eítava bem ncceíiitado de 
mantimentos por chegar então bem desba- 
ratado do feito de Calecut : em companhia 
dos quaes Capitães , Diogo Lopes não quiz 
ir , temendo que Affbnfo d'Alboquerque , íin- 
lo alguma couía , o quizefle impedir a 
vir aquelle anno , por razão do favor que 
elle Diogo Lopes deo a parte do Vifo-Rey , 
quando alli efteve no tempo das fuás dife- 
renças. E daqui de Travancor em Janeiro 
de quinhentos e dez fe fez á veia pêra eíle 
Reyno a vinte e fete d' Abril, e miiagrofa- 
mente chegou á Ilha Terceira mui desbara- 
tado por fe não querer ir repairar a Co- 
chij com receio deAfFonfo d'Alboquerque : 
tanto temem os homens aquelles que oífen- 
dem , quando os vem poderofos , que fe 



Dec. II. Liv. IV. Cap. IV. e V. 423 

difpõem a maiores perigos , do que sao~ os 
damnos que imaginam poderem receber del- 
les. E daqui das Ilhas , depois que fe pro- 
veo , veio ter a efte Reyno , onde foi mui 
bem recebido 5 peró que não veio tão car- 
regado de fazenda , quanto era a efperança 
no tempo que de cá pardo. 

CAPITULO V. 

Como Affbnjb d?Albcquerque , depois que 
âefpachou as nãos , que aquelle anno vie- 
ram pêra efte Reyno , par tio deCochij com 
huma Armada pêra ir a Ormuz , e no ca- 
minho lhefobreveio cajò , com que converteo 
ejia ida em dar na Cidade Goa. 

AFfonfo d 5 Alboquerque , depois queef- 
pedio as náos da Armada do Man- 
chai com carga de efpeciaria pêra efte Rey- 
no , e affi os navios que mandou á Ilha Ço- 
cotorá pêra provisão da fortaleza , ( como 
atrás fica , ) começou logo de entender no 
repairar das náos 3 e navios que lhe fica- 
ram , por todos eílarem tão desbaratados y 
que haviam miíier grande corregimcnto , e 
mais pêra tanta obra como lhe EiRey man- 
dava fazer, principalmente ir-fe ajuntar com 
Duarte de Lemos , e fazer huma fortaleza 
dentro no mar Roxo , e tomar aflento em 
as coufas de Ormuz ; e outras que eítavam 

em 



424 ÁSIA de João de Barros 

em aberto , pêra que convinha andar clle 
fempre no mar. E como Affoníb cPAlbo- 
querque naturalmente era homem fragueiro , 
e ardego em os negócios , e luccedêra ao 
Vifo-Rey D. Francifco com ódio de fuás 
differenças , e íbbre iflb entrou na gover- 
nança da índia com aquella quebra do feito 
do Marichal , peró que nelle não teve cul- 
pa quanto á geral opinião de todos , por 
moítrar a EIRey que não era elle homem , 
que havia de lançar a perder a índia , co- 
mo lhe tinham elcritò íeus imigos , mas que 
havia de accrefcentar o citado delia : era 
tão fervente no aviamento deitas coufas , e 
canfava tanto os OíEciaes , que o não po- 
diam aturar , porque nunca dormia , nem 
aflbcegava de dia , e de noite , e queria que 
todos tomaíTem a lua apreífada andadura. 
No qual tempo , em quanto durou o aper- 
cebimento deitas couías , os Reys, e Prín- 
cipes vizinhos o mandaram vifitar , como 
elles coítumam na entrada de qualquer no- 
vo Capitão , entre os quaes foi Melique Az 
Senhor de Dio , e Melique Gupij feu com- 
petidor Senhor de Baróche , huma Cidade 
mui principal na enfeada de Cambaya , a 
cujo poder foi ter Fernão Jacome , e ou- 
tros que ie perderam com D. AíFonfo de 
Noronha. O qual Melique Gupij lhe eícre- 
via os que eram vivos , e que eram trata- 
dos 



Década II. Liv. IV* Cap. V. 425* 

dos não como cativos , mas naturaes por 
fua caufa , e aífí lhe efcrcvia como tinha 
cartas do Cairo , que o Soldao com o des- 
barato que ibube que houvera a fua Arma- 
da em Dio , fazia outra de mais velas ; e 
que foífe certo que eJle por fua parte tra- 
balharia com EIRey de Cambaya feu Se- 
nhor que mandaífe em todolos léus portos 
que não foífem recolhidos , pedindo-lhe el- 
leMelique Gupij que em final de boa ami- 
zade houveíTe por bern de lhe dar hurna 
Provisão pêra fuás náos > onde quer que 
foífem achadas , não receberem damno de 
fuás Armadas. Melique Az também teve o 
mefmo requerimento , e confirmação da paz 
que tinha aífentada com o Vifo-Rey Dom 
Francifco ,. ao que AíFonfo d 5 AIboquerque 
concedeo por ferem duas pefíòas notáveis 
naquelle Reyno , de que efperava ajudar- 
fe em feu tempo. Apercebida lua Armada , 
determinou ir a Ormuz , porque como por 
caufa dos Capitães que lhe fugiram , não 
acabou o que tinha começado , e pelas no- 
vas que havia que o Xeque Ifmael Rey 
de toda a Períia queria entender nelle ; te- 
. mia que tão poderofo Príncipe , depois que 
metteíTe hum pé naquella Ilha , por fer hu- 
rna ponte , per que entravam , e fahiam to- 
dalas mercadorias da Períia 5 feria trabalho- 
íò lançaiio fora. Ante da qual determina- 
ção 



426 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

çao poz efte cafo em confelho dos Capitães , 
onde foi apontado que com a ida do Vi- 
fo-Rey , e gente que morreo com o Ma- 
richal , ficava a índia com tão pouca gen- 
te , que pcra lua fegurança não convinha 
alongar-fe longe delia ; e lambem per ou- 
tra parte EIRey mandava que foííe fazer 
huma fortaleza na boca do mar Roxo , por 
impedir a fahida das Armadas do Soldão 
do Cairo , de que tinha novas per recados 
de Melique Gupij. Apontadas as quaes ra- 
zões , houveram por coufa mais importante 
acudir a Ormuz , ante que o Xeque Ifmael 
o tomaífe , vifto como eíte Príncipe naquel- 
le tempo , e naqucllas partes era terror 
das gentes , por haver mui poucos dias que 
em duas batalhas campacs vencera os mais 
poderofos Reys que íe íabiam entre Mouros , 
o grande Tártaro , e o grão Turco. Aflen- 
tada efta partida , leixando Affonfo d'Al- 
boquerque provida a coftá do Malabar com 
Armada pêra guarda delia , partio de Co- 
chij em fim de Janeiro do anno de dez 
com vinte e huma velas entre nãos , navios 
latinos , e de remo , de que eíles eram os Ca- 
pitães : elle , D, Jeronymo de Lima , Dom 
António de Noronha , Bernaldim Freire , 
Jorge da Cunha , Manuel de la Cerda, Luiz 
Coutinho , Diogo Fernandes de Beja , Gar- 
cia de Soufa , Aires da Silva, Fernão Pe- 
res 



Década II. Liv. IV. Cap. V- 427 

res de Andrade , Simão de Andrade feu ir- 
mão , Duarte de Mello , António Pache- 
co , Jorge da Silveira , Francifco de Soufa 
Maneias , Jorge Fogaça 3 Simão Martins , 
Francifco Pantoja , Francifco Pereira Cou- 
tinho , e Francifco Corvinel , em que iriam 
té mil e feiscentos homens. Chegado com 
efta frota a Cananor , achou Francifco de 
Sá , e Baíiiáo de Soufa , que efeapáram das 
náos 3 que fe perderam em os Baixos de Pá- 
dua , como eíerevemes , os quaes levou com- 
íigo com parte da gente que com eljès fe 
falvou. E fendo tanto avante como o rio 
de Onor , mandou Garcia de Soufa Capi- 
tão da náo Sandia Clara , que em o feu 
batel eníraíTe dentro no rio de Onor 3 e fof- 
fe á povoação a lhe chamar Timoja o Gen- 
tio coífairo , de que atrás fizemos menção. 
O ,qual Timoja como era homem abafta- 
do 3 e diligente > e que defejava metter-fe 
em noííá graça 3 veio logo com muitos ba- 
teis carregados de mantimentos , e refrefeo 
da terra ; e depois que AíFonfo cTAIboquer- 
que o recebeo com gazalhado , como ho- 
mem de que fazia muita conta pêra os ar- 
dis da guerra daquelías partes 3 diíTe-ihe 
o caminho que fazia. Ao que Timoja re- 
fpondeo , que fc eípantava delle leixar huns 
imigos á porta de cafa , e ir tão longe fa- 
zer morada nova na de outros , que não 

ti- 



428 ÁSIA de João de Barros 

tinha mui certa ; que dizia iílo , porque ti- 
nha dentro em Goa muitos Turcos , Ru- 
mes , e outras gentes de varias nações. Por- 
que o Sabayo Senhor de Goa , que era o 
maior Príncipe entre os Mouros do Reyno 
Decan , havendo por grande injúria ter el- 
le tanto nome na Índia , e tantos portos de 
mar 3 cujas rendas lhe importavam muito, 
não ter reíiftido com lua potencia aos Por- 
tuguezes , as quaes couias os Gentios do 
Reyno de Nariinga , com que elle tinha 
guerra contínua , lhe lançavam em rofto. 
Por a qual caufa ajuntara toda cila gente 
que dizia , pêra ante de pouco tempo fahi- 
rem com huma grafia Armada em deftrui- 
ção do nome Portuguez , de que em eíla- 
íeiro citavam muitas náos , e galeões aca- 
bados , e outros em que fe trabalhava. Po- 
rém como Deos favorecia as coufas d'El- 
Rey de Portugal , e os feus Capitães , tinha 
desfeito cm alguma maneira todo efte ap- 
parato ; e que lhe parecia que tudo fe or- 
denava na boa fortuna delie Affonfo d'Al- 
boquerque pêra desfazer , e deftruir a fogo , 
e a ferro aquella praga , que alli era junta , 
porque o Sabayo era morto , e feu filho 
o Hidalcao andava oceupado nas terras fir- 
mes aflbcegando o Reyno , e defendendo 
de feus vizinhos o que lhe queriam tomar 
em algumas frontarias delie , pêra que man- 
da- 



Década II. Liv. IV. Cap. V. 429 

clara ir parte da gente que alli era junta, 
e que a obra das náos hia mais de vagar ; 
que a elle lhe parecia o poder daquella 
Armada fer melhor empregado nefte feito 
de Goa , pois tinha tão boa conjunção , que 
ir a Ormuz, E por não parecer a fua Ser 
nhoria que lhe foliava como homem que 
eftava fora do jogo , e que não havia de 
metter cabedal naquelle perigo , elle não 
podia dar melhor teílemunho de quão leal- 
mente niíTo falia va , fenão com metter fua 
peífoa no feito , a qual elle ofFerecia com 
quanta gente , e navios tinha. AíFonfo d'Al- 
boquerque , quando ouvio eftas coufas a 
Timoja , ás quaes elle efteve mui attento , 
não lhe pareceo que vinham da boca de 
hum Gentio, mas de hum Núncio do Es- 
pirito Santo , polo que trazia guardado em 
leu peito 5 pofto que elle fe fez mui novo 
neííe negocio. E depois que louvou muito 
a Timoja de prudente , e cavalleiro , quiz 
que todas eftas coufas , que lhe differa , as 
tornaífe a refumir ante os Capitães , e Fi- 
dalgos principaes daquella Armada, na qual 
prática elle Affonfo d' Alboquerque moftrou 
bem quanto lhe aprouve o que Timoja dif- 
fe , porque deo outras muitas razoes em 
favor deite feu voto , por fer coufa fobre 
que elle trazia avifo dias havia. Por razão 
do qual per Pedro AíFonfo de Aguiar ef- 

cre- 



430 ÁSIA de João de Barros 

crcveo a EIRey D. Manuel quanto lhe im- 
portava fer Senhor de Goa , porque com 
elia podia fegurar o citado da índia ; por 
não dar fufpeita aos Capitães que cite caía 
pendia fomente de íèu parecer , teve aquel- 
la cautela de mandar chamar Timoja. Fi- 
nalmente foi aííentado , viftas todalas ra- 
zões que por parte deite cafo de Goa fe 
deram , fer a mais importante ao citado 
da índia , que todo o de Ormuz ; e pêra 
eíte feito Timoja fe efpedio logo a fazer 
gente pêra ir em companhia de Aífonfo d'Al- 
boquerque , como fe elle offereceo ; por- 
que além de fer homem de fua peífoa , e 
trazer gente adeítrada no pelejar daquella 
coita , era mui neceífario pêra a entrada do 
rio , que elle fabia mui bem. E porque ef- 
te cafo de elle ir fazer gente daria avifo 
a Goa , lançou fama que Aífonfo d 5 Albo- 
querque o queria levar comíigo a Ormuz, 
por fer homem que fabia os negócios do 
mar ; e como elle era querido da gente, 
em breve fez quanta havia miíter, no qual 
tempo Aífonfo d'Alboquerque o foi cípe- 
rar á Ilha de Anchediva , tomando agua , 
e lenha, e fingindo corregimento de alguns 
navios que levava mal apparelhados. Al- 
guns quizeram dizer que a diligencia que 
Timoja teve em ajuntar gente , e aperceber 
doze navios de remo ., não foi tanto por 

nof- 



Década II. Liv. IV. Cap. V. 431 

noíTa parte , quanto porque havia já annos 
que elie tinha grande contenda com eíles 
Mouros de Goa , e fora ordenado por Ca- 
pitão mor da Armada 3 queElRey de Onor 
trazia fobre elles do tempo que foram lan- 
çados de Onor , e vieram povoar efca Ci- 
dade Goa 5 (como atrás eícrevemos , quan- 
do fe elle foi oíferecer ao Vifo-Rey Dom 
Franciíco.) E também que ello Timoja de- 
fejava ter méritos per fer viços ante EíRey 
D. Manuel , e feus Capitães , pêra lhe fa- 
zer alguma honra da mercê nas terras fub- 
ditas de Goa , por Já em outro tempo ter 
nellas huma boa herança , de que eítava 
esbulhado per hum leu irmão , homem po- 
derofo chamado Cidabhára Timoja , o qual 
além defte damno lhe tinha feito outro maior 
mai, que era tomar-lhe a mulher , e mor- 
to hum filho. Partido Affonfo d 5 Alboquer- 
que daquella Ilha Anchediva , depois que 
eíle Timoja veio com fua ajuda , como ti- 
nha promettido 5 chegou á barra de Goa 
a vinte e cinco de Fevereiro , huma quin- 
ta feira ao meio dia ; e primeiro que es- 
crevemos a entrada delia per armas , a ma- 
geftade da própria Cidade pede que def- 
crevamos o feu íitio , e antiguidade de fua 
fundação , com o mais que convém pêra 
melhor entendimento da hiftoria.. 

DE- 



DÉCADA SEGUNDA. 
LIVRO V. 

Dos Feitos j que os Portngiiezes fize- 
ram no defcubrimento y e conquifta 
das terras , e mares do Oriente : no 
qual fe contém o que fe fez naquel- 
las partes no tempo que Affonfo d Al- 
boquerque foi Governador da índia. 

CAPITULO I. 

Do fitio da Cidade Goa , e da opinião que 

fe tem de fua fundação , e povoação da 

terra , e tributo que pagam os 

feus moradores. 

A Cidade Goa , que ora he patrimó- 
nio deíle Reyno de Portugal Metro- 
poli Epifcopal das que temos na ín- 
dia , eftá fituada em a terra , a que os na- 
turaes chamam Canará , em huma Ilha per 
nome Tiçuarij , que quer dizer trinta al- 
deãs , porque tantas havia nella , quando os 
Mouros a conquiftáram , e tantas lhe paga- 
vam direitos da novidade que colhiam. A 
qual Ilha não tem outra coufa que lhe dê 
efte nome da Ilha 9 fenao fer torneada de 
dous efteiros de agua falgada per duas en- 
tra- 



Década II. Liv. V. Cap. I. 433 

tradas que o mar faz na terra , huma da 
parte do Norte , onde eftá íituada a Cida- 
de , e outra da banda do Sul , onde eíla an- 
tigamente foi fundada , a que ora os nol- 
íos chamam a barra de Goa a velha , que 
he de menos agua , e que não faz tantas 
ilhetas dentro , como o outro , á maneira 
da terra , a que cá per vocábulo Arábico 
chamamos Leziras. E lá dentro eftes dous 
efteiros fe communicam ambos , e fazem 
pernadas pela terra : algumas das quaes re- 
cebem rios de agua doce , que vem de cima 
da ferra , a que elles chamam Gate. O com- 
primento deíla Ilha Tiçuarij , começando 
do Oriente no palio chamado Reneílarij ? 
onde ella paíía á terra firme té o mar entre 
as duas barras , que eftam contra o Ponen- 
te , fera três léguas , e de largura huma. E 
ou que a Natureza alli os produzio , ou que 
foííem trazidos , ( íêgundo alguns querem 
dizer,) todo o circuito dos efteiros deíla 
Ilha he coalhada de lagartos da agua , cou- 
fa tão grande , que engolem hum bezerro 
já de bons cornos , porque alguns lhe vi- 
ram na boca não acabados de engolir , por- 
que a armação dos novilhos lhe efcachava 
muito as queixadas. Os quaes lagartos a ra- 
zão porque dizem ferem alli trazidos , don- 
de veio a multiplicação de tantos , foi por 
guardarem a Cidade que fe não palie per 
Tom.IL P.L Ee gmr 



434 ÁSIA de JoÁo de Barros 

gente de pé em alguns pados que de bai- 
xamar dam váo , principalmente o de Gon- 
dalij , a que os noííòs ora por eíTa caufa 
chamam o Pafíb íecco , porque não chega 
coufa viva á agua , que logo per eíJes não 
íeja engolida de maneira , que os eferavos 
não ou iam de pafíar a nado á terra iirme. 
À Ilha em íi he terra graciofa , e de boas 
aguas , e não alagadiça , mas empolada com 
alguns cabeços , que fazem a maneira de 
valles, fértil de todalas couías que fe nella 
plantam , e femeam. Em que tempo , e per 
quem eíla Cidade foi fundada , o novo del- 
ia haveria obra de quarenta annos ante que 
entraflemos na índia, que era feito per hum 
Mouro fenhor delia chamado Melique Ho- 
cem , quando os Mouros , que fugiram do 
Reyno de Onor , a vieram povoar , como 
atrás eferevemos, fallando nas coufas de Ti- 
moja , em tempo do Vifo-Rey. Mas o an- 
tigo delia acerca dos moradores , aíll Gen- 
tios , como Mouros , não fe acha memo- 
ria , ou eferitura , que á noíTa noticia vieífe , 
fomente tem todos fer coufa antiquiíTima. 
E fegundo alguns íinaes , que fe acharam! 
nella , depois que a ganhámos , parece que 
em algum tempo foi povoada de Chriftaos , 
hum dos quaes foi achar-fe hum Crucifixo 
de metal , andando hum homem desfazendo; 
os alicerces de humas cafas ., que Affbnfoj 

à y AU 



Década II. Lív. V. Cap. I. 43? 

d'Alboquerque dalli mandou levar com fo- 
lemnidade de procifsão á igreja , e depois 
o enviou a EIRey D. Manuel , como final 
que já em algum tempo aquella imagem re- 
cebeo alli adoração. A qual coufa devemos 
crer que foi affi ; porque como o bemaven- 
turado S. Thomá converteo muita parte da- 
quelia região da índia , de que hoje Ilibe- 
mos muitas caías feitas per elle na terra 
Malabar , e principalmente a que elle fun- 
dou per fuás próprias mãos em Choroman- 
del ; aíli defta femente do Evangelho , que 
elle per aquella Província femeou , podia 
haver alguma Chriftandade em Goa. Tam- 
bém depois , ao tempo que compúnhamos 
efta Chronica , nos foi trazido da Cidade Goa 
o traslado de huma Doação, que hum Gen- 
tio Rey delia chamado Mantrafar filho de 
Chamandobata , e vaílallo delRey de Bif- 
naga , deo a hum Pagode , de certas terras 
pêra mantcnça dos Sacerdotes , em que as 
fazia izentas , e livres de pagarem direitos 
alguns , fegundo o ufo da terra. A qual 
Doação eílava efcrita em huma pafta de me- 
tal em letra Canarij , e havia cento e qua- 
renta e hum anno que era feita , e foi apre- 
fentada em juizo no anno de mil e qui- 
nhentos trinta e dous a inftancia de hum 
Gentio chamado Luco rendeiro ; por razão 
de fe ver que as terras daquelie Pagode não 
Ee ii eram 



436 ÁSIA de JoÃo de Barros 

eram obrigadas pagar tributo algum , como 
as propriedades profanas. O princípio da 
qual Doação começava neftas palavras : Em 
nome de Deos , que he Creador de todos os 
três Mundos , Ceo , Terra , Lua , e LJlrel- 
las , a quem adoram , e nelle fazem fua 
boa fombra , e elle he o que as fuflenta , a 
elle dou muitas graças , e creio nelle , o 
qual por amor do feu povo lhe aprouve vir 
tomar carne a ejle Mundo , &c. Per as 
quaes palavras parece que naquelle povo 
havia noticia da Encarnação do Filho de 
Deos ; c em outras mais abaixo , que he no 
final do Rey , confeffa a Trindade cm uni- 
dade. E porque ao prefente não temos ou- 
tra memoria da fundação deita Cidade Goa ? 
fenao deíla barbara , e mal trasladada Doa- 
ção , e invenção ào finai de Chrifto crucifi- 
cado que alli fe achou ; fundemos os feus 
alicerces lobre elle , pois todo outro funda- 
mento , ora feja efpiritual , ora temporal , 
pêra fer firme , e feguro , ha de fer fobre 
efta pedra Chrifto redempçao noíTa. E de 
mos-lhe graças eternas , pois lhe aprouve : 
que efte leu povoChriftão do nome , e fan-í 
giie Portuguez , enviado per hum tão chrif- 
tianiífimo Príncipe , como foi EIRey D. Ma-j 
nuel , mereceo ir tirar aquella imagem en- 
terrada nos alicerces da gente pagã dos Gen-ji 
tios } e pérfidos Mouros } e com gloria , 

lou- 



Década II. Liv. V. Cap. I. 437 

louvor delle mefmo Clirifto livre daquelíe 
bárbaro cativeiro 5 foi poíío em altar de ca- 
tliolica adoração. Com que aquella Cidade 
lugar de idolatria , e blasfémia he hoje não 
fomente magnifica per edifícios , illuftre per 
armas , e groífa per commercio , mas ainda 
fanffca per facrificios de Sacerdotes na Sé 
Cathedral primaz daquellas partes , e per 
oração , e doétrina de muitos Religiofos de 
S. Franciíco , e S. Domingos , que reíidem 
em íeus Conventos. Aífí que leixados os an- 
tigos fundamentos de pedra, e caí , de que 
não ha noticia de feu Fundador , que com 
noífa entrada todos foram arrazados , tome- 
mos por fundamento o novo lume de Fé 
que nella accendemos 3 e as pedras da arqui- 
tectura , e policia de Hefpanha 5 que nella 
aíevantánios , convertendo noíla penna na 
relação de como antigamente aquellas ter- 
ras marítimas foram cultivadas , e como os 
Mouros entraram nellas 5 e de íi á viécoria 
que nos Deos deo tia tomada deíla illuftre 
Cidade. Segundo commiim opinião do Gen- 
tio daquellas partes, (porque de tão anti- 
quiílimos tempos não tem efcríiura , ) as 
terras marítimas lançadas ao longo de huma 
corda de ferrania , a que elíes chamam Ga- 
te per nome commum , a qual corre per 
diftancia de duzentas léguas té ir fenecer no 
Cabo Comorij ? (como já elere vemos 3 ) a 

maior 



438 ÁSIA de João de Barros 

maior parte deitas terras são alagadiças , e 
quaíi huma horta regada de muitos rios , 
que deícem deite Gate , e retalhada de eftei- 
ros que á entrada do mar faz. De manei- 
ra , que como ora exemplificamos o fitio de 
Goa fer cm as Ilhas que a torneam ao 
modo das leziras que fazem as invernadas , 
e crefcentes dos rios , aífi dizem elles que 
eítas terras he huma terra fobrepoíta , e quaíi 
nateiro do interior do Jertao , que trazem a 
força das aguas, e áreas rebatidas do mar, 
mais que terra própria , e nativa daquelle 
lugar. A razão difto fer aífi eftá manifeíla y 
porque como fobem á ferra Gate , não tor- 
nam defcer , como geralmente vemos em to- 
caias ferranias , mas ficam cm huma planu- 
ra de terra mui chã , de maneira que pare- 
ce eíte Gare hum muro : a terra do cume 
do qual he hum eirado#fobre o alagadiço 
que tem ao pé , e que a natureza no prin- 
cipio dacreaçao poz aquelle muro altiíiimo 
pêra amparo do Ímpeto , que traz o grande 
Oceano no tempo de ília fúria. Os finaes 
do qual fe vê ao pé do Gate em algumas 
partes defcubertas , onde fe acha muito caf- 
calho j e oftraria coalhada com elle , e re- 
batida das ondas do mar, o qual rebater, 
por lhe fer já impedido com cinco , três , e 
duas léguas de terra defta alagadiça , ou fo- 
brepoíta delie ? e dos rios ; converte em lhe 

cer- 



Década II. Liv. V. Cap. I. 439 

cerrar fuás barras no tempo do inverno com 
muitas arêas, que lhe torna a ingeitar das 
que elles defcarregam nelle. E ainda foicau- 
ía de íè mais preíles coalharem eftas Ilhas , 
alguns baixos , e ilhetas que jaziam ao pé 
daquelle Gate , o que parece poder ícr , e 
que em alguma maneira não tem opinião 
impofiível. Porque fe vemos que todo o 
Egypto, (não/fallando de tempos antiqnif- 
íimos , em que alguns Hiítoriografos , e Filo- 
fofos querem que tudo foi mar , ) mas de- 
pois que foi cultivado de femente , e habi- 
tado de tantas , e tão fumptuofas Cidades y 
e miraculofos Pyramides , que foram havidos 
por milagres do Mundo com fua altura , 
tudo o tempo enterrou não per terremotos , 
mas com terra fobrepofta , que o Nilo trou- 
xe das poeiras da Ethiopia , e mais com- 
pridas , e profundas cavas pêra o centro da 
terra , do que em altura fobre a face delia 
he o monte Tauro. De que são teílemunho 
muitos dos nofíòs que andaram naquellas 
partes , com que nem vemos Cidades , nem 
Pyramides, nem as fete fozes do Nilo, tudo 
o enxurro atupio , e fomente lhe leixou a 
deDamiate, e outra deRaxet, c Buruluz , 
per onde defcarrega a foberba de fuás acuas 
110 mar. & por nao trazer enes , e cairos 
exemplos fora de cafa , convertamos os 
olhos ao noffo Tejo > e mais notável ao 

Mon- 



44o ÁSIA de João de Barros 

Mondego , que fendo hum rio , cujo curfo 
fera pouco mais de vinte léguas , que ha- 
verá de Coimbra a Serra da Eílrella , onde 
elle nafce , não fe mettendo nelle fenao hu- 
ma plebe de riachos de pouca agua , com 
que juntos á ília no Verão he tão pouca, 
que fe paífa a váo delia , em muitas partes 
pode tanto com fuás pequenas enxurradas, 
que a vifta de noííos olhos per efpaço de 
cincoenta annos tem cuberto muitos edifí- 
cios , e huma ponte debaixo de outra , e 
enterrado grandes , c magnificos templos 
quaíi té o meio , que fará a potencia de ou- 
tras aguas , e centenas de tantos feculos ? 
Aíli que ora a opinião dos povos de que 
tratamos feja verdadeira , ou falia , todos fe 
affirmam que eftas terras , que eítam ao pé 
do Gate , os primeiros habitadores que ti- 
veram, foi gente pobre, que defeco de ci- 
ma da terra Canará , que he a plana que 
diífemos eftar além delle ; e como em ma- 
ninhos fem Senhor vieram aproveitar o que 
podiam deftes çapaes , valiando-cs , e culti- 
vando-os á maneira dos adiques de Flan- 
dres , té que o tempo , e a continuação do 
trabalho os fez fertiles , e vicoíòs. Final- 
mente multiplicada a gente , e o beneficio 
da cultura , vieram os principaes , e Senho- 
res daquelle interior do Reyno Canará a 
conquiílar efta pobre gente ; e tanta foi a 

cu- 



Década II. Liv. V. Cap. I. 441 

cubica , que lhe venderam a herança que 
elles , e íeus padres tinham adquirido per 
íuor de feu rofto ; e foi per efta maneira. 
Houve entre elles , e o Príncipe que os trou- 
xe a efte eftado , hum contrato perpétuo , 
em que cada parentela tomou huma certa 
comarca de terra , da qual fe obrigou pa- 
gar áquelle Príncipe , e feus fucceflbres hum 
tanto cada anno , íèm mais crefcer , ou di- 
minuir , quer as terras rendefícm , ou não , 
ao qual direito elles chamam Cocivarado. 
E o modo que tem entre íí de íc partir efte 
foro , he que os Neíquibáres cabeceiras de 
aldeã 5 que Vem da linhagem dos mais prin- 
cipaes daquella povoação , fazem cada an- 
no lançamenfo per todolos moradores , fe- 
gundo a poffibilidade de cada hum ; e quan- 
do não chega efte lançamento á contia que 
são obrigados pagar , os meímos Neíquibá- 
res a põem de lua caía , as quaes aldeãs re- 
partidas por comarcas refpondem a huma 
cabeça , a que chamam Tanadaria ao modo 
que vemos nefte Reyno , cujas rendas fe en- 
cabeçam em Almoxarifados , vocábulo Mou- 
rifco mais que natural Portuguez. Correndo 
os tempos nefta ordem de vida , que tinha o 
Gentio do Gate pêra baixo , principalmente 
nas Comarcas de Goa , pagando efte coci- 
varado aElRey de Bifnaga , ou aos Senho- 
res a quem elíe o dava por comedia : en- 
tra- 



442 ÁSIA de JoÁo de Barros 

tráram os Mouros na índia conquiftando o 
Reyno de Decan té fe fazerem Senhores de 
Goa , com que o Gentio da terra ficou íub- 
dito nefta lei de lhe pagar o que dantes pa- 
gavam ao feu Príncipe. E ao tempo que 
nós entrámos na índia , era Senhor deita Ci- 
dade Goa hum Mouro per nome Soai Ca- 
pitão d'ElRey do Decan , a que commum- 
mente chamamos Sabayo , o qual tinha mui- 
to nobrecido cila Cidade com edifícios , e 
trato. E porque com clle , e depois com 
léus filhos , e netos , e aífi com outros Ca- 
pitães deite Reyno Decan pela maior parte 
do tempo contendemos per guerra , faremos 
no feguinte Capitulo relação como os Mou- 
ros vieram conquiílar o Reyno Decan, don- 
de procederam os Capitães , per os quaes cl- 
le ao preiente eítá repartido. 

CAPITULO II. 

Como os Mouros fe fizeram fenhores per 

conquijia do Reyno Decan, e efiado 

de Goa. 

A Entrada dos Mouros per armas na 
índia 5 entre os Gentios , e elles ha 
grande variedade , principalmente na con- 
cordância dos tempos ; porque os Mouros 
do Reyno Guzarate a eíerevem per hum 
modo , os do Reyno Decan por outro, e 

as 



Década II. Liv. V. Cap. II. 443 

as Chronicas dos Reys Gentios de Bifna- 
gâ levam outro caminho ; porém todos con- 
vém nifto , que o Conquiftador foi Rey do 
Reyno Delij. E nefta relação que aqui fi- 
zemos , porque todas eítas Chronicas hou- 
vemos , e nos foram interpretadas , fegui- 
remos o que ora tem os Mouros , que fe- 
nhoream o Reyno Decan de que falíamos, 
porque fe conformam muito no tempo com 
a Chronica geral dos Perfas , que he o Ta- 
righ de que no principio fizemos menção , 
que com outros volumes da hiftoria , e Cof- 
mografia Períia houvemos daquellas partes. 
E íeguindo o que dizem eííes Decanijs , 
nos annos de Mahamed de fetecentos e fe- 
te , que são mil e trezentos de noíía Re- 
dempçao , houve em o Reyno Delij hum 
Príncipe Mouro chamado Xá Nofaradim , 
tão poderofo em gente , e eítado de terra , 
que da grande potencia que tinha fuccedeo 
per gloria de leu nome querer conquiftar 
a índia. Com a qual cubica defeendeo da- 
quellas partes do Norte vizinhas ás fontes 
dos rios Gange , e Nilo , com grande nú- 
mero de gente decavallo, e de pé, té que 
veio conquiftando os vizinhos que eram Gen- 
tios , e chegou ao Reyno Canará , que co- 
meça do rio chamado Gate , que he ao 
Norte de Chaul , té o Cabo Comorij , quan- 
to ao que jaz do Gate pêra dentro contra 

o Ori- 



444 ÁSIA de João de Barros 

o Oriente , porque delle pêra o mar tem 
eíias terras outra repartição em Reynos , e 
nome , como já eícrevemos ; e pela parte 
do Oriente vai enteftar com o Reyno Ori- 
xá ; e eíles Pveys Gentios defta grão Pro- 
víncia Canará eram aquellcs , 'donde proce- 
dem os que ora são de Bifnaga. Feito eíte 
Xá Nofaradim Senhor daquclle grande ef- 
tado , leixou nelle por fronteiro , ao tem- 
po que fe tornou pêra Delij , hum feu Ca- 
pitão chamado Hábed Xá , o qual como 
era homem prudente , e cavalleiro , peró 
que ficou com pouca gente em comparação 
do que havia miíler pêra reíiílir á potencia 
de tanto Gentio , como havia em torno da- 
quellas terras conquiftadas , onde elle eíta- 
va , pouco , e pouco fe fez tão poderofo 
com algumas vidlorias , que tomou aos Gen- 
tios a maior parte daquelle Reyno Canará. 
Finalmente aíli per armas , como per con- 
versão dos Gentios á feita de Mahamed , 
e per convocação de muita gente de todo 
género a que dava foldo , fez hum arraial 
de Babylonia , onde fe achava todo género 
de gente , de Mouros , de Chriftaos , por- 
que acerca da crença não fazia muita elei- 
ção ? foíTem bons homens de armas , que 
efte era o miíler pêra que os queria , que 
o mais dizia elle pertencer a Deos , e que 
não lhe havia de tomar fua jurdição que- 
rer 



Década II. Liv. V. Cap. II. 445* 

rcr entender na alma de cada hum ; com 
os quaes modos per efpaço de vinte annos 
adquirio tanta gente, que podia per armas 
contender com feu próprio Rey. Eftando 
na qual proíperidade de fortuna faleceo , 
leixátndo hum filho per nome Mamud Xá, 
ao qual ElRey de Deiij confirmou naquel- 
le eftado que tinha íeu pai, com lhe poer 
encargo de pagar cada hum anno mais hum 
1 tanto do que o pai pagava. Paliados alguns 
annos , em que curnprio com eíles pagamen- 
tos , vendo-fe tão poderoíò , começou de 
alevantar a obediência que devia a feu Rey , 
não fomente começando negar es pagamen- 
tos , mas ainda fendo chamado per elle pê- 
ra o ir ajudar a huma guerra , "que fe lhe 
moveo na Períia , não quiz obedecer. E 
como quem temia que defoceupado EIRey 
daquellas guerras em que andava , lhe ha- 
via de vir pedir eftreita conta de fua des- 
obediência , começou de fe liar com EI- 
Rey do Guzarate , que já naquelle tempo 
era fenhoreado de Mouros , e aííi com ou- 
tros vizinhos pêra fe ajudar com elles. Mas 
a fortuna o favoreceo mais , do que elle 
defejava : cá Xá Nofaradim faleceo na guer-» 
ra em que andava , e feu filho que o fuc- 
cedeo , por razão delia ficou tão desbara- 
tado , e íèm forças pêra contender com Ma- 
mud Xá , e elle tão poderofo , que oufada- 

men- 



446 ÁSIA de João de Bakkos 

mente fe intitulou por Rey do Canará , 
chamando-ihe Decan. O qual nome dizem 
que lhe foi poílo do ajuntamento das di- 
verias nações que trazia , porque Decanij 
quer na lingua delies dizer miftiços , donde 
ficou áqueiles povos , que ora habitam aquel- 
la terra , ferem chamados Decanijs. E len- 
do efíe Mamud Xá já homem de muita 
idade , caníado da continuação da guerra , 
e também temendo que feu eílado fe per- 
defle com a grandeza delle por máo go- 
verno de feiís fucceíTores , em lua vida or- 
denou dezoito Capitães , per os quaes re- 
partio todalas frontarias do leu Reyno. A 
hum dos quaes fez Capitão geral fobre os 
outros, dando a cada hum a Comarca que 
lhe coube em forte , que rendeífe pêra 
ellc , com obrigação de ter continuadamen- 
te feita pêra a defensão do Reyno tanta 
gente de cavallo, e tanta de pé ; e como 
cada hum hia conquiftando mais terras do 
Gentio , aíli lhe acerefeentava a renda nel- 
las , e a obrigação de ter mais gente a fol- 
do. Por ter os quaes Capitães mais flijei- 
tos , e fe não levantarem com a nobreza 
do fangue , e liança de parentefeo , não os 
fez de homens livres , lenão de eferavos 
próprios , de que tinha experiência per de- 
curíb das guerras ferem homens pêra man- 
dar gente, e que lhe feriam leaes. E ain- 
da 



Década II. Liv. V. Cap. II. 447 

da pêra os ter mais fubditos , na Cidade 
Bider , que elle elegeo por Cadeira , e Me- 
tropoli de feu Reyno , mandou que cada 
hum fizefTe caías de feu apofentamento ; e 
que cada anno tantas vezes folie obrigado 
vir a eile a refidir na Corte certos mezes •> 
e nas cafas ordinariamente havia de eílar 
filho , ou parente mais chegado , que com 
deípeza , e apparato reprefentaííe a peííoa 
delíe Capitão. Dizendo que pois desfazia 
fua Corte de pefíòas tão principaes , como 
elles Capitães eram 3 convinha pêra honra , 
e bem de feu eftado , refidir alli coufa fua , 
que enchefle aquella obrigação da paz , em 
quanto elles andavam na guerra , pois lhe 
dava largos rendimentos de terras pêra am- 
bas deípezas. As quaes pefíòas , que reíidiam 
na Corte em lugar delles Capitães ? no tem- 
po que elles mefmos eram aufentes , em íèu 
nome por final de obediência , e modo de 
menage , todolos dias haviam de ir ao pa- 
ço dar huma viíla a EIRey , fazendo-lhe 
huma reverencia , a que os Mouros cha- 
mam calema , e alguns çumbaia , principal- 
mente no Malayo. A qual cortezia he hum 
abaixar de cabeça ante o Senhor té a poer 
quaíi nos giolhos , e a mão direita no chão , 
e os muito nobres não põem a mão no chão , 
mas em fua própria perna , iílo três , ou 
quatro vezes P ante que cheguem á peffoa 

do 



448 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

do Senhor; c chegando a elle , mettcm-lhe 
a cabeça entre as mãos , dando a entender 
que alli lha offerece como eferavo feu , pê- 
ra mandar diípôr de fua vida o que lhe a 
elle aprouver. Então o Senhor, fe eftá fa- 
tisfeito de feus ferviços , tem já feito pêra 
aquellas pefíòas huma veftidura , a que el- 
les chamam cabaia , que comraummente os 
Mouros ufam naquelías partes , comprida 
de mangas , cingida , e aberta por diante 
com huma aba íobre outra ao modo do 
trajo dos Venczeanos. A qual cabaia de 
brocado , feda , ou panno , fegundo a qua- 
lidade da peíToa > o Senhor lhe lança lò- 
bre os hombros , que pêra elles he coufa 
de honra , e final público que o Príncipe 
eftá delle contente. Acabando de receber 
efta cabaia , torna recuando pêra trás , acur- 
vando-fe com o corpo , c cabeça outras tan- 
tas vezes , como fez á ida 3 fempre com o 
rofto no Senhor , té que fe aíFaíla bem del- 
le ; e fe ha de ficar na cafa , efpera que o 
mande aflentar cm cocaras no chão , fegun- 
do feu ufo ; e fe he peíToa mui nobre , fo- 
bre alcatifas. Porém efte dar da cabaia , e 
metter a cabeça entre as mãos , não he to- 
dolos dias , fenao quando hum Capitão dei- 
tes , ou qualquer outra peíToa nobre nova- 
mente vem á Corte , ao modo que nós te- 
mos na chegada , ou efpedida pêra fora, 

bei- 



Década II. Liv. V. Cap. II. 449 

beijarmos a mão a EIRey em final de obe- 
diência : cá o ordinário de cada dia , quan- 
do eftes vão diante do Príncipe, não fazem 
mais que abaixar a cabeça huma íb vez, 
como nós abaixamos o corpo , ainda que 
direito , quando fazemos nolfa mefura , que 
quer dizer medida , fegundo a etymologia 
do vocábulo , e acto da coufa. Porque abai- 
xando-nos per aquella maneira diante dou- 
tra peflba , damos a entender que a noífa 
lie menos que a fua , donde per transla- 
ção , quando alguém em requerimento , ou 
em vendendo pede mais do neceflario , di- 
zemos : Mefurai-vos , neíle entendimento , 
abaixai-vos mais , não tão alto. E porque 
todas eftas ceremonias fe inventaram nas Cor- 
tes dos Príncipes , por nellas haver tanta 
precedência de dignidades , e eftas fubditas 
a hum Príncipe , chamamos a todas eftas 
reverencias , cortezia , derivado de Corte , 
onde tiveram feu nafeimento ; o qual vocá- 
bulo , Corte , parece que veio de Cohors , 
que he Latino , que quer dizer a noífo pro- 
poíito ajuntamento de gente em adio de 
guerra debaixo do governo de huma pef- 
lba. E como o Mundo todo eftá reparti- 
do neftas Cortes , em que refidem as cabe- 
ças delie , que são os Príncipes , cada hum 
ordenou modo de fer reverenciado , e obe- 
decido. Donde vemos tanta variedade de 
Tom. II. P. L Ff cor- 



45*0 ÁSIA de João de Barros 

cortezias , e entre os bárbaros tão eftranhas 
do noffo ulb , que as havemos por rifo , e 
clles as noíías , pofto que todas vam a efte 
fim de obediência ; e geralmente todoios 
Mouros da índia ufam efte modo que dif- 
femos terem eftes Capitães do Reyno De- 
can. E ainda que eftes refidentes na Cor- 
te ordinariamente haviam de ir todoios dias 
a efta calema , os próprios Capitães não 
tendo câufa muito manifefta de oceupa- 
çao da guerra , ou grave enfermidade , íbb 
pena de incorrerem cm cafo de revéis , cer- 
tas feitas do anno haviam-fe de apreícntar 
ante EIRcy , pêra peflbalmente ir fazer ef- 
ta calema , tudo ifto a fim de os trazer fu- 
jeitos , e fe não rebelarem. Mas como os 
eftados nunca permanecem em hum fer , e 
quanto maiores , e mais cautelas de fujei- 
çao , tanto maior caufa pêra fe perderem , 
polo cuidado perpétuo que os fujeitos tra- 
zem de fe libertar ; fuecedendo o tempo , e 
outros Reys , e Capitães depois deftes , que 
não foram muitos , peró que havia eftas ca- 
lemas , e chamáram-fe eftes Capitães efera- 
vos d'ElRey , e elle Rey em nome , pou- 
co , e pouco veio a não ter mais poder , 
e fer , do que tem huma eftatua , fer ado- 
rada de muitos, fem ter aóto, ou potencial 
pêra coufa alguma. Somente tinha de feuj 
aquella Cidade Bider com fuás Comarcas,, 

em 



Década II. Liv. V. Cap. II. 45T 

em todo mais era hum paralytico , ou (por 
melhor dizer) era cativo, eelles os livres ; 
e por le fufter , e confervar , fuftinham a 
elíe. E ao tempo que nós entrámos na ín- 
dia , de dezoito Capitães que Mamud 01- 
í denou , já huns fe tinham feito Senhores 
| do eftado dos outros , de maneira que não 
havia mais que eftes 5 o Sabayo , Mizama- 
; luco j Madremaluco , Melic Verido , Co- 
I ge Mocadão , o Abexij capado , Cótama- 
| luco , os quaes eram mui grandes Senho- 

I res em eftado de terra , e riqueza de dinhei- 
ro. E o mais poderofo de todos era o Sa- 
bayo Senhor de -Goa, que (como ora dil- 

•, femos ) fegundo a nova que Timoja deo a 
| Affonfo d^Alboquerque , era falecido ; e pe- 
la parte que temos de feu eftado , que he 
I efta Cidade Goa cabeça delle naquelle tem- 

I I po , diremos como fubio a tanta potencia. 
•1 Segundo a geral opinião daquelles , que 
c \ fabiam os princípios da fortuna defte Sa- 
c | bayo , elíe era natural da Perfia de huma 
i 4 j Cidade per nome Sabá , ou Savá , porque 
í- j per hum modo , e per outro a nomeam os 
HParfeos , os quaes quando formam os no- 
ymes patronimicos , dizem de Sabá Sabaij ; 
o- de Fars pola Períia Faríij j e de Armen 
i^por Arménia Armenij , e por efte modo 
ilformam todolos outros ; e fegundo efta ver- 
: , dadeira formação , havemos de chamar a 

Ff ii ef- 



45^ ÁSIA de João de Barros 

eíte homem Sabaij , e não Soay , ou Sa- 
bayo , como nós formamos. Eftc fendo mo- 
ço pequeno , feu pai , que era homem de 
pouca forte , e ganhava lua vida á porta 
de fua cafa a vender fruita , o deo a hum 
mercador groflb da terra , o qual polo achar 
diligente , e fiel em feus tratos , depois que 
foi homem , o mandou com vinte cavai- 
los á índia , dos Parfeos que fe carregam 
em Ormuz , e chegou a cila cm conjunção 
que os vendeo de maneira , que de hum 
fez cinco. Tornando a feu Senhor com o 
emprego delles , em que também ganhou 
muito , tornou-lhe fazer outra armação de 
cincoenta , dos quaes primeiro que chegaf- 
fem á índia 5 por má navegação lhe mor- 
reram os dous terços ; e os que lhe fica- 
ram , vendeo por íeis mil pardaos : e ou 
que não fe atreveo tornar ao Senhor com 
tamanha perda , ou que a Fortuna o chama- 
va , (porque ella poucas vezes leva alguém 
a fummo eftado, fenão per meio de algum 
crime commettido , ) leixou-fe ficar naquel- 
le Reyno Decan com o dinheiro , e foi 
viver com o Rey da terra. Outros dizem 
que o mefmo Senhor , por ter vendido ef- 
tes cavailos a EIRey , e não poder haver 
pagamento delles , em modo de prefentej 
lhe deo eíte Sabayo , fendo moço bem dif- 
pofto, como quem lhe dava hum eferavo; 

e de£ 



Década II. Liv. V. Cap. II. 45*3 

e deita entrada qualquer que ella foi , tan- 
to que tomou armas 5 começou fazer taes 
ferviços , que pouco , e pouco veio a tan- 
to 5 que lhe deo EIRey a Cidade Calber- 
gá que a comeíTe. E daqui começou a con- 
quiílar as terras dos Gentios do Pveyno de 
Biíhaga 5 que tinha por vizinho ? té que 
com hum grande poder de geníe veio to- 
mar a Cidade Goa , que havia poucos ân- 
uos , que era povoada dos Mouros , que 
fugiram de Onor , como diflemos. Da qual 
Cidade , ao tempo que a elle tomou , era 
Senhor hum Mouro per nome Melique Hó- 
cem , homem que naquelle tempo que lha 
o Sabayo tomou matando a clle , tinha riel- 
la doze mil homens. Finalmente feiro Se- 
nhor da Cidade ? tomou as terras a ella íu- 
jeitas , que eram de grande rendimento por 
ferem eftas tanadarias Pondá 5 Cupa ? Safe- 
te , Antruz 3 Cintacora , Bardes , Trenar , 
com eftoutras que eram nos portos de mar , 
affi como Banda, Colator, Curai. E a fo- 
ra eftas tanadarias , tinham no fertão , e nos 
portos de mar muitas Cidades , eVilías dei- 
las que lhe deo EiRey , e outras que ga- 
nhou a poder de ferro , de que eílas eram 
as principaes , Bifapor metropoli fua , Ra- 
chur , Perzabar , Bichocondá , Vay , Cal- 
bergá , Alapor , Cuimalá , Crará , Ruy ba- 
ga , Bilgão 3 Querhij , Meriche , Pandará- 



4^4 ÁSIA de João de Bakkos 

por , Seguer i Calchorá , Neril i Panellá , 
Cintacora , Banda , e outras , que fe verão 
em asTaboas da noíTa Geografia. A caufa 
que dizem porque efte Capitão veio a fer 
mais poderoíò que os outros , foi , porque 
lhe coube em íòrte eftas terras dos portos 
de mar , perque havia toda a entrada , e 
íahida das mercadorias da maior parte do 
Reyno Decan , e aífí do Reyno Bifnaga. 
O qual Sabayo dos outros Capitães era 
mui mal quifto ; porque morrendo o íeu 
Rey , que elles tinham como eftatua , lei- 
xou hum filho herdeiro moço de doze an- 
nos ] e como eíte Sabayo fe achou cm Bi- 
der no tempo que EIRey faleceo , houve 
feu fello á mão , e abrindo feu teftamento > 
porque o não achou á fua vontade 3 fez 
outro, em que fe fez Tcítamenteiro , e Go- 
vernador doPveyno, e tutor do moço. Tor- 
nado a cerrar, e a fellar o teftamento com 
a chapa , e fello d'E!Rey , publicamente 
com aótos folemnes o mandou abrir, e lo- 
go em continente notificou aos Capitães a 
morte d'ElRey , eferevendo-íhe que nenhum 
boliííe comfigo , antes eílivcííem em fuás 
terras , por quanto cumpria aili ao ferviço 
d'EÍFvey , e paz de todo o Reyno , pois 
fabiam quantos infultos fazia gente folta , 
que fe aíevantáram nos taes tempos. Final- 
mente dahi a poucos dias cafou o novo 

Rey 



Década II. Liv. V. Cap. II. 45^ 

Rey com huma filha fua por ficar mais al> 
foluto Senhor ; e pofto que eram eftas cou- 
fas mui notórias , o grande poder que ti- 
nha fez encolher os outros ; porque além 
de fer grão Senhor em terras , e poderoío 
de gente de guerra, e apparato delia, era 
mui rico de dinheiro. Cá fegundo fama , 
fomente o eftado de Goa lhe rendia qui- 
nhentos mil pardaos , por efta maneira : a 
Cidade cem mil , entrando niíto a renda 
dos cavallos que traziam de Ormuz % cu da 
coita Arábia : cada hum dos quaes paga 
de entrada quarenta pardaos , e dous de 
corretagem em modo de portagem , pêra 
os poderem metter per aquelie porto em o 
Reyno Decan , e Bifnaga , ou pêra a pró- 
pria terra. Outro rendimento era das trinta 
aldeãs , que a Ilha , como diiTemos , tomcu 
o nome , de que os Gentios lavradores pa- 
gavam féis mil e quinhentos pardaos ; e as 
Ilhas , ou leziras de Divar , Choran , Juáa 
três rnil e novecentos; e os paflbs , per que 
entram , e fahem da Ilha de Goa á terra 
firme , que são Pangij , Daugij 5 Gondaíij , 
"Beneftarij , Agacij rendiam as fuás entra- 
das , e fahidas dous mil e duzentos pardaos. 
Além deílas rendas , que eram direitos , e 
empoíros nas entradas , e fahidas per terra , 
na própria Cidade havia eftoutres , aííi do 
que vinha de fora per mar, como do que 

íe 



45*6 ÁSIA de João de Barros 

fe fazia nella ; o que fe chama Omando 
vij , cantunlia , a praça , pannos \ bete- 
le , efpeciaria , canybo , boticas j ortaliça , 
apas , fogucos , tudo iíto rendia trinta e três 
mil e tantos pardaos pouco mais , ou me- 
nos. E pofta que no tempo do Sabayo , 
e feu filho o Hidalcao não andavam eftas 
rendas tão altas > como agora em noílbs 
tempos andam , que fomente os cavallos 
importam oitenta mil pardaos , havia em 
tempo delles muitas terras , que traziam os 
Mouros , as quaes EIRey D. Manuel , de- 
pois que efta Cidade foi nolfa , as mandou 
per AfFonfo d'Alboquerque repartir entre 
os primeiros caiados , e povoadores da Ci- 
dade. De maneira , que fe as outras cou- 
fas crefecram com a nobreza , e trato da 
Cidade , o que per aqui crefec ao tempo 
dos Mouros , fe refiz por as terras que el- 
ies traziam, cujo rendimento aqui não con- 
tamos por não vir d nofla noticia , nem 
menos outros tributos , e rendimentos , que 
havia na Cidade conformes á torpeza de 
fua ísãsL , affi como caía pública 5 onde 
todos podiam ir jogar , de que tinha hum 
tanto o Senhor da terra ; e fe jogava o po- 
vo em outra parte, era mui punido por if- 
fo , e outras couías defta qualidade , que 
com noífa entrada naquella Cidade foram 
defterradas delia , como públicos pecca- 

dos. 



Década II. Liv. V. Cap. II. 457 

dos. Somente fabemos que por eftes Mou- 
ros , que viviam em Goa , citarem fempre 
com a efpada na mão , e pofta na gargan- 
ta dos Gentios da terra , além do ordiná- 
rio 5 (fegundo elles dizem, ) os avexavam com 
mil modos de tyrannia, com que o rendi- 
mento da Ilha a elles era maior , do que 
o nós arrecadamos. Porém quanto ao ren- 
dimento das terras firmes das Tanadarias 
[que nomeamos 3 e outras que jazem ao pé 
do Gate , eílas comia o Sabayo com a lan- 
ça na mao , tendo fempre nellas gente de 
guarnição. Porque como ellas eram dos Gen- 
tios encabeçadas naquellas terras da gera- 
ção dos primeiros povoadores , a que el- 
les chamam Neiquibáres , quando os Mou- 
ros as conquiíláram deftes , não tiveram tan- 
ta força , que lhas pudeífem defender ; e 
recolhidos á ferra do Gate , e lugares aí- 
peros , onde fe bem podiam defender , al- 
gumas vezes defciam ás terras chans deitas 
Tanadarias, quando viam a fua, e rouba- 
vam o rendimento ; e quando o não po- 
diam haver , faziam qualquer infulto , e tor- 
navam-fe recolher á montanha, Nefte fo- 
ro, e eftado achou AíFonfo d'Alboquerque 
a Cidade Goa com todalas terras a ella fub- 
ditas , as quaes per morte do Sabayo , ( fe- 
gundo o Capitão Timoja lhe difíe , ) eftavam 
meias alevantadas , e feu filho o Hidalcão 

oc- 



45'8 ÁSIA de João de Barros 

occupado na paz , e aflbcego da fua heran- 
ça , porque peio ódio que diíTemos que os 
outros Capitães tinham a feu pai , como 
o viram morto , cada hum começou de 
morder per onde podia , e cila era a con- 
junção , que Timoja dizia a Affoníb d'Al- 
boquerque , que não devia perder \ e o que 
lhe fuecedeo com fua chegada a barra de 
Goa, íè verá nefte feguinte Capitulo. 

CAPITULO IIL 

Como Affonfo d* Alboquerque tomou a Cida- 
de Goa , por razão de huma vióíoria , que 
D. António de Noronha houve em o 
Cajiello Pangij 3 que eftava na 
entrada do rio. 

SUrto Affonfo d'Alboquerque fobre a 
barra deita Cidade Goa , (como diíTe- 
mos,) poílo que Timoja lhe tinha dito que 
çom toda a frota podia ir pelo rio aílima 
té a Cidade , e que elie o metteria dentro ; 
por fe mais fegurar na verdade , mandou 
D. António de Noronha feu fobrinho Ca- 
pitão da náo Cirne , que com o Meftre del- 
ia j e alguns Pilotos da Armada , foífe em 
o feu batel fondar o rio , e com elle Timo- 
ja , e alguns dos feus navios de remo pêra 
o encaminhar. Vendo alguns Capitães das 
outras náos que D. António hia fazer cfta 

obra, 



Década II. Liv. V. Ca?. III. 4^9 

obra , feguíram a fua eíleira nos bateis das 
nãos de fua capitania , como quem defejava 
dar fé do que lá hia dentro. E indo todos 
ao longo da Ilha affaftados da terra firme 
fronteira 5 Jorge Fogaça Capitão de huma 
caravella , como levava hum paráo da ter- 
ra leve , tomou a dianteira ; e em querendo 
defcubrir huma ponta que fazia aterra, deo 
de fubito com hum bargantim de Mouros, 
que vinham ver o que fazia a noífa Arma- 
da. Tanto que Jorge Fogaça vio o bargan- 
tim , a graQ preífa remou rijo com deícjo 
de lhe chegar ; mas elle vinha tão bem re- 
mado , que fe acolheo a huma força cha- 
mada Pangij com hum baluarte que os Mou- 
ros tinham feito , em que efcava aífeftada 
muita artilheria pêra defensão da entrada do 
rio. D. António, quando vio que Jorge Fo- 
gaça arrincava rijo , pofto que com a pon- 
ta não viííe o bargantim , fez outro tanto 
com os mais bateis que o leguiam té irem 
dar de roílo com o baluarte. Com vifta do 
qual , poílo que ficaram fufpenfos , por não 
moftrar fraqueza aos que eftavam dentro , 
movido do efpirito da viéloria , que os cha- 
mava , fem faber o perigo que tinha dentro 
na fortaleza , que eram quatrocentos Mou- 
ros , entre os quaes havia alguns de cavai- 
lo , poz o peito em terra , e foi aífi tão de 
fubito , e defpachadamente feito, que não 

liou- 



4óo ÁSIA de JoXo de Barros 

houve acordo entre os Mouros de poer fo- 
go á artilheria, mas como gente que aco- 
de a arroido da maneira que fe acha 5 des- 
ordenados vieram receber os noíTos , onde 
houve huma crua perfia de ferro per hum 
grande cfpaço , té que não podendo os Mou- 
ros foíFrer o jogo das lançadas , e cutiladas 
dos noíTos , parte dos quacs já eram dentro 
na fortaleza por entrarem por as bombar- 
deiras , em lugar de fe elles recolherem 
nella , fugiam pêra o campo , fem darem por 
as palavras de feu Capitão , que era hum 
Turco de nação chamado Yáçuf Gurgij , 
homem valente de íua peífoa , fegundo alli 
moílrou , te os noíTos lhe aleijarem huma 
mão , que o fez recolher-íè em hum cavai- 
lo acubertado em que andava , e aífí fe foi 
aprefentar a Goa , onde já achou outros 
tão aíTinaíados , que lhe levaram a diantei- 
ra , da ida dos quaes a fortaleza ficou def- 
pejada. AíFonfo d'Alboquerque quando cm 
baixo ouvio os trons de algumas peças da 
artilheria , a que os Mouros puzeram fo- 
go , entendeo que pelejava D. António , e 
a grão preíía mandou todolos bateis , e na- 
vios de remo que acudilTem : e pofto que 
fua chegada foi já tarde, fegundo a coufá 
foi brevemente feita , todavia ainda ajuda- 
ram a défpejar o caílello dos Mouros que 
eílavam dentro. Timoja cuando vio que 

D. 



Década II. Liv. V. Cap. III. 461 

D. António tomava per forte aquella forta- 
ieza , e as ajudas que tinha , fem a fua lhe 
ler neceffaria, paflbu-fe da outra banda da 
terra firme , onde eftava hurna maneira de 
baluarte com artilheria , e obra de trinta 
homens que a guardavam ; e como era ca- 
valleiro de fua pefíca , aíli como poz os 
olhos nella , aíli lhe poz as mãos 3 de ma- 
neira que imitou a D. António na vidoria 
que houve ; e recolhendo cada hum per 
fua parte artilheria , e miferia que acharam , 
foram fazer a outra obra de fondar o rio 
té huma eílacada que os Mouros tinham 
feita , que o atraveífava hum pedaço aíllma 
deíles baluartes. Além da qual eftavam hu- 
mas grandes barcas a feu uíb com muita 
artilheria pêra daíli varejarem qualquer náo , 
ou navio que chegaíTe á eílacada , tudo tão 
defenfavel que parecia coufa de grande pe- 
rigo a fubida aílíma. E notadas eítas cou- 
fas , tornou-fe D. António ás náos , onde 
foi recebido com muito prazer da victoria 
daquelle accidental cafo , o qual deo tanto 
animo , e alvoroço na gente , que começou 
AfFonfo d'Alboquerque com muita diligen- 
cia dar ordem ao neceflario pêra desfazer 
aquella eílacada , e ir tomar o poufo defron- 
te da Cidade. Mas Noíío Senhor , em cujo 
poder eílam todaías vidlorias i quiz que não 
íòíTe eíte trabalho adiante 3 porque na vi- 
do- 



462 ÁSIA de J0Á0 de Barros 

dória que fe houve do Capitão Yáçuf Gur- 
gij , houveíTemos fcm mais fangue poííe da- 
quella Cidade Goa. Porque elcapando elle 
da entrada do baluarte coin a mão direita 
aleijado , foi-fe aíli aprefcnrar aos prinei- 
paes Governadores delia , reprefentando a 
ouíadia , e fúria dos noííos , e tcílemunhan- 
do com fua aleijão , que em nenhum modo 
fe podia defender dclles , tomando por ra- 
zão principal , além de outras , o que em tão 
breve tempo , e tão poucos homens fizeram 
fem temor , nem confelho , íòmente movi- 
dos com huma braveza , e fúria de feras 
irracionaes lemettiam na boca das bombar- 
das fem darem por fogo , nem ferro , que 
fariam indo apercebidos, ejuntando-fc tan- 
to número de gente , como poderia vir na- 
quella frota ? que feu voto era , que elles com 
algum bom partido deviam entregar a Ci- 
dade , e ifto hia denunciar ao Hidalcão. Ex- 
pedido efte Yáçuf daquellcs principaes da 
Cidade , com quem teve eíla prática , levan- 
do comíigo parte da gente de guarnição que 
tinha , e outra que fugio , foi-fe a hum lu- 
gar nove léguas de Goa chamado Chandra- 
gão , onde fe poz em cura , mandando reca- 
do ao Hidalcão em que perigo ficava a Ci- 
dade , e o eftado em que ficava pola de- 
fender, e o que lhe parecia que fenifto de- 
via fazer , pois os trabalhos ; em que elle 

an- 



Década II. Liv. V. Cap. III. 463 

andava , lhe não davam mais lugar pêra lan- 
çar aquella gente da Cidade , que naquelle 
primeiro impeto elle havia de haver por fua 
té o tempo lhe dar modo pêra a cobrar. 
Os principaes delia , de que fe elle efpedio 
per final confelho , depois de muitos deba- 
tes , e pareceres , aíTentáram que vifto como 
o Hidalcão andava tão occupado em cou- 
fas , que ao prefente importavam mais que 
aquella Cidade , á qual não podia mandar 
tão preftes foccorro , por quão apartado an- 
dava daquella coíla domar, que mais pref- 
tes não fefizeíTem os noílbs fenhores delia, 
íègundo eram apreílados no commetter , de- 
viam fazer entrega delia ao Capitão mor 
com algum bom partido ; e que depois , 
quando o Hidalcão tiveffe menos opprei- 
sões, tempo lhe ficava pêra a recobrar. Al- 
guns querem dizer que muita parte defte te- 
mor geral acerca dos moradores daquella 
Cidade procedeo de hum Gentio Bengala 
de nação, o qual andava em habito de Jo- 
gue , que he a mais eftreita Religião delles , 
e per as praças de Goa havia pouco tempo 
que per muitos dias andou dizendo , que 
aquella Cidade cedo teria novo Senhor, e 
feria habitada de gente eftrangeira contra 
vontade dos naturaes , e outras coufas , que 
refpondiam aos primeiros fínaes que viram 
da noífa Armada. E como o povo tem ef- 

tes 



464 ÁSIA de João de Barros 

tes Jogues por homens fanftos , ecrem que 
todas íuas palavras são profecias , e pêra 
efte effeálo Deos abrio a fua boca, aceref- 
centando os principaes da Cidade o que ef- 
te taò publicamente tinha dito ao mais que 
teftemunhon o Capitão Yáçuf Gurij ; man- 
daram ao outro dia certos homens honra- 
dos , hum dos quaes fe chamava Miralle, 
pedindo paz a Affbnfo d'Alboquerque. Di- 
zendo que elies fe queriam entregar a elle 
como a Capitão mor d'ElRey de Portugal , 
por laberera o defejo que o Hidalcão leu 
Senhor tinha da amizade de tão grande , e 
poderofo Rey ; e que quando elle Hidal- 
cão diílb tivefle defprazcr, (oqueelles não 
criam , ) já pelos méritos deita obediência 
mereciam todo bom tratamento defuaspef- 
foas 5 e guarda de fuás fazendas : que lhe 
pediam que com efta condição os quizeíle 
receber debaixo de fua bandeira pêra po- 
derem ficar em fuás cafas , e fazendas tão 
pacificos i e feguros , como d 5 ante eílavam : 
cá d'outra maneira menos perigo feria efpe- 
rar a ventura das armas , que leixar a pá- 
tria , ou liberdade. O qual requerimento 
AíFonfo d'Alboquerque concedeo de mui 
boa vontade , poílo que a gente de armas 
quizera cevar o feu defejo na entrada da- 
quella Cidade per armas ; e já quando elle 
íiirgio diante delia > que foi a dezefete de 

Fe- 



Década II. Liv. V. Cap. III. 46? 

Fevereiro pola confirmação dos apontamen- 
tos queMiralle levou, foi a frota recebida 
com feita dos naturaes da terra , fahindo to- 
dos receber Affonfo d'Alboquerque á praia, 
entregando-lhe as chaves da Cidade com 
palavras da confiança que nelle tinham da 
fegurança de fuás peflbas , e fazendas , co- 
mo fe foíTem antigos vaflallos d'E!Rey Dom 
Manuel de Portugal. Acabado o qual acto , 
aprefentáram-lhe hum cavallo acubertado 
á fua ufança , em que elle AíFonfo d'Albo- 
querque entrou na Cidade , cercado de to- 
dos os Capitães , e gente de armas , e de 
envolta os principaes da terra que o leva- 
ram com aquella pompa de triunfo de paz , 
a huns paços do Sabayo cafas magnificas, 
e grandes , onde fe apofentou. E porque 
nos apontamentos que Affonfo d'Alboquer- 
que aífentou comMiralle fobre efta entrega 
da Cidade , foi , que os Turcos , e Rumes , 
por ferem eftrangeiros , e gente condufta a 
foido pêra guerra , fe haviam logo de fahir 
da Cidade; em os noífos entrando per hu- 
ma porta , fahíram elles per outra , paífan- 
do-íè a terra firme, fem levarem mais fazen- 
da que fuás peífoas , porque toda a mais , 
e afii a que o Sabayo alli tinha , havia mif- 
ter pêra guarda, e provimento da Cidade, 
Tomada x a entrega deita tão illuftre Cida- 
de , o primeiro íxnú que Affonfo d'Albo- 
Xom.IL P.L Gg quer- 



466 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

querque quiz dar de íl , da paz 5 e juíliça 
em que havia de manter a todoíos morado- 
res delia , foi aííi em Portuguez , como em 
linguaCanarij da terra, mandou lançar pre- 
gão que nenhum mercador eítrangeiro , ou 
natural fizeíle alguma mudança de fua fa- 
zenda , ou peíToa , mas que abriflem fuás 
tendas , e vendeííem fuás mercadorias na 
paz 5 e iegurança que lhe tinha dado ; e que 
nenhum Portuguez folie ouíado tomar al- 
guma coufa contra vontade de feus donos , 
nem aos da terra fizeíTem algum defprazer, 
ora foífem Mouros , ora Gentios fob gra- 
ves penas , os quaes pregões quietaram to- 
da a Cidade , que ainda não eftava fegura 
de nós. Entre outra muita munição que Af- 
fonfo d' Alboquerque achou , que o Sabayo 
tinha naquellas calas do feu apofento , e af- 
íi na Cidade , foram muitas armas , artilhe- 
ria , velame , e enxarcea de oito velas , en- 
tre náos 5 e galeões 5 e outros navios de re- 
mo que alli eítavam , huns delles no mar , e 
outros em eftaleiro , de que alguns não eram 
ainda acabados ; e afli achou huma eílreba- 
ria do Sabayo com muitos cavallos , os 
quaes ferviam a gente que alli tinha de guar- 
nição ; e além deftes comprou Affonfo d ? Al- 
boquerque vinte a hum Mouro Parfeo , que 
alli eílava per nome Mir Bubáca ? de oi- 
tenta que trouxera pêra vender. O qual 

diP 



Década II. Lrv. V. Cap. III. 467 

diííe > que a íua principal vinda era a certas 
coufas , que o Xeque Ifmael Rey da Per- 
lia feu Senhor o mandava como Embaixa- 
dor negociar com o Sabayo ; e por fazer 
algum proveito naqueila viagem do dinhei- 
ro que trazia pêra íua defpeza , trouxera 
de Ormuz aquelles cavallos, por faber que 
tinham alii boa valia. Affoníb cPAÍboquer- 
que íabendo quem elle era , o tratou hon- 
radamente , e mandou-lhe pagar os cavai- 
los por o eftado da terra , que foi a razão 
de duzentos cruzados cada hum , com o 
qual Embaixador , quando fe partio , elle 
mandou Ruy Gomes de Carvaihoía , e hum 
Fr. João Frade da Ordem de S. Domin- 
gos com huma carta a EiRey de Ormuz y 
e outra a Coge Atar feu Governador, pe- 
dindo-lhe que a eítas duas peíToas , que el- 
le mandava ao Xeque Ifmael , defíem ca- 
vallos , e todo bom aviamento pêra irem 
em companhia daquelle Embaixador. O que 
não houve eíFeílo , porque Coge Atar não 
quiz que paífaílem a terra firme , e deo or- 
dem como hum morreo de peçonha em 
Ormuz , e o outro fe tornou pêra a índia. 
Nem menos houve eífedo huma encom- 
menda , que mandou dar da fazenda d'El- 
Rey a outro Mouro por nome Coge Amir , 
também, natural da Perlia , o qual era mer- 
cador abaítado , e mui conhecido naqueila 
Gg ii Ci- 



468 ÁSIA de J0Ã0 de Barros 

Cidade , por coílumar trazer alli cavallos , 
e efte levou em huma náo ília o Embaixa- 
dor do Xeque Ifmaél , c pcflbas que Affon- 
fo d'Alboquerque com elle mandou. E por 
efte Coge Amir fer homem tão conhecido , 
lhe mandou dar alguma fazenda d'ElRey , 
e huma náo da terra das que fe alli toma- 
ram, obrigando-íe trazer nella o retorno da 
fazenda em cavallos de Ormuz pêra ajuda 
da defensão da Cidade ; e a caufa de não 
cumprir foi , porque ao tempo que elle tor- 
nava com elles, veio ter aDabul, e entre- 
gou os cavallos ao Hidalcão , por Affonlb 
d'Alboquerque ter perdido per guerra efta 
Cidade. Peró depois que a tornou cobrar , 
lendo já paflado muito tempo , tornou efte 
Coge Amir com huma armação de caval- 
los a Goa ; e náo fe pode tanto encubrir , 
que nao foíle prezo , e pagou o que devia 
por vinte e finco cavallos que deo. Além 
deílas peííoas , que Aífonfo d'Alboquerque 
defpachou pêra fora , depois que tomou a 
Cidade , mandou também hum Cavalleiro 
per nome Gafpar Chanoca a EIRey de Nar- 
íinga , fazendo-lhe faber como tomara aquel- 
la Cidade, com oífertas, que fazendo elle 
guerra aos Mouros do Reyno Decan , elle 
por os feus portos do mar os apertaria de 
maneira pêra totalmente os lançarem da ín- 
dia. E com eftoutros requerimentos , que 

de£ 



Dec. II. Lív. V- Cap. III. e IV. 469 

déffe elle lugar a fe fazer huma fortaleza 
cm Baticalá por fer terra fua 3 requerimento 
que já dependia do tempo do Vifo-Rey 
D. Francifco d' Almeida : a qual ida não 
fundio mais que palavras geraes , que EI- 
Rey de Narílnga deo de li , pofto que re- 
cebeo cila embaixada com folemnidade. E 
a caufa diflb foi 3 porque o Hidalcão na- 
quelle tempo fez paz com elle , por acudir 
a Goa , ( como fe neíle feguinte Capitulo 
verá ,) e EIRey queria primeiro ver quem 
ficava melhor, pêra fe determinar, e outro 
tanto fez EIRey deBengapor, vaííallo def- 
te , a quem Affonfo d 5 Alboquerque por fer 
em caminho mandava também Gafpar Cha- 
noca. 

CAPITULO IV. 

De algumas coufas , que Affonfo cV Al- 
buquerque fez em Goa em quanto o Hidal- 
cão a não veio cercar : e depois que entrou 
na Ilha , Affonfo cV Albuquerque leixou a for- 
taleza , e fe recolhe o ás nãos. 

AFfonfo d'Alboquerque como teve pof- 
fe da Cidade , e vio o íitio delia , 
logo fez fundamento que alli havia de fer 
cabeça de todo o efcado da índia ; porque 
além de fer couíá mui defenfavel por ra- 
zão de eftar naqueíla Ilha Tiçuarij , a Co- 
marca era mui proveitofa afli per Armada , 

que 



470 ÁSIA de João de Barros 

que havia de correr toda a coita do Cabo 
Comorij té a enfeada de Cambaya , por 
eftar quafí no meio delia , como por fer a 
principal entrada de todo o commercio do 
Reyno Decan , e Narfinga , de maneira que 
ficava hum jugo pêra Mouros , e Gentios , 
e mais tirava fer huma acolheita de Ru- 
ines , onde clles já começavam crear raí- 
zes. Por tirar o qual inconveniente , e por 
ver a efperança que elle Affoníb cTAlbo- 
querque teve delia , ordenou logo de a for- 
talecer mais do que eftava , temendo tam- 
bém que o Hidaícáo não havia de querer 
perder tamanho eftado , como era efta Ci- 
dade^ com as terras, etanadarias a ella fu- 
jeitas. E poílo que logo não teve modo 
pêra haver cal pêra a fortalecer como de- 
fejava , com pedra, e barro a repairou o 
melhor que pode , mandando atalhar a for- 
taleza , do qual atalho tomou a parte da 
íerventia do mar , e aproveitou-lhe pera ef- 
ta obra muita pedraria lavrada dehuns edi- 
fícios antigos , que eftava m perto da Cida- 
de , repartindo efte trabalho per os Capi- 
tães das náos , fervindo cada hum feu gi- 
ro com lua gente ; e D. António de No- 
ronha feu fobrinho era o principal no tra- 
balho , por lhe elle ter dado a capitania 
defta fortaleza. A qual obra também acu- 
dio muita gente dos Canarijs da terra , que 

foi- 



Década II. Liv. V. Cap. IV- 471 

folgavam ganhar jornal por lhes fer mui 
bem pago , o que cauíbu em pouco tempo 
fer acabada , e os Gancares fe virem a Af- 
fonfo cTAlboquerque , dizendo , que pois 
elle era Senhor de Goa , e as tanadarias 
das terras firmes eram obrigadas como a 
cabeça acudir a elía com o rendimento que 
deviam em cada hum anno , pelo qual tri- 
buto elle as havia de ter em paz , e defen- 
der , lhe pediam que mandaííe Tanadares 
ás tanadarias , aíli pêra arrecadarem eíla ren- 
da , como aos defender do mal , e dam- 
no , que recebiam dos Mouros que fahíram 
dalii y os quaes andavam em magotes per 
eílas aldeãs roubando , e a vexando o po- 
vo Gentio. AfFonfo d'Alboquerque poreftes 
Gancares ferem as cabeceiras das aldeãs , 
que, como diíTemos , fazem o lançamento 
do tributo que pagam , os agazalhou bem , 
agradecendo-lhes aquella obediência , c que 
logo proveria em feu regimento. Pêra guar- 
da dos ouacs ordenou alguma gente da mef- 
ma Ilha do Gentio Canarij com íèus Nai- 
ques , que são os Capitães delles a pé , e a 
cavallo , a capitania dos quaes deo a hum 
Diogo Fernandes , que por os ferviços que 
alli fez foi depois Adail de Goa ; e vindo 
a efte Reyno , fempre foi chamado per ef- 
te nome , que alli ganhou com honrados 
feitos. Além da qual gente, que elle Adail 

tra- 



47^ ÁSIA de João DE Bahhos 

trazia por razão de feu officio , ordenou mais 
pêra a guarda dos paífos , aííi no mar , co- 
mo na terra , Capitães , que vigiaflem , e 
rodeaífem toda a Ilha. E porque toda eíla 
guarda não fe podia fazer com a nofla gen- 
te , e entre os Mouros havia algumas pef- 
foas honradas, a que Affonfo d'Alboquer- 
que queria comprazer , por fe melhor go- 
vernar a terra , deo a capitania de quatro- 
centos peaes Mouros a hum chamado Mir 
Cacem , por fer homem pêra iífo , e com 
que a gente folgava de andar. O qual tam- 
bém havia de andar vigiando os paíTos da 
Ilha , que não vieííem alguns Mouros -da 
terra firme roubar as aldeãs , e a Timoja 
deo a capitania de todo o Gentio da terra 
por faber ícus coftumes , com officio de 
Tanadar mor de toda a Ilha. Andando á 
vigia , e guarda delia per eftc modo , fa- 
zendo Affonfo d'Alboquerque fundamento 
ck invernar alli té acabar de aífentar as cou- 
fas\daquella Cidade , por fe não gaitarem 
com as chuvas as enxarceas das náos , man- 
dou defapparelhar algumas , e efpedio a 
Francifco Pereira Coutinho , que com a 
fua caravella foffe a Cochij por alguns ap- 
pareihos pêra poer alguns navios em efta- 
leiro , onde eftavam as náos dos Mouros ; 
e aíTi efpedio a Francifco Pantoja em o na- 
vio Saníto Eípirito carregado de manti- 

men- 



Década II. Liv. V. Cap. IV. 473 

mentos pêra a fortaleza da Ilha Çocotorá, 
e trazer íeu fobrinho D. Affonfo , da qual 
ida atrás contámos ília viagem. Depois por 
ter nova que algumas náos de Ormuz 5 e 
da cofia da Arábia eftavam em Baticalá car- 
regando pimenta , e outras efpeciarias 3 
com voz que era arroz , e mantimento 5 
mandou Jorge da Silveira 3 e com elle ef- 
tes Capitães Fernão Peres d 5 Andrade 3 Si- 
mão d'Andrade feu irmão , e Franciíco Pe- 
reira , por fer já vindo de Cochij 5 que fof- 
fem dar huma cata a eílas náos ; e achan- 
do-lhe alguma efpeciaria , a tomaíTem ; e 
também que carregaiTem os navios de ar- 
roz, e todo outro mantimento pêra aquel- 
le inverno. E porque Jorge da Silveira achou 
neflas náos muita efpeciaria , fez o que lhe 
Afíbnfo d 9 Alboquerque mandou , levando- 
as a Cochij ; e Fernão Peres , Simão d 5 An- 
drade , e Francifco Pereira tornaram a Goa 
carregados de mantimento 3 que foi a vida 
de todos 5 fegundo as coufas fuccedêram. 
Feitos eíles provimentos , havendo já qua- 
tro mezes que as coufas citavam em efta- 
do de muita paz , pagando as tanadarias o 
que eram obrigadas pagar , começaram as 
mais chegadas ao pé da ferra não pagar 
feu quartel 3 porque os Mouros davam nel- 
las ? e roubavam tudo ; e outros com nova 
que o Hidaicao fe fazia prefles pêra vir Co- 
bre 



474 ÁSIA de João de Barros 

brc a Cidade , rebeláram-fe : ao que Affon- 
fo d'Alboquerque mandou algumas vezes 
o Adail Diogo Fernandes com gente de pé , 
e cavallo ; mas aproveitou pouco , porque 
andava já com as novas da vinda do Hi- 
dalcao toda a gente alevantada. E porque 
alguns Mouros dos principaes lhe diziam 
que trabalhafle por haver a feu ferviço o 
Capitão Yáçuf Gurgij , que dalli fora com 
a mão aleijada , porque elle pacificaria mui- 
to o alvoroço da gente , por fer homem , 
que acerca de todos tinha muito credito , 
e era coftumado á guerra daquellas partes , 
e mais eftava em tempo pêra facilmente o 
haver , por elle eílar ainda em o lugar Chan- 
dragao temeroíò de ir ante o Hidalcão , 
mandou Affonfo d'Alboquerque a elle o 
Adail Diogo Fernandes , e em fua compa- 
nhia Mir Alie , o Mouro honrado , que da 
parte da Cidade veio a Affonfo d'Albcquer- 
que tratar da entrega delia , por efte íer o 
que movia efte negocio , e a principal in- 
culca delle. E como ao tempo que Affon- 
fo d'Alboquerque mandou efte recado , era 
já no fim de Maio , em que naquellas par- 
tes fe começava o inverno , e o Hidalcão 
tinha abalado com feu exercito pêra vir cer- 
car a Cidade , do poder , e apparato do 
qual eram as eftradas cheas com nova , á 
qual ? por fer per boca de Mouros, Affonfo 

d'Al- 



Década II. Liv. V. Cap. IV. 47? 

d'Alboquerque dava pouco credito ; quan- 
do mandou Diogo Fernandes , foi com dous 
fundamentos , a trazer o Capitão Yáçuf, 
querendo acceitar o partido que lhe manda- 
va commetter ; e quando o não pudefle in- 
duzir a iiTo , com eíla cuberta de ir a efte 
negocio faberia lá mais certas novas do ap- 
parato , e vinda do Hidalcao , e que pêra 
efte cafo aproveitava muito Mir Alie. Mas 
eíle não tinha perdido a natureza do fan- 
gue Arábio , que he não ter fé , nem ver- 
dade per condição , mais per accidente j 
porque em lugar de tratar eíle negocio , 
como elle tinha dito aAffonfo cFAlboquer- 
qtie , ordenou de entregar aos Mouros o 
Adail com quantos levava. Porque fabendo 
elle que mui perto donde eftava Yáçuf era 
vindo Camaleão , hum dos principaes Ca- 
pitães do Hidalcao , com té mil e quinhen- 
tos de cavallo , e oito mil peaes , pareceo- 
lhe que com eíle feito fe reconciliaria com 
o Hidalcao por os negócios em que andou 
na entrega da Cidade. Peró fabendo o Adail 
eíla traição per alguns Gentios , que o kn- 
tiram no modo dos caminhos que mudava 
pelo metter no arraial de Camaleão , tor- 
nou fazer volta ; não que déíTe a entender 
a Mir Alie que fentia feu propoíito , e guia- 
do per hum Capitão Gentio dos Canarijs 
de dentro de Goa chamado Verdelim, foi 

o Adail 



476 ÁSIA de João de Barros 

o Adail pofto em falvo , e ainda o levou 
per caminho , que topou com alguma far- 
dagem do arraial de Camaleão, que vinha 
per aquella parte , a qual derrabou no que 
pode , e trouxe linguas , per as quaes Af- 
fonfo d'Alboquerque foube como o Hidal- 
cao não vinlia alli : fomente hum feu Capi- 
tão principal , e elle vinha detrás mais de 
vagar com grande número de gente , e ap- 
parato de guerra. A qual nova pofto que 
elle AíFonfo d'Alboquerque a quizera en- 
cubrir 5 eram já as eftrudas tão cheas , que 
manifeftatnente fe via no rofto dos Mou- 
ros ; porque andavam tão alvoroçados , que 
logo entre elles , como quem lhe dava pou- 
co que fe foubeífe , começou de fe romper 
os tratos , e intelligencia que tinham com 
elle , e as cartas , e avifos que havia de 
parte a parte ; porque como havia muitos 
que tinham ódio a outros , por condemnar 
o imigo , hiam denunciar delle a AíFonfo 
d'Albcquerque fuás culpas , per os quaes 
elle veio faber como tinham ordenado dar 
entrada na Ilha ao Hidalcao , e que o prin- 
cipal deite negocio era Mir Cacem , a quem 
elle tinha dado a capitania de quatrocentos 
homens dos Mouros Naiteas naturaes da 
terra pera guarda do campo com o ofHcio 
de Tariadar deíles. E pofto que Timoja , 
ante de fe efte negocio denunciar tão geral- 

men- 



Década II. Liv. V. Cap. IV. 477 

mente , per aviib dos Gentios principaes de 
fua capitania tinha em fegredo dito a Af- 
fonfo d'Alboquerque , que fe não fiaíTe dei- 
te Mouro Mir Cacem por andar em tratos 
com o Hidalcão : nunca Affoníb d'Albo- 
querque o crco delle por fer diligente fer- 
vidor , e parecia-lhc que eram competên- 
cias 5 e paixões de Timoja 5 por razão de 
íeus oíEcios de Tanadares , e Capitães , 
hum dos Gentios , e outro dos Mouros , 
o qual cargo Timoja todo em folido efpe- 
rou de Affoníb d'Aiboquerque , e não re- 
partido em duas partes. Na qual cfperan- 
ça elle fe mo enganava 3 porque Affoníb 
cTAlboquerque afli o quizera fazer ; mas fa- 
bendo os Mouros que haviam de fer man- 
dados per homem Gentio 5 clamaram , com 
que elle deo efte officio a Mir Cacem. Afli 
que deftas coufas que precederam , cuidava 
Affonfo d'Aíboquerque ferem os avifos 3 que 
lhe Timoja dava contra elle , té que além 
de fejá commummentc dizer, Timoja hou- 
ve cartas á mão deites tratos que Mir Ca- 
cem mandava a Camaleão , as quaes Affon- 
fo d'Alboquerque guardou pêra feu tempo , 
e diflimulava afli com Timoja , como com 
todolos outros i que lhe vinham denunciar 
alguma coufa deftas , dando-lhe por iíío 
agradecimentos té que vieffe a hora , em que 
aquelle negocio havia mifter remédio. E a 

pri- 



47$ ÁSIA de João de Barros 

primeira coufa cm que entendeo , aperce- 
bendo-fe pêra aquelle hofpede que elpera- 
va , foi mandar recolher todolos Tanada- 
res ; e não tão prcíles que clles recolhidos , 
Camaleão era já nas tanadarias. O qual não 
fomente por melhor coníeguir feu intento 
de commetter paíTar á Ilha per muitas par- 
tes , como era aconfelhado per Mir Cacem , 
e outros da fua quadrilha , que lhe davam 
todolos avifos , mas ainda a neceííidade de 
não ter lugares tao efpaçofos pêra alojamen- 
to de tanta gente , como trazia ; aílentou- 
fe defronte de Beneílarij 5 e daíli mandou 
hum ramo de gente miúda ao paíío de Aga- 
cij. Affbnfo dVvlboquerque, aflentado Ca- 
maleão leu arraial , pêro que d'antes tinha 
provido como a Ilha era vigiada , de novo 
repartio a guarda delia per efta maneira. 
No paíío de Agacij poz Lopo d' Azevedo 
com certos homens de cavallo 5 e de pé ; e 
pêra o favorecer , poz no mar Fernão Pe- 
res d 5 Andrade , e a Luiz Coutinho em feus 
navios , e bateis ; e entre efte paíío , eode 
Beneílarij , por alli concorrerem muitas bo- 
cas de rios , e eíleiros , poz a Diogo Fer- 
nandes de Beja , Simão Martins com huma 
galé , e galeota, e a Bernaldim Freire, e 
a Pêro d'Afonfeca , cada hum em feu ba- 
tel. E no paíío Beneílarij mais aííima poz 
Garcia de Soufa em huma eílancia com 

mui- 



Década II. Liv. V. Cap. IV. 479 

: muita gente noíTa , e pionagem da terra, 
I que era o lugar de mais fufpeita ; e no mar , 
! em favor delle Aires da Silva com o feu 
navio. E a baixo contra o paíío fecco 5 ou 
I Gandalij , como lhe os da terra chamam , 
| no mar poz Simão d 5 Andrade em fua ga- 
I lé , e na terra Franciíco de Soufa Maneias > 
\ e Franciíco Pereira Coutinho. No paíío Dau- 
gij Jorge da Cunha , e de Pangij té Mamo- 
lij , que eftá em Goa a velha , havia de cor- 
rer Jorge da Cunha com feííenta de cavai- 
lo, e Timoja com a maior parte do Gen- 
tio da terra. E além deíles ordenados em 
lugares certos , andavam outros per toda a 
Ilha a huma , e a outra parte , efpertando- 
fe todos pêra que qualquer couíà que fe 
buliíTe na terra firme, foffe logo fentida na 
Ilha pelos noíTos ; fendo fobre todos no 
mar D. António de Noronha , o qual an- 
dava na galé de Diogo Fernandes corren- 
do todaías eílancias. 



CA- 



480 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO V. 

Como o Hidalcao com grão poder de 
gente veio cercar a Cidade Goa : e do que 
Affonfo d ' Alboquerque nijjò fez té leixar 
a Cidade , recolhendo-fe às fuás nãos , e 
nellas pafjòu o inverno no rio de Goa. 

AFfonfo cPAlboquerque , porque o 
maior receio que tinha nefte grande 
cerco 5 era dos Mouros que eílavam na Ci- 
dade , principalmente de Mir Cacem , por 
os tratos em que andava com Camaleão , 
por diffimular com elles , trouxe-os todos 
pêra íl , ícm lhes querer dar lugar certo , di- 
zendo que naquelle tempo queria que an- 
dafíem em fua companhia , e não debaixo 
da capitania de outrem , e com elles caval- 
gava , trazendo-os a huma , e outra parte , 
vifitando as eílancias , e praticando com el- 
les o modo que teriam na defensão daquel- 
les paflbs. E vindo do campo com elles , 
e com outros Capitães , ajuntou a todos , 
dizendo que queria ter confelho \ e como 
foram dentro na fortaleza , prendeo-os fem 
fora fe faber que eílavam prezos , por aco- 
lher outros , os quaes poucos , e poucos fez 
vir té que ajuntou perto de cem peíToas dos 
mais principaes , e huns por culpados , e 
outros por fe temer delles , todos foram pre- 
zos» 



Década II. Liv. V..Cap. V. 481 

zos. Somente Mir Cacem, e hum feu pri- 
mo logo dalli os mandou Aifònfo d'Albo- 
querque entregar aos feus alabardeiros , que 
os mataram por fuás culpas ferem mui no- 
tórias j c outros de menos qualidade , que 
eram com elles na traição , foram enforca- 
dos nos lugares públicos , denunciando com 
pregoes a caufa de fua morte \ e que dos 
outros, que ficavam prezos , ao prefente não 
fazia juftiça , por ainda não ter achado nel- 
les mais que indícios ; e fabida a verdade , 
faria o que requereífem feus méritos , e que 
per em tanto eftariam aífi em cuftodia. O 
qual negocio aíTombrou muito os morado- 
res da terra aíli Mouros , como Gentios , 
vendo quetodolos movimentos da traição, 
que entre elles havia , eram defcubertos , e 
o galardão que por iíío haviam. Camaleão 
delias coufas foube logo parte ; e como a 
vinda do Hidaicão áquelle cerco em tal 
tempo era couía muito perigofa por as dif- 
ferenças em que andava com os Capitães 
do Reyno Decan , e aíli com EiRey de 
Bifnaga 3 e por acudir a efta Cidade , fez 
com elles hum concerto de tregoas não mui- 
to de fua honra , efpedio logo hum menfa- 
geiro pêra elle , denunciando-lhe em que 
termos a Cidade eftava , e como elle fe pu- 
nha a paliar á Ilha , onde efperava em Deos 
que o acharia quando embora chegaffe. E 
Tom.II.P.L Hh co- 



482 ÁSIA de João de Barros 

como elle pêra commetter efta paflagem , que 
mandou dizer , não tinha embarcações , man- 
dou que toda a gente de ferviço não en- 
tendefle em outra coufa fenão eni fazer 
jangadas de madeira , e ceftos grandes de 
verga cubertos de couros pêra os cavallos, 
e gente , o qual modo de ceftos ufam per 
todas aquellas partes na paflagem de rios 
cabedaes , ufando de hum artificio pêra em- 
baraçar os noflbs , e não atinarem per onde 
haviam de paflàr , o qual artifício era em 
torno de toda Ilha darem moftras de íi , 
ora em huma parte , ora em outra. Affoníb 
cPAJboquerquc pofto que foube que efta 
obra fe fazia per efteiros , e partes onde os 
noflbs bateis podiam ir , não pode fazer 
mais que prover a guarda do mar , e da 
terra da maneira que diflemos. Finalmente 
huma fcfta feira ao quarto d'alva , tempo 
bem efeuro , e afpero de tormenta , com- 
metteo Camaleão a paflagem do rio nas 
jangadas , e ceftos que tinha feito , mandan- 
do diante a hum Capitão per nome Çufo 
Làríj , por fer homem muito de fua peflba > 
e elle nas fuás coitas íahindo do rio An- 
trux , onde eftá huma ilheta, a que ora osj 
noflbs chamam dos bogios , que em algu- 
ma maneira fazia amoaro entre terra 5 e ter- 
ra. D. António de Noronha com os Capi- 
tães que vigiavam aquella parte, como fen- 
do 



Década II. Liv. V. Cap. V. 483 

tio a vinda das jangadas , e ceíios , acudio 
logo a grão prefía, e como enveítíram huns 
nos outros, foi a peleja tão brava, e crua 
quafi á luz do fogo que fe punha á artilhe- 
ria por fer ainda de noite, quemorreo hum 
grande número dos Mouros , que foi bom 
cevo os que cahíram ao mar aos lagartos 
que alli andavam , como diílemos. E poíto 
que nelle houve grande eftrago , e os nof- 
fos lhes tomaram doze jangadas , eram el- 
las tantas , e aíli impediam o remar dos 
nofíbs , que humas pêra huma parte , e ou- 
tras per outra efcapuliam muitas , e deram 
comíigo na Ilha de Goa ,. na qual pafTagem 
foi Çufo Larij com té dous mil homens , 
muitos dellçs a cavallo , fem na terra ha- 
ver quem lha impediffe. Porque naqueíla 
parte onde elle a tomou , eftava toda feita 
em ralhos como de marinhas , por fer lu- 
gar onde femeavam arroz , de maneira que 
os noíTos que eftavam no paíTo de Agacij , 
e Beneftarij que eram mais vizinhos , nem 
menos Jorge da Cunha , que havia de acu- 
dir a ambas eítas partes com a gente de 
j cavallo , e pionagem de Timoja , nunca pu- 
| deram impedir que Çufo Larij não paífaíTe 
a cavallo com toda fua gente. O qual tanto 
que fez final per que Camaleão vio no ar- 
raial ter elle já paliado á Ilha , e os Mou- 
y \ ros Naiteas moradores delia houveram tam- 

Hh ii bem 



484 ÁSIA de JoXo de Barkos 

bem vifta delle , não fomente começaram 
defamparar as noíTas eílancias dos paííos , 
onde elles eftavam com os noíTos em defen- 
são delles , mas ainda r fe foram ajuntar com 
elle , e com Camaleão , que paflbu depois 
mais de vagar. E verdadeiramente fe eíleâ 
Mouros naturaes da Ilha não foram contra 
nós , quantos Mouros tomaram terra na 
Ilha por muitos que foram , todos fe perde- 
ram , aííi eftavam os paílbs providos , e a 
terra era azada. Mas como eftes Mouros fe 
ajuntaram com Camaleão , e fe fizeram em 
hum corpo de quatro mil homens ? e elles 
fabiam que commettendo as eílancias dos 
noífos que eftavam nos paifos , não havia 
outra falvação , fenão recolher-íe aos bateis 
que alli tinham em feu refguardo , começa- 
ram de as correr de maneira , que eftes 
per terra , e outros per mar eram já tan- 
tos , que tudo era arrombado delles , com 
que os noííos começaram de fe recolher a 
luas embarcações , e alguns mais apreflada- 
mente do neceífario , leixando a artilheria 
que tinham nas eílancias. E de quanta hon- 
ra perderam alguns de nobre fangue nefte 
recolhimento , tanta ganharam dous pedrei- 
ros , que affi como eram companheiros noj 
officio, ena amizade, affi nefte feito foram j 
de hum mefmo animo fem fe querer mu dar i 
daeítancia> defendendo o ímpeto dos M ou-' 

ros 



Década II. Lrv. V. Cap. V. 485* 

ros em quanto per outros mandaram reco- 
lher a artilheria , onde finalmente mais can- 
fados , que vencidos acabaram , náo mecâ- 
nicos ? mas como animofos cavalleiros , ten- 
do derredor de íl hum terreiro alaftrado de 
corpos mortos, Garcia de Soufa também 
no paíTo onde elie eftava , por fer o mais 
principal , tinha feito huma grofla tranquei- 
ra , de que defendia aquelie lugar ; e pofto 
t que correiTem alli muitos Mouros , tanto os 
canfou que tomaram por remédio pôr fogo 
á tranqueira. Á qual como começou arder y 
e não o podendo a gente foffrer , recolheo- 
fe já com feu irmão Pêro de Soufa mor- 
to , e muita gente ferida. E^eílando quaíl 
recolhido em faívo , porque lhe diííeram 
que ficava hum homem d^armas mulato , o 
qual diziam fer feu irmão baíiardo , tornou 
a elle, e com muito trabalho por eftar fe- 
rido , o falvou ás coílas. Parece que lhe di- 
zia o efpirito que efte , que alli falvava com 
tanto perigo , em outro em que eilc Garcia 
de Soufa goftou a morte 5 havia de fer tef- 
temunha da honra que ganhou naquelle asilo 
delia , •como veremos no feito do efcala- 
rnento da Cidade Adem. Jor^e da Cunha , 
a quem foi dado por limite correr com a 
gente que tinha do paífo de Agaeíj té Goa 
a velha , e de Agacij té Carambulij 5 por 
acudir a huma parte , defabafou a outra , 

que 



486 ÁSIA dk J0Ã0 de Bakros 

que foi a de Carambulij , per onde entrou 
Camaleão , com que não teve outro remé- 
dio , depois que vio fer a Ilha entrada per 
todas partes , fenao poer-fe em caminho pê- 
ra a Cidade com a gente de cavailo , e 
comíigo Lopo d'Azevedo , que eílava no 
paílb de Agacij. Os quaes per beneficio de 
hum Gentio da terra , que íe chamava Me- 
naique , que era Capitão dos que andavam 
com Timoja , foram levados á Cidade per * 
caminho que não tiveram encontro dos Mou- 
ros , que eram entrados , fendo já tantog 
per toda a Ilha , que andavam como fenho- 
res do campo > e os da terra taò fem medo 
dos noífos , que fc AíFonfo d^Alboouercue 
mandava hum homem fora da Cidade com 
algum recado aps paííos , era logo morto 
per os mefmos Mouros da Cidade. De ma- 
neira que mandando elle Francifco de Sá 
com té trinta de cavailo , e alguma gente 
de pé com efpingardas ver fe poderia ir a 
Beneftarij faber em que eílado citavam os 
noífos naquelle paílb , eaíli recolher alguns 
que tinha mandado com recado aos outros 
paíTòs , não o pode fazer, ante fe l vio em 
afias perigo , primeiro que lhe foííe dado 
hum recado de AfFoníó d'Alboquerque que 
fe tornaííe , por andar já travado com es 
imigos , que vieram ladrando trás elle té o 
metterem na Cidade > pofto que fez a alguns 

vol- 



Década II. Liv. V. Cap. V. 487 

volta em que derribou delles ; porque como 
os do arraial do Camaleão viram ter elle 
já tomado a terra , paíTáram todos o rio. 
Aííl que eítes no campo , e outros da Ci- 
dade fora , e dentro dos muros , como al- 
gum dos noííbs vinha dar com elles, logo 
era ferido , e morto , com que foram per- 
dendo tanto o medo , e vergonha , que já 
ienao contentavam fazer efía obra onde não 
foíTem viftos , mas como gente que queria 
metter a Cidade em revolta , publicamente 
feriam nelles. AíFonfo d 5 Alboquerque , que 
a efte tempo eítava ás portas da Cidade ven- 
do a oufadia deites Mouros , repartio a 
gente que comfigo tinha em dous corpos 
por acudir a duas entradas da Cidade , on- 
de fe fazia efte damno , e começou de lhe 
poer o ferro rijamente 5 e em huma parte 
onde fe acharam Nuno Vaz de Caftellc- 
branco , Diniz Fernandes de Mello ? Diogo 
Goterres , Baftião Rodrigues 5 James Tei- 
xeira , e outros , pofto que derribaram cm 
huma rua alguns de Mouros , elles ficaram 
todos bem làngrados , e outro tanto acon- 
teceo a Gaípar de Paiva em outra rua , on- 
de fe achou com os de fua capitania. Com 
a qual obra os Mouros deram tanto lugar , 
que já entravam fem perigo os noflos , que 
fe vinham acolhendo á Cidade pela porta 
onde elles eftavam ; mas iíto não durou mui- 
to % 



r 438 ÁSIA de João de Barros 

to , porque alvoraçou-fe tanto a Cidade * 
que conveio a Affonío d'Alboquerque man~ 
dar que fe recolheíTem todos ao caílelJo •> 
e alguns delíes por acharem as ruas toma- 
das dos Mouros , rodeavam per fora a vir 
bufcar a ribeira , de que os noflbs eram 
mais fenhores. D. António de Noronha co- 
mo foube que a Ilha era entrada per toda- 
las partes , temendo que Affònío d'Albo- 
querque podia ter neceflidade delle, havido 
confelho com os Capitães que andavam em 
fua companhia , veio-fe recolher ao caítel- 
lo , trazendo comfigo toda a artiíheria que 
pode haver , aífi das eftancias , 'como do na- 
vio Eípera , que citava em guarda de Be- 
naftarij , o qual fe metteo no fundo por fe 
nao poder trazer. Recolhida a noíla gente 
áquelle abrigo do caftello , foi a Cidade en- 
trada pela gente de Camaleão , e elJe con- 
tentou-fe aquelle dia não fazer mais que to- 
mar poíTe da entrada na Ilha fem commer- 
ter a Cidade ; porque como naqueiia pri- 
meira paíTagem nao pode paliar a artilhe- 
ria , que trazia pêra combater a fortaleza , 
eaffentar fuás eftancias com efia pouca gen- 
te, que metteo vefpera de Saneio Efpirito , 
começou de combater o cafiello. O qual 
combate , pcílo que por fua parte não foi 
mais que huma maneira de tentar a noiTa 
gente pêra tomar experiência como fe ha- 
viam 



Década II. Liv. V. Cap. V. 489 

viam de haver cem ella ao diante , por par- 
te dos Mouros da Cidade tiveram os nof- 
fos muito trabalho; porque como queriam 
comprazer ao Hidalcão por lhe pagar a in- 
dignação que tinha contra elíes em tão le- 
vemente entregarem a Cidade fem peleja y 
pelejavam como humas feras fem temor. 
Affoníb d'Alboquerque logo naquella pri- 
meira entrada não fez mais que repartir a 
defensão da Cidade per eíles Capitães : Dom 
António de Noronha feu fobrinho , Aires 
da Silva , D. Jeronymo de Lima , D. João 
feu irmão , Simão d 5 Andrade , Fernão Pe- 
res feu irmão , Diogo Fernandes de Beja , 
Jorge Fogaça , e per outros , a qual defen- 
são não foi tão preftes feita , quanto o ar- 
raial de Camaleão citava já aflentado junto 
da Cidade obra de meia légua 5 onde cha- 
mam as duas arvores. E porque nos pri- 
meiros commettiiwentos , que es Mouros fi- 
zeram y querendo entrar a Cidade a eícala 
vifta , per hum quebrado do muro elles fo- 
ram mui mal recebidos , mandou Camaleão 
fazer mui chegada ao muro huma eílancia , 
em que poz hum camello , e alguma arti- 
lharia de metal , que tomou nas eítancias , 
onde os noííos eílavam nos paíTos da Ilha , 
quando entrou nella , donde fazia muito 
mal aos noíib& , e daqui andava a huma , 
e a outra parte mudande-a , onde nos faria 

ma ior 



490 ÁSIA de JoXo de Barros 

maior damno fem lha poderem os noflbs 
tomar > poílo que per vezes o commettèram. 
Finalmente eííe cerco teve dous termos de 
muita opprefsão , hum ante que o Hidalcao 
chegaíTe com todo feu poder , no qual tem- 
po Camaleão fez tudo o que pode como 
cavalleiro , e induftriofo Capitão , té mandar 
commetter partido a AíFoníb d'Alboquerque 
que lhe deípejaffe a Cidade com algumas 
condições deshoneítas , e que o leixaria em- 
barcar , tudo a fim de levar cita gloria ante 
que o Hidalcao vieiíe ? que efperava cada 
dia. Ao qual negocio mandou hum João 
Machado Portuguez , que era hum dos de- 
gredados dos que Pedralvares Cabral leixou 
em Meliude. E poílo que neíta vinda fallou 
a Affoníb d'Alboquerque como homem que 
o queria aconfelhar , dando-lhe avifo do 
que hia no arraial de Camaleão , e o gran- 
de poder que trazia o Hidalcao, que feria 
alli dahi a poucos dias 3 por o lugar em 
que elle andava , pareceo a Affonfo d'Albo- 
querque que tudo era artificio de Camaleão , 
té que com a vinda do Hidalcao elle vio 
ferem verdade muitas coufas , que lhe João 
Machado diílera. O outro termo , que eíle 
cerco teve , foi depois que o Hidalcao en- 
trou , o qual fegundo fama , e avifo de João 
Machado , trazia feífenta nfd homens , em 
que entravam finco mil de cavallo \ e por 

ef- 



Década II. Liv. V. Cap. V. 491 

eíle exercito ler tão grande , não o paíTou 
todo á Ilha de Goa , mas ficou maior par- 
te na terra febre a borda do rio em duas 
capitanias : hum a , que eílava fobre o paíTo , 
deo a hum feu Capitão principal ; e a ou- 
tra tinha fua mãi delle Hidalcão com fuás 
mulheres , onde havia das públicas pêra o 
ufo da gente mais de quatro mil , que á 
eufta de feus corpos pagavam toda aqueíla 
gente, que a madre do Hidalcão trazia. O 
qual também depois que veio , quiz mover 
alguns partidos a Affonfo d'Alboquerque , 
e ifto não tanto por defeonfiar de a Cidade 
fer fua polo grande poder que trazia , quan- 
to por maneira de induftria ; porque viíio 
como os noíTos , tomando elle a Cidade , ti- 
nham por colheita as náos 5 ordenou de 
mandar atupir o canal do rio com algumas 
fuás , e fobre iíTo lançar muitas balfas de 
fogo , que ria defeente da maré vieíTem 
queimar a noífa frota ; e em quanto orde- 
nava ifto , queria entreter AíFonfo d'Albo- 
querque , fimulando partidos , e concertos 
té lhe fechar a fahida. Das quaes coufas , 
poílo que Affonfo d'Alboquerque foífe avi- 
fado per João Machado , fempre lhe pare- 
ciam artificio cios Mouros > té que huma 
manhã vio huma náo delles mettida no fun- 
do , da qual não apparecia mais que hum 
terço do mafto 5 e no feguinte dia outra. 

Af- 



492 ÁSIA de João de Barros 

Affonfo d'Aiboquerque vendo que todalas 
coufas de que fora avifado per João Ma- 
chado davam liaal ferem ditas como ho- 
mem que no peito tinha o nome de Chrif- 
tao , pofto que na boca entre os Mouros 
era hum delles , aífentou comfigo mefmo 
leixar a Cidade , porque concorriam muitas 
coufas , que nao podia ai fazer , a princi- 
pal das quaes era fer aíli aconfelhado per 
muitos Capitães , e quaíí em modo de re- 
querimento , de que ainda teve alguma pai- 
xão com elles* Porém temendo que no me- 
do de a leixar aconteceíle algum defman- 
cho polo defejo que toda a gente tinha de 
íè recolherem ás náos , fecretamente o com- 
municou com D. António de Noronha 3 e 
com alguns Capitães do leu voto ; e depois 
a noite ante de fe recolher , teve gerai con- 
fclho com todos , onde lhe propoz o que 
elles tinham viílo , e paliado , e mais quan- 
to paliara com João Machado , e quão ver- 
dadeiro o achara em tudo. Pcra amoedar 
a qual fahida não houve miíler muitas pa- 
lavras , por o perigo do eílado de toda a 
índia , que eram elles , eílar claro , com que 
a liuma voz todos foram , que logo aquel- 
la noite folie ante que lhe atupifíem com 
mais náos a fahida. Com o qual confelho 
AíFonfo d'Alboquerque , ante de fe recolher 
ás náos , ordenou de mandar matar todolos 

Mou- 



Década II. Liv. V. Ca?. V. 493 

Mouros- que tinha prezo por caufa da trai- 
ção , e aíli todoios cavallos que alli achou : 
a carne dos quaes foi recolhida ás náos, 
que foi depois boa provisão. E pofío que 
numa ante manha eile fe recolheíte o mais 
quietamente que pode , traziam os Mouros 
tanto a orelha neftc movimento 3 que quan- 
do eile faina pelas portas da ribeira , foram 
logo todos pegados com eile de maneira , 
que por fe recolher fem muito perigo 5 (fè- 
gundo o negocio fe azava , ) leixáram de 
recolher muita fazenda cPElRey \ que eílava 
em terra , e aífi queimar as náos , que efta- 
vam em cftaleiro. Porém vendo Áffonfo 
(TAlboquerque que era fentido > mandou o 
Adaii poer fogo a algumas , onde fe eile 
houvera de perder com outros , por ferem 
já os Mouros tão quentes com elles 5 que 
lhe mataram o cavallo , e com trabalho fe 
falvou , e o fogo que tinha poílo em as 
náos , foi logo apagado pelos Mouros , com 
que elías receberam pouco damno. Nas cof- 
tas do qual Adail foi D. António de No- 
ronha , D. Jeronymo de Lima , Manuel de 
la Cerda , Garcia de Soufa , Duarte de Mel- 
lo , Diogo Fernandes de Beja , que recebe- 
ram aflas damno , e trabalho em fe embar- 
car. 



CA- 



494 ÁSIA de João de Barros 

CAPITULO VI. 

Das coufas , que Affonfo cVAlboquerque paf- 
fou o inverno que teve no rio de Goa. 

REcolhido AíFonfo d'Alboqucrque o der- 
radeiro dia de Maio , havendo vinte 
que os Mouros o tinham cercado , quan- 
do veio ao levar das ancoras , citava tudo 
tão embaraçado , que lhe conveio efperar 
todo aquelle dia defronte da Cidade , on- 
de receberam afias de afFronta ; e muitos 
delles foram mais feridos da artilheria , e 
frechas que alli tiraram, que na peleja que 
tiveram em todo o cerco. Acabado o qual 
trabalho 3 cahíram em outro maior , e foi 
do lugar onde os Mouros alagaram as duas 
náos , porque aqui fe vio Affonfo d'Albo- 
querque quafi lem remédio , andando com 
a fonda na mão de baixamar , e preamar y 
té que aprouve a Deos aue enfiadas huma 
na outra paífou todalas velas , e veio fazer 
fua eftancia entre a ponta que chamam de 
Rebandar , e o caílello de Pangij 7 que Dom 
António tomou , como diíTemos , por fer o 
mar alli mais efpaçofo entre aterra de Bar- 
des 5 e da Ilha. A qual ponta como era 
hum pouco foberba , e lugar pêra eíla ef- 
tancia das náos , porque com huma manei- 
ra de enfeada que fazia da parte da Ilha 



Década II. Liv. V. Cap. VI. 49? 

ficavam ellas fora do tesão da corrente das 
aguas , entenderam os Mouros que alli ha- 
viam os noííòs de eleger pêra poufo das 
náos 5 e tinham fortalecido a fortaleza mui 
bern , e aífi a torre que Tirnoja tomou na 
terra de Bardes , porque de ambas eílas for- 
talezas poderiam com artilheria fazer dam- 
no aos noflbs. Na qual iahida da Cidade 
com Tirnoja fe recolheo muito cio Gentio 
Canarij da Ilha , de que era Capitão 5 te- 
mendo receberem damno dos Mouros por 
pelejarem contra elles , pêra pofentamento 
dos quaes AfFonfo d'Alboquerque lhe man- 
dou dar huma náo das que acharam no por- 
to 5 quando entrou a Cidade , de que era 
Capitão Nuno Vaz de Caftello-branco. E 
como quem fe apercebia pêra os trabalhos 
que havia de pafíar aquelle inverno , repar- 
tio AfFonfo d'Alboquerque o cuidado da 
vigia da Armada quanto ao de fora per 
capitanias ; porque como aquelle rio tinha 
grande número deeíleiros além das Ilhas 
contra a terra firme , nos quaes eiíe fabia 
que fe haviam de ordenar jangadas de ma- 
cieira pêra com ajufante da maré , e cheas 
dos rios as encaminharem que lhe vieílem 
queimar as náos , quiz-fe logo aperceber 
pêra efte trabalho, Iíto afli na vigia da fro- 
ta , como que certos Capitães cada hum em 
navios de remo ? e bateis > que foíTem vi- 
giar 



496 ÁSIA de JoÃo de Barros 

giar eítas coufas , e outras , de que fe te- 
mia que Jhe podiam lbbrevir , principal- 
mente fazer aguada na terra firme , e ha- 
ver alguns mantimentos nas Ilhas do Gen- 
tio da terra , que por razão do paremelco 
que tinham com aqueiles que eftavam com 
Timoja , folgariam de o dar, como fize- 
ram nos primeiros dias , em quanto os Mou- 
ros não entenderam niífo. Porém depois que 
viram termos alli alguma provisão , defen- 
diam tudo per armas , onde os noffos ver- 
teram feu langue , como aconteceo a Dom 
João de Lima , indo fazer aguada á terra 
de Bardes , a qual defendia Yaçuf Gurgij 
o Capitão que perdeo o caftello de Pangij. 
E nas Ilhas de Divar , e Chorão D. An- 
tónio , Gafpar de Paiva , Manuel de la Cer- 
da , Jorge Nunes de Leão ; e outros Capi- 
tães coin Timoja , e Menaique, paflaram 
outro tal trabalho per algumas vezes por 
haver gado , e arroz. Mas de todos eftes 
nenhum chegava ao que tinham no lugar 
onde eftavam furtos ; porque como era no 
roílo da fortaleza Pangij , todolos dias eram 
varejados com amiheria ; e de noite tanto 
que apparecia candea , logo apontavam nei- 
la de maneira , que por fugir eíie damno , 
que lhe feria muita gente , e alguns homens 
eram mortos , andavam mudando o pouíb 
das náos , e em toda parte eram pefeados 

com 



Década II. Liv. V. Cap. VI. 497 

com artilheria. AíFonfo d'Alboquerque ven- 
do que depois da fome nenhuma coufa tra- 
zia a gente mais aíTombrada , e canfada , 
praticou com os Capitães que queria dar 
hum íalto na fortaleza , e ver íè podiam 
tomar aquella artilheria que os matava , e 
que pêra iííb bailavam trezentos homens* 
O qual cafo poílo em confulta delles , mui- 
tos foram em contrario parecer, por quão 
perigofa coufa era ir commetter hurna for- 
taleza atulhada de gente com artilheria mais 
baila que as ameias ; mas como a falva- 
çao de todos eílava em fe tomar efta arti- 
lheria , e o perigo do cafo era menos do 
que cada dia paífavam , todavia aflentou. 
Aífonfo d' Alboquerque em commetter a for- 
taleza. Dizendo que pois Deos eníinava o 
remédio , e quanto ao juizo de todos ahi 
'não havia outro , efperalTem nelle , pois 
fempre fua mifericordia era maior que a 
confiança dos homens. Aílentado elle com- 
.mettimento , repartio AíFonfo d' Alboquer- 
que a gente em dous trabalhos : aos do 
imar deo cuidado de recolher artilheria aos 
•bateis ; e quando a não pudeífem íalvar , 
Ique deííem com ella no rio , e o governo 
IdiíTo deo a Diniz Fernandes de Mello. O 
butro cuidado que havia de ficar com a 
|gente de armas, que era commetter a for- 
taleza, e pelejar com os Mouros, repartio 
Tom. II. P.L li em 



498 ÁSIA de João de Barros 

em três partes : Diogo Fernandes de Beja 
na íua galé , e Afionlò Pefíba na fuíta ha- 
viam de fahir abaixo do caftelio , e dahi 
virem per terra pêra tomarem as coitas dos 
Mouros , quando acudiíTem á ribeira. E os 
que haviam de commetter por alli de roi- 
to a fortaleza , eram Manuel de la Cerda , 
Baítmo de Miranda, Nuno Vaz de Caftel- 
lo-branco , e logo aíTima delles D. João de 
Lima, leu irmão D.Jeronymo, Fernão Pe- 
res , Aires da Silva. E ao modo de Dio- 
go Fernandes pela banda de cima contra a 
Cidade haviam de commetter eíles Capi- 
tães , Simão d 5 Andrade , Simão Martins , 
Jorge Fogaça , Bernaldim Freire ; e Dom 
António com todolos outros Capitães ha- j 
via de acudir onde folie mais neceílario per 
terra , e Affonfo d 5 Alboquerque entreter á j 
parte da ribeira. E parece que ordenou Deos 
que eíte cafo foíTc mais leve , do que eraj 
na opinião dos. noílbs com hum foccorro j 
que o Hidalcão mandava aquella noite de 
muito mais gente , cuidando elle que aífll 
eftava a fortaleza mais fegura, que os dias) 
paíTados. A qual fegurança foi caufa dei 
os noflbs coníèguirem feu propoíito ; por- 
que em os negócios da guerra então fe cor- 
re mais rifeo quando os homens defean-j 
çam em alguma força ; e o cafo foi eftei 
Eftando o Hidalcão com feus Capitães emi 

Goa í 



Década II. Liv. V. Cap. VI. 499 

Goa na prática do damno que eíla artiíhe- 
ria de Fangij fazia aos noílbs , gloriando- 
fe muito diflb , era prefente hum Portuguez 
per nome João Machado , o qual havia 
annos que andava com elle , e por fer ho- 
mem de fua peííba , o tinha feito Capitão 
de gente. O qual João Machado , quando 
ouvio gloriar-íe o Hidalcao deíle damno, 
que os noííbs recebiam da artilheria , diíle : 
Se os Portugueses recebem damno delia , el- 
le s trabalharão por a tomar ? porque eu os 
conheço , que naofoffrem muito a efpinha que 
lhes pica. Sobre as quaes palavras houve al- 
gumas perfias entre alguns Capitães Rumes , 
desfazendo no que João Machado dizia. 
Finalmente o negocio chegou a tanto , que 
hum daquelles Capitães Rumes diíTe ao Hi- 
dalcao \ que lhe mandaíTe dar té quinhen- 
tos homens, e que elle com fua peíToa que- 
ria ir efperar a oufadia dos Portuguezes : 
o que lhe o Hidalcao concedeo , e acertou 
de vir a efte negocio a própria noite que 
AíFonfo d' A iboquerque tinha ordenado com- 
metter o cafo de tomar efta artilheria. Vin- 
da a qual gente , por fer muita , e não po- 
der caber com a outra que eílava na for- 
taleza , affentáram tendas fora em modo 
de arraial , e hofpedes com hoípedes ban- 
quetearem-fe aquella noite de maneira 5 que 
quando veio na alvorada da manha., que 
li ii Af- 



$00 ÁSIA DE João DE Barkos 

AíFonfo d'Alboquerque tomou a terra na 
ordem que diflemos ter elle repartido efle 
efcalamento , aíTi eílavam os Mouros bêba- 
dos da cea , e do lbmno , e defcuidados 
da vigia com a multidão da gente que vie- 
ra , que vendo os noflbs derredor da for- 
taleza , os de dentro cuidavam que eram os 
amigos de fora , e os de fora os de den- 
tro , fem fcntircm o engano fenao quan- 
do íentíram o ferro que lhes efcalava as 
carnes. Finalmente clles foram tão mortal- 
mente feridos , que lhe aproveitou pouco 
o esforço do Capitão Turco , e aífi os de 
fora , como de dentro 3 trabalharam mais de 
amparar as vidas , que defender artilheria , 
que os noífos mais defejavam delles , que 
outro algum defpojo , a qual falváram tan- 
to a feu falvo , que fendo efte hum dos 
honrados feitos , ani no commettimento del- 
le , como de bem pelejado , hum homem 
fomente dos noífos morreo , não a ferro , 
mas per dcfaftre , cahindo no rio armado j 
em querendo faltar de hum batel no outro , 
e feridos houve bom quinhão ; e porém 
não tantos , que não foíTem mais mortosí 
da parte dos Mouros > porque paíTáram dej 
trezentos e quarenta. O qual dia parecei 
que aprouve a N. Senhor que foífe todo] 
por nós ; porque mandando AíFonfo d'Al- 
boquerque a Garcia de Soufa , e a JorgeJ; 

da, 



Década II. Liv. V. Cav. VI. £01 

da Cunha naquella própria noite á outra par- 
te da terra firme , onde chamam Bardes, 
deram no baluarte que os Mouros lá ti- 
nham , o qual tomaram , e toda a artiihe- 
ria que nelle havia. O Hidalcao com eftes 
dous feitos ficou tão aífombrado , que lhe 
parecia que de noite haviam os noííòs de 
ir dar hum falto dentro na Cidade ; e não 
oufando de dormir nella, paííbu-fe a hum 
lugar , a que ora chamam o Tanque de 
Timoja, e teve a João Machado em mais 
eílima , vendo que lhe fallava verdade acer- 
ca do que fentia de nós, do qual João Ma- 
chado adiante faremos particular relação por 
os merecimentos que depois teve , affi de 
cavalleiro , como de Catholico Chriftão. E 
fe havemos de dar credito ao que geral- 
mente fe diííe , eíla mudança do Hidalcao 
tão fubita também procedeo por ter íabi- 
do per feiticeiros que havia de morrer jun- 
to da agua do tiro de huma bombarda. Por 
diílimular o qual temor 3 e faber fe era ver- 
dade o que lhe diziam os noífos , que lá 
eram lançados com fome , da neceílidade 
de mantimento , em que a noíía gente efta- 
va , ufou deite ardil : mandou certos paráos , 
e refrefco a AfFonfo d 5 ÂIboquerque com 

do 1 huma rebolaria de palavras , dizendo , que 
os cavalleiros haviam de fazer guerra a 

d íèus imigos > matando-os a ferro > e não a 

fo- 



5*02 ÁSIA de João de Bakbos 

fome j e porque elle tinha fabido em quan- 
ta neceílidade de mantimento elle Afifbnfo 
d ? AIboquerque eftava ? lhe enviava aquelle 
refrefeo. AíFonfo d'Alboquerque primeiro 
que eíle recado do Hidalcão chegaífe a el- 
le , eílando os bateis de largo das náos , 
com huma bandeira branca em final que 
queriam fallar , mandou a elles $ e quando 
lhe trouxeram recado ao que vinham , tor- 
nou logo a lhe mandar dizer que vieííem 
embora ; e em quanto hia a feu recado , a 
gráo preíTa mandou ferrar huma pipa em 
duas partes ambas cheas de vinho , huma 
pofta na tolda , e a outra no convés com 
íiuma fomma de bifeouto per derredor , co- 
mo que citava aquelle mantimento ordena- 
do pêra os mareantes , que andavam traba- 
lhando em a náo. O qual artificio foi tão 
levemente feito , e affi eílava a gente da 
náo tão defeuidada , que quando o men- 
fageiro do Hidalcão foi dar o recado a 
AíFonfo d\Alboquerque , não houve alvoro- 
ço na gente , nem fizeram conta de quem 
entrava , nem fahia. Tomado o recado que 
eíle menfegeiro trazia , refpondeo-lhe Af- 
fonfo d'Alboquerque com grandes agrade- 
cimentos do prefente que lhe mandava 5 iou- 
vando-Ihe muito o recado , e que bem pa- 
recia fer dito de tal Príncipe , e cavalleiro , 
como eiie era j e que fe não acceitava o 

pre- 



Década II. Liv. V- Cap. VI. 5^3 

prefentc era , porque os Portuguezes , em 
quanto lhes não falecia o comer que tinham 
■naquella tolda , e convés , como elle podia 
ver , não haviam miftcr outros mimos , por 
fer gente coftumada aos trabalhos da guer- 
ra ; e fe lhes falecia o comer , tinham a con- 
dição das aves 3 folgarem mais de o ir buí- 
car no campo , que de o receber como en- 
carcerados em gaiola* Que como feu ami- 
go , em pago daquclle prefente ; lhe manda- 
va dizer que acabado o mantimento 5 não 
lhe fupprindo todo o tempo do inverno > 
efperaíle por os Portuguezes ; porque ain- 
da que elle não quizeífe , os havia de ter 
por hofpedes á fua meza. Com a qual re- 
fpoíía fe tomou a fahir o menfageiro com 
mercê de algumas peças , que lhe AíFonfo 
d'Àlhoquerque mandou dar, e levou todo 
o refreíco que trazia , poílo que lá foram 
os olhos de todos diífimulando a neceííkla- 
de o mais que podiam. O Hidalcão quan- 
do ouvio eíle recado , e foube do feu men- 
fageiro o eftado em que vira a náo , e o 
pouco alvoroço 3 e cubica , que a gente 
moíírou dos mantimentos que levava , af- 
fentou de levar outro caminho com os 
noífos , de os não metter em tanto aperto 
de rebates , como té li lhe dava , receando 
que do muito apertar com elles 5 os poeria 
em termo que de noite > como gente defef- 

pe- 



£04 ÁSIA de JoXo de Bakros 

perada, o foliem bufcar lá onde eílava. Ê 
daqui deita offerta dos mantimentos tomou 
caufa pêra mandar recados a Affonfo d'Al- 
boquerque , e entender com elle no refga- 
te de certos Mouros , que o Feitor Fran- 
cifco Corvinel trouxe comfigo dos que ellc 
AfFonfo d'Alboquerque mandou prender , fe- 
gundo contámos ; porque como prudente , 
ao tempo que mataram os outros > falvou 
cites , efperando que com elles , por ferem 
homens principaes , fe podia , fazia algum 
bom negocio. Do qual refgate AfFonfo d'AI- 
boquerque fe lançou , dizendo , que os Mou- 
ros eram do Feitor Francifco Corvinel , e 
que elle lhe mandaria que os refgataíle por 
comprazer a elle Hidalcao ; e com eíte ar- 
tificio , por encubrir fua neceílidade , refga- 
tavam os Mouros a troco de mantimentos , 
que era a coula de que mais neceífidade ti- 
nham. 



CA- 



Década II. Livro V. 5^65 

CAPITULO VIL 

Como D. António de Noronha foi mor- 
to pelos Mouros , por acudir a Diogo Fer- 
nandes de Beja , que Affonfo d?Alboquerque 
tinha mandado queimar certos navios de 
remo : e do mais que fe pajjòu no rio de 
Goa té fe fahirem delle. 

PAíTadas eítas coufas , que fizeram reco- 
lher o Hidalcao da foberba que tinha, 
vendo eílarem já os noííos livres do maior 
trabalho que recebiam , que era fome , e 
damno que lhes fazia a artilheria de Pan- 
gij , fobrevieram dous calos , que o torna- 
ram alevantar, os quaes atribularam muito 
a Affonfo d'Alboquerque , como veremos 
na relação delles. Sabendo elle per avifo de 
Gentios , que Timoja lá trazia , como po- 
lo rio aífima junto da Cidade eíbvam mui- 
tos paráos ordenados pêra aqueiia noite fe- 
guinte em companhia de muitas balfas de 
lenha cevadas de azeite , e rezina pêra lhe 
poerem o fogo ao tempo da maré virem 
íòbre a noíTa Armada 5 mandou a Diogo 
Fernandes de Beja Capitão de huma galé, 
que osfoffe queimar, e com elle foram Af- 
fonfo PeíToa em outra , e Simão Martins 
em huma galeota , e o Meílre da náo Flor 
da Rofa chamada Cafa Verde de alcunha, 

por 



$$6 ÁSIA de JoÃo de Barros 

por fer homem defpachado pêra eftas cou- 
fas , com hum paráo pêra ir defcubrindo 
diante as pontas da terra. Diogo Fernan- 
des partindo de dia a fazer efta obra , foi 
já tanto no cabo da maré , que de não po- 
der a força do remo romper o tesão da agua 
que vinha a elles , lançou ancora ; e por fe 
melhor informar do modo que havia de 
ter no commettimento daquelle feito , quiz 
per íi , cm quanto efpcravam a maré , ir 
em hum paráo ver o íitio do lugar onde 
lhe diziam eftar.aquella frota, com o qual 
hia Diogo Fernandes o Adail fomente , e os 
marinheiros que remavam , e diante levava 
o Meftre Cafa Verde com o feu paráo. Os 
Mouros , que eftavam no lugar dos paráos , 
como tinham vigia no rio , e viram o que 
Diogo Fernandes fez , puzeram-fe parte del- 
les detrás dos paráos que tinham em fecco , 
que feriam* té vinte e tantas peças ; c ou- 
tros mettêram-dé dentro em huma galeota 
que fora noíTa , e com a prefla da fahida 
da Cidade por eftar cm fecco efqueceo , a 
qual citava meia em nado. O Meftre Cafa 
Verde, que hia diante de Diogo Fernandes , 
quando defeubrio detrás de huma ponta co- 
mo os Mouros punham os hombros pêra 
lançar efies feus paráos em nado , tornou 
atrás rijo , dizendo a Diogo Fernandes : 
Tendo-vos fenhor , que temos muitos Mou- 
ros 



Década II. Liy. V. Cap. VIL 5*07 

ros por ãavante. Diogo Fernandes como 
per íi quiz haver vifta delles , quando tor- 
nou a voltar , pofto que bem remaííe ; hou- 
veram-fe os Mouros tão defpachadamente 
em lançar os paráos na agua ? que primei- 
ro que elle chegafle onde ficavam as galés , 
era tanta a frechada fobre elle , que fe o 
caminho fora mais comprido não fe pu- 
dera ialvar ; mas como as gales começaram 
varejar com artilheria , entretiveram-fe não 
paliando mais avante. Áífonfo d'Alboquer- 
que como em. baixo ouvio os tiros , pare- 
cendo-lhe que pelejava Diogo Fernandes , 
mandou D. António de Noronha a grão 
preíTa com íete , ou oito bateis de gente 
que lhe acudiffe ; o qual com a maré , que 
já tornava a fubir, em breve chegou onde 
eílava Diogo Fernandes a tempo , que ain- 
da houve vifta dos Mouros. Em alcanço 
dos quaes foi tanto , té dar com elles em 
fecco defronte da Cidade , lugar onde os 
noílos lhe não podiam fazer damno , fo- 
mente commetterem querer cobrar a galco- 
ta , que os Mouros com preza não pude- 
ram de todo varar, e ficou meia em nado. 
Por caufa de haver , ; e defender a qual hou- 
ve entre os noífos , e os Mouros huma per- 
fia de lançadas i e frechadas , que durou hum 
bom pedaço , té que veio huma frecha , cue 
atrayeíTou huma perna a D. António de No* 

ro- 



5*o8 ÁSIA de JoXo de Barros 

ronha . de que dahi a poucos dias morreo, 
E nefte feito , que foi caufa de fua morte , 
também correram rilco delia Simão d' An- 
drade , Fernão Peres feu irmão , Simão Ran- 
gei , e outros , que eítavam já dentro na fuf- 
ta dos Mouros , quando o batel de D. An- 
tónio , com que elles hiam , fe alargou delia ; 
mas foram foccorridos per Diogo Fernan- 
des de Beja , que com lua galé, peró que 
os não pudeíle tomar , mandou per hum ba- 
tel que os recolheo , e a fuíla todavia ficou 
em poder dos Mouros ; os quaes por fica- 
rem bem fangrados dos noflbs , por aquel- 
la vez defiftíram do que tinham ordenado. 
Affonfo d'Alboquerque pela morte de Dom 
António ficou mui anojado ; porque além 
de fer feu fobrinho , filho de D. Coftança fua 
irmã , mulher de D. Fernando de Noronha, 
era elle per fi tal Cavalleiro , e tinha com 
iílo outras qualidades , que fe creava nelle 
huma grande efperança pêra ante de poucos 
annos lhe poderem entregar a governança 
da índia ; e os dias que viveo , era grande 
defeanço a elle Affonfo d'Alboquerque. Cá 
não fomente o ajudava nos trabalhos da 
guerra , mas ainda curava algumas paixões 
entre elle , e os Capitães ; porque como Af- 
fonfo d 5 Alboquerque era ardego , c fraguei- 
ro em os negócios de feu officio , e algu- 
mas vezes máo de contentar , fempre fe 

apro- 



Década II. Liv. V. Cap. VIL 5*09 

aproveitava de hum bom terceiro 3 per quem 
elle queria foldar aqueilas quebras de pala- 
vras do primeiro Ímpeto de fua manenco- 
ria. O que logo fe moílrou com a morte 
de D. António neíte cafo que lhe aconte- 
ceo , mandando elle AíFonfo d 5 Alboquerque 
enforcar hum Ruy Dias natural da Vilia 
Alanquer , homem de boa linhagem 5 o qual 
foi achado em a camará da fua náo, e fe- 
gundo fe provou , era pêra huma efcrava 
lua de muitas cativas que trazia 5 a que elle 
chamava filhas , e caiava. A execução do 
qual cafo , pofto que fofíe ordinariamente 
perjuftiça, fegundo forma do Direito , eftan- 
do o delinquente com o baraço na gargan- 
ta pêra fufpender no goroupés de huma 
náo , quatro , ou cinco Capitães o tiraram 
aos Miniftros da jufíiça ? dizendo que não 
haviam de confentir que hum homem pa- 
deceífe por tal cafo , e mais fendo de fan- 
gue , que quando houveífe de morrer , havia 
de fer per outro género de morte. E não 
fomente impediram efta execução , mas em 
modo de indinação nos bateis fe foram á 
náo delle Affonfo d ? Alboquerque , e mais 
confiada , e foltamente do que fe devia á 
reverencia do feu Capitão mor. Chegados 
a bordo da náo , onde Affonfo d'Alboquer- 
que os veio receber , faberçdo que hiam com 
aquelle impeto 3 começaram dizer : Que po- 
de- 



^10 ÁSIA DE JOÃO DE BAKK03 

deres tinha ellepera mandar enforcar aquel- 
le homem por tal cafo ? e mais findo ho- 
mem defangue , que havendo de morrer per 
algum delicio , não havia de Jèr per tão 
vil morte. AfFonfo d'Alboqucrque como ti- 
nha já fabido o que elles leixavam feito , e 
as palavras que diziam eram conformes á 
força , diílimuladamente lhes refpondeo , que 
fe elles queriam ver os poderes que tinha 
pêra fazer aquella juíiiça, que de boa von- 
tade elle lhos moítraria , que fubiflem pêra 
cima. Os Capitães pareccndo-llies que a 
mofira dos poderes havia de fer a alçada , 
que lhe EIRey dava per fuás Patentes em 
quanto governaffe a índia, fubíram ; mas 
como foram na tolda , hum , e hum os man- 
dou metter na bomba , eftando na boca da 
efeotilha com aeípada na mão nua, dizen- 
do, que aquelles eram os poderes que lhe 
havia demoftrar, e taes lhe dava o feu of- 
ficio de Capitão contra os defobedientes , e 
que impediam ajufdça d 5 ElRey feu Senhor. 
Feita efta priz^o , com que os Capitães fi- 
caram fufpeníos de fuás capitanias, que elle 
Aífonfo d 5 Alboquerque deo a outros Fidal- 
gos , mandou tirar o culpado donde o ti- 
nham , e foi levado em hum batel per bor- 
do de todalas náos com pregões , que de- 
nunciavam o feu crime , té que per derra- 
deiro o enforcaram. E fegundo alguns fa- 

mi- 



Década II. Liv. V. Ca?. VII. ?n 

miliares de AíFonfo d'Alboquerque depois 
differam , pofio que o culpado mereceííe 
morte pelo modo que teve em commetter 
o crime , mais o chegou á morte a pouca 
reverencia dos Capitães , que a indicação 
do caio ; e mais fe quiz moftrar na execu- 
ção delia obedecido 5 quepiedofo. Mas com 
tudo a mais da gente da frota ficou eícan- 
dalizada deíle feito 5 por elle AíFonfo d'Al- 
boquerque fer a parte ofFendida , e o julga- 
dor , e mais em cafos daquella qualidade , 
e em lugar , e tempo que tudo eram traba- 
lhos r não fomente de eftarem todos com 
arma na mão , mas ainda era a fome tama- 
nha , que vieram a quatro onças de bifcou- 
to por dia , e em algumas náos fe comiam 
ratos. Outros coziam os couros das arcas 
por fe não poderem manter , e fobre a fo- 
me , a agua que bebiam era meia faíobra , 
e tão barrenta dos enxurros das crefcentes, 
que traziam os rios naquella invernada , 
que não aífentava o pé em dous dias , e ifto 
porque não havia aguada que os Mouros 
não tiveíiem tomada ; e fe ás vezes os noí- 
fos á força de armas a queriam ir fazer, 
huma gota de agua cuílava três de fangue- 
Affi que per huma parte fome , e fede , e 
per outra guerra , e relâmpados , corifcos , 
e trovoadas do inverno , trazia a gente com- 
mum tão aíTombrada, que começou entrar 

de- 



5*12 ÁSIA DE JOÃO DE BARROS 

dcfefperaçao em alguns 3 que fe lançaram 
com os Mouros 5 que foi a coufa que Af- 
fonfo d 5 Alboquerque mais fentio. Finalmen- 
te pafíados três mezes deite tão grande tra- 
balho , que foi quaíi purgatório em vida , 
na entrada de Agoílo, em que a barra co- 
meçou de fe abrir das arcas que a cerram 
no tempo do Inverno , mandou AíFonfo 
d'Alboquerque fahir Nuno Vaz de Caítel- 
lo-branco com a fua náo , e Timoja com 
elle , que levaíTe paflante de trezentos doen- 
tes , que havia naquella frota. Os quaes 
doentes elle havia de ter cm a Ilha Anche- 
diva , por fcr lugar freíco pêra poderem 
convaleícer, té elle AíFonfo (TAlboquerque 
ir dar com elles , tanto que o rio déííe lu- 
gar a poder fahir com toda a frota , e Ti- 
moja dos lugares de Onor, e Mergeu ha- 
via de prover a eítes enfermos 5 e aíli en- 
viar carregado delles hum navio , Capitão 
António de Matos , que foi em companhia 
de Nuno Vaz 5 por quanto elle havia de fi- 
car em guarda , e cura deites doentes , o que 
fe fez mui bem , poíto que á fahida da barra 
de Goa ambos correram rifeo de fe perder , 
como fe perdeo Fernão Peres d' Andrade, 
que a eíte mefmo cafo AíFonfo d'Alboquer- 
que mandava hum mez antes , que era mais 
na força do inverno , e porém falvou-fe a 
gente. 

CA- 



Década II. Livro V. £13 

CAPITULO VIII. 

Das Armadas , que EIRey D. Manuel 
o anno de quinhentos e dez mandou d In~ 
dia : e defpachada huma > Capitão mar Gon- 
çalo de Sequeira , e outra de Duarte de 
Lemos com carga de pimenta pêra ejie Rey- 
no , Ajfonfo tPAlboquerque fe partio pêra 
Goa com huma grojja frota : e de algumas 
coufas que pajjbu , e fez nejle meio tempo, 
e caminho. 

AFfonlo cTAÍboquerque como defeja- 
va tirar a gente daquelle trabalho , que 
pairavam no rio de Goa, tanto que o tem- 
po lhe deo lugar , poz-fe logo fora delle ; 
na qual fahida por fer ainda mui verde > 
correo outro tal rifco , em que houvera de 
perder duas náos , como ora contamos das 
que mandou íahir pêra levarem Timoja. 
Sobre o qual trabalho parece que a fortu- 
na daquelle tempo , ou comarca do lugar 
os não leixava - y porque fendo tanto avante 
como o cabo , a que os noííbs chamam Ca- 
bo da Rama > que he três léguas do rio 
donde fahíram , viram quatro velas , que 
os metteo em tão grande fobrefalto , cuidan- 
do ferem Rumes , que fe puzeram todos 
em armas. E poíío que donde elles vinham , 
fempre as tiveram tanto ás coftas , que as 
Tom.lLP.L Kk tra- 



£14 ÁSIA de JoXo de Barros 

traziam mais çafadas que os pelotes , toda- 
via como a gente commum por caula da 
fome , e máo tratamento que alli paffou , 
vinha mui desbaratada , e fraca ; quando as 
quizeram armar , não havia nella outra for- 
ça 3 fenao a que dá o temor nos taes tem- 
pos , e cafos. O qual temor também houve 
nas próprias náos que elles viram , tendo 
a meíma fufpeita ferem Rumes , té que huns , 
e outros fe vieram conhecer nas iníignias 
que todos traziam ferem de hum Senhor; 
as quaes quatro velas eram parte da Ar- 
mada , que EIRey D. Manuel mandou o 
anno de dez áqueílas partes. E verdadeira- 
mente fegundo a gente que AíFonfo d'Al- 
boquerque tinha , andava cortada do traba- 
lho , fe eíle anno EIRey o não provera com 
gente frefca , c poíla nas forças de fua natu- 
reza , trabalhofamente pudera Aífonfo d'Al- 
boquerque acudir a quantas coufas tinha em 
aberto pêra fazer , e depois fuccedêram. Mas 
Deos infpirou na vontade d'ElRey em man- 
dar aquelle anno duas Armadas , que com 
fua chegada á índia animaram muito o ef- 
pirito de Aífonfo d'Alboquerque pêra fe 
tornar a reftituir na poífe daquella Cidade 
Goa , que era a coufa que elle mais defeja- 
va. A primeira foi de fete náos , Capitão 
mor Gonçalo de Sequeira Thefoureiro mor 
da Gafa de Cepta> e filho de Ruy de Se- 
quei- 



Década II. Liv. V. Cap. VIII. 5-15- 

queira , todas náos de carga pêra tornarem 
o anno feguinte com efpeciaria , de que eram 
Capitães Manuel da Cunha filho de Trif- 
tão da Cunha , Diogo Lobo d' Alvalade, 
Jorge Nunes de Leão , filho de Nuno Gon- 
çalves de Leão Chanceller da Caía do Cí- 
vel , Lourenço Lopes fobrinho de Thomé 
Lopes Feitor da Caía da índia 5 Lourenço 
Moreno , que hia pêra fer Feitor de Co- 
chij , e João d' Aveiro , que também fervia 
de Piloto , por fer nefte miílcr do mar ho- 
mem mui fufficiente , a qual Armada partio 
do porto de Lisboa a dezefeis de Março. 
A outra Armada , que era de quatro velas y 
Capitão mor Diogo Mendes de Vafconcel- 
los , filho de Marti m Mendes de Vafcon- 
cellos morador na Villa de Pinhel , partio 
ante deíla cie Gonçalo de Sequeira quatro 
dias j e os Capitães das três eram Baltha- 
zar da Silva filho do Commendador Gomes 
Teixeira 5 Pêro Quarefma, que depois foi 
Provedor dos fornos d'EiRey , Diniz Cer- 
niche armador da própria náo em que hia. 
Ao qual Diogo Mendes EIRey mandou 
a Malaca aíTentar trato nella , que ficara 
alevantada polo cafo que aconteceo a Dio- 
go Lopes de Sequeira , ( como atrás eícre- 
vemos , ) poílo que EIRey ainda diílb não 
era fabedor. Partidas as quaes duas Arma- 
das, também no wM d'Agofto partio João 

Kk ii Ser- 



5*i6 ÁSIA de JoXo de Barros 

Serrão , hum Cavalleiro da Cafa d'ElRey 
com três velas , que elle mandava defcubrir 
a Ilha de S. Lourenço , e affentar trato com 
os naturaes de gengivre no porto Matata- 
na ; e os Capitães das outras velas eram 
Payo de Soufa , e outro Cavalleiro da Ca- 
ía d'ElRey , da viagem do qual João Ser- 
rão diante daremos razão. Ao prelente con- 
tinuando com Diogo Mendes , por fer o 
primeiro que chegou á índia , quanto a fua 
chegada , fegundo diíTemos , foi temerofa > 
tanto foi alegre depois que AfFonfo d'Al- 
boquerque fe vio com elle , fabendo da ou- 
tra frota que levava Gonçalo de Sequeira. 
O qual chegou a Cananor depois dclíe Af- 
fonfo d 5 Alboquerque fer já chegado com 
os doentes, que mandou a Anchediva con- 
valecidos de fua enfermidade , vindo já el- 
le Gonçalo de Sequeira de Cochij ; e da 
Armada que levava deite Reyno , perdeo 
a náo , de que era Capitão Manuel da Cu- 
nha junto de Moçambique , mas falvou-íe 
a gente. Aífonfo d'Alboquerque quando via 
dez náos mui providas do neceífario , e com 
gente frefca , que elle muito defejava pê- 
ra fe tornar reftituir na poíTe de Goa , pof- 
to que eftes Capitães hiam ordenados hum 
pêra Malaca , e outro pêra tornar com a 
carga da efpeciaria a efte Reyno , logo alli 
em Cananor teve prática com elles > dando 

lhes 



Década II. Liv. V. Cap. VIII. 5T7 

lhes conta deite feu propoííto , pedindo qui- 
zeíTem fer niífo polo muito que importa- 
va a ferviço d ? ElRey. Porque fegundo lhe 
elle mandava nas cartas que deram fuás y 
que foíTe ao eitreito do mar Roxo fazer 
huma fortaleza, e fegurar as coufas de Or- 
muz , nenhuma deitas podia fazer em quan- 
to fe não acabaíTe de determinar em as de 
Goa ; e quando com o impeto de huma 
chegada a não pudeífe levar na maa com 
tão boa, e limpa gente ? como alies traziam > 
ao menos queimaria as náos que leixára no 
eílaleiro. As quaes elle defejava tanto quei- 
mar , como tomar a mefma Cidade , por- 
que não eítava em razão leixar aquella la- 
droeira com os Mouros mui efcandaliza- 
dos , e ir ao mar Roxo , e a Ormuz \ pê- 
ra j partido elle , fahirem elles dalli . e fa- 
zerem-fe fenhores de toda aquella coíla : e 
não queria EIRey de Calecut 5 e todclos 
Mouros delia lenão achar quem os favore- 
ceffe com alguma Armada no mar pêra o 
coalharem com velas. Finalmente depois que 
reprefentou eftas , e outras razoes a Gonça- 
lo de Sequeira , e a Dicgo Mendes , per- 
fuadindo-os quizeífem fer com elle neíte fei- 
to 5 Diogo Mendes prometteo que feria nif- 
fo polas razoes que lhe Affonfo d'Alboquer- 
que deo acerca do tempo em. que havia de 
partir pêra Malaca , não lhe fer vir fenão 

de- 



yi8 ÁSIA de João de Barros 

depois que efte feito de Goa foiTe acabado 
per qualquer modo que aprouveííe a Deos. 
Gonçalo de Sequeira , como o feu tempo 
era mais curto pêra fazer carga de efpecia- 
ria , e fe vir pêra efte Reyno com ella , 
não fe determinou de todo niíTo ? dando 
por caufa principal ferem as mais das náos 
de armadores, e que per bem de feus con- 
tratos não podiam ler impedidas contra von- 
tade dos Feitores delias , que hiam em no- 
me dos íènhorios. E mais , que fegundo 
tinha vifto em Cochij donde vinha, a elle 
lhe parecia ter elle Aífonfo d'Alboquerque 
outra couía mais importante ao ferviço d'El- 
Rey , e a que primeiro havia de acudir , 
que a tomar Goa ; e era a guerra que El- 
Rey de Cochij tinha com hum primo feu , 
que com favor do Çamorij de Calecut o 
queria lançar do Reyno , dizendo que por 
íer morto o Rey velho leu tio . a elle per- 
tencia a herança. As quaes diíferenças ti- 
nham dado tanta torvação na terra , que 
não fe podia haver pimenta fenao com a 
lança na mão , como elle AfFonfo d'Albo- 
querque teria fabido per Nuno Vaz de Caf- 
tello-branco , e per Baftiao de Miranda, 
que elíe lá mandara em favor do mefmo ; 
pofío que em algumas vezes que fe tinham 
achado com a gente deite feu imigo ? hou- 
veram delle vidaria. Aífonfo d 5 Alboquer- 

que 



Década II. Lrv. V. Cap. VIIL 5^9 

que por então não curou de apertar mais 
com Gonçalo de Sequeira fobre aquelle ne- 
gocio de Goa , porque via ter elle razão , 
principalmente por caufa do trabalho em 
que EiRey de Cochij andava com aquelle 
feu primo, e competidor 5 que era aquelle, 
que em ódio noílb nas guerras paliadas íe 
lançou com o Çamorij , e fazia guerra a 
feu próprio tio , como atrás fica. E porque 
não fomente por caufa da prática de Gon- 
çalo de Sequeira , mas ainda pelos recados 
que cada dia tinha de Cochij , vio quanto im- 
portava fua prefença , determinou AfFonfo 
d'Alboquerque de ir lá , e leixou em Ca- 
nanor toda a Armada. Somente levou huma 
galé 3 duas caravellas , e fete paráos da ter- 
ra j nas quaes vaíilhas foi a mais da gcnt.c 
de Jorge da Silveira , e Francifco Serrão , 
que vieram alli a Cananor ter com elle de 
Cochij , onde invernáram com as náos da 
efpeciaria que tomaram em Baticalá , como 
atrás fica ,. por a gente deíles dous Capitães 
eftar folgada do repoufo daquelle inverno. 
Na qual ida de Cochij quiz ainda AíFonfo 
d 5 Alboquerque ter hum refguardo ; porque 
fendo íabida podia damnar o feito , e dian- 
te mandou dizer a EIRey , que fecretanien- 
te fem reboliço o vieílc efperar junto da 
fortaleza de Cochij \ como que vinha buf- 
car o amparo delia , no qual lugar queria 

íe- 



çio ÁSIA de João de Barros 

fecretamente fallar com cJle primeiro , què 
na terra fe ibubefle fer elle AíFonfo d'Al- 
boquerque chegado. Da viíla , e prática que 
ambos tiveram nefte lugar , logo ante ma- 
'nhã primeiro que houveffe noticia de fua 
chegada , AíFonfo d'Alboquerque fe foi lan- 
çar em modo de cilada junto da Ilha Vai- 
pij ? per onde tinha avifo que o contrario 
cPEÍRey havia de vir ; e na fua chegada 
aflí o falvou com artilheria , fettas , e lança- 
das , que perdeo o Gentio muita parte de 
fua gente , e desbaratado foi bufcar foccor- 
ro em EIRey de Calecut noflb imigo , que 
naquelle tempo com a morte do Marichal > 
que ainda não tinha pago , eítava mui fo- 
berbo. AíFonfo d'AIboquerque , havida eíla 
viítoria , tornou-fe a Cochij apacificando a 
terra , com que logo começou vir pimenta 
pêra carga das náos de maneira , que em 
breve defpachou Gonçalo de Sequeira , pof- 
to que elle não partio fenao depois do fei- 
to de Goa pêra que AíFonfo d 5 Alboquer- 
que o convidou j e não foi niífo pola obri- 
gação que tinha á carga da pimenta , e ra- 
zoes que deo de o não poder fazer. E por- 
que Manuel da Cunha filho de Triftão da 
Cunha não tinha embarcação pêra tornar 
pêra o Reyno tão honradamente , como de 
cá partira por Capitão de huma não que 
tinha perdido > fegundo diffemos, quiz ficar 

com 



Década II. Liv. V. Cap. VIII. yai 

com AíFonfo d'Alboquerque , o qual o re- 
ccbeo por razão de íua peíFoa , e filha de 
feu pai ; no lugar de feu fobrinho D. An- 
tónio de Noronha , dando-lhe a capitania 
da náo Rumeza , em que andava Jorge da 
Silveira , por fe elle vir com Gonçalo de 
Sequeira. No qual anno também veio Duar- 
te de Lemos , que ante da partida delle 
Gonçalo de Sequeira chegou de Çocotorá, 
donde partio , como elcrevemos : ao qual 
quando veio pêra efte Reyno , AíFonfo d'Al- 
boquerque deo a capitania mor de quatro 
náos , havendo refpeito ao foro , e honra 
com que andara na cofta da Arábia , e to- 
dalas náos de fua capitania , e aíll as de 
Gonçalo de Sequeira pairaram , e vieram 
a efte Reyno o anno de onze , fomente o 
mefmo Gonçalo de Sequeira , que invernou 
em Moçambique , e veio o anno de doze. 
AíFonfo d'Alboquerque , porque a dor da 
fahida de Goa o apreíTava muito que fe 
tornaífe a reftituir na poííe que tivera del- 
ia , em quanto o não pode fazer per íi 5 
tinha mandado Gafpar de Paiva Fidalgo da 
Cafa d'E!Rey, e filho de Gileanes Cidadão 
nobre de Lisboa , que com três navios an- 
daííe na barra de Gòa , e não leixaíFe en- 
trar , ou iahir navio 3 que não foíFe mettido 
no fundo. E na cofta do Malabar em hu- 
ma parte mandou que andaíTe Garcia de 

Sou- 



5^^ ÁSIA de JoXo de Barros 

Soufa , e Simão Martins ; e em outra Dio- 
go Mendes de Vafconcellos com as náos 
de fua capitania , por ter já concedido a 
Affonfo d'Alboquerque , que queria fer no 
feito de Goa. O qual requerimento Diogo 
Mendes lhe concedeo pezadamente , por lhe 
parecer que Affonfo d^lboquerque o que- 
ria embaraçar , e entreter naquelle negocio , 
de que podia ficar tão desbaratado da gen- 
te que levava , que não poderia feguir íèu 
caminho. Praticando o qual cafo com os 
Capitães da lua frota , aííentáram que fem 
embargo da palavra que elle Diogo Men- 
des tinha dado a Affonfo d'Alboquerque , 
tanto que o tempo foífe pêra poderem fe- 
guir fua viagem , fe partiífem , fe elle Af- 
fonfo d'Alboquerque o quizeffe mais deter, 
por quanto ciles hiam izentos da fua jurdi- 
ção , e a maior parte da defpeza daquellas 
náos era de armadores : por a qual razão 
elle os não podia entreter pêra neceílidade 
alguma tão importante ao ferviço d'ElRey , 
que náo foííe maior o feito a que hiam. 
Affonfo d'ÂIboquerque tanto que lhe foi re- 
velado eíta determinação , fem dizer o que 
tinha fabido , tomou a menage a Dicgo 
Mendes , e aos outros Capitães , e mandou 
aos Meftres , e Pilotos que fob pena do 
cafo maior não fe partiíTem fem fia licen- 
ça. A qual coufa fentio muito Diogo Men- 
des, 



Década IL Liv. V. Cap. VIII. 5*23 

des , vendo o modo que AíFonfo d ? Albo- 
querque queria ter com dle naquella ida 
fua : peró íbffreo tudo com efperança , que 
vindo o tempo da monção , que o não im- 
pediria. Paliado eíle caio 3 que faz muito 
pêra o que ao diante fuccedeo , como Af- 
íònfo d'Àlboquerque tinha tudo preftes pê- 
ra ir fobre Goa , partio de Cananor com 
vinte e três velas , em que entrava Diogo 
Mendes com os três Capitães de fua capi- 
tania , e os outros eram Manuel da Cunha , 
Manuel de ]a Cerda , D. Jeronymo de Li- 
ma , D. João de Lima feu irmão , Fernão 
Peres d 5 Andrade , Simão d 5 Andrade , Gar- 
cia de Soufa [ Jorge Nunes de Lima , An- 
tónio d 5 Acoita , GafparCão, Fernão Feijó, 
Nuno Vaz de Caftello-branco , Simão Mar- 
tins , Affonfo PeíToa , Baftião de Miranda , 
Duarte de Mello, António Rapofo , e Dio- 
go Fernandes de Beja com três náos , que 
já tinha mandado diante a eíperar ao mon- 
te Delij as que vinham de Adem a carre- 
gar a Calecut. O qual tinha tomado algu- 
mas , e cm huma vinham dons Judeos Cas- 
telhanos , que fe fizeram Chriftãos: a hum 
chamaram Triftão d 5 Ataíde , e a outro Fran- 
cifco d'Aiboquerque , e depois íervíram de 
Jinguas a Affonfo d'Alboquerque. Tornan- 
do a elíe , que feguia a fua viagem com ef- 
ta frota, chegou a Onor, onde logo veio 

li- 



?24 ÁSIA de João de Barros 

Timoja fallar com elle , dando-lhe nova do 
modo que os Mouros tinham fortalecido a 
Cidade Goa, com todo o mais que convi- 
nha íaber do eftado da terra , por elle Ti- 
moja trazer lá homens lançados , per os 
quaes tinha aviíb. E porque o tempo im- 
pedio a que Affoníb cPAlboquerque fe de- 
tiveífe alli, fem poder paliar mais avante, e 
Timoja andava occupado em celebrar hu- 
mas vodas , que , fegundo feu ufo , elle fa- 
zia com huma filha da Rainha de Garzo- 
pao , pedio a Aífonfo d'Alboquerque , pois 
Deos o trouxera alli a tempo que elle ce- 
lebrava aquellas feitas de fua honra , qui- 
zeífe fahir em terra com todolos feus Capi- 
tães a tomar delle hum jantar. AfFonfo d'AI- 
boquerque , por comprazer a efte Timoja , 
como a homem de que tinha recebido íer- 
viço , e havia muito mifter pêra aquelle fei- 
to de Goa , concedeo a feu rogo , fahindo 
em terra em bateis , e elle em a galé Capi- 
tão Baftiao de Miranda com es mais da fro- 
ta 5 em que hia muita gente nobre , com 
fundamento que recebido o jantar, fe tor- 
naria ás náos. Peró o caio fuecedeo ao con- 
trario 3 faltando tão fubito temporal na coi- 
té , que efteve elle três dias em terra fem 
poder vir ás náos , e ellas em condição de 
fe perderem ; porque além de não eftarem 
tão amarradas como convinha pêra a for- 



Década II. Liv. V. Cav. VIII. 525 

ca do vento , falecia em as náos os Capi- 
tães, e alguma gente nobre, que era com 
Áffoníb cPAlboquerque em terra, os quaes 
neftes tempos dão animo , e induftria á gen- 
te do mar. Acabada a força do temporal , 
que deo maior trabalho , e paixão aos da 
terra , que aos do mar ; tanto que elle deo 
jazeda , mandou Affonfo d 5 Alboqucrque , 
que como cada hum dos Capitães pudeffe , 
fe fahifle do rio, e recoiheílè ás náos. Na 
qual fahida fe perdeo hum baeel , em que 
morreram trinta homens , hum dos quaes 
foi António d' Acoita filho de Pêro d'Acof- 
ta de Tomar Capitão da Taforea , e aílí 
António de Lijs , que fervia de Secretario 
a Affonfo d'Alboquerque , que elle muito 
íentio; e além deíles mortos outro batel fe 
alagou , mas falvou-fe a gente , indo ter 
meia affògada á coita. Recolhido Affonfo 
cPAlboquerque ás náos , levou comíigo em 
três navios de remo de Timoja a hum Ca- 
pitão Gentio chamado Médio Rao , homem 
mui nobre , que andava em companhia del- 
le Timoja, por elle não poder ir logo, e 
ficar concertado que per terra havia de le- 
var féis mil homens a foldo , pêra a hum 
certo tempo dar elle per terra 5 e Affonfo 
d ? Alboquerque per mar , e queimarem as 
náos dos Rumes , que eílavam em eftaleiro 
na ribeira de Goa. Com o qual concerto 



5*26 ÁSIA de João DE Barros 

Affonfo cfAlboquerque fe cípedio de Ti- 
inoja , e foi cfperar leu recado á Ilha de 
Anchediva, íimulando que queria alli fazer 
aguada , por lhe dar tempo a elle poder 
ajuntar a gente , e a fe poer em caminho , 
com que ambos fe ajuntaííem no lugar or- 
denado : peró por eftc recado de Timoja 
tardar mais do que Affonlò d'Alboquerque 
queria , deteve-íe pouco em Anchediva , e 
foi furgir no rio de Goa a vinte dias de 
Novembro do anno de quinhentos e dez. 

CAPITULO IX. 

Como Affonfo d?Alboquerque fahio em Goa 

fegunda vez , e a tomou per força 

de armas. 

AFfonfo d'Alboquerque como a prin- 
cipal coufa que havia mifter pêra com- 
metter aquella Cidade Goa , era levar os 
homens contentes , e alegres , poios ver cm 
alguma maneira defeontentes do que fe paí- 
fára nella quando a leixáram aos Mouros > 
poílo que já fobre eíle cafo em alguns con- 
felhos entre os Capitães fe tinha juítificado y 
todavia lhe pareceo necefiario dar pública 
razão de fi , pola experiência que tinha, 
quanto adoçava o animo dos homens , que 
obedecem ásjuftificações dofuperior, emais 
nos tempos que elles vam offerecer fuás vi- 
das 



Década II. Liv. V. Cap. IX. 527 

das debaixo de feu mandado. Affi que mo- 
vido deitas caufas , ( poílo que em todos 
vilTe promptidão pêra aqueile feito , ) quiz 
propôr-lhe efte arrazoamento : Repetir-vos , 
Senhores , e amigos , o que temos pajfado 
febre ejia Cidade Goa , feria trazer-vos d 
viemoria os méritos da honra que nella ten- 
des ganhado , fem fazer algum defconto 
delia porque a leixámos ; como alguns de 
pouca confideração queremfazer , attribuin- 
do efte feito de a leixar não a obra de Por- 
tugueses , e mais a fi mefmos que a mini 
feu Capitão. Como fe eu não tiveffe vifto 
em todos , que fe efte feito fe houvera de 
governar pelo que queria o animo de cada 
hum , priyneiro leixára a vida , que huma 
ameia do que tinha ganhado , por efta fer 
a natureza do leal , e verdadeiro Portu- 
guez. Mas como todos militamos debaixo 
dos preceptos > e , regimento d*ElRey NoJJò 
Senhor , e elle fempre faz mais conta da 
vida de cada hum de nós , que do fenhorio 
das Cidades da índia ; e a principal coufa 
que encommenda a nós-outros , que temos 
efte cargo que eu jlrvo , he a fegurança 
das vojjas vidas , não podeis vos tanto 
defejar de as offerecer d morte debaixo de 
fua bandeira , por lhe conquiftar eftados , 
e fenhorios , quanto elle he cautelofo no reft 
guardo que nos manda ter , por não encor- 

ter- 



5*28 ÁSIA de João de Barros 

verdes em perigo delia. E pofto que eu fen~ 
tiffe em vós o pejo , com que leixaveis efia 
Cidade por parte de vofja honra , polo que 
convinha d minha obrigação foi necefjãrio 
fer a/Ji : cá o animo vojjò fem os inftrumen- 
tos cem que fe elle fuflenta , e ajuda , que 
eram os mantimentos , e munições que nos 
faleciam , fogo era fem matéria em que fe 
elle conferva. Mas parece que meus pecca- 
dos , fahindo eu da Cidade a bufear efta 
conferva çao de voffa vida , e faude , nos 
trouxeram a padecer no mar o que eu te- 
mia na terra ; pois ( como viftes ) a fome 
lavrou em nós mais , que o ferro defies in- 
fiéis. Ora {louvado Deos) nós vimos pro- 
vidos pêra a necejfidade que me obrigou 
leixar efta Cidade , e os voffos ânimos ef> 
tam tão vivos pêra vos tornar a poufentar 
nella , como os lugares que tiveftes por apou- 
Jent amento ainda quentes , efrefeos de vof 
fas pejfoas , pêra vos receber em fi como 
próprio , e natural affento voffo , o que he 
pelo contrario nos Mouros que nella efiam. 
Porque pela nova que tenho , todos são fo- 
rafeiros , e gente alugada , que 7to tempo 
da affronta y como não defendem cafas pro- 
frias , mulheres , filhos , fé , ou honra , no 
primeiro Ímpeto nojjb logo viram as cofias , 
e defpejam o lugar que defendem , de que 
já temos experiência as vezes que puxe- 
mos 



Década II. Liv. V. Cap. IX. 5*29 

mos o peito em terra no commettimento da 
fortaleza Pangij. Tudo fegunão tenho fa- 
bido nos convida , tudo nos amoefta que nos 
tornemos a efta propriedade , que nos Deos 
deo fem fangue 5 e fem o modo que trazía- 
mos de a commetter quando nella entrá- 
mos j da qual fe hoje eftamos fora , ver- 
dadeiramente creio fer por lhe não darmos 
graças por quão barata a houvemos de fua 
mão. Porque a nação Portuguez onde não 
poe trabalho , não lhe parece que tem hon- 
ra : e de fia fua honrada opinião vem as 
vezes não efiimar as coufas ; e de as não 
efiimar nafce o efi/uecimento de dar lou- 
vor , e gloria a Deos per qualquer modo 
que lhe a elle apraz conceder-nos viEioria. 
Com tudo como efta milícia , però que nós 
fejamos miniftros , e inftrumentos delia , a 
caufa he própria delle me fino Senhor , pois 
he contra Mouros , e infiéis imigos de fua 
Saneia Fé , ao prefente nefta obra , que por 
feu louvor , e gloria de nojjò Rey ,fama de 
nojfos trabalhos imos commetter ; eu confio 
em fua mifericordia , que mais fácil nos ha 
\ de fer o feito , que a mim efta relação que 
\ vos faço do efta do em que de certo jii efta- 
\ rem as coufas defta voffa Cidade , de que 
temos perdido a pojfe , e não a acção de a 
\ cobrar. Por tanto , fenhores , e amigos , 
\ pois vos Deos deo animo , forças , pruden- 
Tonu II. P. I. LI cia , 



£30 ÁSIA de JoÃo de Barros 

cia 5 e feguimos lei Santta , e fervimos a 
Príncipe , a quem elle mefmo Deos conce- 
deo o que não dco a nenhum de feus ante- 
paffados , defeubrir , e conquijlar terras 
tão remotas do feu Reyno , devemos crer 
que nós-outros feus criados ? e vajfallos 
trazemos em favor nojjò aquelle ejpirito 
de Deos , que moveo a elle pêra continuar 
ejla tão alta empreza , pola qual os Por- 
tuguezes em todalas partes do Mundo são 
mui conhecidos 5 e ejlimados ; pofto que pe- 
los feitos , que em Africa tem feito , já 
tiveffem grão nome. E pois a nofjò Deos , 
a nojfo Rey , e a nojfas honras devemos não 
perder o ganhado , mas ir adiante com a 
memoria deflas três obrigações , ponhamos 
o peito em terra , que ella fe defpejard de 
itojfos imigos , como cofiumam , tanto que 
nos vem o rojlo : cá fegundo vejo no de ca- 
da hum de vós , já lhe parece pouco o que 
imos fazer pêra o que fará tanto que me 
ouvir invocar o Apojlolo Sant-Iago Capitão 
de nojfas vifiorias. No fim das quaes pa- 
lavras por algum íinal , que elle Affonfo 
(PAlboquerque tinha dado 3 como que fazia 
fim de feu arrazoamento 3 começaram as 
trombetas de tanger : Armas , armas \ com 
que a gente fe alvoroçou tanto , que naquel- 
le inftante nenhuma coufa duvidara com- 
metter. Affonfo (fAlboquerque > (aífocegado 

aquel- 



Década II. Liv. V. Cap. IX. 5-31 

aquelle rumor ? e geral alvoroço , ) tornou a 
praticar com os Capitães no modo como 
haviam de commetter a Cidade ; pofto que 
de Anchediva vinha já provido como ha- 
via defer, fazendo fundamento da ajuda de 
Timoja per terra. Mas parece que permit- 
tio Deos tardar elle com elia pêra fe mu- 
dar eíle commettimento , que fem dúvida 
toda a nofla gente correra muito rifco : cá 
Áffonfo d'Alboquerque ordenava que Ma- 
nuel de la Cerda , por ter huma náo alte- 
rofa dos cafteílos , e elle mui efpecial ca- 
valleiro pêra aquelle cafo , foíTe pôr a bar- 
ba fobre hum baluarte mettido na agua , 
i em lugar tão alcantilado 5 que a náo podia 
bem chegar , pêra dos caílellos delia lança- 
I rem huma ponte a elle , porque a gente paf- 
faíTe fem damno da artilheria , que jogava 
per baixo no cortado da náo. E fem dúvi- 
da , íegundo o que depois fuccedeo , e elle 
mais ordenava na repartição da gente a fim 
I de entrar per eíle baluarte , como na Cida- 
' I de havia mais de nove mil homens de pe- 
leja , e os noflbs eram mil e quinhentos 
Portuguezes , e trezentos Malabares , elle 
fe vira em mui grande perigo. Mas con- 
formando-fe com o intento principal , que 
era pôr fogo ás náos , que os Mouros ti- 
nham no eftaleiro, (quando mais não pu- 
ideíTe fazer , ) quiz-fe ordenar d'oi»tra ma- 
LI ii nei- 



532 ÁSIA de João de Barros 

neira, depois que teve avifo como a Cida- 
de cftava fortalecida da banda do mar. A 
qual informação lhe trouxe D. João de Li- 
' ma , e leu irmão D. Jeronymo , que elle 
mandou cm bateis dar huma vifta á Cida- 
de , pêra notarem a força que os Mouros 
tinham feita , o que ellcs fizeram com mui- 
to perigo de fuás peíToas , por deícarregar 
nclles toda artilheria que cftava apontada 
naquella frontaria onde ellcs chegaram ; e 
o modo em que a Cidade cftava fortaleci- 
da , e ordem que aflentou pela informação 
delles de a coinmetter , foi efta. A Cidade, 
pêra quão pouca gente era a noíla , tinha 
fomente hum combate , que era pela parte 
da ribeira , onde as nãos citavam varadas : 
ao longo da qual ribeira ficava hum panno 
de muro , que tinha huma porta pêra o fer- 
viço delia , a que agora chamam de Sandia 
Catharina , em memoria que no dia que a 
Igreja folemniza a fefta defta Sandta per 
ella entraram os noflbs a Cidade. A qual 
ribeira ficava fechada com huma eftacada de 
madeira mui groíTa entulhada per dentro, 
c rebatida á maneira de vallo , que come- 
çava junto das náos que elles tinham emef- 
taleiro , e hia correndo ao longo da praia ; 
e tanto que enfiava a porta que eftava no 
muro per que a Cidade fervia da ribeira, 
fazia alii hum cunhal á maneira de baluarte 

bem 






Década II. Liv- V. Ca?* IX. 5^3 

bem entulhado de terra , e tornava correr 
outro longor mui comprido de eftacada , 
que hia fechar em cima no muro , ficando 
a porta da ferventia , que diflemos , mettida 
dentro defta eftacada. De maneira, que co- 
mo as cafas da Cidade ficavam dentro dos 
muros de pedra , e cal , que ella tinha , aíll 
as náos dentro deite circuito do muro , e 
eftacadas , fem haver mais ferventia pêra o 
mar y que per entre as proas das náos , que 
pêra quem per alli quizeife entrar , ficavam 
em lugar de torres. E porque os Mouros 
tomaffem prefumpção , que queríamos com- 
metter a Cidade pela parte de cima , palia- 
da a eftacada , e rronteria da Cidade , onde 
clles tinham pofto toda ília força , por aquel- 
le lugar fer menos fufpeitofo , ordenou que 
todolos navios pequenos , e de remo , que 
demandavam pouca agua , a noite ante do 
dia de Sanfta Catharina , que elle efperava 
tomar terra , foííem tomar aquelle poufo , 
que era junto d'outra porta da Cidade, que 
he onde defembarcam todalas coufas que 
pagam direitos per entrada em liuma caía 
grande que alli cila , a que elles chamam 
Mandovij , ao modo das noíTas alfandegas , 
e por efta caufa fe chama efta porta do Man- 
Idovij , em os quaes navios hiani Duarte de 
'Mello, Francifco Pantqja, Affonfo Peflba , 
António d 5 Abreu y Fernão Feiió , e outros. 

Por- 



5*34 ÁSIA de João de Bakkos 

Porque fentindo os Mouros de noite que 
os nofíbs navios tomavam eíle lugar , acu- 
diriam alii com alguma torça pêra deíaba- 
farem os lugares debaixo , onde Afíònfo 
d 5 Aíboquerque queria defembarcar , repar- 
tido per efta maneira em duas partes. Elle 
havia de fahir ante de chegar á tranquei- 
ra , e ir per fora dellc té encavalgar o alto 
junto do muro por fer ladeira acima , e 
trabalhar por tomar a porta que tinha o 
ferviço da ribeira , a que ora chamam de 
Sanéía Catharina , pêra entreter os Mouros 
de dentro da Cidade não fahircm ajudar os 
de fora da ribeira , e cites nao fe pudeííem 
acolher pêra dentro , com que os Capitães , 
que elle mandava que tomaíTcm a terra da 
ribeira, ficaíTcm íenhores delia, por caufa das 
náos que elle queria queimar. E. a gente 
que levava comíigo , feria té oitocentos ho- 
mens , em que entravam cites Capitães : Jor- 
ge da Silveira , Jorge Nunes de Leão , Fran- 
cifeo Pereira Coutinho , Bafrião de Miran- 
da , Pêro d'Aibnfèca, Ruy Galvão, Antó- 
nio de Sá , Jorge Botelho , António de Ma- 
tos , e Simão Martins. O outro corpo de 
gente , que ordenou cornmetter á entrada da 
ribeira, repartio em três partes , huma, que 
feria de trezentos homens , fahiria em baixo 
a refpeito do fitio da Cidade, e poufo das 
noíías náos , na qual iriam eftes Capitães: 

D. 



Década II. Liv. V. Cap. IX. Ç35 

D. João de Lima , D. Jeronymo feu irmão r 
Diogo Fernandes de Beja , António Rapo- 
fo , Gafpar Cão , Nuno Vaz de Caílello- 
branco. Na parte de cima , que era do Man- 
dovij 5 havia de fahir outro efquadrão de 
outra tanta gente , de que eram Capitães : 
Manuel de la Cerda , Aires da Silva", Ma- 
nuel da Cunha , Fernão Peres d 5 Andrade , 
Simão d' Andrade feu irmão , e Gafpar de 
Paiva. E no meio deites dous corpos de 
gente , que era mais na fronteria da Cida- 
de , fahiria Diogo Mendes de Vafconcei- 
les com té cento e cincoenta homens, que 
eram d' Armada pêra Malaca , de que eíle 
era Capitão mor , com os outros Capitães 
delia. Ordenou mais Affonfo d'A!boquerque , 
que os Medres de algumas náos , de que o 
principal a quem competia o governo dei- 
les era Antão Vaz , e certos bombardei- 
ros com leu condeftabre foíTem nas cofias 
deíla gente de armas , e com muitas rocas 
de fogo , e artifícios delíe queimaíTem as 
náos que citavam em eftaleiro , com tal ten- 
to que não commetteffem eíla obra fenao 
quando viffem que os noífos fe tornavam 
recolher aos bateis ; porque em quanto lhe 
Deos defle vittoria ? não queria que o fi- 
fceíTem , por caufa de lhe ficarem as náos 
lalvas , que elle muito eftimaria. Dado eíla 
ordem do lugar , onde cada hum havia de 

fa- 



^6 ÁSIA de JoXo de Barros 

fahir , a primeira coufa que metteo os Mou- 
ros em revolta , foram os navios de remo , 
que de noite com a maré tomaram o poufo 
defronte do Mandovij , que, (como diííe- 
mos , ) era já no fim da Cidade paliada á 
fronteria delia , onde eílava toda a força de 
lua artilheria, e defensão : cá fentindo o ru- 
mor dos navios, c da gente do mar, que 
de induftria o faziam maior do neccífario , 
acudio quafi a mais da gente da Cidade, 
parecendo-lhe que per alli queriam os nof- 
los tomar terra. Pcró depois que elles na 
alvorada da manhã ouviram trombetas em 
três , ou quatro partes , na ribeira , e pela 
coita acima , que eram as de Aftònfo d'Al- 
boquerque , não Cabiam onde acudir , té que 
a claridade da manha lhe moftrou que a ri- 
beira era entrada dos noflbs , ou , por me- 
lhor dizer , o ferro que fentíram em fuás 
carnes. Porque ainda que a luz do Sol def- 
cubria toda aquella região , naquclle fitio 
era huma noite de nuvens de fumo fem 
mais claridade que os fuzis de fogo ao mo- 
do de relâmpados , quando fe punha na ef- 
corva da artilheria , de maneira qujé alli não 
havia conhecimento de imigo em vifta 3 fo- 
mente em voz. Mas efta entrada das tran- 
queiras que os noífos fizeram , não foi fem 
muito do feu fangue perdido , e muito mais 
depois que os Capitães fe baralharam huns 

com 



Década II. Liv. V. Cap. IX. 5*37 

com outros 5 principalmente entre as náos, 
onde todos concorreram, affi Mouros co- 
mo Chriftãos ; porque como efte era o in- 
tento de todos , tomar , ou defender a poííe 
delia , houve alli tanta perfia de lançadas > 
cutiladas , frechadas , e doutros agulhões 
de morte , que fem mudar pé ficou aquelle 
lugar juncado de corpos de Mouros fem 
algum dos noíTos ; ante com a viétoria que 
fentíram , começaram feguir alguns , que fe 
foram recolhendo caminho da porta da Ci- 
dade , onde acharam a cavallo hum Capi- 
tão delia , que era hum capado homem va- 
lente de ília peflba , que a ponta do ferro 
os fazia tornar á ribeira. Porém depois que 
elle vio o pezo da gente que carregava íb- 
bre elie por fe recolher , vindo aguilhoada 
de alguns Capitães noííos que a perícguia , 
nao a pode mais entreter , e por fegurar fua 
peífoa dentro dos Mouros , dando a ribeira 
por arrombada de todo , recolheo-íe pola 
porta da Cidade já com huma lançada no 
rofto. Os Mouros como perderam a vifta 
de feu Capitão , por ferem muitos , e o lu- 
gar deite recolhimento eftreito , começaram 
de fe efpaíhar , correndo ao longo do mu- 
ro , como quem havia por mais preíles os 
feus pés pêra ir bufcar entrada per outra 
parte , que efperar vez , quando poderia en- 
trar pela porta , porque os noííbs per de-^ 

trás 



5^8 ÁSIA de João de Barros 

trás lhe efcalavam as carnes de morre. Fi- 
nalmente no recolher per efta porra houve 
tanta prefla , e defacordo , e os noílbs eram 
já tao entremettidos com elles , que come- 
çando de abocar o portal pêra entrarem to- 
dos de miítura , deram-lhe com as porras 
no roílo ; e peró que trabalhaflem por as fe- 
char de todo , não puderam comhuma chu- 
ça que metteo entre cilas Dinis Fernandes 
de Mello. Eram neíte tempo á entrada def- 
ta porta Diogo Fernandes de Beja , D. Je- 
ronymo de Lima , Gafpar Cam , António 
deSouía, João Lopes d' Alvim, Simáo Ve- 
lho , António Vogado, Valco dWfoníeca , 
Francifco Coelho de Viíeu , e Fradique 
Fernandes , o qual ainda que nefta relação 
feja o derradeiro , elle foi o primeiro que 
entrou pela porra vivo ; em premio da qual 
entrada AíFonfo d'Alboqucrque U\q deo a 
capitania de hum bargantim , e EIRey Dom 
Manuel o tomou por leu criado. Feita efta 
primeira entrada , íobrevicram eftoutros Ca- 
pitães , e principaes pefibas , que fizeram a 
fegunda , D. João de Lima , Manuel de la 
Cerda, Fernão Peres d 5 Andrade , Aires da 
Silva , Manuel da Cunha , Gafpar de Pai- 
va , António Garcez , MendaíFonfo de Tan- 
ger. Os quaes com o ímpeto da viétoria 
que levavam , de dous em doiis , e três em 
três, com outra gente que osfeguia, come- 



Década II. Liv. V. Cap. IX. 5-39 

çáram de fe metter peia Cidade 5 onde fe 
houveram de perder. Porque como nefta 
primeira entrada os mais delles eram eftes 
Capitães , e gente nobre que nomeámos , a 
qual nos lugares de honra fempre he a dian- 
teira , (porque a força da gente ainda fica- 
va na ribeira , ) tanto que os Mouros vi- 
ram quão poucos os perfeguiam , tornaram 
fobre íi , e apertaram tão rijamente com el- 
les , que daquella vez mataram D. Jeronymo 
de Lima , e a hum Cavalleiro per nome 
Cofmo Coelho , que morreo em fua com- 
panhia. E dando nova a D. João de Lima 
que feu irmão era morto , acudio a elle , e 
chegando onde o achou armado ao muro 
vafando o fangue com a vida , diíTe-lhe 
D. Jeronymo : Adiante , fenhor irmão , não 
he tempo de deter , que eu em meu lugar 
fico. Na qual aífronta que os noflbs pade- 
ciam , chegou Pêro d VlíFoníeca com alguns 
homens que comíigo levava 3 que foi caufa 
delles tomarem fôlego té que com a vinda 
de Vaíco d'Affonfeca , MendaíFonfo , Gaf- 
par Cam , e outros , que íb ajuntaram em 
hum corpo , á força de ferro levaram os 
Mouros ante íi té chegarem a hum terrei- 
ro defronte das caías do Sabayo , que fora 
fenhor da Cidade. E porque , como a lu- 
gar mais nobre delia 5 aqui concorriam to- 
dolos Mouros ? foi nelie a maior força de 

pe- 



^40 ÁSIA de João de Barros 

peleja , por os noííos ferem mui poucos em 
comparação do grande número delles , e 
mais alguns a cavallo que os afadiga mui- 
to. Porém como a lalvaçao de fuás vidas 
eftava mais na efpada , que nos pés , foi 
aqui morto Vafco cTAffonfeca , Álvaro Go- 
mes , António Garces , António Vogado , e 
Manuel de ia Cerda foi frechado abaixo de 
hum olho , e António de Sá na maçãa do 
roíto , c outros per partes , que não fe po- 
diam aproveitar das mãos , e dos pés , que 
nos taes tempos todos são miniílros da guer- 
ra. Finalmente em todolos que a cite tem- 
po citavam dos muros a dentro , havia tan- 
to fangue vertido , e eftava em tanto perigo 
das vidas por a grande multidão dos imi- 
gos , que fe lhe tardara loccorro , nenhum 
ficava vivo ; mas fobreveio Diogo Mendes 
de Vaíconcellos com a fua gente , o qual 
não fomente deo fôlego aos noííos , mas 
ainda novo animo com hum Sant-Iago que 
deo em chegando. E foi tanto oimpeto que 
puderam em commetter os Mouros , que 
lhes fizeram virar as coitas, huns acolhendo- 
fe ás cafas do Sabayo , e os de cavallo per 
eflas ruas, como gente jamais confiada nos 
pés , que na defensão das mãos. Âffonfo 
d'Alboquerque nefte tempo não eftava ocio- 
fo , porque não fomente teve muito tra- 
balho em fubir coita acima hum tom pe- 

da- 



Década II. Liv< V. Cap. IX. 5-41 

daço por encalgar o alto • mas ainda quan- 
do chegou á tranqueira achou quem lha 
defendeo hum pedaço. A qual desfeita á for- 
ça de machado por cauía da fortaleza dei- 
la j quando quiz encaminhar pêra ir tomar 
a porta do muro , por o caminho fer entre 
huns vallos , alii Jiouve a maior defensão , 
de maneira que fe deteve tanto , té que veio 
ter com elle hum Grumete em cima de hum 
cavallo , que houve dentro na Cidade de 
hum Turco que mataram , pedindo-ihe al- 
vicera que a Cidade era entrada. E como 
Affonfo d 5 Alboquerque o conhecia por fer 
diligente em feu mifter, e ás vezes graceja- 
va com elle , refpondeo-lhe : Bem te enten* 
do ? a cavallo vens , que queres , fer caval- 
leiro da terra , ou do mar ? eu me vou trás 
tua palavra \ e tu toma ejla de mim pêra 
te accrefcentar , ou a cavalleiro , ou a ma- 
rinheiro , qual tu quizeres. A chegada do 
qual Grumete tanto alvoroçou a gente ? que 
a não podia entreter 5 e quaíi huns empu- 
xando os outros , chegou ao terreiro , onde 
Manuel de la Cerda em cima de outro ca- 
vallo acubertado de hum Mouro que ma- 
tou 5 o veio receber com palavras dignas 
daquelle lugar , e a&o. E como elle vinha 
lavado todo em fangué da frechada dorof- 
to , trazendo ainda o ferro com parte da 
#íte nelle , e per outras partes outras - 7 vinha 

tão 



£42 ÁSIA de JoXo de Barros 

tão gentil homem nos olhos daquelles , que 
trazem os feus poítos nos aítos da honra , 
que começou Afronto d'Alboqucrquc de o 
louvar , e aíH áquelles que o vieram rece- 
ber tintos o corpo em feu próprio langue , 
e as armas no dos imigos. Finalmente com 
fua chegada não íicou Mouro que mais ef- 
pcraíle na Cidade , buícando cada hum fua 
íàlvação , e os mais delles fe acolheram pe- 
la porta que diíTemcs íer chamada do Man- 
dovij , per onde viram que o feu Capitão 
da gente d'armas fe acolhia , o qual té alli 
foi a cavallo , e cem alguns principaes que 
o feguiam fe paflbu á terra firme. O ou- 
tro Capitão capado , que diflemos que foi 
ferido no rofto á entrada da porta , pofto 
que feu próprio officio era o governo da 
fazenda do Hidalcao , e não o da gente 
d'armas , era elle tão valente cavalleiro 5 que 
não fe contentou com fer ferido , mas ain- 
da morreo esforçadamente á porta das ca- 
fas de feu fenhor, defendendo o feu. To- 
do o outro povo da Cidade , por não te- 
rem a embarcação que eftes principaes ti- 
nham no Mandovij , fugiram pela porta , a 
que ora chamam de Noífa Senhora da Ser- 
ra , e foram paíTar o rio per onde fe chama 
o PaíTo fecco , no qual por não eftar a ma- 
ré vazia, feperdeo muita gente. Efegundo 
a commum opinião > affi neíta fugida no 



no, 



Década II. Liy. V. Cap. IX. 5-43 

rio , como debaixo do ferro dos noflbs , dos 
Mcuros morreram mais de féis mil pcííbas 
de toda idade ; porque não fomente nefte 
dia houve efta deftruiçao delies , mas ainda 
nos três feguintes , mandando Affonfo d 5 Al*- 
boquerque alguma gente de cavallo de hu- 
ma formofa eftrebaria deiles , que fe alli 
achou do Hidalcáo pêra defensão da terra , 
correr toda a Ilha 3 não perdoando a nenhum 
Mouro. Na qual matança o principal mi- 
niftro foi Medeo Rao o Capitão Gentio 
da companhia de Timoja, que (como dif- 
femos) veio com Affonfo d'Alboquerque , 
e elle Timoja veio depois com três mil ho- 
mens , defculpando-fe de não poder vir an- 
te do feito. Ganhada efta Cidade em dia de 
Saneia Catharina 3 (como diflenios 3 ) á cuf- 
ta das vidas de quarenta e tantos dos nof- 
fos 3 em que entraram as peffoas notáveis 
já nomeadas , começou Affonfo d'Âiboquer~ 
que entender na cura dos feridos , dos quaes 
não fazemos relação por ferem tantos , que 
fariam hum grande catalogo. Baila faber 
que não houve nobre fem ficar por aílinalar 
de quanto perigo paliaram , fomente a maior 
parte dos que acompanharam Affonfo d 5 Al- 
boquerque não receberam tanto damno 5 
por não fe acharem no confliclo da primei- 
ra entrada. O defpojo delia , como toda a 
mais da gente que então alli eítava era dç 

guar- 



^44 ÁSIA de JoÃo de Bakros 

guarnição , c tcmcrofa de nós , não tinha 
outro movei fenão armas , e por iflb hou- 
ve pouco, tudo foihuma eítrebaria de mui- 
tos , e bons cavallos , que o Hidalcão coftu- 
mava ter pêra acudirem os homens d'armas 
ástenadarias da terra firme, que (como dif- 
femoi) ás vezes os Gentios na íerra as vi- 
nham roubar. E 4ffi acharam muitos man- 
timentos , e grande munirão de arlilhería , 
pólvora , c enxarcea pêra as náos que efta- 
vam no eftaleiro , as quaes , íè AíFonfo d'Al- 
boquerque não provera , foram queimadas 
pelos medres , e bombardeiros , que man- 
dou a iíTq ; mas pelo recado feu , (fegundo 
diííemos , ) tanto que viram que a victoria 
era por nós , tiveram mão. E verdadeira- 
mente fe cllcs o fizeram , não fomente as 
náos foram queimadas , que AíFonfo d'Al- 
boquerque muito fentia , mas ainda fizeram 
tanto damno aos noífos . como aos Mou- 
ros ; porque como o lugar entre ellas era 
de muitas voltas , e acolheitas , alli foi a 
maior fúria , e por iífo íè o fogo lavrara 
em as náos , também lavrara nas pelFoas. 
Affi que em todo efte feito , por fer mais 
gloriofa a vidtoria delle , Deos infpirou no 
animo de AíFonfo d'Alboquerque , pêra 
mandar aos meftres que tiveíTem tento no 
queimar das náos , por não perder hum tão 
grande defpojo 7 como ellas foram , que elle 

mui- 



Dec. II. Liv. V. Cap. IX. e X. 5-45- 

muito efdmou , pola neceííidade que havia 
delias pêra os caminhos que havia de fa- 
zer, e mais havendo peííoas dignas de ca- 
pitanias , a que leixava de prover por não 
ter vafdhas. 

CAPITULO X. 

Das coufas , que Affonjb d? Alboquerque 
ordenou na Cidade Goa 3 e d? algumas vicio- 
rias que houve de Melique Agri Capitado 
do Hidalcao : e como prendeo Diogo Men- 
des de Vafconcellos , e outros Capitães que 
hiam pêra Malaca , e o cafligo que por ijjò 
deo aos Meftres , e Pilotos das fuás nãos. 

DEpois que Affoníb d 5 AIboquerque com 
eíta vidíoria , que lhe Deos deo , fe 
vio redimido na poíle , que já tivera da Ci- 
dade , a primeira coufa em que entendeo 
foi em dar fepultura aos mortos da noffa 
gente , e afli mandou dar aos Mouros ou- 
tra fepultura digna de feus méritos , que foi 
aquelíe rio de Goa por ceva aos lagartos. 
Parte dos quaes corpos a maré foi lançar 
per eíTes eíleiros da terra firme ante a viíla 
dos feus , pêra ferem melhor chorados ; por- 
que fe logo não fizera ifto , como eram mui- 
tos corpos , e a terra quente , corrompera 
o ar em pefte , coufa que mui poucas vezes 
fe vê naqueilas partes. Feita eíta obra com 
Tom.ILP.L Mm os 



5^6 ÁSIA de João de Bakros 

os mortos , mandou fazer outra aos Mou- 
ros vivos , que foi não perdoar a quantos 
foram achados , aíli na própria Ilha de Goa , 
como nas outras que eitam derredor delia , 
per Capitães que pcra iífo ordenou , alim- 
pando a terra daquellá má cafta , aífi dos 
eítrangciros , como dos Naiteas naturaes da 
terra. Quanto ao povo Gentio lavradores 
delia , e outros que viviam na Cidade , man- 
dou fegurar com pregoes, que pêra iííb lan- 
çaram , notificando-lhes que podiam vir la- 
vrar luas próprias herdades , e povoar luas 
cafas , pagando feu foro , fegundo o ufo da 
terra, porquanto elle não tinha guerra com 
o Gentio natural , fenáo com os Mouros. 
E pêra que as couías tomaflem aflento , e 
a Cidade fe tornaífc a povoar , ordenou que 
Timoja , que depois veio , foíTe Capitão do 
Gentio da terra , e que feus debates , e dif- 
ferenças elle as determinaífe fegundo o ufo 
delles , com limitação de jurdição , porque 
morte , perdimento de fazenda , e outras 
taes couías não cabiam emfua alçada. Mas 
elle Timoja durou pouco nefte officio por 
o Gentio foffrer mui mal fer governado 
per elle , por fer homem de baixo fangue , 
e que de coííario fe levantara áquelle efta- 
do de Capitão : e o principal refpeito por- 
que Affoníò d'Alboquerque o tirou daquel- 
le officio y e ainda quizera caíligar rigoro- 

fa- 



Década II. Liv. V. Cap. X. £47 

famente foi , porque com dous navios de 
remo que tinha no rio de Goa , mandou a 
Chaui tomar duas náos de Mercadores , pe- 
dindo licença a AíFonfo d'Alboquerque que 
os mandava a Onor. Sobre o qual cafo o 
mandou prender té fazer a entrega do rou- 
bo , por fe mandar queixar diíTo o Gover- 
nador de Chaul , como amigo que era nof- 
fo : mas teve hum padrinho que Lhe valeo , 
tomando-o íbbre íí de pagar , e efte foi ou- 
tro Gentio chamado Meíráo , a quem Af- 
fonfo d 5 AIboquerque deo o feu orneio , que 
a gente da terra defejava por Governador 
por fer homem de Real fangue , íbbrinho 
cPElRey de Onor, o qual era herdeiro def* 
te mefmo Reyno Onor : cá fegundo o cot* 
turne daquelle Gentio da índia os fobrinhos 
filhos das irmans são os herdeiros , e não 
os próprios filhos : peró quando veio á hora 
da morte , o tio em feu teítamento o desher- 
dou por alguns deícontentamentos que te- 
ve delle , e herdou a outro irmão mais mo- 
ço do mefmo Melráo. E vendo-fe elle aííl 
desherdado , e fobre iíTo em differenças com 
o irmão , recolheo-fe com alguma gente, 
que feguia feu partido pêra as terras deBa- 
ticalá , por o Governador dalli fer feu pa- 
rente , donde fazia a guerra a feu irmão; e 
por ter niífo favor , per algumas vezes fe 
mandou offerecer a AíFonfo d'AIboquerque , 
Mui ii prin- 



5^8 ÁSIA de JoXo de Barros 

principalmente quando da primeira vez to- 
mou Goa ; mas não houve effeito por ra- 
zão do pouco tempo que os noíTos a tive- 
ram. Peró neíta fegunda vez fabendo AíFon- 
fo d'Alboquerque particularmente as cou- 
fas deíle Melráo , e quão neceífario lhe era 
pêra o bom governo da terra , tanto que or- 
denou de tirar Timoja do officio , mandou 
a Baticala navios , e gales pêra trazerem a 
efte Melráo com toda lua gente. O qual 
ao tempo de fua chegada a Goa , foi rece- 
bido honradamente , e em fua companhia 
vinha Ayçanío hum Capitão principal d'El- 
Rey de Narfinga , que andava fora de lua 
graça , a quem AfFonfo d 5 Alboquerque tam- 
bém agazalhou , dando a cada hum cavai- 
los , e jóias fegundo fuás qualidades. E lo- 
go entregou a Melráo o governo da terra 5 
vindo ante elle todolos Neiquibares , que 
são as cabeceiras delia , os quaes com fo- 
lemnidade de palavras , e adtos ? fegundo feu 
ufo , o receberam por feu Capitão ; porque 
além de elle fer do mais nobre langue da- 
quelle Genfio , per fua peflba era mui ac- 
ceito a todos , por fer homem liberal , Ca- 
valleiro , e ter outras qualidades , que ge- 
ralmente aprazem a todos. A qual entrega 
que lhe AfFonfo d 5 Alboquerque fez deftas 
terras , e tanadarias de Goa , foi per modo 
de arrendamento ; que elle Melráo pêra fua 

pe£ 






Década II. Liv. V. Cap. X. 5*49 

peflòa , e pagamento da gente de guerra, 
que havia de trazer pêra defensão delias , 
haveria hum tanto , e todo o mais havia 
de entregar aos Officiaes d'ElRcy ? por ef- 
tar em coítume naquellas partes que os Ca- 
pitães > e Governadores das terras pelos Prín- 
cipes , cujas ellas são , por razão de as con- 
fervar em paz , fazem-os também rendeiros 
dos direiros reaes ? porque a paz dá rendi- 
mento , e a guerra o tira , e numa coufa 
fe conferva com a moderação da outra. O 
qual negocio também Affonfò d'Alboquer- 
que tinha commettido a Timoja ; mas elle , 
poílo que diligente fervidor era , como ti- 
nha a natureza de coflairo , além das tra- 
veíluras que fazia , todo o rendimento da 
terra coníumia , fem lhe poderem haver da 
mão algum pagamento. EIRey de Onor 
fabendo eílas honras, que AíFonfo d'Albo- 
querque fazia a íèu irmão , e temendo que 
efte favor lhe podia a elíe damnar , man- 
dou a elle Embaixadores , aos quaes AíFon- 
fo d'Alboquerque reípondeo , que EIRey 
de Onor não devia tomar por aggravo as 
honras , e gazalhado 5 que fazia a feu ir- 
mão , ante niiTo tinha a elle feito muito boa 
obra 5 porque o tirava das terras de Bati- 
caíá 5 donde lhe elle fazia guerra , e que 
efte azo de não contenderem ambos per ar- 
mas poderia fer caminho pêra as vonta- 
des 



5^0 ÁSIA de João de Barros 

des fe virem a concertar per algum bom 
modo , de que elle Aííonfo d'Alboquerque 
folgaria fer medianeiro. Peró com eítas pa- 
lavras lhe metíeo outras pêra o afíbmbrar; 
porque como cite Rey era Senhor de Mer- 
geu , que he lugar do Rcyno de Onor per- 
to de Goa , e o Rey paíTado feu tio paga- 
va cerro tributo , que ihe o Vifo-Rey Dom 
Franciíco d 1 Almeida poz , eelle depois que « 
herdara o não tinha pago, e fobre iflb fa- 
vorecia os Mouros de Goa ,- alem dos mé- 
ritos de Melráo , grande parte foi pêra Af- 
fonfo d'Alboquerque o favorecer eíles de- 
méritos de ieu irmão , pêra o poder trazer 
ao jugo da obediência nofla. Fizemos cila 
relação deíle Príncipe Melráo , porque no 
diante , fegundo veremos , aíTi elle , como 
Timoja j per ferviços que fizeram a EIRey 
D. Manuel , merecem ferem aqui lembra- 
dos : e mais por ferem hum fuzil , que en- 
cadeam os feitos da noífa hiííoria , como 
fe adiante moítra. Além deíles Embaixado- 
res d'E!Rey de Onor , que era o mais vi- 
zinho ás terras de Goa , como a nova cor- 
reo que era tornada per nós . logo outros 
mandaram vifirar Aífonfo d'AIboquerque por 
Embaixadores feus , aíTi como EIRey de 
Naríínga , e de Baticalá , e Bengapor a el- 
le fujeitos ; e Melique Az Senhor de Dio , 
eEiRey de Cambaya feu Senhor, e outros 

mui- 



Década II. Liv. V. Cap. 3& 571 

muitos Príncipes da terra Malabar , todos 
em requerimento , e ofFertas , por fegura- 
rem íuas navegações, e negócios particula- 
res. Tanto abalo fez em toda a índia efta 
tomada de Goa , principalmente quando ou- 
viram dizer as vidiorias que , depois da to- 
mada da Cidade , os noííos houveram de 
alguns Capitães do Hidalcao , que vieram 
com força de gente ver fe podiam paliar 
da terra firme á Cidade , ou ao menos quei- 
mar algumas das noffas náos , que eííavam 
no rio : impedindo também que os Neiqui- 
bares das terras firmes não acudifíem com 
o rendimento delias , nem proveííem a Ci- 
dade de mantimento , e das outras coufas 
de que fe ella ferve : rodeando a Ilha logo 
nos primeiros dias per huma maneira de 
cerco , x apparecendo hoje em huma parte , 
e logo em outra ; com o qual modo anda- 
va a noíía gente derramada pertodoios paf- 
fos da Ilha , e mui canfdda , e fobré tudo 
temerofa d'outra paífagem como a primei- 
ra. O Capitão mor do qual exercito era hum 
Melique Agrij , peíTòa que o Hidalcao e£- 
colheo por homem cavalleiro , e que havia 
de dar conta de fi , o qual a primeira cou- 
fa que fez , foi vir fobre as terras de Cou- 
dal , e Banda a viíitar aquella entrada. Af- 
fonfo d'Alboquerque como foube o que èl- 
le vinha commetter , mandou com certas 



ff% ÁSIA de Joaó de Bakros 

galés , e navios de remo a Diogo Fernan- 
des de Beja , que lhe não coníèntiíTe pafíar 
per o rio de Banda ás terras de Antrux , e 
Xaile , na qual ida Diogo Fernandes com 
os outros Capitães , que com elle foram , 
ganharam muita honra , desbaratando duas 
vezes a gente deite Capitão. E porque elle 
Melique Agrij cuidou que com a gente de 
cavallo podia reííftir mais aos noíTos , deo 
fobre Diogo Fernandes em o rio de Ban- 
da , o qual fahio em terra a elles , e aíTi fe 
houve bem com os Turcos que vinham a 
cavallo 3 que mcttidos em fugida , fe lançaram 
per huma barroca abaixo , onde morreram 
muitos. No qual feito eram com Diogo Fer- 
nandes , Aires Pereira , x\ntonio d' Abreu , 
Gafpar Cam , António de Matos , e outros 
Fidalgos, e Cavalleiros, que de fua peííoa 
o fizeram mui honradamente. Tornado Dio- 
go Fernandes com eíla viftoria a Goa , dahi 
a poucos dias reformado Melique Agrij def- 
te damno , paflfou-fe da outra parte do rio 
de Banda contra a Ilha Divarij , onde cita- 
va Gafpar de Paiva com gente em guarda 
da Ilha , por os Gentios , que pagavam a 
Goa , não lerem roubados dos Mouros. Gaf- 
par de Paiva, chegado Melique com gente 
de cavallo , e de pé cm duas batalhas cer- 
radas , deo nelles aífi oufadamente lança te- 
ia em punho , que logo no primeiro rom- 
pi- 



Década II. Liv. V- Cap. X- 573 

pimento que nelles fez , lhe mataram mui- 
tos cavallos , e fobre elles os Senhores ; ou- 
tros andavam pelo campo a huma , e outra 
parte com os Turcos mortos na fella; por- 
que como feu coílume he andarem bem ar- 
reatados nella com muitas voltas de touca , 
por não cahir , andavam fem governo de 
rédea. Era neíte feito Vafco Fernandes Cou- 
tinho filho de Jorge de Mello , que mata- 
ram os Mouros em Mazagão , o qual fen- 
do bem moço efpcrou hum Turco a cavai- 
lo que vinha fobre elle , e defviando o cor- 
po , levou o cavallo pela rédea , e per bai- 
xo das cubertas metteo a efpada nelle , com 
que o Senhor , e elle vieram a terra , e am- 
bos alli ficaram mortos. Eram também nef- 
te feito comGafpar de Paiva, Martim Gue- 
des , Affonfo Peífoa , que naquelle dia , en- 
tre outros muitos que ganharam honra , el- 
les fe cftremáram nella : no qual commeíti- 
mento os Mouros receberam muito damno , 
e os nòíTos com efta viíloria fe tornaram 
recolher á Ilha Divarij , onde tinham fua 
eílancia. MeliqueAgrij vendo quão mal lhe 
fuccediam feus commettimentos , paífou-fe 
daquelle lugar a outro chamado Diochili 
defronte de Goa , onde fe fez forte com 
huma cerca de madeira ; a qual mudança , 
e força fabendo Affonfo d' Alboquerque , pa- 
receo-lhe que com dous mil homens Por- 
ta- 



5^4 ÁSIA de João de Barros 

tuguezes , e do Gentio da terra o podia le- 
var na mão. E indo pêra o commetter per 
modo de cilada , como Melique era homem 
fabedor na guerra j fentindo o ardil , poílo 
que lhe lançaram diante huma batalha do 
Gentio da terra , nao fomente Jhe não quiz 
fahir , mas ainda defamparou o lugar, ar- 
redando-fe da borda da agua. AíFonfo d'AI- 
boquerqiíe defefperado de o poder acolher, 
naquelle próprio dia fe paflbu a Ilha Diva- 
rij , leixando naquelle pafíb a Manuel de 
la Cerda , e a Rodrigo Rabcllo , e elle tor- 
nou-íc a Goa a prover nas obras da forta- 
leza que mandava fazer. Andando aífi nel- 
tes trabalhos , lbbreveio outro , que elle mui- 
to fentio , por ler com Diogo Mendes de 
Vafconceílos , que naquella entrada da Ci- 
dade tinha ganhado muita honra , e feito af- 
ias de lerviço a EIRey com fua peífoa , e 
gente da fua capitania. Porque tendo-íhe el- 
le tomada a menagem , que não partifle pê- 
ra Malaca fem fua licença , (como atrás fi- 
ca , ) elle , e os Capitães de fua bandeira 
afíentáram de fe partir, obrigando aos Mef- 
tres , e Pilotos que o fizeílem , poílo que lhe 
nao foífe dado licença , porque elles tinham 
cumprido em vir a tomada daquella Cida- 
de , onde íervíram EiRey; e detellos mais 
Affonfo d'Alboquerque era impedir não 
irem onde EiRey os mandava', e mais fen- 
do 



Década II. Liv. V. Cap. X. 575* 

do aquellas náos de armadores , que hiam 
bufcar carga, e não eram obrigados andar 
gaitando o tempo naquella guerra de Goa» 
Finalmente poílos em ordem de partida o 
mais fecretamente que puderam , huma noi*- 
te fahíram pela barra de Goa fora, do que 
logo AíFo nfo d'Alboquerque foi avifado ; e 
alguns querem dizer que per Pêro Quares- 
ma , que era hum dos Capitães da compa- 
nhia , que não íahio com os outros , que 
eram Diogo Mendes , Diniz Cerniche , e o 
navio de Balthazar da Silva por elle eílar 
doente em Cananor. Na efteira dos quaes 
AíFonfo d'Alboquerque logo mandou hum 
batel , e nelle Baftião Rodrigues , que ora 
ferve de Juiz da Balança da Moeda , com 
huma carta a Diogo Mendes, e aíTi recado 
a. duas galés; Capitães Duarte da Silva, e 
Jemes Teixeira , as quaes andavam na bar- 
ra , que lhe requereííem que fe tornaíTem 
fobpena do cafo maior. Chegado Baftião 
Rodrigues a Diogo Mendes , fez-lhe crer 
que Affonfo d'Alboquerque eftava em huma 
das galés, O qual artificio peró que huma 
delias que lheíeguio o alcanço , (polacom- 
mifsão que levava de AíFonfo d^Alboquer- 
que , ) fez alguns tiros , com que matou 
dous homens a Diogo Mendes , e lhe de£ 
apparelhou a verga , parecendo-lhe a elle 
fer verdade que AíFonfo dAiboquerque e& 

ta- 



ç$6 ÁSIA de JoXo de Barros 

tava na gale , e era grande crime defender- 
fe ante lua peffoa , entregou-fe a Manuel 
de la Cerda, Rodrigo Rabello, e a Simão 
cPAndrade , que também per terra a cavai- 
lo foram té a barra , por o tempo da ma- 
ré fer contrario a irem per mar , e lá to- 
maram bateis pêra iflò. Finalmente Diogo 
Mendes , Diniz Cerniche, e Pêro Quarei- 
ma foram prezos , e condemnados com os 
autos de fuás culpas pêra virem dar razão 
de fi a eíle Reyno a EIRey , e enforcados 
hum Medre , e hum Piloto nas vergas das 
náos , por ferem os mais culpados ; e a ou- 
tros dous , que eram menos , deo a vida 
por intercefsao de huns Embaixadores d'EI- 
Rey de Naríinga 5 que eram prefentes , a 
que AíTbnfo d'Alboquerque quiz compra- 
zer. Alguns quizeram condemnar eíle feito , 
que Afronlb dWlboquerque fez, depois que 
ellc commetteo fua ida peia Malaca , di- 
zendo , que a tenção de elle reter Diogo 
Mendes , depois da tomada de Goa , mais 
era por elle meffno AíFonfo d'Alboquerque 
querer ir em peiToa a eíle negocio de Ma- 
laca 5 que por ter muita neceflklade da gen- 
te , e navios , que Diogo Mendes levava 
romíigo. Mas parece que elle negocio , ain- 
da que a tenção de Aífonfo d'Aiboquerque 
foffe eíta , procedeo de permifsao Divina • 
porque fe na ida que elle fez a Malaca , 

le- 



Dec.IL Liv. V. Cap. X. e XI. 577 

levando tantas náos , e gente , (como adian- 
te veremos , ) teve aíTás de trabalho em con- 
quiftar aquella Cidade 5 que pudera fazer 
Diogo Mendes , fenão o que fez Diogo 
Lopes ? querendo poer o feito em armas 
como era cavalleiro de ília peííoa , perdêra- 
fe de todo. Por tanto ainda que as tenções 
dos homens que governam , acerca dos go- 
vernados lèjam condemnados , e ás vezes 
com razão , não fe deve reprovar a obra ; 
porque como são miniftros do bem com- 
mum , Deos endereça o effeito delia ao 
que lhe apraz , pofto que elles a ordenem 
a feus propofitos. 

CAPITULO XI. 

Das obras , e provimentos que Affonfo d?Al- 

boquerque fez, , e ordenou em Goa : e do 

caminho que commetteo pêra ir ao 

mar Roxo , e depois pêra 

Malaca. 

ENtre outras coufas que Aífonfo d'Al- 
boquerque ordenou pêra defensão da- 
quella Cidade Goa ? a principal foi huma 
fortaleza , á qual poz nome Manuel per me- 
moria d'ElRey D. Manuel , em cujo tem- 
po fora tomada. E porque o nome dclle 
Affonfo d'Alboquerque , e de todolos Ca- 
pitães \ e alguns Fidalgos principaes não fi- 
cai- 



$$2 ÁSIA de JoÃo de Barros 

caíTeni cfquecidos em tão illuítre feiro , man- 
dava poer huma pedra em hum lugar no- 
tável de huma torre , em que dizia quan- 
do , e per quem aquella Cidade fora toma- 
da aos Mouros. Sobre o qual negocio Af- 
fonfo dVYlboquerque íe vio tão atormenta- 
do dos meíinos homens , huns porque nao 
eram dos primeiros daquella nomeação , ou- 
tros por não lerem nomeados, que mandou 
fazer outro letreiro nameíma pedra em ou- 
tra face > no qual dizia aquellas palavras da 
eferitura : Lapidem quem reprobaverunt 
edificantes , falíus efl in caput aiíguli ; e a 
outra face da competência ficou meteida na 
parede 3 e aíli ficaram todos contentes 5 por- 
que ao Portuguez mais lhe doe o louvor 
do vizinho , que o eíquecimento do feu. E 
daqui vem que os feus feitos , fendo dignos 
de muito louvor acerca das gentes , por ef- 
ta razão de competência ficam fcpultados 
110 efquecimento , da qual verdade temos 
experiência no trabalho que nos deo tirar 
do peito delles as coufas do difeurfo defta 
hiftoria , e Deos he teítemunha fer eííe o 
maior que nelia levamos. Além defta me- 
moria digna de quem a mandava fazer , fez 
Aíronfo d'Alboquerque naquella Cidade ou- 
tras de nao menos louvor , que foi mandar 
lavrar moeda de ouro , prata , e cobre ; á 
primeira chamou Manues j á fegunda Ef pe- 
ras. 



Década II. Liv. V. Cap. XI. 579 

ras , e meias Efpéras , á terceira de cobre 
Leaes : pêra lavramento da qual ordenou 
caía , e logo Gentios da terra Ofíiciaes def- 
te miírer a tomaram por arrendamento de 
dous mil pardáos por anno , que valem ao 
refpeito da noffa moeda feiscentos mil reacs. 
Fez mais outra obra em louvor de Deos ; 
e de grande prudência , vendo que o Gen- 
tio da terra tomava de boa vontade o nof- 
fo modo de a governar 5 e o tratamento 
que lhes fazíamos , e que as mulheres Ca- 
narijs da terra acceitavam a noffa gente de 
boa vontade , fem aqaelles efcrupulos de 
religião que tinham as do Malabar do gé- 
nero das Naires , que he a mais nobre en- 
tre aquelíe Gentio , as quaes não podem ca- 
far fenão com os naturaes Brâmanes ; e 
fendo ellas commuas a elíes , não admittem 
outro homem fora defte género fobpena de 
ficar infame, como atrás efcrevemos. Con- 
firidas as quaes coufas , e também vendo o 
íitio daquella Cidade , e que a comarca das 
terras que tinha derrador > promettia de íi 
grandes efperanças pêra fegurar o eílado da 
índia , fe foífe povoada , e podia ficar por 
metropoli das mais que ao diante conquif- 
taífemos, eeíta povoação não podia feriem 
conforcio de mulheres , poz em ordem de 
cafar alguma gente Portuguez com eftas mu- 
lheres da terra , fazendo Chriftans as que 

eram 



ç6o ÁSIA de JoXo de Barros 

eram livres , c outras cativas ? que os ho- 
mens tomaram naquella entrada 5 c tinham 
pêra feu ferviço ; íe algum homem fe con- 
tentava delia pêra caiar , comprava a feu 
fenhor , e per caíamento a entregava a efte 
como a feu marido , dando-lhe á eufta d 5 El- 
Rey dezoito mil reaes pêra ajuda de tomar 
fua caía , e com iíío palmares , e herdades 
daquellas , que na Ilha ficaram devolutas 
com a fugida dos Mouros- O Gentio da 
terra logo no princípio , quando Affonfo 
d'Alboquerque lhe tomava fuás filhas , fe 
algum homem fe contentava delia pêra a 
ter por mulher , recebiam nifto efcandalo , 
e haviam que lhe era feito força ; porém 
depois que viram as filhas honradas com 
fazenda na terra , o que ante não tinham , 
e que elles por razão delias eram bem tra- 
tados , e pervaleciam fobre o outro Gentio , 
houveram que quem tinha mais filhas de que 
fe alguém contentaííe , tinha a vida mais 
fegura. Finalmente com os mimos , e favo- 
res , que Affonfo d'Alboquerque fazia a ef- 
tes defpofados , foi em tanto crefeimento 
acerca da gente baixa efte alvoroço de ca- 
far , que acertando Affonfo d'Alboquerque 
huma noite de cafar huns poucos em fua 
cafa , quando fe efoedíram daquelle adio do 
defpolbrio , levando cada hum fua efpofa , 
parece que com a multidão da gente , por 

não 



Década II. Lrv. V. Cap. XI. 561 

não haver muitas toclias que os acompa- 
nhaííem , perderam as mulheres; e no buí- 
car delias , como a luz não era muito cla- 
ra , trocaram as efpofas. Peró quando veio 
ao fegainte dia , cahindo no engano da tro- 
ca , desfizeram eíte enleio , tomando cada 
hum a que recebeo por mulher , ficando o 
negocio da honra tal por tal. E como nef- 
te princípio a gente baixa não fazia muitos 
efcrupulos no modo do cafar , ora foíTe ef* 
crava de algum Fidalgo , de que elle tive- 
ra já uíò , ora novamente tomada da ma- 
nada do Gentio , e feita Chriítã , a recebia 
por mulher , e contenta va-fe com o dote 
que lheAífonfo d 5 Alboquerque dava, e mi- 
mos que lhes fazia , chamando a eftes taes 
efpofos genros , e ás mulheres filhas : eram 
todas eítas coufas matéria de zombaria en- 
tre alguns Fidalgos. Principalmente quando 
ouviam dizer a AíFonfo d'Alboquerque , que 
elle efperava em Deos de arrincar as cepas 
da má cafta que havia naquella Cidade , que 
eram os Mouros , e plantar cepas cathoíi- 
cas , que frudtificaíTem em louvor de Deos, 
dando povo que por feu nome com prega- 
ção, e armas conquiílaíTem todo aquelle Ori- 
ente. Ao que diziam eííes mofadores entre 
íi , que aquelle feu bacello era de vidonho 
labrufco em fer miftiço , principalmente por 
ler da mais baixa planta do Reyno } que 
Xom.IL P.L Nn fe- 



ÇÔ2 ÁSIA DE JôAO DE BARROS 

feria para elle parreiras d'ante a ponta , que 
o primeiro alho de trabalho que vieíTe áquel- 
la Cidade , lhas havia de roer ; porque de 
gente tão vil , como era aquella , que accei- 
tava cafar per aquelle modo , não íc podia 
efperar fruto , que tiveífe honra , nem as 
qualidades pêra aquellas grandes efperanças 
deAíFonfo d'Alboquerque. Contra as quacs 
razoes deites homens de pouca confideraçao , 
a regra do Mundo eftava cm contrario \ pois 
vemos que todo foi povoado de mais bai- 
xos princípios , e de gente , a que podemos 
chamar enxurto de homens. Cá fe elles olha- 
ram aos princípios de Roma noífa cabeça > 
monarca do império Romano , o mais no- 
bre de toda a terra 5 acharam que foi hum 
conforcio de gente paftoril , ou (por melhor 
dizer ) huma acolheita de malfeitores ; e que 
as moças Sabinas , que elles tiveram pêra 
ter por mulheres , fe eram mais alvas por 
razão do clima , não feriam de mais nobre 
fangue , que as Canarijs , nem tinham mais 
conhecimento de Deos , nem feus maridos 
lhes haviam de enfinar alguma catholica dou- 
trina y nem em os feus cfpoforios concorre- 
ram duas tenções em hum vinculo de con- 
fentimento , como quer o adio matrimonial : 
fomente hum impeto de força , cujo fim foi 
hum commum eftupro , ao tempo que o 
bailador movia os pés ao fom da frauta paf- 

to- 



Decaída II. Liv. V. Cap. XI. 563 

toril , fegundo moteja o feu poeta Juvenal, 
E por não andar per todo o Mundo buf- 
cando todalas grandes povoações delle prin- 
cipiadas de mui baixos fundadores , venha- 
mos aos exemplos de cafa, e perguntemos 
á Ilha da Madeira ,. Terceiras , Cabo-ver- 
de , S. Thomé , quem foram feus primei- 
ros povoadores ; e refponder-vos-hão que 
o não querem dizer por honra de feus ne- 
tos que hoje vivem , e podem já per no- 
breza contender com hum gentil-homem Ro- 
mano. Finalmente como Affonfo d ? Albo- 
querque neílas coufas tinha difcurfo de mui- 
ta prudência , peró que foubeíTe quantos 
damnadores havia deita íua obra, não lei- 
xava de ir com ella avante ; e por mais 
confundir eíles contrários delia , entre eíles 
cafados efcolheo os de melhor qualidade, 
e mais aptos, per os quaes repartio os of- 
ficios do governo da Cidade: aííi como Ve- 
readores , Almotaceis , Juizes , Alcaides , 
&c. Mas o demónio urdia tantas coufas 
por inveja deita fandla obra , que teve Af- 
fonfo d'Alboquerque grande trabalho em a 
fuílentar contra parecer, e vontade de mui- 
tos. Porque como a gente nobre fazia mais 
conta de fe tornar a efte Reyno de Portu- 
gal , que dos cafamentos delle , e todos fa- 
biam como elle efcrevia a EIRcy D. Ma- 
nuel grandezas das coufas de Goa ? e quan- 
Nn ii to 






564 ÁSIA DE JOÃO DE BARfcOS 

to fundamento devia de fazer delia pêra fe- 
gurar o eftado da índia , dando pêra iffo 
muitas razões , eram todas desfeitas ante 
elíe per algumas cartas , que Capitães ; e 
Officiaes , que não tinham boa vontade a 
Affonio d'Alboquerque , lhe efcreviam, re- 
preíentando cada hum as fuás, e quão im- 
poílivel era fuíientar-fe aquella Cidade , por 
terem por adverlario o maior Príncipe Mou- 
ro que havia naquellas partes. O qual a 
pouco cuílo , fomente vindo a comer o ren- 
dimento das terras firmes de Goa , a teria 
continuamente cercada de maneira , que 
cumpria eílar fempre atulhada de gente , e 
nao terem luas Armadas outro officio , fe- 
nao eílar em defensão , que o Hidalcão , ou 
feus Capitães não paílaíTem á Ilha. Final- 
mente chegou o demónio a tanto , vendo 
a diligencia que Affonlb d\Alboquerque fa- 
zia , por fuftentar a poíTe delia Cidade 7 e 
povoalla de gente cafada , e que fizeííem 
conta de viver nella , e não de fe vir pê- 
ra eíte Reyno , que por o tirar dalli ,. íe 
poz fogo induftriofamente ás nãos , que ef- 
tavam em eftaleiro , por ellas ferem caufa 
de AíFonfo d'Alboquerque entender naquel- 
la Cidade , temendo que ellas acabadas , 
indo elle a Ormuz , ou ao eftreito do mar 
Roxo , fahiíFe dalli huma Armada de Ru- 
mes y como eítava ordenado , e tomaíTem po£ 

fe 



Década II. Liv- V. Cap. XI. 565 

íe das fortalezas deCochij, eCananor neí- 
te tempo. Peró ora que eííe fogo foíTe poí- 
to per induftria de algum dos noífcs , fe- 
gundo a mais certa fui peita , ora per algum 
Mouro , ou Gentio da terra , elle foi apa- 
gado , como outro , que já d'ante também 
fora pofto nas cafas do arrabalde , que eram 
cubertas de olla , matéria em que elle to- 
mou boa poíTe ; mas aíli efte 5 como o das 
náos 5 efpertou mais a Affonfo d'Alboquer- 
que a mandar ter grande vigia. E fegundo 
o trabalho que levou na povoação , e con- 
fervaçao deíla Cidade logo neíles primei- 
ros princípios , com verdade íè pode dizer 
que muito mais embates teve por ifíb , do 
que foram os combates pola conquiftar da 
mão dos Mouros ; e mais íe lhe deve pela 
primeira obra 9 que por efta íegimda , por- 
que povoalla , e defendelía das contradições 
dos nofTos , foi obra própria fua ; e com* 
quiftalla , foi de todos. E tendo com afias 
de feu trabalho aíTentado as coufas , que 
convinham pêra o governo, e defensão del- 
ia ; determinou de ir fazer outra obra , que 
lhe EIRey efcrevia mui eftreitamente que 
íizeíle ; que era trabalhar por haver á fia 
mão a Cidade Adem , que efta fora das 
portas do eílreito do mar Roxo , e nella 
fízeflc huraa fortaleza pêra defender a paí- 
íagem das náos dos Mouros , que fahiam f 

e en- 



$66 ÁSIA de JoXo de Baruos 

c entravam per cilas ; e quando iíto não 
pudeífe fer per algum bom concerto do Xe* 
que fenhor delia , fofle á força de armas. 
Porém entrando elle o Eítreito , c parecen- 
do-lhe melhor aíTento pêra fegurança da 
fortaleza , e defensão deita entrada , e fahi- 
da das náos dos Mouros , a Ilha que eíta- 
va na boca do mefmo Eílreito , ou a Ilha 
Gamaram , que era já mettida nelle , em tal 
cafo elle leixava a eleição do lugar a elle, 
pois havia de ver per íi 5 e não per infor- 
mação d'outrem. A qual obra deita forta- 
leza 5 poíto que ao diante fervia pêra im- 
pedir a geral navegação dos Mouros da- 
quelle Eílreito 5 particularmente convinha 
então fer feita pêra refiítir a huma grande 
Armada , que o Soldao do Cairo novamen- 
te mandava fazer no porto de Soez , que 
he no ultimo feio do eítreito do mar Ro- 
xo , fegundo a nova que EIRey D. Ma- 
nuel tinha per via de Levante. Aíli que 
por a grão neceíTidade que havia de acu- 
dir a eíte negocio tão importante , o mais 
em breve que pode ordenou as coufas de 
Goa , pêra fe poder partir , leixando nella 
quatrocentos homens de armas , em que 
entravam oitenta decavallo, os quaes eram 
d'ElRey dos que alli fe tomaram , e repar- 
tidos per algumas peíToas coitumadas a pe- 
lejar a cavalfo. E ao Gentio Melráo leixou 

cin- 



Década II. Liv. V. Cap. XI. 567 

cinco milpeaes da terra pêra andar pelas ta- 
nadarias da terra firme arrecadando o ren- 
dimento delias, as quaes (como atrás di£- 
femos) elle as tinha tomadas por arrenda- 
mento , aífi as da própria Ilha , como das 
terras firmes , em cinccenta e dous mil par- 
dáos em cada hum anuo , repartidas per e£ 
ta maneira : doze que pagava a própria Ilha 
de Goa , e os quarenta as outras Ilhas , e 
as terras firmes , que eram vindas a noffa obe- 
diência. E na Cidade leixou por Capitão a 
Rodrigo Rabello de Caftello-b ranço , o 
qual elle tirou de Capitão de Cananor on- 
de eílava , por efta Cidade fer coufa de 
mais importância , e elle homem pêra o 
tal cargo per fua peffoa , e cavalleria , pei- 
to que hi houveíTe outras de mais nobre- 
za de fangue ; e por Alcaide mor Francis- 
co Pantoja filho de Pêro Pantoja , e Feitor 
Francifco Corvincl por fer homem que 
entendia em os negócios do commercio , 
e Efcrivaes do feu cargo João Teixeira fi- 
lho de João Paçanha de Alanquer , e Vi- 
cente da Cofia filho do meílre Affoníb Fy- 
íico mor. Leixou mais por Capitão do mar 
da Cidade a Duarte de Mello de Serpa 
com alguns navios de remo , que andaffe 
em torno da Ilha , o qual havia de obe- 
decer a Manuel de la Cerda , que era em 
Cochij , e ficava por Capitão mor do mar 

de 



5^68 ÁSIA de João de Bakros 

de toda a coda da índia com certas velas» 
E tambepi lhe havia de obedecer Diogo 
Fernandes de Beja , quando viefle ; que cl- 
le AfFonfo d'Alboquerque tinha enviado a 
desfazer a fortaleza de Çocotorá , como 
EIRey mandava , vendo lervir pouco pêra 
o fim que fe ordenou , de que era Capitão 
Pêro Ferreira , que a efte tempo era já fa- 
lecido fem o elle íaber. E levava Diogo 
Fernandes mais em regimento, que com ou- 
tros dous navios de fua capitania , de que 
eram Capitães António de Mattos , e Ga£ 
par Cão , desfeita a fortaleza , e recolhi- 
da a gente delia neíles navios , e na fua 
náo , andafle naquella coita da Arábia fron- 
teira a Çocotorá eiperando por elle AfFon- 
fo d'Alboquerque , por quanto fazia funda- 
mento de ir ao EíTrcito fazer o que aílima 
diíícmos. E quanao não foífe ter com elle 
per todo Maio , que era o tempo que po- 
dia efperar naquella coita , em tal cafo fe 
foífe aMafcáte, enão o achando alli y que 
folie invernar a Ormuz , e pediífe as parcas 
a EIRey , e dahi fe vieífe á índia per to- 
do Agoílo. Dada ordem a todas eítas cou- 
fas , fez Affonfo d'Alboquerque preíles fua 
Armada 5 moílrando que queria fazer eftes 
caminhos , a que mandava diante Diogo 
Fernandes : peró depois pelo que fuecedeo , 
fe vio que fua tenção era fazer outro , e 

não 



Década II. Liv. V. Cap. XI. 569 

não efte. Porque indo com toda fua Arma- 
da via do eftreito de Meca , como era já 
no fim da monção, tempo em que fe não 
podia navegar pêra aquelia parte , tornou 
arribar a Goa ante que paiTaífe os Baixos 
de Pádua. Surto na barra de Goa , em con- 
felho propoz aos Capitães como fua tenção 
era fazer aquelle caminho ao Eftreito , fe- 
gundo lhe já tinha dito ; e que (como elles 
fabiam ) a caufa de partir tão tarde , fora 
por leixar as couías de Goa poftas em or- 
dem pêra ficar fegura dos fobrefaltos dos 
Capitães do Hidalcão. E vifto o grande 
apparato que tinha feito pêra aquelia via- 
.gem do Eftreito , que os tempos lhe não 
leixavam fazer y e a monção delles fer a 
popa pêra Malaca , a elíe lhe parecia mui- 
to mais ferviço d'ElRey feguir efte cami- 
nho , que poer-fe no rio de Goa a comer 
os mantimentos que tinham , e onde per 
ventura podiam padecer outra tal neceííida- 
de de fome , como já nclle paíTáram 5 poi- 
os mantimentos ferem poucos , e a gente 
muita 5 fem terem modo de os naquelles 
mezes do inverno poderem ir bufcar. O qual 
caminho de Malaca não era tanto de fua 
vontade , quanto de EIRey o mandar , co- 
mo coufa que elle muito defejava , e de 
que elles tinham experiência na ida de Dio- 
go Lopes de Sequeira 3 e naquellas náos , 

em 



570 ÁSIA t)E JoXo de Bàkros 

em que Diogo Mendes de Vaíconcellos fora. 
Propoílas eftas , e outras palavras per Af- 
fonlb d ? Alboquerque , todas ordenadas a 
fim de fazer elta viagem , poíto que entre 
elle, e os Capitães houve diverfos parece- 
res , todavia vieram a concluir no que lhe 
a elle parecia , vendo defejar elle eíla em- 
preza de Malaca ; e muitos aiTentáram que 
eíla fora a caufa de entreter a Diogo Men- 
des. Approvada a qual ida , partio-fe logo 
via de Cananor , onde eftava por Capitão 
Diogo Corrêa filho de Fr. Payo Corrêa 
em lugar de Manuel da Cunha filho de 
Triftão da Cunha , o qual elle tirou dalli 
por algumas coufas , e ficava cm Goa do- 
ente , onde depois acabou , como veremos. 
O qual Diogo Corrêa fora cativo com os 
outros , que hiam em companhia de Dom 
AfFonib de Noronha , como atrás vimos , 
e era alli vindo , e com elle Francifco Pe- 
reira de Berredo , ambos por parte delles 
per licença d 5 E]Rey de Cambava , a reque- 
rer a AíFonfo d'Alboquerque que es man- 
dafle tirar , do que adiante faremos maior 
relação. Provida a fortaleza de Cananor, 
partio-fe via de Cochij , no qual caminho 
vieram ter com elle Jorge Botelho de Pom- 
bal , e Simão AfFonib , que andavam por 
Capitães de duas caravellas na paragem de 
Calecut em guarda daqueiia coita , os quaes 

ti- 



Década II. Liv. V. Gap. XI. 571 

tinham pouco havia desbaratado huma náo 
groífa , e rica , que vinha de Meca : però 
não lhe puderam mais fazer , que dar com 
ella á cofta , onde os Mouros fe acolhe- 
ram por falvar as peííbas , na qual peleja 
delles morreram muitos 3 e dos noffos fete , 
quatro na caravella de Jorge Botelho , e 
ires na de Simão AíFonfo. Chegado AíFon- 
fo d 5 Alboquerque com toda fua frota , e 
eftas caravellas ? que também levou a Co- 
chij já no fim de Abril , veio EIRey logo 
ao ver , o qual fabendo delle o caminho que 
levava , com muitas razões o contrariou ^ re- 
prefentando-lhe grandes inconvenientes mui 
importantes ao eftado da índia ? e fortale- 
zas que nella leixava feito. Os quaes ar- 
gumentos AíFonfo d'Alboquerque lhe def- 
fez , fentindo nas razoes que lhe dava fe- 
rem forjadas per os Mouros mercadores 
de Cochij , que tratavam em Malaca , te- 
mendo que fe tomaííe aquella Cidade , ou 
aflentaíTe nella trato , per qualquer via que 
foíle , perdiam muito. Finalmente em dous , 
ou três dias , que fe AíFonfo d'Alboquerque 
aili deteve provendo algumas coufas da for- 
taleza , e outras pêra fua viagem , e íeixan- 
do Manuel de la Cerda com quatro velas 
pêra guarda da coda , como diífemos , elíe 
em huma náo , e Pêro d'Afoníeca , Antó- 
nio de Sá j e Simão AíFonfo , cada hum em 

fua 



572 ÁSIA de João de Bakros 

fua caravella , partio-fe via de Malaca a 
dous de Maio com dezenove velas ; das 
quaes eram Capitães D. João de Lima , 
António d' Abreu , Baítião de Miranda 5 Ai- 
res Pereira , Fernão Peres d' Andrade , Si- 
mão d' Andrade íèu irmão , Jorge Nunes de 
Leão , Gafpar de Paiva , Gomes Teixeira , 
Nuno Vaz de Caftello-branco , Duarte da 
Silva y Perod'Alpoem Secretario , Jorge Bo- 
telho , Diniz Fernandes de Mello , Simão 
Martins Caldeira , AíFonfo PcíToa , e Fran- 
cifeo Serrão. Na qual frota levava té mil 
e quatrocentos homens de armas , oitocen- 
tos Portuguczes , e os outros Malabares de 
efpada , c adarga , fegundo feu ufo de pe- 
lejar. E porque nCÍla viagem , que AíFonfo 
d'Alboquerque fez , fahio da coíla da ín- 
dia , e navegou mares novos , tomando por- 
tos de Reynos , e terras té aquelle tempo 
per nos não fabidas , fomente daquella bre- 
ve ida , que Diogo Lopes de Sequeira fez 
contra aquellas partes Orientaes , e final- 
mente tomou porte daquella riquillima Ma- 
laca íítuada na Áurea Cherfonczo , terra tão 
celebrada dos antigos Geógrafos : entrare- 
mos nefta conquiíla delia com princípio do 
fexto Livro , novo em ordem , e o fegundo 
depois que AíFonfo d'Alboquerque começou 
fervir o officio de Capitão geral daquellas 
partes. 

Fim do Livro V. da Década II. 



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411 Da Ásia de João de Barros e 
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